Ásatrú, Odinismo, Heathenry: O que diferencia esses movimentos?

Daniel Seaxdéor

Existe uma grande confusão dentro do paganismo germânico brasileiro pois os diversos movimentos que surgiram lá fora têm apenas reflexos aqui, e mesmo lá fora as informações não são muito fáceis de se obter. Algum tempo atrás escrevi sobre as diferenças nos diversos movimentos neopagãos germânicos de uma perspectivas histórica (link). Aqui no Brasil as organizações e grupos sempre usaram os termos ásatrú e odinismo como equivalentes. Por isso várias pessoas pensam que os termos ásatrú, odinismo, heathenismo, etc, são todos intercambiáveis entre si; o que não é exatamente verdade onde de fato eles acontecem, fora do Brasil. Aqui temos várias tentativas de se espelhar ou criar novos movimentos, e comumente as filosofias iniciais dos vários movimentos do neopaganismo germânico são esquecidas e desconhecidas.

Vou explicar a história do começo aqui: o Neopaganismo germânico é composto por todos aqueles que se voltam ao culto de divindades, ou seguem a visão de mundo dos povos germânicos pode ser considerado como englobado nesses espectro e ser chamado de neopagão germânico.

Dentro do neopaganismo germânico, todavia, existem subdivisões: existe o odinismo, a ásatrú, o theodismo, tribalismo heathen, irminismo, urglaawe, armanismo, etc. Cada um desses movimentos surge em um momento distinto, em locais totalmente distintos, com objetivos distintos, muito embora todos se digam cultuadores dos antigos deuses do norte da Europa.

Ou seja, todos eles fazem parte do “espectro” do neopaganismo germânico. Mas não é porque um odinista é um neopagão germânico que ele é um theodista. Não é porque um heathen tribal/heathen reconstrucionista é um neopagão germânico que ele é um irminista, ou um ásatrúar, ou um praticante urglaawe. Analisemos o surgimento de cada movimento:

A ariosofia surgiu no fim do século XIX na Áustria com Guido von List. Essa ideologia pouco se distinguia do ocultismo tradicional do ocidente e possuía um forte apelo racial. Uma das principais características aqui é que von List considerava o monoteísmo de Wotan/Odin como a religião superior das elites arianas segundo seu dizer, e o politeísmo, pertencia às massas dominadas por essa elite. O misticismo de von List casava com o ambiente antissemita e anti-iluminista alemão da época e viria a influenciar o nacional socialismo. Segundo seus criadores, o movimento estava revivendo a religião dos antigos germânicos.

Principais características:

  • Surge baseado no romantismo alemão e negação do iluminismo
  • Baseado em misticismo e ocultismo anterior, maçonaria e rosacruz
  • Teologicamente, negava a realidade, em ato, foi voltada mais à politicagem proto-nazista
  • Racismo e proto-nazismo
  • Pouco rigor histórico
  • Odin é o deus superior dos líderes arianos e as massas são politeístas
  • Pan-germanismo
  • Culto secreto e iniciático, individualista, gnóstico, não tribal
  • Misticismo rúnico totalmente inventado (runas armanen)
  • Prática focada na raça.

O odinismo surgiu nos anos 30, a partir de Else Christensen, que foi, todavia, influenciada pela ariosofia de Guido von List. Ela era dinamarquesa mas o movimento teve início nos EUA. Else foi casada com um membro ativo de grupos nazistas, ela própria envolvida com isso. Else manteve a ideia do monoteísmo de Odin, e falava em um comunalismo racial onde grupos de arianos poderiam viver em igualdade. Ainda hoje o odinismo é o credo mais proclamado por gangues de neonazistas e terroristas raciais quando se referem ao paganismo nórdico/germânico. É aqui que surgem as nove nobre virtudes. O misticismo ocidental da rosacruz e maçonaria ainda tem um grande papel aqui. Segundo seus criadores, o movimento estava revivendo a religião dos antigos germânicos.

Principais características:

  • Surge baseado na ariosofia e no romantismo alemão
  • Teologicamente, nega a realidade, em ato, é voltada mais à politicagem nazista
  • Misticismo, ocultismo e sociedades secretas influenciando
  • Racismo e nazismo
  • Pouco rigor histórico
  • Comunalismo racial
  • Odin como deus superior, porém, ao difundir-se, acaba tornando-se mais politeísta
  • Pouco rigor histórico
  • Nove nobre virtudes
  • Pan-germanismo
  • Com o passar do tempo será fortemente associado com o black metal, e outras vertentes do metal
  • Crença no Valhalla como paraíso
  • Desconhece a ética e mentalidade dos antigos pagãos
  • Misticismo rúnico não baseado em fontes históricas mas no esoterismo ocidental
  • Prática focada na raça.

Da ariosofia ainda surge o irminismo, do qual seu criador Willigut vai estar profundamente envolvido com a SS e toda a cruzada ocultista dos nazistas. Posteriormente, no final do século XX ainda surgirá David Lane com o wotanismo, onde W.O.T.A.N. é um anagrama para will of the Aryan nation. Todos eles tem pressupostos teológicos diferentes.

Principais características:

  • Semelhantes no geral aos anteriores, mas com diferenças teológicas: Willigut tentou através de constatações pseudo-científicas provar a existência de um “Balder crucificado” e paranoias pseudorreligiosas similares
  • Pouco rigor histórico
  • Prática focada na raça.

Todos esses movimentos citados até agora colocam grande valor no que eles entendem ou projetam no passado como característica guerreira dos povos germânicos, e o racismo tem uma parte importante aí: todos eles rejeitam que pessoas não caucasianas, brancas, de olhos claros, possam ser pagãos; para eles o paganismo germânico é uma religião racial. Todos eles são profundamente influenciados pelo romantismo alemão.

A ásatrú surge em 1975 na Islândia, fundada pelo fazendeiro Sveinbjörn Beinteinsson, aparentemente de forma independente dos movimentos anteriores. Aqui já aconteceu o surgimento da Wicca e o movimento new age, que são a causa do surgimento dos movimentos religiosos nessa época, e não mais o romantismo alemão. A espiritualidade começa a tomar uma forma diferente, mais voltada para a experiência e sensações pessoais, e menos voltada à aspectos raciais. É a época da cultura do paz e amor. Muitos praticantes de ásatrú seguem as nove nobre virtudes. Todavia, a ásatrú rompe com a ideia do monoteísmo de Odin, como o culto mais alto e mais importante. O racismo passa a ser combatido. Segundo seus criadores, o movimento estava revivendo a religião dos antigos germânicos.

Principais características:

  • Surge a partir de influências dos movimentos new age e wicca
  • Uma religião heterogênea; na Islândia aparentemente é mais voltada à vida cotidiana; ao redor do mundo, as pessoas parecem seguir a moda cristã de negar a realidade em busca de promessas metafísicas;
  • Rompimento com o romantismo alemão
  • Um pouco mais de rigor histórico
  • A Ásatrú oficial está restrita à Islândia, seus ritos e práticas são bastante desconhecidos
  • Maior preocupação com a natureza
  • Maior preocupação com a espiritualidade invididual, menos militarismo
  • Nove nobre virtudes
  • Razoavelmente associado com o black metal e outras vertentes do metal
  • Negação do monoteísmo de Odin
  • Focada principalmente nas tradições da Islândia, recusa o pan-germanismo
  • Na Islândia, aparentemente, não existe crença no Valhalla; o mesmo não se pode dizer ao redor do mundo
  • Bastante permissivo com influências do misticismo, esoterismo, e outros caminhos na religiosidade individual
  • O grupo pode ou não ter importância, a espiritualidade é individual
  • Misticismo rúnico não baseado em fontes históricas mas no esoterismo ocidental
  • Prática focada no indivíduo.

Na década de 70, também, havia uma vertente wiccana que aplicava a teologia da sua religião utilizando-se de divindades anglo-saxãs: a Seax-Wica. Desta vertente fazia parte Garman Lord. Garman Lord rompe com a Seax-Wica e funda seu movimento, que mais tarde viria a se chamar theodismo. Apesar de nascer dentro do clímax new age e de um movimento influenciado pelo new age, Garman Lord busca uma alternativa mais próxima do que ele considerava a cultura anglo-saxã, que ele acreditava que a Seax-Wica passava longe. Não está bem claro se ele ou se anos depois Eric Wódening trazem o reconstrucionismo para o theodismo, os documentos sobre esse movimento são escassos e eu não tenho muitas amizades com o pessoal dessa parte do neopaganismo germânico. Pela primeira vez o estudo acadêmico no assunto passou a ser mais importante que livros de ocultismo e misticismo. Pela primeira vez um movimento não surge sozinho, como foi com ariosofia, odinismo, etc., não sendo apenas influenciado por outro movimento, mas sendo uma ruptura com um movimento anterior. Foi aí que houve uma abertura mínima que abriu campo para novos movimentos. Aqui também há uma negação da ideia do monoteísmo de Odin, como o culto mais alto e mais importante e as nove virtudes. Segundo seus criadores, o movimento estava revivendo a religião dos antigos germânicos.

Principais características:

  • Surge a partir da wicca
  • Uma religião que aceita a realidade em todas as suas dimensões e nega promessas pós-vida
  • Entende que a religião depende do contexto social, e o secular é difícil de se separar disso;
  • Voltado a povos específicos, rejeita o pan-germanismo
  • Valoriza o thew (ética, costume, lei)
  • Voltado para a organização tribal
  • Reviver visão de mundo
  • Alta hierarquização, e, em alguns casos, corrupção de poder
  • Enumera lista de valores como Wynns e Thews que se subentendem como mandamentos morais, mas de forma menos rígida que as nove virtudes
  • A romantização do guerreiro germânico perde o espaço aqui
  • O público do metal não tem muito respeito aqui se misturam música com religião
  • Negação do monoteísmo de Odin
  • Valoriza certo rigor histórico
  • Romantização do passado
  • Evita-se misticismo e esoterismo, em partes
  • Uso de fontes acadêmicas um tanto ultrapassadas, como Culture of the Teutons, pois se encaixam na teologia costumeira
  • Valoriza a frith
  • Espiritualidade grupal, o indivíduo torna-se parte da tribo
  • Runas quase sem uso fora a escrita
  • Não o Valhalla, mas uma vida virtuosa com a tribo é almejada
  • Prática focada no grupo; tentativa de criar um ethos específico de uma tribo antiga.

Urglaawe é um movimento específico que visa restaurar a cultura pagã da comunidade Deitsch nos EUA. Eles são descendentes de alemães e holandeses, com uma cultura bastante singular.

Principais características:

  • Baseado no folclore, resquícios de tradições ainda vivas dos Deitsch
  • Religião voltada à vida cotidiana, aceita a realidade em vez de se preocupar com promssas pós-vida
  • Nega o pan-germanismo, focado apenas nos Deitsch
  • Misticismo, esoterismo não tem muita importância aqui, mas também não exatamente o reconstrucionismo, uma vez que é baseado em folclore
  • Animismo e culto de wights
  • Não ligada a racismo
  • Pratica ligada ao folclore Deitsch.

Heathenismo tribal, tribalismo heathen, antigos costumes são vários nomes que são usados pra definir um espectro de submovimentos como forn siðr, fyrnsidu, thia frankisk aldsido, firne sitte, etc. Todos esses nomes simplesmente significam “antigo costume” no dialeto do povo germânico específico que cada grupo segue: nórdico, anglo-saxão, franco, alemânico, etc. Seus praticantes vão todos aceitar serem englobados como praticantes de “Heathenry” (palavra mais comum), “Heathendom” ou “Heathenship”, que, grosseiramente, são palavras inglesas para “Paganismo Germânico”, entendendo os germânicos como define o artigo Germanos e não como alemães (na verdade, alemães e austríacos são só parte dos germânicos, que englobam todas as populações descendentes dos falantes de proto-germânico, incluindo aí nórdicos e ingleses, entre outros). Eles são em parcialmente frutos de uma ruptura com o theodismo, por sua estrutura altamente hierarquizada, por cismas teológicos, entre outras coisas. Os theodistas gostam muito de listinhas como “3 wynns”, “lista de thews” etc. Guias morais. Os heathens que se identificam com o “antigo costume” não gostam muito disso. A única coisa que se possui em comum é a ideia de retribalização, mas isso é interpretado totalmente diferente entre theodismo e os heathenismos tribais/antigo costume. As nove virtudes e tudo que não passe por uma análise crítica e acadêmica é descartado. Misticismo, ocultismo e new age são evitados por não possuírem fundações no paganismo pré-cristão e grande influência da civilização cristã. A ideia é, a partir de estudos, ter uma prática em construção, fazendo ela se tornar mais próxima daquilo que entendemos dos antigos. A base central desse movimento, em oposição aos anteriores, e mais radicalmente que no theodismo, é o Reconstrucionismo politeísta. Não há um compromisso de reconstrução nos movimentos anteriores ao theodismo. Aqui também há uma ruptura com a ideia do monoteísmo de Odin, como o culto mais alto e mais importante e as nove virtudes e tudo que não possua embasamento histórico e a negação veemente do racismo e preconceitos. E, também segundo seus criadores, o movimento estava revivendo a religião dos antigos germânicos.

Principais características:

  • Surge a partir do theodismo, ásatrú ou de maneira espontânea; é heterogêneo
  • Religião que aceita a realidade em todas as suas dimensões em vez de se preocupar com um pó vida incerto
  • Entende que a religião depende do contexto social, e o secular é difícil de se separar disso;
  • Necessidade de se recuperar todas as informações possíveis do paganismo germânico antigo, interpretá-las, miná-las do cristianismo, olhando para os antigos como o ideal que funciona como guia para os pagãos, mas sem romantização do passado: reconstrucionismo
  • Voltado ao culto doméstico (hearth cult)
  • Voltado a povos específicos, rejeita o pan-germanismo
  • Valoriza o thew (ética, costume, lei)
  • Voltado para a organização tribal, mas tende a flexibilizá-la para não se tornar demasiado rígida
  • Reviver visão de mundo e melhor rigor histórico
  • Não enumera listas de mandamentos morais, ao contrário, chama à compreensão do significado dos valores particulares na cultura heathen antiga
  • A romantização do guerreiro germânico não tem nenhum espaço aqui
  • O público do metal não tem muito respeito aqui quando misturam música e religião
  • Negação do monoteísmo de Odin; politeísmo
  • Animismo e culto de wights
  • Necessidade de se abandonar fontes desatualizadas, aproximando-se da compreensão dos antigos
  • Valoriza a frith
  • Pode ser literalmente tribal, ou pode ser como tradição familiar; praticantes individuais geralmente almejam um ou outro
  • Não existe crença no Valhalla como um pós-vida, geralmente se pensando no túmulo/Hel como local dos mortos; além disso valoriza-se mais uma vida virtuosa que uma promessa de pós-vida
  • Culto de ancestrais
  • Runas usadas de acordo com a evidência histórica, geralmente se evitando a leitura de futuro, e mais para sigilização/escrita
  • Prática multifocal: tanto no indivíduo, quanto na família/grupo, quanto na natureza; tentativa de recriar o ethos de uma tribo antiga espefíca.

Ou seja, assim:

  • O neopaganismo germânico (Heathenry) é um termo guarda-chuva sob o qual se encontram várias denominações gerais, que grosso modo se diferenciam pelo nível de inclusividade: folkish , universalistas  e tribalistas.
  • Folkish (racistas, só “arianos” podem praticar) é um termo guarda-chuva mas não é uma denominação religiosa. Sob ele estão: os falecidos ariosofia e irminismo, odinismo e wotanismo. Alguns setores asatru dos EUA também se chamam folkish.
  • Universalista (qualquer um que quiser praticar, é bem vindo, e inclusive traga sua experiência no misticismo pra cá!) é um termo guarda-chuva, porém não exatamente uma denominação religiosa: a maioria parte da Ásatrú e de pessoas que não necessariamente assumem uma denominação se encontra aqui.
  • Tribalista é um termo guarda-chuva, e pode ser usado como designativo para theodistas e praticantes de tradições tribais específicas como forn siðr, fyrnsidu, thia frankisk aldsido, firne sitte, etc. Muitos chamaram o que praticam de “Heathenry” simplesmente (você é bem vindo desde que entenda e participe da ética da tribo; desde que esteja disposto a participar de uma religião com o mínimo de fidelidade à religião documentada).

Ou seja, aqui nós temos um problema: comumente as pessoas usam os termos Ásatrú, odinismo, etc., pra se referir a todo o paganismo germânico. Todos eles consideram que a sua religião é exatamente a continuação da antiga (com exceção dos heathens tribais, que entendem que o cristianismo rompeu a tradição pagã, e usam isso como meio de tomar mais cuidado para interpretar e ressucitar coisas do passado), mas existem diversos posicionamentos políticos e em relação às fontes de informação que diferenciam as práticas de todas essas pessoas e as fazem assumir denominações diferentes. A única coisa que elas têm de fato em comum é o agrupamento sob o título ultra genérico neopaganismo germânico, ou Heathenry, em inglês — mas lembre que Heathenry muitas vezes é usada como sinônimo de Heathenry tribal.

Fácil? Não. Mas é necessário entender pra saber onde se pisa, e eu consegui desenrolar bastante meu caminho espiritual conhecendo as informações acima.