“Indivíduo” ou “divíduo”?

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Por Gabriel O Dubbhghaill

É inegável que hoje vivemos na era do individualismo. Independente do quão falsa seja a real escolha de nossas características individuais, o fato é que a sociedade é toda orientada para suprir as necessidades individuais através do consumo. A exclusividade é exaltada e o comum é menosprezado.

Não vou entrar no mérito de a humanidade nunca ter sido tão interdependente quanto hoje e que, sendo a autonomia tão mínima, a maioria não é capaz de sequer tentar uma vida independente. O que interessa aqui é a dimensão psicológica da noção de “indivíduo”, que não surgiu na sociedade capitalista contemporânea, mas há muitos séculos.

O indivíduo é aquele que não pode ser dividido, um ser único. Como tal, ele tem começo e fim bem delimitados, assim como limites físicos. Mas será que somos realmente assim? Você não pode ser dividido entre as diversas facetas da vida fragmentada dos dias atuais? As pessoas frequentemente dizem: “fulana é mãe, esposa, trabalhadora, negra, cristã”; somam diversas características para resultar no indivíduo, mas nenhum desses aspectos é exclusivo.

Delimitar o indivíduo também não é simples; a existência de debates, até hoje, sobre quando um ser vivo pode ser considerado um indivíduo, não se deve por falta de conhecimento científico, mas porque é uma questão subjetiva do pensamento de nossa sociedade. O mesmo vale para o momento da morte; com todos esses aparelhos modernos de manutenção da vida, como definir quando o ser vivo deixou de ser um indivíduo e, portanto, está morto para a sociedade?

Os limites físicos, tampouco, são fáceis de definir. As pessoas podem ter partes das outras dentro de si; partes da pessoa podem viver fora dela, mesmo sem estar dentro de outra pessoa. Se praticamente todas as células do nosso corpo são substituídas a cada sete anos e para isso é preciso que toda essa matéria entre no corpo através da alimentação, nós somos mesmo as mesmas pessoas que éramos no passado?

Diante de todas essas evidências “contemporâneas” contrárias, por que a noção de indivíduo é tão arraigada hoje em dia? Uma resposta fácil seria a de que o capitalismo estimula isso para manter sua existência. Mas isso é muito simples e ignora que o individualismo é anterior ao desenvolvimento do capitalismo.

A causa primária, pensando através dos antecedentes da sociedade ocidental, é a religião cristã. Sim, o cristianismo “inaugura” na Europa a ideia de salvação individual, e de lá será imposto à grande parte do mundo. Tal ideia nasceu entre os egípcios e os mesopotâmicos, que viviam em sociedades superpopulosas, cheias de centros urbanos e o papel social de cada pessoa era minimizado na multidão. Na busca de uma resposta para a angústia do apagamento em meio à massa, a resposta de que cada um carregava consigo algo individual, transcendente e imortal – sua “alma” – era um grande consolo. Ao mesmo tempo, as elites precisavam de mecanismos eficientes de controle social; um julgamento após a morte baseado em premissas não subjetivas – mandamentos que eram mais relevantes aos vivos que aos mortos (não roubarás) – funcionava bem para manter a ordem.

Quando a classe dominante hebreia decidiu copiar a estrutura estatal dos vizinhos, ela copiou junto as ideias religiosas. Alguns séculos depois um fenômeno de proselitismo judeu levou essas ideias para todo o império romano e além, resultando no surgimento do cristianismo.

De acordo com suas origens, o cristianismo se manteve como uma religião essencialmente urbana durante todo o império romano. O campo permaneceu inconvertível e a palavra “pagão”, que significava “camponês” em latim, virou sinônimo de “não-cristão”; mas não um não-cristão qualquer, e sim um rústico, bárbaro, incivilizado.

Como esses povos pagãos viam a pessoa em relação ao mundo? Não posso responder por todos, então vou ficar no que conheço – os povos germânicos. Entretanto, é razoável supor ideias semelhantes entre celtas, eslavos, etc.

Podemos dizer que esses povos viam cada pessoa como um “divíduo”; Explico: cada pessoa é formada de muitas partes que se reúnem enquanto ela está viva e se separam após a morte. Comparando à “alma” cristã, o que os antigos pensavam é que haviam várias “almas” em cada pessoa; existia uma mente, dividida entre raciocínio e memória, uma alma que vivia os sonhos, uma que podia sair do corpo para ver coisas, um animal companheiro – que podia informar, mas também podia ser um veículo para a pessoa agir à distância. Mais que isso, havia um “espírito da família”, que acompanhava as pessoas através das gerações e podia se manifestar como uma mulher ou como o animal companheiro. O que mantinha a pessoa viva recebia um nome que remete simplesmente à “respiração”. A mãe amorosa e a guerreira podiam ser manifestações distintas de duas almas em uma mesma pessoa. Os limites entre cada aspecto dessas “almas” não é fácil de delimitar, porém é certo que os antigos viam como coisas diferentes.

A própria criação da humanidade, segundo a mitologia nórdica, é obra de três deuses que deram, cada um, uma característica distinta ao primeiro casal; na Voluspá, uma antiga poesia nórdica, é dito que os deuses animaram dois troncos mortos; eles eram sem “destino” (örlog), então os deuses lhes deram o “fôlego” (önd), o “entendimento” (ód), o “sangue e os modos” (lá e læti) e, por fim, a “boa aparência” (litu góda). Essas palavras podem ter outras traduções; önd pode ser “alma”, ód “inspiração”, “emoção’, litu góda “forma dos deuses”. A dubiedade não é à toa; as partes da “alma” das pessoas eram localizadas no corpo, não eram transcendentes.

Quando a poesia se refere aos troncos não terem örlog (literalmente, “lei externa”, que podemos entender melhor como “destino”) demonstra que só criaturas vivas tem destino. O destino era visto como algo determinado pelas ações dos ancestrais, mas não somente e, portanto, inevitável, cabendo aos vivos encarar o destino com coragem. Não cabia a espera de um milagre nessa forma de pensar.

O “espírito da família” tem relação estreita com o “destino”; passado através das gerações, ele era parte da cada pessoa, sem deixar de ser coletivo. Sendo uma forma de contato com os ancestrais, ele não dispensava o culto aos ancestrais. Enquanto pessoas distintas – alguns ancestrais – podiam ser lembrados por muitas gerações, normalmente após algumas eles entravam na indistinta coletividade, porém sem deixar de serem de uma família específica.

A vida eterna, neste contexto, não era algo imutável; as pessoas não mantinham suas consciências para sempre – elas terminariam quando todos os esquecessem.

O gado morre,

parentes morrem,

do mesmo modo eu mesmo morrerei;

mas o renome

nunca morre

daquele que obtém boa fama.

Hávamál, estrofe 76.

Estas palavras, de outra poesia nórdica – Hávámal -, são atribuídas ao próprio Odin. O senhor do Valhala não diz para você morrer em batalha e ir viver eternamente junto a ele, mas sim que a parte de você que nunca vai morrer é aquela que obtiver fama entre os vivos. Isaac Newton, o astrólogo, morreu há tempos; já o Físico vive e provavelmente ainda viverá muito.

A manutenção de sua existência após a vida era tão ligada aos vivos que uma forma de “punir” as pessoas que prejudicaram a família ou comunidade era não os enterrar junto ao resto da família, nem os prestar culto. Ser banido da comunidade era a pior punição, até para os mortos.

Não quero dizer aqui que os antigos não tinham ideias mais concretas da vida após a morte; tinham, mas se você fosse importante o suficiente para receber um enterro específico que o levasse para o “reino dos elfos”, ainda assim você seria um ancestral cultuado como tal até o dia em que ninguém lembraria seu nome e você se tornaria um elfo qualquer. Morrer em batalha poderia te fazer um Einherjar, um guerreiro que lutaria ao lado de Odin no fim dos tempos; mas quando você fosse esquecido, você seria só mais um Einherjar. Lembrar os mortos era a forma de mantê-los com uma identidade distinta.

O “divíduo” existia, portanto, de forma relacional; não apenas pessoas humanas, mas animais, plantas, rochas e formações geográficas eram igualmente “divíduos”. Uma montanha podia ser uma ”giganta” esposa de uma divindade, sem deixar de ser a montanha, sem deixar de ser a morada de “anões” e árvores cultuadas de forma separada dela, e sem deixar de ser parte da terra, que era em si a “giganta” Jörd.

É importante ressaltar que essa visão não equivale às ideias transcendentais de que somos uma parte de um todo unificado, ideia antiga em algumas religiões e bastante propagada em alguns meios neopagãos. Não existe um todo, os próprios deuses morrem e dão lugar a seus filhos; eles não escapam do destino, não retornam para um todo ou um vazio, eles vivem através de seus descendentes e um dia podem ser esquecidos.

Também não se trata de um coletivismo que oprime as pessoas como em algumas ideias políticas contemporâneas; a constatação de sermos “divíduos” não torna o coletivo superior – o coletivo também é divíduo. Em outras palavras, as coletividades antigas não eram transcendentes; se as partes que a mantinham se separassem, ela também morria.

Talvez a conversão das elites pagãs germânicas ao cristianismo tenha sido mais rápida do que a da população rural geral devido à esta ideia de que os deuses morrem.

Em detrimento ao culto a deuses cuja própria tradição afirmava que iriam morrer, eles aderiram ao Deus imortal cristão, para viver para sempre como indivíduos – algo que seria agradável ao pensamento da aristocracia. Com isso não quero negar que houve resistência; houveram verdadeiras guerras, mas as preocupações da aristocracia foram mais rapidamente supridas pela igreja que as dos camponeses. A memória dos ancestrais, por exemplo, era mantida graças a pedras erguidas em suas homenagens. Nunca antes do cristianismo se ergueram tantas dessas pedras na Escandinávia; a grande maioria possui o desenho de uma cruz e um “que Deus o tenha” após o nome do morto. Alguns séculos depois a prática se extinguiu numa aristocracia devidamente cristianizada. A maioria das pedras foi parar em construções, inclusive de igrejas, e os ancestrais foram esquecidos.

Já os camponeses não podiam ver as coisas assim; eles não podiam ver a montanha, nem a nascente do rio morrerem; foi preciso a proibição com uso da espada para fazer com que eles deixassem suas práticas e adotassem a prática cristã. Após muitas gerações o individualismo se estabeleceu e ainda assim foi somente com a urbanização generalizada que ele triunfou sobre as coletividades camponesas.

Evidente que a situação de hoje é distinta. Tamanha é a visão individualista que não só os cristãos, mas ateus, pessoas “espiritualizadas” e pagãos das mais variadas origens são individualistas. De fato, todos somos, porque fomos criados assim; dificilmente alguém nascerá diferente disso nesta sociedade. Mas se pensarmos bem, nunca fomos indivíduos; sempre “divíduos”, independente de ideias pessoais. Se começarmos a mudar as ideias e as práticas hoje, no futuro é possível que o destino de nossos descendentes seja diferente do nosso.

 

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