O Andarilho (The Wanderer) — Tradução

Tradução por Seaxdēor 

Na imagem, páginas iniciais do manuscrito onde o poema foi encontrado.

O Andarilho (The Wanderer) foi encontrado em Exeter,  na Cathedral Chapter Library, e está sob o número MS 3501, o Exeter Book. É datado do final do século X, e possui 115 linhas de verso aliterativo. O poema originalmente não possuía título e recebeu o nome atual a partir do medievalista Benjamin Thorpe. O poema, apesar do teor cristão em alguns momentos, trata da tristeza de um homem que conheceu as alegrias do salão de hidromel e de uma tropa de guerreiros, e perdeu tudo isso, e conta da dor e sofrimento que passa sob os desígnios da Wyrd, que para si haviam sido cruéis, logo, explicitando problemas de uma mente ainda profundamente imergida no imaginário pagão. É provável que está seja a primeira tradução deste poema anglo-saxão para o português, feita mesclando os significados em inglês antigo do original e inglês moderno.

 

Tradução para o português:

Frequentemente o solitário encontra graça para si mesmo
E a misericórdia do Mesurador, apesar de que ele, perturbado em espírito,
Através dos caminhos de água precisa ansiar
Tocar com suas mãos o mar congelantemente frio,
Percorrer os caminhos do exílio. A Wyrd sempre acontece como ela precisa!

Assim falou o andarilho, consciente das dificuldades,
Das ferozes matanças e a decadência dos entes queridos:
“É comum que a cada manhã eu precise
Lamentar minha dor; não há agora ninguém
A quem, dos meus mais íntimos pensamentos, eu ouse
Falar claramente. Eu sei certamente
Que é dos homens um nobre costume,
Que seu baú do espírito (mente) mantenha preso,
Agarre a sua câmara do tesouro (pensamentos), pense como quiser.

O espírito cansado não pode resistir à Wyrd,
Nem pode uma triste mente oferecer ajuda.
Os ávidos por justiça certamente prendem
A tristeza em seu cofre do peito (coração).
Então eu, miseravelmente triste,
Separado de minha terra natal, distante de meus nobres parentes,
Preciso atar meu espírito com grilhões.

Já faz anos muito distantes que meu amigo de ouro (senhor)
Eu cobri com a escuridão da terra; e eu, miserável, dali parti
Sobre a banda das águas, triste pelo fardo dos negros invernos.
Triste eu procurei pelo salão de um provedor de tesouros,
Onde eu pudesse encontrar, longe ou perto,
Alguém, no salão de hidromel, que pudesse conhecer meu povo
Ou quisesse confortar a mim, aquele sem amigos,
Entreter-me com deleites. Aquele que tentou isso sabe
Como cruel é ter a dor como companheira,
Para aquele que tem poucos amados amigos:
O caminho do exílio o espera, e não o ouro entrelaçado,
Sentimentos gélidos, e não a glória terrena.
Ele se lembra dos guerreiros do salão e do recebimento de presentes
Como na juventude o seu amigo de ouro (senhor)
acostumou-o aos banquetes. Toda felicidade morreu!

E então ele sabe isso, aquele que precisa
renunciar por um grande tempo
os conselhos
de seu amado amigo:
Então tristeza e sono
ambos juntos
comumente atam
o triste solitário.
Ele pensa em sua mente
que ele abraça e beija
seu senhor,
e que em seus joelhos deposita
suas mãos e sua cabeça
Como se, em tempos,antes
em dias que se foram,
ele aproveitasse o assento de presentes (trono).
Então o homem sem amigos
acorda novamente,
Ele vê diante de si
devolutas ondas
Aves do mar se banhar,
alisando as penas delas,
geada e neve caem,
misturadas com granizo.

Então são as mais pesadas
as feridas do coração
dolorosas com ânsia pelo seu senhor.
A tristeza é renovada
quando a mente levanta
a memória dos parentes;
Ele sauda alegremente,
ansiosamente examina
as companias dos homens;
elas sempre escapam a nado.
Os espíritos dos marinheiros
nunca trazem de volta muito
na forma de discurso conhecido.
O cuidado é renovado
por aquele que precisa enviar
bastante comumente
sobre a guarnição das ondas
um desgastado coração.

Eu certamente não consigo pensar
porque meu espírito
não se enegrece
quando eu pondero sobre toda
a vida dos homens
através desse mundo,
Como eles repentinamente
deixam o pavimento (salão)
os orgulhosos þeġnas.
Então essa terra média,
um pouco a cada dia,
tomba e cai –
Logo o homem
Não pode-se chamar sábio antes que ele tenha
compartilhado invernos no mundo.
Um homem sábio precisa ser paciente,
Ele não deve nunca ser demasiadamente impulsivo
nem demasiadamente apressado para falar,
nem um guerreiro demasiadamente fraco
nem demasiadamente imprudente,
nem demasiadamente medroso, nem demasiadamente risonho,
nem demasiadamente ganancioso por prêmios,
nem muito ansioso por gabar-se,
antes de ver claramente.
Um homem precisa esperar
quando ele pronuncia juramentos,
até que aquele de coração orgulhoso
veja claramente
se o intento do seu coração
vá mudar.
Um sábio herói precisa perceber
como terrível deve ser
quando toda a riqueza deste mundo
encontra-se na imundície,
como é agora em vários lugares
através dessa terra média
muros encontram-se,
golpeados pelo vento,
cobertos com gelo,
construções arrasadas por tempestades.
Os salões decaem,
os seus senhores mentem,
privados de alegria,
toda a tropa caiu,
os orgulhosos, pela parede.
A guerra levou alguns,
carregou-os pelo caminho deles,
um, a ave levou-o
pelo profundo oceano,
um o lobo cinzento
compartilhou com a morte,
um, o da triste face,
o homem enterrado
numa tumba.
E então ele destruiu essa cidade,
ele, o Criador dos Homens,
até que privado do barulho
dos cidadãos,
o antigo trabalho dos gigantes,
tornou-se vazio.

Ele que pensa sabiamente
sobre esta fundação
e ponderou profundamente
sobre esta negra vida,
sábio em espírito,
lembrou-se comumente de longe
muitos conflitos,
e disse estas palavras:

Onde está o cavalo? E onde está o cavaleiro?
Onde está aquele que dá presentes?
Onde estão os assentos do banquete?
Onde estão as diversões do salão?
Ah, pelas canecas brilhantes!
Ah, pelo guerreiro com armadura!
Ah, pelo esplendor do príncipe
Como aquele tempo se foi,
negro sobre a cobertura da noite,
como se ele nunca tivesse existido!
Agora levanta-se no traço
da amada tropa
uma muralha, maravilhosamente alta,
envolvida por uma serpente.
Os guerreiros levados
pela glória das espadas,
as armas ávidas por matança,
a famosa Wyrd,
e as pancadas de tempestades
estes precipícios rochosos,
a geada caindo
agrilhoa a terra,
o prenúncio do inverno;
Então a escuridão vem,
as sombras da noite se aprofundam,
do norte vem
uma bruta tempestade de gelo,
maliciosa, contra os homens.
Tudo é problemático
neste reino terreno,
a Wyrd muda
o mundo sob os céus.
Aqui o dinheiro é passageiro,
aqui o amigo é passageiro,
aqui o parente é passageiro,
toda a fundação deste mundo
passou a desperdiçar-se!

Assim falou o homem sábio em sua mente,
onde ele separou-se em conselho.
Bom é aquele que mantém sua fé,
E um guerreiro numa deve falar
a dor do seu coração muito rapidamente,
a menos que ele já conheça a cura –
um heroi precisa agir com coragem.
É melhor para aquele que procura misericórdia,
consolação do pai dos céus,
onde, para nós, toda permanência repousa.

 

Fontes:

http://www.anglo-saxons.net/hwaet/?do=get&type=text&id=Wdr

http://faculty.arts.ubc.ca/sechard/oewand.htm