Virtudes, Visão de Mundo e Ásatrú

Escrito por Andreia Marques.
Publicado originalmente em Heathen Brasil.

Quem começa a estudar Ásatrú, logo de cara encontra um conceito bastante falado: as Nove Nobres Virtudes (NNV), espalhadas como “preceitos” que todo ásatruár deve seguir, elevadas como virtudes presentes e valorizados pelos nórdicos (ou escandinavos) antigos e que orientavam sua forma de vida. São elas: coragem, verdade, honra, fidelidade, disciplina, hospitalidade, auto-suficiência, industriosidade e perseverança.

Bem, eu não vou questionar a qualidade ou a validade de tais virtudes. Obviamente que são todas coisas importantes para qualquer ser humano decente. Não é absurdo dizer que uma pessoa boa (de qualquer religião) deveria ter essas qualidades.

Mas há algo de… simplista, em pautar uma visão de mundo em apenas nove substantivos — que, novamente, são características desejáveis em qualquer ser humano. Não há nada de particularmente heathen (ou até ásatruár) nestas virtudes; eu diria que são (ou deveriam ser) universalmente praticadas, em maior ou menor grau.

É claro, embora úteis e de certa forma realmente presentes entre os povos antigos, estas virtudes estão longe de ser,

  1. alguma lista antiga de “mandamentos” que devem ser seguidos,
  2. particularmente heathens.

Então, por que existe esse foco tão grande entre aqueles que se dizem ásatruár?

Existem diversos motivos para isso, e não vou pretender entender todos eles. As Nove Nobres Virtudes foram criadas pela organização inglesa Odinic Rite (ironicamente, uma organização acusada de ligações com movimentos neo-völkish, de cunho racialista e separatista), presume-se para seus próprios membros. Posteriormente, a Ásatrú Folk Assembly adotou uma lista derivada similar. A partir destas organizações, outras começaram a adotá-las e o termo espalhou-se no meio Ásatrú, popularizando-se de tal forma que passou a ser — basicamente — considerado como um padrão.

E de certa forma isso é bom, pois são bons valores a se promover. Mas de outra forma, também podem ser “negativas”, não as virtudes em si mesmas, mas a maneira como, muitas vezes, elas fazem um papel substituto à própria visão de mundo que acompanha as religiões germânicas antigas.

Há sites e pessoas por aí dizendo que “basta seguir as virtudes e acreditar nos deuses” e você já é “ásatrúar”. E longe de mim dizer quem é ou não é qualquer coisa, mas, a meu ver, há muito mais que simplesmente nove virtudes na cultura antiga — há toda uma riqueza, uma visão de mundo, que eu, pelo menos, considero como fundamental para se ter um entendimento completo da religião e cultura que professo admirar.

Não é uma questão de emular o passado em sua totalidade, até porque isso é impossível. Mas a maneira como aquelas pessoas enxergavam o mundo, os deuses e suas práticas, isso sim tem seu valor — conceitos como fridr, o ciclo de reciprocidade, até mesmo a própria honra, que não necessariamente é interpretada da mesma maneira (a honra antiga tem a ver com fama, com sua reputação intra-tribo, e não com algum código interno).

Tais conceitos, embora muitas vezes apresentem tais virtudes, não necessariamente se limitam ou se definem por elas, e é isso que faz de um heathen, heathen — sua perspectiva de vida, muito além de nove palavras vagas.


imagem: Holzminden, Alemanha. Foto por Nicolai Duerbaum, via Unsplash

Pra que religião?

Este site, assim como outros sites, versa muito sobre religião — desde a reconstrução de uma crença antiga, a uma crença moderna da qual tentamos nos desvencilhar. Existem aqueles que dizem que paganismo não é religião, mas um estilo de vida; existem aqueles que relegam o budismo ao campo da filosofia; existem aqueles que acham que, sem religião, não vivemos.

Recentemente eu fiz justamente a pergunta do título em grupos sobre paganismo germânico/heathenismo. As respostas foram muitas, das mais diversas. Pra que serve a religião? Alguns dizem que é sobre controle. Outros dizem que é sobre comunhão. Para organizar tribos, para controlar pessoas, para passar um compasso moral, para dar sentido à vida e uma noção de propósito, para explicar o mundo…

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Wyrd & Orlög – O Destino na Concepção Nórdica

Texto por Ravn.
Publicado originalmente em Platinorum.

Prostradas na Fonte de Urðr, onde se fincam as raízes da Yggdrasill, estão as três Nornir (singular: Norn) – deusas fiandeiras, regulando e servindo forças tão grandes e absolutas que os próprios deuses estão submetidos à elas. Para os Nórdicos, o Destino era visto de uma forma um tanto diferente da visão que o ocidente está acostumado hoje; ao compreendê-lo, percebemos a forma que os pagãos se relacionam com seus próprios atos e lidam com conseqüências. Continuar a ler

Uma viagem ao Hel

14947392_1332375726813749_6901739188376850072_nPor Lēoht Steren, Þyle do Hvergelmir International

Postado originalmente, em inglês, na página do Hvergelmir no facebook

Tradução por Sonne Heljarskinn

 

Muitas pessoas cometeram o erro de pensar que Valhalla (Valhöll – “Salão dos mortos em batalha” – em Nórdico Antigo) é uma espécie de “Paraíso Heathen”, com Odin como uma figura paterna benevolente para aqueles que chegam à sua porta. Isto está longe do que podemos identificar na tradição existente e, para tentar mudar as percepções, oferecemos uma história curta de alguém que não acaba na casa dos Einherjar (nem, de fato, deveríamos querê-los!) : Continuar a ler

Yggdrasil – Os Nove Mundos da Tradição Nórdica

Texto por Ravn
Publicado originalmente em Platinorum.

Parte I

A Tradição Nórdica interpreta o Universo na forma da “Árvore do Mundo”, com os Mundos da existência dispostos em seu tronco, raízes e galhos; chamada de “Yggdrasill”, seu nome significa “Cavalo de Ygg” – uma referência ao deus Óðinn (que possui muitos nomes, sendo “Ygg” um deles) e sua autoimolação na Árvore, obtendo o conhecimento das runas e da magia no processo. Em nossa exploração da Magia Nórdica, começaremos entendo sua cosmogonia tanto do ponto de vista da mitologia quanto magístico. Continuar a ler

Os Corvos de Óðinn e a Alma Humana

Texto por Ravn
Publicado originalmente em Platinorum.

Os povos germânicos desenvolveram seus próprios conceitos a respeito de uma estrutura para a alma humana, hoje debatida por diversos autores. Enquanto alguns apresentam estruturas complexas com muitas subdivisões outros apresentam mais simples, sendo possível encontrar até mesmo fazem esquematizações ilustradas. Este estudo pode ser uma boa ferramenta para autoconhecimento, por isso apresento aqui em uma versão mais sucinta e prática. Continuar a ler

Entre elfos e ancestrais: Um estudo sobre os álfar através da literatura e cultura germânicas

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Sonne Heljarskinn

 

 “O meio ambiente e a paisagem perderam sua inocência e misticismo. A racionalidade do homem moderno e sua constante exigência de entendimento e explicação constituem os maiores obstáculos para nossa compreensão do mundo de ideias de nossos primeiros ancestrais”.

 (Stefan Brink, 2013: 22)

 

ABSTRACT: The present work has as its objective to analyze, in the Eddic documentation (both poetic and prose), medieval texts about the pre-Christian Scandinavian culture as well as, with more recent studies, especially that of Hilda Roderick Ellis, the problem of the origins, the meaning and the worship of the álfar (elves), in special among the germanic peoples of Scandinavia. It intends to present a few points of evidence about its relevance to the people that worshiped them, as well as the differences among the different peoples, as well as an etymological analysis of the words related to the álfar in the ancient Scandinavian culture. Considering the difficulties in the analysis of an orally transmitted culture when it is crystallized into written language, this study proposes thusly to express the similarities between the elves and other elements in those cultures, such as the Dísir and the ancestor worship. In this way, we show, following the line of scholars such as Ellis and Turville-Petre, the similarities existing between these aspects of the heathen Scandinavian culture that are usually taken as divergent among themselves.

Keywords: literacy in Scandinavia, elves, álfar, ancestral worship.

RESUMO: O presente texto tem o objeto de analisar, na documentação das Eddas (em prosa e poética), textos medievais sobre a cultura escandinava pré-cristã, bem como em estudos mais recentes, principalmente o de Hilda Roderick Ellis, o problema da origem, do significado, e do culto aos álfar (elfos), em especial nos povos germânicos da Escandinávia. Busca apresentar alguns pontos que evidenciem sua importância para os povos que os cultuavam, bem como as diferenças perante os povos próximos, além de uma análise etimológica das palavras relacionadas aos álfar na antiga cultura escandinava. Tendo em vista as dificuldades ao se analisar uma cultura transmitida oralmente quando esta é cristalizada na língua escrita, este artigo propõe então a destacar as semelhanças dos elfos com outros elementos da cultura dos povos do norte europeu, como as Dísir e o Culto aos Ancestrais. Dessa maneira, evidenciamos, seguindo a linha de estudiosos como Ellis e Turville-Petre, as semelhanças que existem entre aspectos da antiga cultura pagã escandinava que geralmente são tomados como divergentes e sem associação entre si.

Palavras chave: letramento na Escandinávia, elfos, álfar, culto aos ancestrais. Continuar a ler