Pequenas reflexões sobre a Völva, o conhecimento, e o papel da mulher no heathenismo

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Texto por Sonne Heljarskinn
Postado originalmente em facebook

As völvas são mulheres que nas tribos nórdicas desenvolviam funções *semelhantes* mas não idênticas às dos xamãs. Elas tinham a liberdade de viajar e fazer oráculos, sendo bem recebidas e gratificadas por seu saber. Ainda assim, não nos interessa falar das völvas em geral aqui, mas de uma em particular, tamanha a sua importância: aquela que Óðinn foi buscar no mundo dos mortos, em sua sede de conhecimento.

Descrita na Völuspá, a passagem pode ser uma alusão a mesmo uma viagem “xamanística” – embora não estritamente xamânica – que o deus Caolho faz em busca de sabedoria. O próprio processo de seiðr envolve esse ato de ir ao mundo dos mortos com perguntas em busca respostas – e aqui abre-se uma brecha rápida para mencionar a GRANDE importância de Hel como deusa dos que morreram -, e existe uma grande identidade entre o que a Völuspá narra e aquilo que völvur ou seiðkonur praticam.

Isso dá-nos a oportunidade para uma coisa importante ser notada: é preciso compreender, ainda que ligeiramente, o papel da mulher na sociedade e na Heiðni, ou forn siðr, a antiga ritualística pagã do norte da Europa. Embora mulheres tivessem direito ao divórcio, à propriedade, e em alguns casos ainda pudessem se representar na thing, cabe lembrar que a maioria – mulheres pobres – ainda era forçada a se casar, o que só mudou ligeiramente com a entrada do cristianismo.

Todavia, se a mulher histórica da Escandinávia possui essa complexidade, a Völva que Óðinn chama dos mortos não tem tanta dificuldade em ser compreendida: ela conta a história do nascimento dos nove mundos até o seu fim. E, por que Óðinn a invocaria sem uma razão grande? Como o fato dela testemunhar os fatos que narrara? Essa Völva, essa grande völva, ao contrário das mulheres das religiões reveladas que possuem um papel misto entre o desastre, a irresponsabilidade e que contrastam com uma sexualidade desenfreada, é uma grande sábia fora de todos esses padrões e é procurada por Óðinn tanto quanto Mimir, para fins de aumentar o saber do velho Andarilho.

Essa völva que viu o fogo lamber o gelo primordial, que viu Ymir nascendo, que viu Auðumbla dando-lhe de comer, que viu o primeiro Aesir saindo do gelo a partir das lambidas dela, é a fonte de sabedoria desse poderoso deus, e chama a sua atenção por aquilo que tem a oferecer. Óðinn, como um seiðmann, busca esse poderoso espírito para se instruir.

Assim, a Völva, e aquilo que ela aprendeu mexendo com espíritos é muito útil. Sonhos, viagens, tudo isso serve na hora de contar suas histórias para Óðinn; e ainda assim ela é conhecida só o suficiente para alguém poderoso, mas humilde procura-la. O que a Völva não viu seu conhecimento das teias passadas e presentes do wyrd a faz inferir com precisão cirúrgica do que está por vir.

Pois a Völva precisa ser manifestada naquilo que ela arquetipiza: a poderosa mulher livre, sábia, autossuficiente, dona de si e do conhecimento universal – e perante a qual até mesmo o Furor precisa partir em busca para chegar a um nível de saber superior.

Þórr e Jormungand: uma reflexão

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Texto por Sonne Heljarskinn
Originalmente postado no facebook

O mito da intriga entre Þórr [Thor], o Vermelho, e Jormungand e suas batalhas frequentes nos transporta àquele mundo da vasta sabedoria não-escrita dos povos do Norte.

O Campeão dos Deuses, filho da Terra e do Furor, criado por Aquela que Tece as Nuvens, é o Trovão; aquele que marcha sempre contra a serpente que dá a volta na Terra-do-Meio, embora não a destrua.

Há ali quase que uma equivalência de forças; o Trovão é o filho do deus multifacetado, que abrange desde a morte, sabedoria, magia até a guerra, e, por outro lado, também tem pulsando em suas veias parte da mesma essência dos gigantes que envolve igualmente os filhos de Loki e a obscura giganta da Floresta-de-Ferro, Angrboda, dos quais Jormungand faz parte.

Þórr contra Jormungand é uma luta de eras, um duelo de forças naturais poderosas tentando se equilibrar. Thor gosta da humanidade; ajuda a protegê-la, e a manter a harmonia em seu mundo. Sabemos que a Serpente-do-Mundo não é *apenas* caótica; para além da dualidade maniqueísta pós-heathen que foi-nos imposta, podemos perceber que esse grande monstro é responsável por manter os mares contidos entre seu corpo gigantesco, e que as pescas de Thor talvez não fossem senão uma forma de disciplinar essa força irascível, enquanto o dia do grande crepúsculo, dos deuses e do Universo que se prende ao Grande Freixo de Yggdrasil, não tenha chegado.

As grandes aventuras de Þórr contra a serpente, por outro lado, nos inspiram a coragem; a vitalidade, o desejo de viver e desafiar; fazer-nos ter ciência da força inestimável da luz rápida, porém profunda e poderosa que, assim como o Trovão, é a nossa existência perante as eras incontáveis: e que devemos provocar aquela força que nos envolve, mas que apesar disso, precisamos controlar antes que subleve-se contra nós… e deixe escoar o mar de nossa existência rumo ao Ginnungagap do esquecimento ou desonra.

Fenrir e a anti-ordem

Texto por Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente no facebook

A pedidos, tentarei fazer uma análise da figura de Fenrir. Sei que não será o suficiente para explicar todos os aspectos dessa figura, ou mesmo com detalhes cada um deles, mas uma explicação menos comum é necessária.

O lobo Fenrir, um dos três filhos bestiais de Loki e Angrboda, é sem dúvida aquele que carrega traços mais destrutivos. Desde seu nascimento é apresentado como uma catástrofe. Uma fera que apenas Týr, deus símbolo da bravura e coragem dos guerreiros, da honra e dos destemidos, somente um deus dessa envergadura era capaz de alimentar.

Mas não podemos falar de Fenrir sem falarmos dos lobos mais especialmente. Ao contrário dos dias atuais, é pouco provável que as virtudes das tribos humanas pudessem ser vistas em conformidade com aquelas dos lobos. O lobo representa a rapina, a solidão, o banimento da comunidade, coisas que eram necessariamente negativas, pois dispendiosas ou antissociais. Mesmo os lobos de Óðinn têm um significado semelhante: enquanto os corvos representavam o domínio sobre a memória e o pensamento, os lobos representavam o perigo apaziguado, as criações protegidas do ataque de feras, a fome sob controle. Não são os lobos – mas o fato de ter-lhes amansado – que confere poder a Óðinn.

Fenrir representa o potencial destrutivo do arranjo de coisas na mitologia nórdica. Ele é o matador de Óðinn, o deus ordenador, e tudo o que os Æsir conseguem fazer é prender Fenrir numa corrente curiosa, chamada Gleipnir, pois ela era feita do cuspe de uma ave, os nervos de um urso, o fôlego de um peixe, a raiz de uma montanha, as barbas de uma mulher e o som da queda de um gato. Coisas ou inexistentes ou muito difíceis de se conseguir que nos fazem pensar o quão imaginária não era essa corrente: e o quanto Fenrir não ficaria preso nas próprias ilusões.

Apenas pela mentira seria possível controlar Fenrir. Somente com a perda da mão do guerreiro mais bravo, que já não empunharia espadas como antes. Coisas que tem um alto preço: o Ragnarök. Mas, uma vez amarrado, o lobo Fenrir não é executado. Óðinn sabe de sua determinação, daquilo que fora designado em seu örlög. Seria inútil lutar contra o fim – restava “atrasá-lo”, ou talvez, simplesmente fazê-lo ocorrer na hora certa.

Então se a ilusão (Gleipnir) é aquilo que segura o fim (Fenrir), por outro lado nem mesmo aqueles que criaram o Universo, segundo os antigos mitos, estavam livres do desaparecimento, como uma grande árvore que vê muitas e muitas colheitas ao seu redor, enquanto ela mesma floresce e dá frutos, mas sabe que suas raízes não permanecerão eternamente no solo. Junto do lobo bestial vêm os gigantes de gelo e fogo, após quatro longos invernos, dar cabo dos deuses conhecidos em sua quase totalidade.

Fenrir é então o símbolo de que tudo o que vive, carrega em si a semente de sua própria destruição. Assim como Hel que é metade morta, Fenrir é inteiro destruição; e somente a Vingança, representada por Vidar, é capaz de restituir ao cosmos sua ordem original. Apenas com a Vingança o clã é protegido. Apenas com a vingança as coisas se renovam.

O local de Fenrir na mitologia nórdica é muito especial e destacado. Apesar de ser uma força caótica, seu mito reflete sua necessidade e inevitabilidade. Não existe ordem sem caos. Não existe justiça sem dívida. Não existe honra sem morte gloriosa. Não existe vida sem um clã, e sem se doar por ele.

Týr e a coragem

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Texto de Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente em facebook.

Týr é reconhecido como uma divindade antiquíssima e provavelmente deus principal anterior a Óðinn, e que em algum momento da história (talvez na mesma época da guerra entre Aesir e Vanir) perdeu o poder, sendo assim substituído pelo deus Caolho. Continue reading “Týr e a coragem”

Precisamos falar sobre Óðinn

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Texto por Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente em facebook

Existem muitos mal-entendidos quando falamos sobre Óðinn. O primeiro é que ele jamais é a personagem que as crianças que amam quadrinhos gosta de fazer ele.

Quando falamos na figura mitológica que conseguimos recuperar e vamos tirando a poeira que há sobre sua imensa estátua, para tentar entendê-la, vê-la melhor, trazê-la das profundezas do Helheimr do esquecimento, e torná-la novamente uma poderosa divindade, objeto de culto e que liga a linhagem que vai de mim até meus ancestrais – mesmo que eu não me declare um odinista, “filho de Óðinn”, é mais que sabido que ele está por trás da criação de toda a humanidade, e é nesse sentido que ele é pai de todos e não como uma babá de adultos que enchem a cara de álcool para gritar “Hail Odin” ao som de metal.

Óðinn não é um papai carinhoso. Óðinn é o deus da guerra e do sangue, o senhor das valkyrjor, aquele que busca os espíritos e semeia a sua prole por entre os homens. Na humanidade ele é muito mais como um zangão, aquele que sempre está semeando conhecimento, existência, etc, mas não porque sejamos seus filhos caçulas amados e mimados. Os humanos possuem uma ligação e assumem uma responsabilidade com Óðinn.

Ele não é um deus fácil. Não é um deus que se apresenta muito. Nem é sequer um deus que chama a atenção. Anda por aí com uma roupa discreta, e chama-se “Bolverkr” quando decide vir à humanidade. Eu quase posso ouvir o som estridente das gargantas de seus dois corvos passeando pela imensidão.

Óðinn não é somente um deus da guerra. Óðinn é um deus do bom governo, da boa gestão, incluso a gestão pacífica. Óðinn é um guerreiro quando é necessário – mas nunca é um guerreiro quando isso não é obrigatório. Quem duvidar, que se lembre do Óðinn tirando onda de Thórr na Harbardsljód ou enganando o gigante para conseguir chegar até a fonte de Mimir. Óðinn é um deus das decisões sensatas – parece que desde a guerra entre Aesir e Vanir os primeiros passaram a ser mais estrategistas e menos guerreiros. Algo que se romperá no Ragnarök.

Óðinn não é Woden e não é Wotan ou Wodan. Óðinn não é sequer o Odin moderno. Óðinn é um deus poderoso, astuto, cortês, em busca de sabedoria e diversão. Óðinn pode ser uma variante ou ancestral das outras figuras com o seu nome; pode ser mesmo uma outra personalidade dessa divindade tão ampla. Mas reduzir o Óðinn islandês ao Wotan alemão é balela. Principalmente se falamos daquele de Wagner – definitivamente não são o mesmo personagem/entidade.

Assim, Óðinn, o poderoso deus, aquele que fala através das runas, do barulho do vento, das aves, em especial dos corvos e pássaros necrófagos, não pode ser jamais reduzido a um “portador de Gungnir, a lança que nunca erra o alvo”. Ele é o sábio ancião andarilho, aquele que se disfarça de tolo – e põe-se a observar os outros e sua hipocrisias…

Não brinque com o Calho – a menos que você esteja disposto a pagar o preço dos sacrifícios que ele exige. Cultuar Óðinn é muito mais que dizer “Hail Odin” toda a quarta-feira.

Primeiro Ensaio sobre a Simbologia de Hel

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Por Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente em 14 de abril de 2016, no facebook.

Hel é uma poderosa figura na mitologia nórdica, o que provavelmente reflete sua importância no imaginário popular. Em contrapartida ela possui muito poucas menções nos textos que chegaram até nós. Apesar disso, desenvolve um papel fundamental em toda a mitologia, especificamente em seu envolvimento nos trechos que relatam a morte de Balder. Continue reading “Primeiro Ensaio sobre a Simbologia de Hel”

Yggdrasil – Os Nove Mundos da Tradição Nórdica

Texto por Ravn
Publicado originalmente em Platinorum.

Parte I

A Tradição Nórdica interpreta o Universo na forma da “Árvore do Mundo”, com os Mundos da existência dispostos em seu tronco, raízes e galhos; chamada de “Yggdrasill”, seu nome significa “Cavalo de Ygg” – uma referência ao deus Óðinn (que possui muitos nomes, sendo “Ygg” um deles) e sua autoimolação na Árvore, obtendo o conhecimento das runas e da magia no processo. Em nossa exploração da Magia Nórdica, começaremos entendo sua cosmogonia tanto do ponto de vista da mitologia quanto magístico. Continue reading “Yggdrasil – Os Nove Mundos da Tradição Nórdica”