Ēostre, Ostara, Páscoa

Escrito por Andreia Marques
Publicado originalmente em Heathen Brasil

Todo ano, mais ou menos nessa época, inevitavelmente aparece alguém do meio pagão associando a celebração da Páscoa com a deusa saxônica Ēostre (e agora, mais ou menos frequentemente, à deusa Ishtar). Daí surgiu a ideia desse post, para esclarecer algumas coisas.

Primeiramente, é fato que na língua inglesa o que chamamos “Páscoa” se chama “Easter”, e é quase certo que “Easter” vem de Ēostre, significando “aurora”. É fato que havia um mês do ano, Ēosturmōnaþ, que supostamente seria dedicado a esse deusa. Sabemos disso única e exclusivamente através do relato do Venerável Bede, do século VIII, em seu De temporum ratione. Neste relato, Bede diz que os pagãos anglo-saxões celebravam a deusa no mês de Ēosturmōnaþ:

Eosturmonath tem um nome que hoje é traduzido como mês pascal, que já foi chamado assim devido a uma deusa deles, em cuja honra celebravam-se banquetes durante este mês. Agora eles chamam as celebrações pascais por seu nome, nomeando as graças do novo rito, pelo celebrado nome da tradição antiga.

E só. É a única menção associativa feita entre a deusa Ēostre e a Páscoa. Observe que neste contexto não se diz quais são esses banquetes e ritos celebrados à deusa. Não há menção nenhuma a coelhos, ovos ou qualquer outra coisa do gênero.

Séculos depois, Jacob Grimm, em sua Deutsche Mythologie, associa Ēostre à deusa germânica Nerthus, deusa da terra e da fertilidade, ou a uma suposta (e igualmente desconhecida) deusa Ostara, cujo nome, assim como o de Ēostre, seria lembrado através de um mês do ano: Ostermonat. Grimm faz a associação desta deusa com ovos e lebres, e especula que a tradição pascal de ovos e lebres vem dessa deusa. É certo que na Alemanha, até hoje, a Páscoa chama-se Ostern. São os únicos idiomas a estabelecerem essa relação. As línguas escandinavas adotam termos similares ao nosso: Påsk (sueco), Påske (norueguês), Pasen (holandês), Påske (dinamarquês), Páskal (islandês).

A existência de Ēostre como uma deusa recebedora de honrarias ainda é questionada. Existem algumas evidências na forma de topônimos (nomes de locais específicos fazendo referência à deusa), tanto na Inglaterra quanto na Alemanha, a existência de alguns nomes pessoais derivados desses termos.

Em 1950, entretanto, encontrou-se mais de 150 inscrições na Alemanha, em Morken-Haff, referindo-se a Matronae Austriahenae — inscrições votivas em estilo bastante romano, mas que pareciam referir-se a uma deusa ou entidade local, datando do século II. Estas inscrições, em latin, referem-se à deusas Matronas — quase sempre deusas tríplices, representadas juntas, em altares e oferendas votivas.

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Altar para as Mães (matronas, matronae) de Aufania, encontrados sob uma igreja em Bonn, Alemanha. Exemplo de matronae romano-germânicas. Fonte: Wikicommons.

Conclui-se, então, que sabemos muito pouco sobre Ostara, Eostre e as matronas que poderiam estar associadas a elas.

Então, de onde vem a conexão dessas deusas com ovos e coelhos? Simplesmente, de Jacob Grimm — o único a fazer esta associação. Note que Jacob Grimm, folclorista e linguista, traça essa conexão em 1835.

Ovos pintados, decorados e coloridos eram bastante populares desde antes do cristianismo. Ovos de avestruz eram usados como frascos para carregar água desde tempos pré-históricos no Kalahari, o que faz perfeito sentido, pois são de um tamanho adequado e resistentes o suficiente para transportar. Um dos remanescentes mais antigos de tal uso data de 60.000 anos (!), encontrado aos pedaços, mas claramente colorido e decorado.

Da mesma forma, ovos coloridos foram encontrados em tumbas egípcias e sumérias, geralmente ovos de avestruz, de mais de 5000 anos. A tradição de colorir e decorar ovos animais certamente não nasceu com o cristianismo, mas, também, nunca foi exclusiva de um culto ou outro, ou sequer associado especificamente a algum culto. O costume já se encontrava presente entre os cristãos mesopotâmios, que provavelmente continuaram ou adotaram um costume mais antigo.

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Ovo de avestruz decorado com motivos púnicos. Fonte: Wikicommons.

Assim, é bastante provável que esse costume cristão, muito antigo, tenha se espalhado pelo resto da Europa junto com o cristianismo através das igrejas ortodoxas. O ovo também apresenta uma conexão específica com o período de quaresma, que precede a Páscoa, em que o consumo de carne, ovos e leite era proibido, proibição essa que terminava na Páscoa.

Ovos também são associados à celebração de Nowruz, o ano novo iraniano, que existe há pelo menos 3000 anos e era celebrado por vários povos ao redor, nas Bálcãs e no Cáucaso, e por sua vez também é associado ao Zoroastrismo.

A tradição de decorar ovos espalhou-se pela Europa e pelos países eslavos, provavelmente através das igrejas ortodoxas russas, e o ovo foi oficialmente associado com a ressureição em 1610, através do Rituale Romanum; texto esse que continha textos bem mais antigos.

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Ovo de Farbergé, ricamente decorado. Fonte: Wikicommons.

E o coelho? Bem, coelhos ou lebres são símbolos de fertilidade desde muito, muito tempo, por motivos óbvios: coelhos se reproduzem rápido e em grande número. No passado antigo, filósofos como Plínio acreditavam que coelhos eram hermafroditas, e que se reproduziam sozinhos; noção essa adotada pelos cristãos, que associaram o animal à Virgem Maria. É bastante comum ver coelhos representados em iluminuras e outras formas de arte cristãs.

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Nem sempre essas ilustrações eram sérias. Ou faziam sentido.

A menção mais antiga relacionando coelhos com Páscoa vem dos luteranos alemães, do próprio Martinho Lutero, e aparentemente o costume, a princípio puramente alemão, espalhou-se pelo mundo e tornou-se bastante popular, suplantando costumes associados a outros animais.

Também não existe nada em específico que associe coelhos a Ostara/Ēostre, além da menção de Jacob Grimm.

Assim, é bastante errôneo dizer a tradição de coelhos e ovos deriva destas deusas, principalmente considerando que a tradição de ovos coloridos pré-data o contato com os povos germânicos, e a tradição de coelhos é antiga e ampla na tradição cristã (e, de forma diferente, na tradição judaica), e especificamente a associação do coelho à Páscoa é muito posterior ao fim do paganismo germânico nestas regiões.

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Ticiano, A Madona do Coelho, 1530, óleo sobre tela. Fonte: Wikicommons.

É bastante provável que, se existia realmente uma deusa com o nome Ēostre (ou uma com o nome Ostara), algo que ainda é questionado, ela era exclusivamente saxônica ou anglo-saxônica, já que não há nem menções nem sinais de sua presença em outros lugares. Não há nada que diga que ovos e coelhos são associados a ela(s), e nem que eram deusas de fertilidade, e não apenas da aurora, como Eos (embora não seja improvável; Rudolf Simek acredita que eram sim deusas da fertilidade).

Eu, pessoalmente, não vejo mal em tal associação, pois o simbolismo do ovo e dos coelhos realmente se presta a isso, o mês associado à deusa era realmente o princípio da primavera (ou do verão, já que os antigos raramente dividiam o tempo em quatro estações, mas em apenas duas: verão e inverno), e ovos e coelhos realmente são associados à fertilidade, renascimento e primavera. Devemos ter em mente que, relativo a qualquer celebração de Ēostre e/ou Ostara, já que não sabemos nada sobre tais celebrações, será uma inovação ou especulação moderna.

Mas, já que não sabemos de qualquer forma, por que não criar nossas próprias tradições (com embasamento, claro)?


Imagem por Annie Spratt, via Unsplash

Irmandade e Visão de Mundo

Escrito por Andreia Marques e publicado originalmente em Heathen Brasil.

É bastante comum ver novos heathens (ou ásatruár, ou até mesmo pagãos em geral), empolgados com a descoberta de outros heathens ou pagãos, cumprimentá-los da maneira: “Hail, irmãos!”

Irmandade é uma coisa interessante. A visão de mundo dos povos germânicos pré-cristão é bastante fundamentada em irmandade, e nos laços familiares. Não é à toa que honramos nossos ancestrais e que quebrar um juramento é uma das piores coisas que se pode fazer. A visão de mundo desses povos era profundamente enraizada na comunidade e na solidariedade mútua intra-tribo, intra-clã, intra-família.

E quando dizemos família, dizemos no sentido mais amplo. Pai, mãe, irmãos, irmãs, tios, tias, primos e primas, e suas famílias associadas, formam a grande e interconectada rede de relacionamentos de um germânico antigo. Essa rede é seu ponto de apoio, onde sua sorte é compartilhada, onde sua reputação importa, onde sua vida e sua fama crescem.

Isso tem consequências. A principal delas é que pessoas fora dessa rede — da sua tribo, da sua família, do seu clã — não necessariamente irão importar muito. Ao contrário, elas podem ser prejudiciais à sua tribo, ou família, ou clã. Assim, respeitando-se as leis de hospitalidade, o estranho é tratado com, no máximo, uma polida desconfiança.

Não será maltratado, claro. Não era bem assim. Mas também não terá a mesma importância ou privilégio que o seu familiar, seu parceiro de tribo, àqueles a quem você deve, direta ou indiretamente, sua subsistência, reforçada pelo ciclo de reciprocidade.

Isso é típico de uma religião que é essencialmente tribal. A tribo é, de certa forma, seu universo.

E isso é também em oposição às religiões universais que, teoricamente, dentro de seu credo, declaram pertencer e abarcar a todos. Assim, todos que a ela pertencem são irmãos; ela é o grande traço unificador.

O que isso tem a ver com o início desse post? Simples. Assumir uma relação próxima com um desconhecido — chamando-o de irmão — é algo bastante contrário à visão de mundo heathen. Estranhos, mesmo que da mesma religião, não são seus irmãos, simplesmente em virtude da religião que professam, porque irmandade é mais importante que isso. É mais profunda que isso. É mais real que isso, dentro do paganismo germânico. Só porque você tem a mesma religião que eu, não significa que nós compartilhamos nada mais.

Isso quer dizer que é uma ofensa enorme chamar os outros de irmãos? Claro que não. As gírias, os informalismos da vida, levam a isso. Mas considerar estranhos realmente como irmãos — isso já apresenta problemas. Nós não somos irmãos sob Odin. Aqui não funciona como “todos são filhos de deus”. Não é assim que o paganismo germânico funcionava, e não há absolutamente nenhum motivo para criar essas relações artificiais — até porque, a diversidade cultural dentro das tribos germânicas existia, e por que não haveria de continuar existindo?


imagem: New Forest National Park, Reino Unido. Foto por Annie Spratt, via Unsplash

Pequenas reflexões sobre a Völva, o conhecimento, e o papel da mulher no heathenismo

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Texto por Sonne Heljarskinn
Postado originalmente em facebook

As völvas são mulheres que nas tribos nórdicas desenvolviam funções *semelhantes* mas não idênticas às dos xamãs. Elas tinham a liberdade de viajar e fazer oráculos, sendo bem recebidas e gratificadas por seu saber. Ainda assim, não nos interessa falar das völvas em geral aqui, mas de uma em particular, tamanha a sua importância: aquela que Óðinn foi buscar no mundo dos mortos, em sua sede de conhecimento.

Descrita na Völuspá, a passagem pode ser uma alusão a mesmo uma viagem “xamanística” – embora não estritamente xamânica – que o deus Caolho faz em busca de sabedoria. O próprio processo de seiðr envolve esse ato de ir ao mundo dos mortos com perguntas em busca respostas – e aqui abre-se uma brecha rápida para mencionar a GRANDE importância de Hel como deusa dos que morreram -, e existe uma grande identidade entre o que a Völuspá narra e aquilo que völvur ou seiðkonur praticam.

Isso dá-nos a oportunidade para uma coisa importante ser notada: é preciso compreender, ainda que ligeiramente, o papel da mulher na sociedade e na Heiðni, ou forn siðr, a antiga ritualística pagã do norte da Europa. Embora mulheres tivessem direito ao divórcio, à propriedade, e em alguns casos ainda pudessem se representar na thing, cabe lembrar que a maioria – mulheres pobres – ainda era forçada a se casar, o que só mudou ligeiramente com a entrada do cristianismo.

Todavia, se a mulher histórica da Escandinávia possui essa complexidade, a Völva que Óðinn chama dos mortos não tem tanta dificuldade em ser compreendida: ela conta a história do nascimento dos nove mundos até o seu fim. E, por que Óðinn a invocaria sem uma razão grande? Como o fato dela testemunhar os fatos que narrara? Essa Völva, essa grande völva, ao contrário das mulheres das religiões reveladas que possuem um papel misto entre o desastre, a irresponsabilidade e que contrastam com uma sexualidade desenfreada, é uma grande sábia fora de todos esses padrões e é procurada por Óðinn tanto quanto Mimir, para fins de aumentar o saber do velho Andarilho.

Essa völva que viu o fogo lamber o gelo primordial, que viu Ymir nascendo, que viu Auðumbla dando-lhe de comer, que viu o primeiro Aesir saindo do gelo a partir das lambidas dela, é a fonte de sabedoria desse poderoso deus, e chama a sua atenção por aquilo que tem a oferecer. Óðinn, como um seiðmann, busca esse poderoso espírito para se instruir.

Assim, a Völva, e aquilo que ela aprendeu mexendo com espíritos é muito útil. Sonhos, viagens, tudo isso serve na hora de contar suas histórias para Óðinn; e ainda assim ela é conhecida só o suficiente para alguém poderoso, mas humilde procura-la. O que a Völva não viu seu conhecimento das teias passadas e presentes do wyrd a faz inferir com precisão cirúrgica do que está por vir.

Pois a Völva precisa ser manifestada naquilo que ela arquetipiza: a poderosa mulher livre, sábia, autossuficiente, dona de si e do conhecimento universal – e perante a qual até mesmo o Furor precisa partir em busca para chegar a um nível de saber superior.

O que caracteriza o Paganismo Germânico?

Muitas pessoas procuram as diretrizes que compõem o paganismo germânico (ou “Ásatrú”, “Forn Sed”, entre muitos outros nomes), aquilo que o estrutura e guia, e assim se voltam para as Nove Nobre Virtudes. Cunhadas na década de 1970 pelo grupo Odinic Rite a partir do Hávamál, considero-as muito gerais e universais para serem tomadas como autenticamente pagãs. Por isso, discutirei aqui o que para mim são as características principais do paganismo germânico, que o diferenciam não apenas de outras religiões como também de outras manifestações pagãs.

Imagem destacada: lemuren

Uma das principais características do paganismo germânico desde eras antigas é justamente uma que torna difícil de apontar o que definitivamente o compõe: a pluralidade. Tribos e condados vizinhos poderiam seguir o mesmo panteão, mas com ritos, enfoques e costumes completamente diferentes; e hoje em dia, esta liberdade ainda é buscada e mantida, com diversos grupos usando variadas abordagens. Para uma religião lembrada como sem dogmas(ou pelo menos muito poucos) e sem livro sagrado, pode ser difícil traçar suas diretrizes. Por isso, é muito importante destacar que embora observe as características que aponto aqui em diversos grupos e lugares, elas não são seguidas a risca por todos e podem vir da minha própria visão do paganismo.

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Valhalla, por Carl Emil Doepler (1905)

A primeira de todas é uma relação mais direta com os deuses. Durante a Era Viking, os povos escandinavos não possuíam sacerdotes; os ritos familiares eram comandados pelo pai e a mãe, enquanto os públicos eram responsabilidade da nobreza e normalmente conduzidos pelo jarl local. Quando a figura do goði ougyðja (respectivamente, “sacerdote” e “sacerdotisa”) surgiu na Islândia, era mais como um cargo político que espiritual. Embora muitos grupos atuais usem estas nomenclaturas para seus líderes, eles não podem falar pelos deuses; cada um deve buscar sua própria forma de estabelecer um relacionamento com os deuses, sem a necessidade de um intermediário. Muitos dizem que o Ásatrú possui uma relação de amizade com seus deuses, onde ambos negociam os termos da relação.

O Ásatrú também não possui um objetivo transcendental; seu enfoque está no presente. Por suas origens a partir de um povo pragmático e a noção de Wyrd, o pagão germânico não está buscando uma iluminação ou preocupado com um destino após sua vida terrena. O “aqui e agora” é considerado uma dádiva, e Miðgarðr um mundo belo e sagrado. O culto à natureza também é uma característica bem presente, herdada da vida agrária dos escandinavos e mantida pelo respeito à Miðgarðr; este culto pode nos ensinar sobre os padrões cíclicos do mundo e da própria vida, no qual a morte é vista como parte e apenas uma “mudança de estado”, sem haver uma possível punição nos esperando após.

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Outra herança dessa época que se mantém presente é a valorização da comunidade. Este valor era expressado pela palavra friðr, que pode ser entendida como a harmonia entre o indivíduo e o seu entorno – sua família, o local onde ele mora e o sagrado. A partir disso e da noção de Wyrd também podemos tomar como característica a observação do peso de nossas atitudes. O pagão nórdico precisa sempre refletir as consequências de seus atos, tanto como Orlög pessoal quanto na forma que irá repercutir no ambiente externo. Por isso, ao causar danos para alguém, espera-se que um pagão tome atitudes para reparar seu erro ao invés de apenas esperar ser perdoado.

Estas são apenas algumas das características que compõem e orientam o paganismo germânico. Novamente reforço que são baseadas em minha observação e vivência como Ásatrú, e não devem ser levadas como definições absolutas. Em cada local que se manifesta o paganismo se adapta, adquirindo novos aspectos adotados pelas pessoas que o trazem. É importante nos atentarmos àquilo que o fazem único, diferente inclusive de outas religiões pagãs.

Sjáumst bráðlega!

Sunnōnizfulką Herþaz: Um lar Heathen

Já faz pelo menos seis anos que iniciei minha caminhada através do paganismo. Nessa jornada, sempre habitando fora dos grandes centros de convergência de pessoas que se autodenominam pagãs, fui obrigado a seguir um caminho solitário, e , não importa quão paradoxal isso que seja, extremamente dependente da internet.

A grande verdade é que durante a maior parte da minha curta caminhada no paganismo eu entendia muito pouco do que era ele à exceção de mitologia. Deus disso, deus daquilo. Isso se devia principalmente a um grave problema: minha dependência praticamente exclusiva do português como fonte de informação. Continue reading “Sunnōnizfulką Herþaz: Um lar Heathen”

Então você quer ser um heathen

Escrito por Räv Skogsberg em 2 de Fevereiro, 2017 (trad. por Wander Steyner)

Recentemente, em um grupo do Facebook do qual faço parte, um amigo me fez uma pergunta: “Digamos que alguém se interesse em se tornar Pagão Nórdico; que conselhos e sugestões você daria?” Este é um tema que considero muito importante, e como respondemos a essa questão diz muito do que o Paganismo representa para nós. Sendo Pagão Sueco, há coisas para as quais minha resposta não funcionará em outros países – diferenças societárias e culturais podem interferir, ou a forma como o Paganismo funciona nesses lugares pode ser muito diferente. Ainda assim, vou arriscar.

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(Claro, essa não é a única forma de se tornar um heathen, se é que preciso dizer isso…)

Sempre defendo que devemos iniciar praticando, em vez de nos atolarmos de pormenores religiosos. A Europa e as áreas sob o controle europeu foram fortemente influenciados pelo Cristianismo nas questões religiosas; talvez possamos até afirmar que nosso entendimento coletivo do que seja religião tenha sido amplamente moldado pelo Cristianismo, e em particular, seu foco na fé. Principalmente no nordeste da Europa, onde o Protestantismo domina há séculos, enfatizando o “somente pela fé”, existe uma tradição em desconsiderar coisas como os sacramentos e as práticas mais “mágicas” em favor do simples diálogo. E conversar sobre o que as pessoas deveriam acreditar. Em quê é certo ter fé? Isso leva muitas pessoas interessadas no Paganismo a fazerem perguntas sobre determinadas coisas em que acreditamos, esperando que eu os convença, por ser representante de uma organização Pagã, de que tenho todas as respostas. Ou que eu recomende um livro que as tenha.

Quem quiser entender o Paganismo, precisa começar com ações, fazendo coisas tipicamente pagãs. A meu ver, ninguém pode superestimar a importância da prática. Eu defenderia que a prática é a parte mais importante de se tornar um Pagão. Nossa religião requer o fazer. Isso não significa, como alguns críticos do Paganismo alegariam, que não acreditamos, mas que a fé é uma questão bastante pessoal. A religião pagã tem um vão de milhares de anos, e as crenças variaram muito com o tempo e entre lugares. (Assim como, não vamos esquecer, da prática, que quase exclui a abordagem do Jeito Único de Fazer as Coisas na religião, da mesma forma). Mas, o Paganismo nunca foi uma religião de poltrona. Apropriar-se de uma abordagem puramente teórica e filosófica para o Paganismo não é ruim, mas se isso é o que busca, essa publicação não será de muito interesse para você, receio dizer.

 

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maypole (mastro cerimonial) e a högr de nosso rito de Midsummer

Mas, como começar a fazer coisas Pagãs, então? Mesmo sendo totalmente verdadeiro dizer que “você pode fazer do jeito que quiser”, também é verdade que essa não é uma ajuda muito útil. Dizer isso significa validar e empoderar aquele que pergunta a se permitir assumir responsabilidades por suas próprias conexões com os deuses, mas por muitas vezes é apenas confuso e paralisante. Quem nunca viu um blót ou qualquer coisa parecida pode se perder completamente quanto ao que podem fazer. Por isso, normalmente aconselho que tentem encontrar um grupo existente – blotlag – em sua área e peça permissão para participar de um blót com eles. Aprender na prática a tradição viva de um grupo que, de fato, atua, foi o único jeito por milhares de anos. Um grupo com alguns poucos anos de existência, no mínimo, terá encontrado formas que funcionam para eles e terá desenvolvido relações com os espíritos locais e certos deuses, o que facilitará as coisas para um iniciante nos caminhos Pagãos. Mesmo não querendo continuar em um grupo, a experiência e o conhecimento prático obtidos são inestimáveis quando praticamos sozinhos.

Claro que nem todos os grupos são abertos para estranhos, e mesmo que sejam, pode não ser o grupo certo para você. Há muitas coisas que podem dar errado em um grupo, e se seu instinto sinalizar que há algo errado, você provavelmente deveria seguir essa sensação. Mas, as complexidades de se juntar a um grupo são uma discussão muito mais longa, para a qual não temos espaço nessa postagem.

Talvez não haja um grupo nas redondezas de onde mora, ou os grupos à sua volta não estejam admitindo novos membros, ou simplesmente não gosta das pessoas envolvidas. Em vários países, existem organizações que realizam grandes blóts, abertos para qualquer um participar, sejam membros ou não. Estes blóts tendem a ser menos frequentes do que aqueles realizados por organizações locais, e devido ao número de participates, podem ser bem diferentes de blóts feitos sozinho em sua casa. Contudo, numeros maiores também significam não ter que se adequar a um círculo existente de amigos, e caso não goste das pessoas ou do ambiente, você pode simplesmente sair de fininho sem ter que se preocupar em estar ofedendo alguém. Ao mesmo tempo, você pode ter uma demonstração de como um blót é feito, e organizações estabelecidas tendem a ter pessoas mais esclarecidas, abertas a responder suas perguntas, ou mesmo um corpo clerical treinado, cujo trabalho é fazer exatamente isso. Mesmo que você tenha que viajar para longe a fim de conseguir algo assim, cruzar o país na estrada não deveria detê-lo. Participar e passar pela experiência de um blót, nos níveis tanto espritual quanto prático, lhe dirão muito mais do que qualquer leitura poderá dizer.

hc3b6stblot20162Pode haver milhões de razões para você não fazer nenhuma das coisas sugeridas acima. Isso significa que não poderá realizer blóts para os deuses nórdicos? Claro que não. Acredito, de verdade, que perderia a oportunidade de ver o que boa parte do Paganismo moderno representa, a experiência compartilhada e o conhecimento acumulado de tradições vivas, mas existem muitos Pagãos que vivem à margem, fazendo suas coisas do seu jeito e sendo felizes com isso. Se acabar fazendo isso, seja por escolha ou por necessidade, meu conselho é que teste formas diferentes de abordar os deuses, formas diferentes de realizer um blót. Descubra o que funciona para você.

Comece com coisas simples, muito simples, e construa a partir disso. Encontre um local onde não será perturbado, um lugar que te faça se sentir bem, e traga uma pequena oferenda. Encontre uma árvore, uma pedra que te passe uma sensação boa, e pense nela como um local de encontros. Um local onde possa se encontrar e ser encontrado. Converse com o lugar, com os deuses, e faça isso em voz alta, se puder. Fale de coração aberto ou escreva algo antes, mas que seja de cunho pessoal. È a sua apresentação para os deuses, afinal de contas. Você pode se sentir bobo, para começo de conversa, mas isso vai passar depois de um tempo. Diga os nomes dos deuses que quer conhecer, cumrpimente-os, diga-lhes quem você é, e que lhes traz uma oferenda. Pendure-a em um galho, jogue-a num lago, ou deixe-a sobre a pedra. Enterre-a, ou queime-a em uma fogueira. Tenho certeza de que você descobrirá o que fazer, mas lembre-se de não oferecer algo que possa ser prejudicial à natureza, você está lá para adorar a deuses que são inerentes à natureza.

Você pode não sentir nada na primeira vez (ou vezes), ou pode se surpreender com a intensidade da experiência. De qualquer forma, haverá momentos em que nada parecerá acontecer, mas persistência na prática é o que nos leva onde se quer, no fim das contas. Tente fazer as coisas de maneira diferente e veja o que funciona melhor para você. Daí então, será o momento de pesquisar. Não conheço nenhum bom livro de iniciação para Pagãos – mas há muitas sugestões pela internet. Teste-os. Continue fazendo o que funcionar, e descarte o resto. Você é o dono do seu nariz, e você está fazendo as coisas da maneira certa.

A Nossa Religião É Uma Religião Agrária

Publicado originalmente em Wyrd Designs (Https://wyrddesigns.wordpress.com/2016/02/16/ours-is-an-agricultural-religion/)

Traduçao de Heitor Gomes

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A nossa religião não é apenas uma religião de guerreiros, mas infelizmente isso é o mais alardeado. Nossa religião é uma religião AGRICULTURAL. Se você verdadeiramente examinar todos os nossos ritos e datas sagradas, eles se enfocam em vitalidade e sobrevivência, e portanto, especialmente nas principais épocas sagradas, conectam com momentos chave de uma cultura agrária, da colheita até a organização dos animais. Sim, nós honrávamos os ancestrais e usávamos nosso tempo honrando aqueles que morreram em bom serviço à comunidade. Mulheres que morriam no parto eram TÃO altamente honradas quanto homens que morriam em batalha em algumas comunidades. Um poeta ou skáld poderia ter honras tão altas quanto qualquer guerreiro, etc… Continue reading “A Nossa Religião É Uma Religião Agrária”