Alma/Espírito para Nórdicos e Germânicos

Parte do livro “Primeiros Passos na Ásatrú
Por Seaxdéor

Esse é um dos assuntos mais polêmicos, complicados, e equívocos (ou seja, que tem muitas interpretações) no paganismo nórdico. A reconstrução do conceito de “alma” é extremamente difícil pois parece que não houve muito interesse em se registrar isso, ao contrário dos movimentos espiritualistas modernos, no qual esse conceito desenvolve um papel central. Por outro lado, os relatos são além de escassos bastante parciais e contraditórios.

O problema inicial é: os germânicos parecem não terem um conceito de alma. A palavra sál, cognata do inglês moderno soul, só entra no vocabulário dos povos germânicos a partir do cristianismo e expressa o conceito cristão e ocidental de alma.

Todavia, o conceito de “alma” tem mais algumas complicações. Quando falamos do dividualismo anteriormente, dissemos que a personalidade de cada pessoa era na verdade a personalidade da tribo, o que significa que o que chamamos de “indivíduo”, na verdade, era o que eles entendiam por “família”. Cada pessoa era apenas uma parte de algo maior; e mesmo assim cada pessoa era dividida em várias outras partes, e não era uma consciência ou alma indivisível. O que tínhamos, todavia, eram várias entidades ou seres quase autônomos, que, unidos, formavam cada pessoa. As “partes da alma” não eram exatamente partes, e só podem ser consideradas assim no mesmo sentido que cada pessoa é, ela mesma, parte de um grupo.

O que de mais seguro podemos afirmar aqui é: os germânicos conheciam pelo menos três entidades básicas da alma: uma era a fylgja, a outra a hamingja e a outra, por fim, era o próprio corpo material ou líkr.

O termo fylgja significava “orientação”, “espírito guardião feminino”, “espírito assistente em forma animal”. A palavra hamingja (do nórdico antigo, “espírito guardião” ou “sorte”, “bom destino”) ligava-se a termos como hamfar “viajar na forma de um animal”, hamast “assumir a forma de um animal”, hamr, “forma”, “pele”. Enquanto a fylgja poderia representar o que de mais instintivo e bestial havia na natureza humana, por um lado, e, por outro, o animal protetor (mas não no mesmo sentido dos animais xamânicos!), se materializando e “vasculhando” o caminho que seu dono intenta percorrer, e é invisível para o seu dono, exceto em casos de morte próxima, sendo então um mau agouro ver a própria fylgja. Geralmente ver a própria fylgja é sinal de azar, e morte iminente. A fylgja geralmente morre junto com seu dono, e a morte da fylgja ocasiona a morte do próprio dono.

Já a hamingja pode ser vista como um escudo protetor em torno de seu dono, ou ainda como uma “reserva de energia”, usada em atos mágicos. Hamingja é literalmente “sorte”.

Não é nada estranho que os povos germânicos entendessem o líkr como parte de sua “alma”. Na verdade, eles não possuíam uma noção metafísica de alma, como nós. A disposição dos corpos em enterros fornece evidências de que de certa forma o corpo permanecia vivo mesmo após a morte, e a “alma” não era vista como algo que transcende e apenas cria raízes na realidade. Os povos germânicos aceitavam a realidade como ela era, e, por isso, o corpo integrava de sua parte “espiritual”.

A realidade não era vista como um local de aprendizado, no qual as pessoas cometiam erros, e reencarnavam até aprender a se aprimorar. Na verdade, os antigos povos germânicos simplesmente desconheciam o conceito de reencarnação. Primeiro, pois se a alma não é individual, ela é formada de diversas partes que se soltavam após a morte, dificilmente essas partes se encontrariam todas novamente (algumas inclusive permaneciam no corpo por eras, até sua total dissolução na terra). Segundo, porque os germânicos entendiam que a vida deles continuava através de seus descendentes, e não em ‘reencarnação’. Essa parte que é transmitida familiarmente é a orþanc ou herança. Ela une todos os membros de uma mesma família (podendo ser passada aos que são adotados ou amizades juramentadas, as quais tornam-se laços familiares).

Hamr, por sua vez, é o nome que podemos dar ao conjunto das partes da “alma”, incluindo o corpo. “Hamr” significa literalmente “forma”. Suas partes, incluindo fylgja e hamingja eram entendidas como fazendo parte dessa realidade nossa, uma vez que os antigos desconheciam uma ideia de “multiverso” ou várias realidades coexistindo.

Duas partes que sabemos que permaneciam no corpo até sua dissolução eram hugr “pensamento” e munr, a “memória”. Elas compreendiam a parte mais volátil de nossa existência.

Ættarfylgjur são as “acompanhantes familiares”. As ættarfylgjur é talvez a parte mais individual e autônoma da hamr. Elas estavam intrinsecamente ligadas à sorte de cada pessoa; e quanto mais ættarfylgjur cada pessoa tivesse, mais forte e agraciada ela era considerada. Elas são literalmente as mães ancestrais da família que zelam por uma pessoa até sua morte, ligando-se a outra, após isso.

Önd, por sua vez, é a respiração. É considerada a parte que une todas as outras, uma vez que após a saída do önd do corpo a vida se esvanece. Foi aquilo que Óðinn deu aos humanos quando os criou.

Óðr, intensamente ligado ao öndóðr é aquilo que causa êxtase, é nossa parte que pode ser entendida com tendo capacidade de tocar o divino.

Podemos dividir a hamr em duas partes essenciais: o corpo físico ou corpo onírico, o qual pode viajar através de seiðr, etc. Ele seria composto pelo hugrmunrlíkr, e hamingja. A segunda parte seria o “corpo de respiração”, formado obviamente pelo önd, pelo óðr e pela fylgja. Poderiam fazer parte de ambos o orþanc e as ættarfylgjur.