Sobre a “mæġen”

Postado originalmente por Sundorwic.
Tradução de Sonne Heljarskinn

No seguinte artigo, exploraremos o conceito de mæġen, comparando-o com conceitos metafísicos semelhantes, a fim de obter uma entendimento mais próximo de como os praticantes modernos de Fyrnsidu (antigos costumes, paganismo) podem entender a mæġen.

MÆĠEN (substantivo neutro)

Pronúncia: MAIN. Poder (might), força (force), força (strenght), poder (power), vigor, eficácia, virtude, faculdade, habilidade [1]

Dentro do corpus de textos do inglês antigo, mæġen é usada para transmitir o significado de força física e metafísica. Os estudiosos modernos costumavam empregar “sorte” (luck) como uma interpretação para mæġen ao tentar encontrar um termo vernáculo moderno adequado e, ao fazê-lo, reduziram a definição de mæġen para a ocorrência de uma casualidade fortuita.

Em seu trabalho principal, We Are Our Deeds, Eric Wōdening aprofunda-se em mæġen como um conceito metafísico e o explica da seguinte forma:

“Pelo menos, sabemos que todos os seres vivos a possuem, dos insetos aos homens aos deuses (a asmegin, que Þunor [Thor] tem em abundância). A mæġen pode ser transferida de pessoa para pessoa; por isso, vemos os reis emprestando spēd (outra palavra para mæġen) aos seus homens antes de entrar em qualquer empreendimento importante. Um homem também pode perder mæġen através de várias circunstâncias. Finalmente, a mæġen poderia ser manipulada através das várias artes metafísicas, como galdor e seiðr“. [2]

Com base nesta visão de mæġen como uma força penetrante e metafísica, agora podemos extrair ideias de conceitos comparáveis como a orenda dos iroqueses, a mana dos polinésios e o qi chinês, para explicar a mæġen como uma importante faceta da religião anglo-saxônica.

Orenda

Nas religiões iroquesas e huron, orenda é a força espiritual inerente a todas as coisas. Perpassa tanto o animado como o inanimado, e todas as atividades na natureza foram vistas como a “luta incessante de uma orenda contra outra, proferida e dirigida pelos seres ou corpos de seu meio ambiente”. [3] Orenda é o poder por trás da adivinhação e profecia, Bem como bênçãos e maldições. Um vidente ou um xamã com uma abundância em orenda inerente era mais apto ao lançar feitiços e evitar pessoas maléficas. Do mesmo modo, um caçador com orenda forte conseguia superar sua presa se a orenda da criatura em questão fosse menor. Os fenômenos naturais também possuíam orenda, já que as tempestades eram a consequência da orenda que se apresentava. Otgon é o termo aplicado à orenda quando é usada com intenções maliciosas e malignas.

“Essa vida é uma propriedade de todos — incluindo as rochas, as águas, as marés, as plantas e as árvores, os animais e os homens, o vento e as tempestades, as nuvens e os trovões e os relâmpagos, os meteoros rápidos A luz benigna do dia, a noite sinistra, o sol e a lua, as estrelas brilhantes, a terra e as suas montanhas — é um postulado fundamental para a filosofia cosmológica do homem selvagem; e, como concomitante com isso, o homem primitivo assumiu o pressuposto de que, em todo o corpo de seu cosmos centrado no eu, é inerente um poder místico de diversidade de eficiência e propósito, pelo exercício do qual o corpo coloca sua vontade em vigor e que às vezes age de forma independente, e mesmo adversamente, para o bem-estar de seu diretor ou possuidor”. [4]

Mana

Deve-se notar, uma vez que a mana está ligada a uma variedade de diferentes povos com diferentes crenças teológicas, está além do alcance deste artigo tocar cada variação individualmente. Por motivos de simplicidade, daremos uma visão geral, baseada nos atributos compartilhados de mana entre os povos polinésios.

Nas línguas austronésias, a mana é definida como ‘poder, prestígio ou eficácia’, e é a força espiritual que existe no universo. Como a orenda, a mana não se limita às pessoas, pois objetos inanimados, corpos governantes e lugares também podem possuir mana. Por exemplo, a ilha havaiana de Moloka’i é dito possuir uma abundância de mana, e muitas batalhas foram travadas entre as tribos na tentativa de obtê-la.

A mana também pode ser recebida através de atos e ações [5], bem como através da guerra, nascimento e sexo. Joan Metge descreve a mana de uma pessoa como um “lago preenchido por vários riachos”, em que cada corrente é representativa de um meio diferente de obter mais mana. [6]

Mana era a força prática dos kawai tipuna no trabalho em assuntos cotidianos. No mundo maori praticamente todas as atividades, cerimoniais ou de outra forma têm um vínculo com a manutenção e o aprimoramento da mana“. [7]

Na cultura melanésia, a mana pode ser dada através de objetos inanimados que são imbuídos de mana através de meios mágicos. Se um caçador bem sucedido dá um amuleto como presente, acredita-se que o destinatário receba uma parte de sua sorte e vigor [8]. Desta forma, podemos identificar semelhanças entre os intercâmbios melanésios e as razões subjacentes ao círculo de presentes germânico.

Qi

Na cultura tradicional chinesa, o qi é a força de vida ativa ou fluxo de energia que permeia todas as coisas e transforma o cosmos em um mecanismo coeso e funcional. Através de uma prática cuidadosa e de um aprendizado avançado, pode-se conseguir ampliar o qi, projetando-o do corpo.

O filósofo chinês Mo Di comparou qi a um vapor, que poderia ser emitido pelo corpo e visivelmente manifestado em nuvens. Ele também sugeriu que o qi de uma pessoa precisava ser protegido dos elementos e poderia ser mantido através de uma nutrição adequada. A escola confucionista produziu vários filósofos que abordaram o conceito de qi. O mais notável entre eles foi Mencius, que sugeriu que o exercício das capacidades morais poderia aumentar o qi, enquanto as forças externas poderiam danificar ou diminuir o qi. [9]

Yuan qi é o princípio vital herdado no nascimento, de acordo com a medicina chinesa. O yuan qi com o qual alguém nasce é considerado finito e esgotável. De acordo com Manfred Porkert, esta essência vital pode ser conservada, mas acabará por ser exaurida no culminar de uma vida. [10] Nisto, podemos estabelecer uma comparação entre qi e mæġen, bem como qi e o conceito anglo-saxão de orlǣg [orlog].

“Céu (visto aqui como a fonte final de todo ser) cai (duo 墮, ou seja, desce para a proto-imanência) como o sem forma. Flutuante, vibrante, penetrante, amorfo ele é, e assim é chamado de Luminária Suprema. O dao começa no Vazio Brilhante. O Vazio Brilhante produz o universo (yu-zhou). O universo produz qi. “[11]

Conclusão: entendendo a mæġen

Embora isso não represente uma lista exaustiva de conceitos semelhantes, certamente serve para fornecer uma compreensão fundamental de mæġen através do estudo comparativo. Atributos fundamentais que vemos em qi ou mana, também vemos no prana dos hindus e na concepção estoica de pneuma, que sugere uma universalidade básica em termos de uma força metafísica penetrante.

No Fyrnsidu, esta força metafísica manifesta-se como uma forma de “potência” (might) ou “poder” (power), que pode ser aumentada através de renome e atos, semelhante ao conceito maori de mana. A mæġen também pode ser aumentada através da troca de presentes, através de ofertas (do ut des) aos poderes sagrados e através da associação com indivíduos ou grupos que possuem mæġen em abundância. Como o yuan qi, a mæġen pode ser herdada. A mæġen ao nascer é determinada pela mæġen coletiva da família em que nasceu. Da mesma forma, nomear um bebê com o mesmo nome um senhor ou guerreiro cuja mæġen era abundante também pode transmitir um pouco dessa mæġen, com o nome tornando-se um presente para em si mesmo.

A mæġen pode ser perdida com atos equivocados ou associação direta com aqueles que os cometem. O mau relacionamento com os Deuses, ou ofertas que não são bem recebidas por eles também podem resultar em perda de mæġen. Um homem ou uma tribo que é rico em mæġen encontrará sucesso, boa fortuna e renome, enquanto o oposto pode ser dito para aqueles que não há suficiente mæġen.

Tendo isso em mente, podemos ver a mæġen como a força exercedora subjacente a toda ação dentro do Fyrnsidu. As oferendas são feitas aos deuses, os deuses retornam as bênçãos sob a forma de mæġen, a mæġen produz um resultado fortuito e repetimos esse processo para novas bênçãos. Assim é o círculo de presentes.

 


[1] Bosworth, Joseph. “An Anglo-Saxon Dictionary Online.” MÆGEN. Ed. Thomas Northcote Toller and Others. Comp. Sean Christ and Ondřej Tichý. Faculty of Arts, Charles University in Prague, 23 Feb. 2012. Web. 8 Apr. 2017.
[2] Wōdening, Eric. “We Are Our Deeds: The Elder Heathenry, Its Ethic and Thew.” White Marsh Press, Baltimore Mariland. Second Edition 2011.
[3] Hewitt, J. N. B. (1902). “Orenda and a Definition of Religion”.40 AMERICAN ANTHROPOLOGIST [n. s., 4, 1902
[4]Hewitt, J. N. B. (1902). “Orenda and a Definition of Religion”. American Anthropologist.
[5] http://www.maori.org.nz/tikanga/default.php?pid=sp98&parent=95
[6] Joan Metge In and Out of Touch: Whakama in a Cross Cultural Context (Victoria University Press, Wellington, 1986) 68 [In and Out of Touch]
[7]https://web.archive.org/web/20100522222543/http://www.justice.govt.nz/publications/global-publications/h/he-hinatore-ki-te-ao-maori-a-glimpse-into-the-maori-world/part-1-traditional-maori-concepts/mana-and-tapu#171
[8] https://en.wikipedia.org/wiki/Mana#In_general_usage
[9] Lau, D. C. (2003). Mencius (Revised ed.). Hong Kong: Chinese University Press.
[10] Porkert, The Theoretical Foundations of Chinese Medicine MIT Press (1974)
[11] Huai-nan-zi, 3:1a/19