Bindrunes Nórdicas

Publicado originalmente por Justin Foster.
Tradução por Sonne Heljarskinn.

Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p117.
Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p117.

A palavra bindrune significa a ligação [binding] de duas ou mais runas. Elas ocorrem intermitentemente em escritos rúnicos, no entanto, era predominante em escritos nórdicos e raramente em anglo-saxões. A finalidade usual era abreviar a escrita mas em alguns casos foi usada esconder o que foi escrito.

Inicialmente usadas durante a Era Viking em lápides nórdicas gradualmente caiu em desuso, juntamente com todos os outros escritos rúnicos, exceto na Islândia, onde a tradição continuou. Não só eles foram usados lá com a finalidade de escrever em geral, mas eles também foram usados na magia, incluindo encantos, feitiços e seus Galdrastafir – símbolos mágicos.

Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p120.
Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p120.

Ole Worm fez um extenso estudo de runas e escreveu no Runir Seu Danica latino, uma seção sobre bindrunes que ele chama “jugationibus“. Ele fornece um exemplo mostrando um glifo do nome “Olafur”, e depois dá uma extensa tabela de combinações possíveis.

Isso demonstra claramente como bindrunes são de dois tipos. Uma delas é uma sequência de várias runas para ser lida de cima para baixo ou de baixo para cima ao longo de uma única haste. O outro é um caso mais simples de duas runas usando sua haste principal para voltar atrás. Não inesperadamente, a A-runa “ᛆ”, a O-runa “ᚮ” e a U-runa “ᚢ” foram as mais comuns a serem usadas.

IS IR; 153 (I) – Lápide de Stórholt, Condado de Skagafjarðar, 1600

ru-island-storholt

 Transcrição  hie·r : Huile·r : unde·r : tHomas : BRanda·r : s·o·n : huors : sHal : ed [–]d [:]
uardueite : unde·r : sinne : blessan : a
 br-storholt-stone
 Transliteração  Hér hvílir undir Thómas Brandarson, hvörs [hvers] sál eð Guð
varðveiti undir sinni blessan a[men]
 Tradução  Aqui abaixo repousa Thómas Brandarson, cuja alma permanece com Deus
Mantenha sob a sua bênção, Amém

Datado do século XVII, esta lápide rúnica tem alguns caracteres usando letras latinas (o “H” e o “BR”), bem como várias bindrunes. O bind “er” aparece várias vezes e emprega sobreposição considerável das runas “e” e “r”, o “son” mostra que a colocação de runa (por exemplo, uma ordem de cima para baixo) não é rigorosa e com o bind “ar” nem é a direção que uma runa está se voltando (à esquerda ou à direita). Essa última regra exigiria cautela devido à runa “a” ser um espelho da runa “n” e a runa “t” sendo um espelho da runa “l”.

Também digno de nota é a runa “s” estranha visualmente na palavra final “blessan”. Tem sido sugerido que estas são em vez disso, runas “z” muito raras. Finalmente, eu não consegui encontrar qualquer cidade de Stórholt em Skagafjarðar ainda que as fontes afirmem que a pedra foi encontrada enterrada no pátio da igreja Stórholt em 1918 e mais tarde transferida para o Museu Nacional.

IS IR;145 (I) -Fragmento de Lápide, século XVII

 ru-island-holt1a
 Transcrição: her × hu·i·l·e·r × to·rfe × [bia·r·n]
Transliteração: Hér hvílir Torfi Bjarn[a sonr].
Tradução: Aqui descansa o filho de Torfi Bjôrn.
 br-huiler-stone

Também do século XVII, esta é uma de duas partes encontradas perto da porta da igreja da paróquia de Holt no condado de Ísafjarðar na Islândia. Desenhos passados mostram que a segunda peça tinha o nome de Bjarn também escrito com uma bindrune.

ÍBR 64 8vo Samtíningur, II. hluti, Ísland 1813

 ibr64-8vo-71-72
 ÍBR 64 8vo, 71v & 72r
 Nokkur rúna og villuleturs stafróf.

(Algumas runas e alfabetos de letras alternativas.)
Diversas bind-runes estão copiadas no Galdrakver LBS 4627 8vo, também do século XIX.

JS 149 fol – século XIX:

 js149fol-24r  js149fol-66r  js149fol-108r
 JS 149 fol 24r  JS 149 fol 66r  JS 149 fol 108r
 Samtíningur um rúnir úr fórum Jóns Sigurðssonar; Denmark, ca. 1830-1870.
(Miscelânia relativa às runas, guardadas por Jons Sigurdsson …)

Einkaeign Stafabók:

 einkaeign-30v
 Rún pág. 30v
 einkaeign-34v
 Rún pág. 34v
 Rún, rúnaletur o.fl. ritað fyrir Magnús Steingrímsson, Hólum í Staðardal 1928.
(Runas secretas e caracteres rúnicos, etc., escritas para Magnus Steingrímsson …)

Não é surpreendente que as bindrunes encontraram um lugar na cultura moderna para encantos, palavras de significado em tatuagens e outras simbologias. No entanto, é desconcertante que atualmente os caracteres rúnicos usados são anglo-saxões e não noruegueses ou islandeses, e os significados atribuídos a runas são derivados de origens anglo-saxônicas ao invés dos bem documentados poemas de runas nórdicos.

Então você quer ser um heathen

Escrito por Räv Skogsberg em 2 de Fevereiro, 2017 (trad. por Wander Steyner)

Recentemente, em um grupo do Facebook do qual faço parte, um amigo me fez uma pergunta: “Digamos que alguém se interesse em se tornar Pagão Nórdico; que conselhos e sugestões você daria?” Este é um tema que considero muito importante, e como respondemos a essa questão diz muito do que o Paganismo representa para nós. Sendo Pagão Sueco, há coisas para as quais minha resposta não funcionará em outros países – diferenças societárias e culturais podem interferir, ou a forma como o Paganismo funciona nesses lugares pode ser muito diferente. Ainda assim, vou arriscar.

hornonharrow

(Claro, essa não é a única forma de se tornar um heathen, se é que preciso dizer isso…)

Sempre defendo que devemos iniciar praticando, em vez de nos atolarmos de pormenores religiosos. A Europa e as áreas sob o controle europeu foram fortemente influenciados pelo Cristianismo nas questões religiosas; talvez possamos até afirmar que nosso entendimento coletivo do que seja religião tenha sido amplamente moldado pelo Cristianismo, e em particular, seu foco na fé. Principalmente no nordeste da Europa, onde o Protestantismo domina há séculos, enfatizando o “somente pela fé”, existe uma tradição em desconsiderar coisas como os sacramentos e as práticas mais “mágicas” em favor do simples diálogo. E conversar sobre o que as pessoas deveriam acreditar. Em quê é certo ter fé? Isso leva muitas pessoas interessadas no Paganismo a fazerem perguntas sobre determinadas coisas em que acreditamos, esperando que eu os convença, por ser representante de uma organização Pagã, de que tenho todas as respostas. Ou que eu recomende um livro que as tenha.

Quem quiser entender o Paganismo, precisa começar com ações, fazendo coisas tipicamente pagãs. A meu ver, ninguém pode superestimar a importância da prática. Eu defenderia que a prática é a parte mais importante de se tornar um Pagão. Nossa religião requer o fazer. Isso não significa, como alguns críticos do Paganismo alegariam, que não acreditamos, mas que a fé é uma questão bastante pessoal. A religião pagã tem um vão de milhares de anos, e as crenças variaram muito com o tempo e entre lugares. (Assim como, não vamos esquecer, da prática, que quase exclui a abordagem do Jeito Único de Fazer as Coisas na religião, da mesma forma). Mas, o Paganismo nunca foi uma religião de poltrona. Apropriar-se de uma abordagem puramente teórica e filosófica para o Paganismo não é ruim, mas se isso é o que busca, essa publicação não será de muito interesse para você, receio dizer.

 

midsummer_blot_fengan
maypole (mastro cerimonial) e a högr de nosso rito de Midsummer

Mas, como começar a fazer coisas Pagãs, então? Mesmo sendo totalmente verdadeiro dizer que “você pode fazer do jeito que quiser”, também é verdade que essa não é uma ajuda muito útil. Dizer isso significa validar e empoderar aquele que pergunta a se permitir assumir responsabilidades por suas próprias conexões com os deuses, mas por muitas vezes é apenas confuso e paralisante. Quem nunca viu um blót ou qualquer coisa parecida pode se perder completamente quanto ao que podem fazer. Por isso, normalmente aconselho que tentem encontrar um grupo existente – blotlag – em sua área e peça permissão para participar de um blót com eles. Aprender na prática a tradição viva de um grupo que, de fato, atua, foi o único jeito por milhares de anos. Um grupo com alguns poucos anos de existência, no mínimo, terá encontrado formas que funcionam para eles e terá desenvolvido relações com os espíritos locais e certos deuses, o que facilitará as coisas para um iniciante nos caminhos Pagãos. Mesmo não querendo continuar em um grupo, a experiência e o conhecimento prático obtidos são inestimáveis quando praticamos sozinhos.

Claro que nem todos os grupos são abertos para estranhos, e mesmo que sejam, pode não ser o grupo certo para você. Há muitas coisas que podem dar errado em um grupo, e se seu instinto sinalizar que há algo errado, você provavelmente deveria seguir essa sensação. Mas, as complexidades de se juntar a um grupo são uma discussão muito mais longa, para a qual não temos espaço nessa postagem.

Talvez não haja um grupo nas redondezas de onde mora, ou os grupos à sua volta não estejam admitindo novos membros, ou simplesmente não gosta das pessoas envolvidas. Em vários países, existem organizações que realizam grandes blóts, abertos para qualquer um participar, sejam membros ou não. Estes blóts tendem a ser menos frequentes do que aqueles realizados por organizações locais, e devido ao número de participates, podem ser bem diferentes de blóts feitos sozinho em sua casa. Contudo, numeros maiores também significam não ter que se adequar a um círculo existente de amigos, e caso não goste das pessoas ou do ambiente, você pode simplesmente sair de fininho sem ter que se preocupar em estar ofedendo alguém. Ao mesmo tempo, você pode ter uma demonstração de como um blót é feito, e organizações estabelecidas tendem a ter pessoas mais esclarecidas, abertas a responder suas perguntas, ou mesmo um corpo clerical treinado, cujo trabalho é fazer exatamente isso. Mesmo que você tenha que viajar para longe a fim de conseguir algo assim, cruzar o país na estrada não deveria detê-lo. Participar e passar pela experiência de um blót, nos níveis tanto espritual quanto prático, lhe dirão muito mais do que qualquer leitura poderá dizer.

hc3b6stblot20162Pode haver milhões de razões para você não fazer nenhuma das coisas sugeridas acima. Isso significa que não poderá realizer blóts para os deuses nórdicos? Claro que não. Acredito, de verdade, que perderia a oportunidade de ver o que boa parte do Paganismo moderno representa, a experiência compartilhada e o conhecimento acumulado de tradições vivas, mas existem muitos Pagãos que vivem à margem, fazendo suas coisas do seu jeito e sendo felizes com isso. Se acabar fazendo isso, seja por escolha ou por necessidade, meu conselho é que teste formas diferentes de abordar os deuses, formas diferentes de realizer um blót. Descubra o que funciona para você.

Comece com coisas simples, muito simples, e construa a partir disso. Encontre um local onde não será perturbado, um lugar que te faça se sentir bem, e traga uma pequena oferenda. Encontre uma árvore, uma pedra que te passe uma sensação boa, e pense nela como um local de encontros. Um local onde possa se encontrar e ser encontrado. Converse com o lugar, com os deuses, e faça isso em voz alta, se puder. Fale de coração aberto ou escreva algo antes, mas que seja de cunho pessoal. È a sua apresentação para os deuses, afinal de contas. Você pode se sentir bobo, para começo de conversa, mas isso vai passar depois de um tempo. Diga os nomes dos deuses que quer conhecer, cumrpimente-os, diga-lhes quem você é, e que lhes traz uma oferenda. Pendure-a em um galho, jogue-a num lago, ou deixe-a sobre a pedra. Enterre-a, ou queime-a em uma fogueira. Tenho certeza de que você descobrirá o que fazer, mas lembre-se de não oferecer algo que possa ser prejudicial à natureza, você está lá para adorar a deuses que são inerentes à natureza.

Você pode não sentir nada na primeira vez (ou vezes), ou pode se surpreender com a intensidade da experiência. De qualquer forma, haverá momentos em que nada parecerá acontecer, mas persistência na prática é o que nos leva onde se quer, no fim das contas. Tente fazer as coisas de maneira diferente e veja o que funciona melhor para você. Daí então, será o momento de pesquisar. Não conheço nenhum bom livro de iniciação para Pagãos – mas há muitas sugestões pela internet. Teste-os. Continue fazendo o que funcionar, e descarte o resto. Você é o dono do seu nariz, e você está fazendo as coisas da maneira certa.

A Nossa Religião É Uma Religião Agrária

Publicado originalmente em Wyrd Designs (Https://wyrddesigns.wordpress.com/2016/02/16/ours-is-an-agricultural-religion/)

Traduçao de Heitor Gomes

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A nossa religião não é apenas uma religião de guerreiros, mas infelizmente isso é o mais alardeado. Nossa religião é uma religião AGRICULTURAL. Se você verdadeiramente examinar todos os nossos ritos e datas sagradas, eles se enfocam em vitalidade e sobrevivência, e portanto, especialmente nas principais épocas sagradas, conectam com momentos chave de uma cultura agrária, da colheita até a organização dos animais. Sim, nós honrávamos os ancestrais e usávamos nosso tempo honrando aqueles que morreram em bom serviço à comunidade. Mulheres que morriam no parto eram TÃO altamente honradas quanto homens que morriam em batalha em algumas comunidades. Um poeta ou skáld poderia ter honras tão altas quanto qualquer guerreiro, etc… Continue reading “A Nossa Religião É Uma Religião Agrária”

Por que eu sou um Heathen ateu

Publicado originalmente em Boxing Pythagoras.
Tradução para o português por Sonne Heljarskinn.

Tendo já relatado aos meus leitores Why I am not a Christian (Por que eu não sou um cristão), pensei que poderia levar algum tempo para falar sobre o que eu sou: Eu sou um pagão ateu. Continue reading “Por que eu sou um Heathen ateu”

5 maneiras de honrar seus ancestrais

Por Molly Khan, do Heathen at Heart, no Patheos.
Tradução do inglês de Sonne Heljarskinn.

Embora muitos pagãos não sigam os oito feriados padrão da Roda do Ano a que muitos Pagãos aderem, o aprofundamento do outono e a chegada do inverno naturalmente se prestam à honra especial dos ancestrais. Mas para aqueles para quem a ideia de veneração dos antepassados é nova, saber o que fazer pode ser complicado! Aqui estão cinco dicas para você começar no seu caminho.

1) Faça um espaço sagrado separado. Esta é uma dica fácil, que muitos não Heathens e não Pagãos praticam também. Se você está disposto a cavar através da história da família ou entrar em contato com alguns de seus parentes mais velhos – e realmente, se você está procurando a começar a veneração dos antepassados, você deve estar fazendo essas coisas – você provavelmente vai encontrar fotos ou mesmo preciosas coisinhas que pertenciam ou foram feitas por aqueles que partiram antes de você.

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Honrando os Antepassados

Tradução do original “Honoring One’s Ancestors” de Mark Ludwig Stinson/Temple of our Heathen Gods

Por Sharon Lee Loreilhe

Uma grande parte da prática pagã envolve honrar os nossos antepassados. Enquanto vivos, nossos antepassados foram pessoas com aspirações, com esperanças e sonhos, famílias e amigos que amaram, tiveram sucessos e dificuldades, e se não fosse por seu trabalho duro, dedicação e sacrifícios, não estaríamos aqui. Uma parte da nossa alma pagã, nosso Orlog, é passado para nós por nossos antepassados. Nós trabalhamos duro durante toda a nossa vida para passar Orlog bom para os nossos próprios filhos, assim como aos nossos descendentes. Nós dividimos sangue e cultura com nossos ancestrais, e é através de nossos antepassados que encontramos a nossa ligação com nossos Deuses. Continue reading “Honrando os Antepassados”

O Calendário Viking

runic-calendarEscrito por Thor Lanesskog. Publicado originalmente em inglês em Thor News.

Tradução de Sonne Heljarskinn.


Calendário rúnico norueguês de Worm descrito em seu livro Fasti Danici que remonta a 1643. O desenho mostra apenas a temporada de inverno que vai de 14 de outubro a 13 de abril. A temporada de verão do outro lado do osso de uma baleia ou peixe grande nunca foi copiado, e tanto o pingente quanto o calendário infelizmente foram perdidos.

Embora as fontes escandinavas contemporâneas para a Era Viking sejam poucas, há uns indícios que os Vikings dividiram o ano provavelmente em fases da lua e somente duas estações: Verão e inverno.

Os Vikings não usaram anos exatos para datar eventos, uma assim chamada cronologia absoluta. Em vez disso, eles usaram uma cronologia relativa com referência ao número de anos após eventos importantes. Pode-se por exemplo datar o ano, dizendo “cinco invernos após a Batalha de Svolder”. Continue reading “O Calendário Viking”