Heathenry, Ásatrú, Odinismo: sobre os nomes de caminhos no paganismo nórdico/germânico

Por Seaxdēor, revisão de Dannyel de Castro

No dia 7 de dezembro mudamos oficialmente o nome de nosso projeto de Ásatrú & Liberdade para Heathenry & Liberdade, uma transição que durará algum tempo para se completar. Isso levantou a questão de que todos os vários nomes como Ásatrú,  Heathenry, Odinismo, seriam a mesma coisa? Não são todos a continuação da religião dos nórdicos? Na verdade, não exatamente. Vamos dar uma olhada nesses nomes, suas origens e significados, e entender porque a distinção é necessária. Continuar a ler

Guerra de egos: a ruína da Ásatrú e de todo o paganismo germânico no Brasil

Por Seaxdēor

O paganismo germânico é uma religião que morreu. Existem pelo menos mil anos entre a última forma de paganismo de povos germânicos e a primeira tentativa de trazê-lo novamente à vida. Não existem tradições milenares intactas. E assim começamos nossa conversa. Continuar a ler

Cosmologia nórdica: Nove mundos? — Uma reflexão

Por Seaxdēor

Comumente temos a ideia de que as Eddas retratam fielmente a maneira que os povos tribais germânicos em geral viam a realidade, o que não é o caso, sempre. Diferentemente de outros povos letrados, os quais preservavam um conjunto de mitos de maneira razoavelmente intacta através do tempo, todas as histórias e explicações coletivas da realidade dos povos germânicos são bastante ligadas a um período no espaço e no tempo.

 

  1. O QUE É UM “MUNDO”?

Por exemplo, na Vǫluspá a vidente diz a seu interlocutor que “níu man ek heima, níu íviði“, na tradução de Bellows “Nine worlds I knew, | the nine in the tree“, ou “nove mundos conheci, | os nove na árvore”. Nas estrofes 21 e 47 aparecem menções à árvore Yggdrasil e se assume que esta seja a mesma árvore que sustenta os mundos.

A palavra que destacamos é “heima” (nom. singular heimr), traduzida grosseiramente por “mundos”. O dicionário Michaelis lista 18 significados para a palavra “mundo”, do qual o quinto, “qualquer corpo celeste, especialmente um planeta no qual se imagine haver condições ideais para o surgimento e a manutenção de vida biológica igual ou semelhante à que conhecemos”, é a nossa noção mais corrente na atualidade.

Todavia, heimr, na verdade possui outros significados, que não são exatamente correlatos desse sentido de “mundo” que temos modernamente.

Os significados primários de heimr em nórdico antigo são “lar, morada”, aparecendo como advérbio em expressões como fara heim, “voltar pra casa”. O dicionário de islandês de Zoega aponta para “abode” (“residência, morada, domicílio”), e daí deduz “terra (land), região e então mundo (world)”. Zoega ainda explica que “heimr” pode se referir ao local onde cada grupo diferente de criaturas dominantes vivem. Já o dicionário de Cleasby-Vigfusson oferece a palavra “Jórsalaheimr“, a qual traduz “Palestina”, indicando quanto heimr era usado para nomes de regiões, em nosso mundo.

Heimr é uma palavra que tem vários termos correlatos em outros idiomas germânicos antigos e modernos. “Home“, no inglês moderno (lar) e “Heimat” do alemão moderno são as mais interessantes. Home é literalmente um local de morada permanente e no qual há laços emocionais envolvidos. Heimat por sua vez carrega um sentido muito mais intenso que “pátria”, revelando laços emocionais de uma pessoa com todo um conjunto cultural, paisagem, região e clima de determinado local.

Como podemos ver, um heimr era uma porção de terra, separada ou não de outras regiões por água (ou vácuo?) e não corresponde ao nosso conceito de “mundo” enquanto “planeta”.

Christie L. Ward discute que Óláfr Árnarson em sua obra de 1242, Terceiro Tratado Gramatical, usa a palavra “merkistjarna” (“marking star“, ou “estrela marcante”, “estrela-marca”, “estrela marcadora”) para definir os “planetæ“, discutindo aqui a tradição astronômica continental, romanizada e não nativa do norte da Europa, apesar de equivalente à nossa latina atual, o que dificulta a compreensão da dos germânicos. Aparentemente então a palavra “heimr” não seria usada para traduzir o que nós chamamos de planetas ou mundos, o qual eles chamavam, de certa forma de estrelas (stjarna), mesmo que marcantes, diferentes (merki-).

A maioria dos nomes antigos das estrelas e constelações, por um lado, era uma mera tradução literal dos nomes dados a elas no mundo clássico: fiskikarlar, “pescador”, para Órion; kyndilberi, “carregador de vela”, para a estrela Algol; dagstjarna, “estrela do dia”, para a estrela Arcturus; suðrstjarna, “estrela do sul”, para a estrela Vega; Ásar bardagi, “batalha de um deus”, para a constelação de Auriga. Por outro lado, os planetas em tratados de computus receberam nomes bastante relacionados às características dos nomes latinos/gregos, sem, todavia, relacioná-los diretamente aos deuses nativos da Escandinávia e Islândia: Mercúrio = máls stjarna, “Estrela Falante” (ou possivelmente “Estrela que Mede”) Vênus = blóðstjarna, “Estrela Sangrenta” Mars = þrekstjarna, “Estrela da Coragem” Jupiter = meginstjarna, “Estrela da Força”, ou algo como “Estrela Principal”, “Estrela Primordial”, “Estrela Chefe” e Saturno = gnógleiks stjarna, “Estrela da Abundância”. Nenhuma vez a palavra “heimr” é utilizada aqui para definir um “mundo”.

Vale lembrar que existia ainda a palavra “verǫld” em nórdico antigo, cognata de “woruld” em inglês antigo (sobre a qual falaremos adiante), que tem a mesma origem da palavra moderna em inglês (world) e alemão (Welt) para “mundo”, a qual em nenhuma instância é usada para nomear planetas visíveis ou estrelas, nem mesmo os locais mitológicos, mas na verdade algo “material, mundano, do mundo, terreno”, quase no mesmo sentido que cristãos usam para se referir ao não-sagrado, “do homem”, não pertencente ao que eles consideram divino; veja-se o termo “veraldligr” o qual significa além de “mundano”, algo que é “secular”.

Em algumas instâncias famosas no local de heimr, todavia, é usado garðr, como no reino dos Æsir (Ásgarðr) e dos humanos (Miðgarðr) — todavia um garðr é mais propriamente um cercamento, uma região delimitada dentro de cercas, ou ainda uma região terra, no mesmo sentido de heimr, e nem de longe significa um “mundo” ou “planeta”.

 

  1. QUAIS SÃO OS “NOVE” MUNDOS?

Outro grande problema é que apesar da Vǫluspá citar nove mundos ela não os nomeia consecutivamente. Bellows, na nota de sua tradução enumera “Ásgarðr (reino dos deuses Æsir), Vanaheimr (reino dos deuses Vanir), Álfheimr (reino dos elfos), Miðgarðr (reino mediano, onde vivem os humanos), Jötunheimr (reino dos gigantes), Musspellheimr (reino de fogo), Svartálfheimr (reino dos svartálfar), Niflheimr (reino de névoa) e Niðavellir (reino dos anões)”.

Todavia um modelo com nove mundos é quase impossível de ser aceito sem críticas: é possível que svartálfar e anões sejam o mesmo tipo de criaturas, o que tornaria seus mundos o mesmo; alguns modelos consideram isso (e então ou Svartálfheimr ou Nidavellir não são contados), o que nos deixa com apenas oito locais; muitos colocam então Hel(heimr), embora a morada de Hel, em si, já seja parte de Niflheimr, o que nos deixa na impossibilidade de um nono mundo ser conhecido na atualidade.

Principalmente porque vários autores consideram que as diferenças entre os Vanir e os elfos luminosos (ljósálfar) são quase impossíveis de se traçar (elfos e Vanir são ligados à fertilidade, Freyr é o rei do mundo dos elfos, Sól é a “roda dos elfos” Freyr é conhecido por controlar a Sól, sem nem contar a ligação entre os elfos, Vanir e os ancestrais — Freyr como senhor dos elfos e Freyja como senhora das dísir, etc.). Um modelo de nove mundos só se sustenta sem análise apurada. Então ou Snorri e a Edda Poética retrataram um estágio tardio, e com muitas lacunas sobre a mitologia, dos quais apenas sete mundos podem ser nomeados com certeza, ou os nove mundos foram criação de quem registrou o folclore tardio.

Observando que “Middanġeard” (inglês antigo) e “Midjungards” (na Bíblia (!!) de Úlfilas em gótico) foram atestadas como nomes para o mundo terreno, as quais são versões do nome Miðgarðr em nórdico antigo, é possível ter certeza que o conceito de mundo humano como cercamento mediano era algo comum às demais tribos (mesmo a tradução cristã de Úlfilas preservou esse termo, mostrando que ele estava arraigado na mente dos godos). Disso, baseado nas evidências internas, podemos supor que os outros mundos também fossem conhecidos de mais povos germânicos.

Além disso, em pelo menos uma passagem Álfheimr e Jotunheimr são usados para denotar regiões geográficas não tão distantes da Escandinávia, o que sugere que ou a crença nos heimr era bastante dúbia, ou que eles foram vistos como regiões geográficas reais por alguns grupos de pessoas em determinado períodos de tempo. Creio que na verdade os heimar sempre representasse regiões acessíveis geograficamente; todas as passagens corroboram com isso pelos meios de transporte utilizados, mesmo por divindades, para acessar tais locais.

 

  1. ENCANTAMENTO DAS NOVE ERVAS

A terceira parte de nossa análise leva em consideração a única fonte que menciona o assunto, fora das Eddas: o Nine Herbs Charm ou Encantamento das Nove Ervas. Ele foi preservado num manuscrito anglo-saxão de medicina popular chamado Lacnunga, datado do século X (portanto cerca de dois séculos antes das Eddas da Islândia).

Vários elementos pagãos são mencionados nesse poema como o deus Wōden (como o Caolho era chamado por saxões continentais e anglo-saxões na Inglaterra), embora a conversão já houvesse acontecido. Em uma das linhas se lê:

“Chervil e Fennell, dois de muita força,

Eles foram criados pelo sábio Senhor,

santo no céu enquanto estava pendurado;

Ele os colocou e enviou para os sete mundos,

para os miseráveis e os afortunados, como uma ajuda para todos”.

O verso que menciona os mundos diz, em inglês antigo: “sette and sænde on VII worulde“, sendo que worulde é a palavra traduzida por “mundos”. Woruld possuía diversas variantes como weorld, weoruld, weorold, e é a origem da palavra world em inglês moderno. Significava “mundo, terra, estado de existência”; Hana Videen a define como “mundo; mundo material, existência terrena; uma idade; pessoas e coisas na terra”. Woruld é composto de “wer” (homem) e “eald” (idade), significando, literalmente, “idade do homem”. Seu uso está, na grande maioria das referências oferecidas no dicionário de inglês antigo Bosworth-Toller, ligado aos mesmos sentidos que são expressos em nórdico antigo por heimr e verǫld, este último, termo do qual woruld está ligado tanto na forma quanto no sentido, vale repetir.

O fato mais curioso aqui é que a descrição do Encantamento das Nove Ervas anglo-saxão oferece o número sete (“VII” no original) para a quantidade de mundos; o que bate com a descrição da quantidade de mundos que podemos enumerar com certeza resultantes das fontes nórdicas, embora divirja do número oferecido pela Vǫluspá.

 

  1. ÁRVORE DO MUNDO, COSMOGONIA SAAMI, SIBERIANA E XAMANISMO

Em vários povos tribais em que um papel similar ao do xamã siberiano existe (ou seja, um indivíduo que conhece de ervas, histórias mitológicas e folclóricas, dominando o uso do transe, usando de enteógenos, canto, tambores, ou vários desses elementos, com objetivos curativos, protetivos ou de ataque) encontra-se um tema comum: uma árvore como eixo sustentando o universo ou mundo conhecido.

É um tema encontrado no ramo germânico dos povos indo-europeus, nos povos originais da América do Norte e povos siberianos, entre outros. Árvores do mundo específicas incluem a világfa na mitologia húngara, Ağaç Ana na mitologia turca, Modun na mitologia da Mongólia, Yggdrasil (ou Irminsul) na mitologia germânica (incluindo os nórdicos), o Carvalho na eslávica, finlandesa e báltica, Iroko na mitologia Yorubá, Kien-Mu ou Jian-Mu na mitologia chinesa, e na mitologia hindu a Ashvattha (uma Figueira sagrada).

Geralmente há uma profunda relação entre cavalos e árvores-eixo; os quais são pensados como transportadores dos “xamãs” nos vários povos através dos diversos locais da existência. “Yggdrasil” significa literalmente “Cavalo do Terrível” (Yggr é um epíteto de Óðinn); Sleipnir, o cavalo de Óðinn, é o que é usado em viagens por esse deus para alcançar os mundos inferiores.

O xamanismo saami parece ter influenciado a religiosidade dos germânicos. Veja entre os nórdicos as vǫlur e spákonur, videntes de uma maneira bastante fino-úgrica — origem dos saami — e quase nada indo-europeia — origem dos nórdicos). Entre os godos Johannes fala das haljarunnae, de origem incerta mas possivelmente ligadas à helrune anglo-saxã, a qual sugere-se que correria (run) ao submundo (Hel/Halja), de maneira similar às vǫlur e xamãs.

Nos tambores dos saami é possível encontrar o mundo dividido em três partes: superior/celeste, mediana/terrestre e inferior/subterrânea, interligados pela árvore. Esse tema é encontrado em outros povos xamânicos, e de certa forma podemos ver ainda nos mundos nórdicos: alguns estão na copa da árvore (Ásgarðr, Vanaheimr e Álfheimr), outro no meio (Miðgarðr), e outros inferiormente (Niflheimr, Jotunheimr, Musspellheimr, Svartálfheimr e Nidavellir).

 

  1. CONCLUSÕES

Nove ou sete regiões (heimar)? Acho possível que cada tribo germânica tivesse uma ideia diferente de quantas regiões haviam, embora eu creio que sete seja o número mais comum, pelas poucas evidências que temos.

Os heimar certamente não eram mundos no sentido moderno, mas regiões, locais, faixas de terra, e eu chutaria, figurativamente interligados por Yggdrasil através da associação de árvores tocando o céu (que na época podia ser intra-atmosférico, o topo de uma árvore), e as raízes, ligando ela a outros locais, exatamente como uma árvore real, mas que poderiam ser acessados fisicamente como qualquer outro local. É válido lembrar que o mundo não era completamente conhecido nas suas fronteiras geográficas, o que abria espaço para a mitificação de regiões distantes, que poderiam ser então transformada em locais mitológicos (como Jotunheimr).

Se essas regiões eram porções de terra separadas totalmente, com um “vácuo” entre elas é algo que acho pouco provável. Vejo Yggdrasil de uma forma bastante ligada com a materialidade, não como “dimensões” que se sobrepunham, uma vez que essa ideia é bastante recente e me parece pouco ligada à ideia dos mortos vivendo literalmente no subsolo, que era chamado metaforicamente de Hel.

O número de mundos como nove, todavia, é dificil porque é impreciso: perdemos informações demais e jamais saberemos quais eram os nove mundos da época heathen antiga. Todavia, pelo menos sete podem ser apresentados com certeza, o que bate com a descrição anglo-saxã.

Creio que um modelo de regiões superior/mediana/inferior, com regiões menores representando os reinos divinos, humanos e dos mortos seja uma boa alternativa, e a qual eu tenho usado. Na prática, se a matéria envolve deuses e mortos — o que sugere a noção germânica de cosmogonia mitológica — então as regiões não são claramente distintas, da mesma forma que São Paulo e Rio de Janeiro estejam ligados, mas ainda assim separados, por exemplo.

Fica a cada um interpretar e incorporar a cosmogonia como quiser em suas vidas; aqui apenas faço a discussão oferecendo uma ajuda que pode — ou não — ser valiosa pra quem a ler.

 

Guardiões Limiares: Dūrupālas

Por Wōdgār Inguing, originalmente postado em Sundorwīc
Tradução de Seaxdēor

Erik Lacharity publicou recentemente um artigo em sua página, Allodium Francorum, que fornece informações sobre deidades francas das entradas (doorway), Francus e Vassus. Este artigo, embora arraigado no modelo franco, fornece um modelo viável para reconstruir um culto limiar (threshold) anglo-saxão paralelo, utilizando Hengest e Horsa nesse papel. Embora fosse supérfluo andar forte demais onde Allodium Francorum já pisou, há alguns paralelos que devem ser abordados sobre o que pode avançar a nossa compreensão deste culto. Continuar a ler

O heathen e a anomia

Por Andreia Marques
Publicado originalmente em Heathen Brasil

Entre os pagãos que eu conheço (e sim, estou ciente da generalização e da limitação da população observadas), torna-se bastante clara a tendência de um desejo por uma vida mais simples. Essa simplicidade geralmente é ligada à vontade por um retorno à natureza, à vida do campo, à relação com o mundo natural e com um estado menos complexo e urbanizado de existência. Continuar a ler