O que caracteriza o Paganismo Germânico?

Muitas pessoas procuram as diretrizes que compõem o paganismo germânico (ou “Ásatrú”, “Forn Sed”, entre muitos outros nomes), aquilo que o estrutura e guia, e assim se voltam para as Nove Nobre Virtudes. Cunhadas na década de 1970 pelo grupo Odinic Rite a partir do Hávamál, considero-as muito gerais e universais para serem tomadas como autenticamente pagãs. Por isso, discutirei aqui o que para mim são as características principais do paganismo germânico, que o diferenciam não apenas de outras religiões como também de outras manifestações pagãs.

Imagem destacada: lemuren

Uma das principais características do paganismo germânico desde eras antigas é justamente uma que torna difícil de apontar o que definitivamente o compõe: a pluralidade. Tribos e condados vizinhos poderiam seguir o mesmo panteão, mas com ritos, enfoques e costumes completamente diferentes; e hoje em dia, esta liberdade ainda é buscada e mantida, com diversos grupos usando variadas abordagens. Para uma religião lembrada como sem dogmas(ou pelo menos muito poucos) e sem livro sagrado, pode ser difícil traçar suas diretrizes. Por isso, é muito importante destacar que embora observe as características que aponto aqui em diversos grupos e lugares, elas não são seguidas a risca por todos e podem vir da minha própria visão do paganismo.

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Valhalla, por Carl Emil Doepler (1905)

A primeira de todas é uma relação mais direta com os deuses. Durante a Era Viking, os povos escandinavos não possuíam sacerdotes; os ritos familiares eram comandados pelo pai e a mãe, enquanto os públicos eram responsabilidade da nobreza e normalmente conduzidos pelo jarl local. Quando a figura do goði ougyðja (respectivamente, “sacerdote” e “sacerdotisa”) surgiu na Islândia, era mais como um cargo político que espiritual. Embora muitos grupos atuais usem estas nomenclaturas para seus líderes, eles não podem falar pelos deuses; cada um deve buscar sua própria forma de estabelecer um relacionamento com os deuses, sem a necessidade de um intermediário. Muitos dizem que o Ásatrú possui uma relação de amizade com seus deuses, onde ambos negociam os termos da relação.

O Ásatrú também não possui um objetivo transcendental; seu enfoque está no presente. Por suas origens a partir de um povo pragmático e a noção de Wyrd, o pagão germânico não está buscando uma iluminação ou preocupado com um destino após sua vida terrena. O “aqui e agora” é considerado uma dádiva, e Miðgarðr um mundo belo e sagrado. O culto à natureza também é uma característica bem presente, herdada da vida agrária dos escandinavos e mantida pelo respeito à Miðgarðr; este culto pode nos ensinar sobre os padrões cíclicos do mundo e da própria vida, no qual a morte é vista como parte e apenas uma “mudança de estado”, sem haver uma possível punição nos esperando após.

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Outra herança dessa época que se mantém presente é a valorização da comunidade. Este valor era expressado pela palavra friðr, que pode ser entendida como a harmonia entre o indivíduo e o seu entorno – sua família, o local onde ele mora e o sagrado. A partir disso e da noção de Wyrd também podemos tomar como característica a observação do peso de nossas atitudes. O pagão nórdico precisa sempre refletir as consequências de seus atos, tanto como Orlög pessoal quanto na forma que irá repercutir no ambiente externo. Por isso, ao causar danos para alguém, espera-se que um pagão tome atitudes para reparar seu erro ao invés de apenas esperar ser perdoado.

Estas são apenas algumas das características que compõem e orientam o paganismo germânico. Novamente reforço que são baseadas em minha observação e vivência como Ásatrú, e não devem ser levadas como definições absolutas. Em cada local que se manifesta o paganismo se adapta, adquirindo novos aspectos adotados pelas pessoas que o trazem. É importante nos atentarmos àquilo que o fazem único, diferente inclusive de outas religiões pagãs.

Sjáumst bráðlega!

Landvættir e o culto à natureza

Post por Ravn
Publicado originalmente em Platinorum.

O paganismo considera a Terra (que pode ser chamada de “Jörð” em nórdico antigo, nome também dado à giganta mãe de Þórr) como sagrada, vendo a existência em Miðgarðr como uma dádiva e voltando-se à natureza em culto. Em uma das manifestações mais básicas estão as oferendas aos Landvættir, um dos principais espíritos naturais das tradições germânicas. Continue reading “Landvættir e o culto à natureza”

Óðr – Inspiração e Loucura

Texto por Ravn

Publicado originalmente em Platinorum.

O nome “Óðinn” deriva da palavra “óðr”, que pode significar “entendimento”, “senso”, “inspiração” ou mesmo “fúria”, “furor”. Atualmente, autores que buscaram fazer um mapeamento da estrutura da alma do ponto de vista nórdico deram o nome de “Óðr” ao seu aspecto mais elevado, o espírito e a consciência concedidos por Óðinn no momento da criação da humanidade. Este é o meu ponto de vista sobre o Óðr, a forma que ele se manifesta e como podemos entrar em contato com esse aspecto. Continue reading “Óðr – Inspiração e Loucura”

Wyrd & Orlög – O Destino na Concepção Nórdica

Texto por Ravn.
Publicado originalmente em Platinorum.

Prostradas na Fonte de Urðr, onde se fincam as raízes da Yggdrasill, estão as três Nornir (singular: Norn) – deusas fiandeiras, regulando e servindo forças tão grandes e absolutas que os próprios deuses estão submetidos à elas. Para os Nórdicos, o Destino era visto de uma forma um tanto diferente da visão que o ocidente está acostumado hoje; ao compreendê-lo, percebemos a forma que os pagãos se relacionam com seus próprios atos e lidam com conseqüências. Continue reading “Wyrd & Orlög – O Destino na Concepção Nórdica”

Yggdrasil – Os Nove Mundos da Tradição Nórdica

Texto por Ravn
Publicado originalmente em Platinorum.

Parte I

A Tradição Nórdica interpreta o Universo na forma da “Árvore do Mundo”, com os Mundos da existência dispostos em seu tronco, raízes e galhos; chamada de “Yggdrasill”, seu nome significa “Cavalo de Ygg” – uma referência ao deus Óðinn (que possui muitos nomes, sendo “Ygg” um deles) e sua autoimolação na Árvore, obtendo o conhecimento das runas e da magia no processo. Em nossa exploração da Magia Nórdica, começaremos entendo sua cosmogonia tanto do ponto de vista da mitologia quanto magístico. Continue reading “Yggdrasil – Os Nove Mundos da Tradição Nórdica”

Os Corvos de Óðinn e a Alma Humana

Texto por Ravn
Publicado originalmente em Platinorum.

Os povos germânicos desenvolveram seus próprios conceitos a respeito de uma estrutura para a alma humana, hoje debatida por diversos autores. Enquanto alguns apresentam estruturas complexas com muitas subdivisões outros apresentam mais simples, sendo possível encontrar até mesmo fazem esquematizações ilustradas. Este estudo pode ser uma boa ferramenta para autoconhecimento, por isso apresento aqui em uma versão mais sucinta e prática. Continue reading “Os Corvos de Óðinn e a Alma Humana”