Uma cosmogonia e visão de mundo anglo-saxã de acordo com o Sunnanfolc Heorþ

Por Seaxdéor

Agradecimento especial à Sharon Loreilhe, a qual pacientemente me ajudou a reencontrar o caminho entre o conhecimento moderno e o antigo.

Versão comentada.

I. A ordem imutável de Tíw e as Wyrdas[1]

Ouçam.

Houve um tempo em que não havia tempo[2].

Ainda assim, havia o infinito e amplo céu habitado pelos sábios brilhantes de outrora[3]. Tíw, o Deus Celeste da justiça, reinava sobre tudo isso[4]. Tíw era o regente porque ninguém tinha uma palavra tão justa e ninguém pronunciava juramentos tão verdadeiros quanto os dele[5].

Havia, sob o Reino de Tíw, Myspell[6] e seus éotenas[7] de fogo, governados pela espada de fogo fundidor de Syrt[8], e Nifolham[9], um reino morto de névoa e a mais gélida neve que já se conheceu.

Entre Myspell e Nifolham, havia o Ġinġesceap[10], um grande abismo preenchido com nada além de mæġen. Ele era um vazio misterioso, um ponto no qual nem Myspell nem Nifolham puderam penetrar durante incontáveis eras.

Mas, o que é mæġen[11]? Ela é simplesmente força, energia, tanto física quanto espiritual; um poder visível que emana de um ser, mas também uma energia invisível, usada em muitos ofícios (crafts), a própria palavra antiga cræft[12] pode ser a mesma coisa que mæġen. Toda essa mæġen apavorou os éotenas de fogo, porque eles não podiam simplesmente destruí-la.

Nas mais distantes profundezas do Ġinġesceap, então, havia um segredo: uma fonte estava escondida ali[13], perdida em sua mais profunda fronteira, onde três irmãs estavam continuamente tecendo uma teia chamada Wyrd, com um fio puxado da fonte[14]. Esse fio é chamado Orlæġ[15], que significa “Lei Primordial”, e sua fonte estava estabelecida (laid down)[16] no fundo do poço da Wyrd.

Durante muitas eras as Wyrdas teceram esta teia. Cada uma com três fios, elas fizeram isso. A primeira é chamada Wyrd, que significa “Aquilo que foi”, a segunda é Weordende, que significa “Aquilo que é”, e a terceira é Scyld, que significa “Aquilo que deve ser”, ou “Dívida”[17].

 

II. O Fim da Ordem Imutável

A teia tecida pelas Wyrdas tornou-se tão grande que ela assim se espalhou para fora do Ġinġesceap, tocando tanto Myspell quanto Nifolham, os quais, ligados pela teia, foram aproximando-se, lentamente invadindo o Ġinġesceap durante muitas eras[18], até que eles tivessem alcançado o seu centro, tocando-se mutuamente.

Na primeira vez que fizeram isso, nuvens levantaram-se quando o fogo ancião tocou a neve primordial em uma explosão de fogo e gelo que se misturaram. Desta poderosa explosão muita mæġen foi liberada para todos os cantos do espaço infinito, e um estranho mundo surgiu; Wyrd era a sua estrutura e mæġen o preenchia[19].

A própria terra tornou-se viva[20], abundante em mæġen. Ela foi conhecida por muitos nomes, sendo Neorþe[21] um dos mais conhecidos. Ela era toda a superfície da terra, contendo e radiando mæġen em sua parte visível.

Mas, em sua parte subterrânea, uma consciência poderosa também passou a existir, e ela funcionava de forma oposta. Ela naturalmente começou a puxar a mæġen para a parte escondida do mundo, como uma consequência da vida de Neorþe. Então, profundamente penetrando o interior de Neorþe, o submundo nasceu, uma gélida terra também ligada ao Nifolham. A sua morada tornou-se conhecida como Hell[22], e ela foi o reino da morte, em oposição à superfície viva, nenhuma vida pode durar para sempre, e aquele era o local para onde os condenados pela Wyrd tinham de ir.

Enquanto Neorþe existia empurrando a mæġen para fora de seu corpo, Hell existia puxando a mæġen para dentro. Uma mostrando, a outra cobrindo. Ambas existiram como uma consequência da outra, e eram inseparáveis. Não há vida sem morte, ou morte sem vida. Em seu mais profundo reino, as Wyrdas riram. Havia começado. Os sábios éotenas de fogo ficaram enfurecidos.

 

III. Os Gêmeos Primordiais

Tíw, o Deus Celeste da Justiça, então encontrou Neorþe, a Deusa da Terra que Tudo Envolve, e eles tiveram dois filhos[23]: o primeiro deles, um terrivelmente grotesco e grande, o qual foi desde os mais antigos tempos chamado Éomer[24], “O Gêmeo”, e o segundo, Tíwessunu[25], “O Filho de Tíw”. Os éotenas então perceberam que a espada de Syrt não podia mais derrotar aquelas abismais criaturas[26].

Éomer e Tíwessunu dormiram durante algumas eras, enquanto uma árvore, chamada Eormensýl[27], começou a crescer naquela terra de neve. Do corpo de Éomer outros éotenas e þyrses tornaram-se vivos, mas nenhum deles era tão terrivelmente grande[28]. Quando Éomer acordou, ele estava faminto. Naquele reino de neve ele era feito de gelo, e sua fome era uma sensação abissal, procurando por uma satisfação que jamais poderia realmente alcançar[29]. Ele ainda tentou comer Tíwessunu, razão pela qual os irmãos gêmeos se tornaram inimigos. Tíwessunu deixou Éomer só e desapareceu por eras.

Éomer começou a comer seus próprios filhos e qualquer coisa que ele encontrasse à sua disposição[30]. Quando a maioria dos éotenas haviam sido comidos, ele vagou por muito tempo. Quando ele estava estupidamente desesperado ele então encontrou uma vaca, ainda maior do que ele, e ele viu quatro rios de leite fluindo por suas tetas. Eles viveram por muitas era, e por muitas eras a vaca, chamada Æþymble[31], lambeu o gelo e alimentou o éoten terrivelmente infantil. Os éotenas e þyrses então lentamente multiplicaram-se novamente.

 

IV. O Advento dos Ése

Enquanto a vaca lambia o gelo, um ser brilhante[32] foi sendo descoberto, e nem Æþymble nem Éomer o perceberam. Os éotenas e þyrses, como os mais sábios seres daquele novo mundo, perceberam que havia algo para acontecer, mas eles não eram fortes o suficiente para enfrentar Éomer, para evitar isso. Lentamente o calor das lambidas fizeram aquele ser visível, e ele finalmente acordou, e, com seu brilho, Éomer ficou atordoado e não lhe ofereceu uma luta. Ele era Béora[33], o mais antigo ancestral do cynn[34] dos ése[35].

Béora vagou e viveu longe de onde Éomer e seus descendentes habitavam. Ele então teve um filho, Beorn[36], o qua encontrou uma esposa entre os éotenas. Ela era Beste, e deu à luz a três filhos: Wóden[37], o qual significa “O Furioso”, Willa[38] “Aquele que tem vontade”, e Wéoh[39] “O sagrado”. Então, eles foram chamados de ése.  Os três filhos cresceram esse tornaram mais sábios, aprenderam como lutar e como governar, e eles passaram eras caçando nas florestas, e eles viram Eormensýl tornar-se a maior das árvores[40].

 

V. A Mais Antiga Discórdia e a Chegada de Sunne

Dia após dia, os mais antigos éotenas de fogo, sob a lei e espada de Syrt, aumentaram sua preocupação sobre o que estava se passando no novo mundo. Tudo estava acontecendo de acordo com o que tinha sido tecido na Wyrdeswebb, a Teia da Wyrd[41], e então os éotenas de fogo estavam lentamente tendo seu poder diminuído. Eles souberam da força dos descendentes de Beorn e então eles enviaram um dos seus, Loc[42] era seu nome, com uma proposta: se os ése derrotassem Éomer e destruíssem o mundo, os ése podiam viver entre os éotenas de fogo no seu reino[43].

Mas Loc tinha seus próprios desejos e ambições[44]. Ele pensou que se ele incitasse a discórdia entre os éotenas de fogo e os ése, assim eles poderiam fazer os ése matar Éomer, bem como os regentes de Myspell. Depois disso, ele então encontraria os ése muito cansados e enfraquecidos, provavelmente com feridas severas, e sua vitória seria mais fácil.

Então, Loc propôs seu próprio plano para os ése, mas eles também tinham seus próprios planos, quando eles perceberam que eles estavam negociando com um traidor da sua própria gente. Eles lutaram contra Éomer com a ajuda de Loc e suas traquinagens, e tal luta durou por muito tempo[45]. Esta foi a primeira batalha mortal daquele mundo. Os ése e Loc começaram vencendo a luta; então Éomer entrou em um estado de fúria de þyrs. Éomer atacou com um ódio abissal, totalmente fora de controle[46].

Quando os ése e Loc estavam razoavelmente desesperançados de uma vitória, Tíwessunu apareceu novamente, e desempenhou seu papel, como havia sido designado pelas Wyrdas, lutando contra seu irmão gêmeo. Os ése e Loc podiam apenas olhar aquela luta abissal, cada pancada que Éomer ou Tíwessunu desferiram contra o outro tinha como resultado um som esurdecedor e uma forte ventania. Mas Tíwessunu era mais forte e matou seu irmão gêmeo[47].

Após a decaptação de Éomer eles todos notaram que apesar do fato de que ele era um þyrs de gelo, seu sangue era quente e abundante; foi um dilúvio sobre aquela terra nevada, matando muitos éotenas e þyrses, dos quais apenas uns poucos sobreviveram, boiando até terem alcançado o seu mundo atual, Éotenham, onde eles começaram a viver entre os lobos da Floresta de Ferro[48]. Mais uma vez, Tíwessunu partiu, seguindo os desígnios da sua própria Wyrd, e os ése se tornaram vitoriosos[49].

Após isso, eles foram para Myspell como se fossem lutar contra os éotenas de fogo, mas todavia eles fizeram Loc de refém. Eles encontram-se com Syrt e os ése fizeram um acordo com ele. Eles teriam de viver em paz por muitas eras, mas quando a Wyrdeswebb não pudesse mais sustentar a ordem do mundo do mundo deles, os ése deveriam lutar contra os éotenas de fogo, mas não deveria haver batalha entre eles antes disso[50]. Os ése juraram bem como Syrt. Esse foi um agradável tratado de paz para ambos, que temia ser atacados a qualquer momento[51].

 

VI. Modelando o Novo Mundo, o Reinado de Wóden e o nascimento de Þunor

Quando os ése voltaram ao centro de seu novo mundo, e Neorþe, que tudo envolve, viu aquela centelha de Myspell, ela ficou tão impressionada que ela começou a circularmente dançar em torno dela[52]. A energia dourada de Sunne e sua carruagem puxada por dois cavalos[53], chamados Hengest e Horsa[54], os quais significam “Garanhão” e “Cavalo” respectivamente, é uma luz brilhante que todos os seres amavam admirar; Sunne então rapidamente tornou-se um dos ése mais amados.

Sua luz fez Neorþe mais quente[55] e do corpo morto de Éomer, na superfície dela muitas criaturas nasceram: algumas das mais notáveis delas eram os ælfe luminosos e os pequenos e gananciosos dweorgas[56], e uma nova era começou. Os ælfe então começaram a fazer sons até que descobriram a música, e eles rapidamente desenvolveram seus instrumentos até que eles estivessem tocando uma harmônica e bela canção embalando Neorþe e Sunne na dança deles[57]. Assim, os habitantes de Neorþe puderam contar os dias e os anos, assistindo sua dança, embora eles antigamente pensassem que Sunna estava correndo ao redor de Neorþe[58].

O brilho de Sunne era tão intenso que seres distantes vieram apenas para observá-lo. Um deles chamava-se Mona; ele veio com sua carroça e também começou a dançar em torno de Neorþe com um grande espelho. Logo, quando Sunne estava dormindo, os habitantes de Neorþe ainda podiam ver o brilho dela refletido em Mona, e eles então puderam contar os meses[59].

Wóden, Willa e Wéoh projetaram um novo mundo a partir do corpo de Éomer, e sua vida barbárica tornou possível que muitas vidas viessem de sua morte[60]. Os ése criaram montanhas com seus ossos e situaram uma fortaleza usando as sobrancelhas de Éomer contra os éotenas e þyrses quando eles notaram que alguns deles estavam habitando as montanhas[61].

Os ése projetaram rios e oceanos a partir do sangue de Éomer, e Wada então veio do submundo para a superfície da água, regendo sobre os rios, agindo como divindade limítrofe entre as fronteiras do visível e invisível[62]. Os dweorgas fizeram reinos poderosos em suas minas no subsolo. Eormensýl estava tão alta agora que ela havia alcançado o reino de Tiw; suas raízes firmemente penetrando o submundo, mesmo tocando a habitação das Wyrdas; então elas começaram a cuidar de suas raízes[63].

A terra inteira foi desde então habitada por seres (wights) morando em rochas, árvores, fontes, lagos e todas as coisas; nossos ancestrais chamaram-lhes wihta nos tempos antigos. Estes seres eram os primeiros e mais antigos habitantes de toda paisagem, então qualquer forasteiro ou novo habitante precisa respeitá-los para manter-se a friþ da terra[64].

Quando Tíw percebeu tudo que havia acontecido, como o Deus Celeste e governador justo, ele soube que seu tempo havia chegado e que ele devia conformar-se à Orlæġ, como seu devoto primordial. Ele então deu a Wóden seu reinado e seu reino, e os ése retribuíram a isso fazendo-o um amigo e permitindo a Tíw viver entre eles[65].

Wóden teve um filho com Neorþe[66], o qual era chamado Þunor, o Trovejante. Þunor tinha uma carroça puxada por bodes brancos, e ele é um deus ferreiro, bem como um guerreiro e campeão dos ése[67]. As pancadas da sua marreta fazem fagulhas brilharem no céu, e eles são o que os homens agora chamam de trovão. Ele também é o ós de barba vermelha, aquele que traz a chuva[68].

Os ése então dividiram o mundo em novos sete[69]. Os primeiros deles, eram os superiores: sua habitação, Ésaġeard[70], e então Ælfham[71], a morada dos ælfe da luz; ali, alguns dos mais importantes ancestrais podem viver nos campos de Neorxnawang[72]. Há também Middanġeard[73], onde os humanos vivem, no meio dos reinos superiores dos ése e dos ælfe e do submundo. Então, existem os reinos inferiores. Nifolham[74], o reino de gelo e névoa. Nifolham é onde localiza-se Hell[75], a morada dos mortos, e em sua mais escura e fria parte, Wyrmsele[76], onde a corrupta serpente Níþhéawere[77] rói as raízes de Eormensýl. Sweartælfham[78] é o reino dos dweorgas ou ælfe negros, onde eles mineram metais e fazem instrumentos. Há também Éotenham[79], separado de tudo, com os éotenas de gelo e os þyrses protegendo a fonte do conhecimento. Há também finalmente o mundo dos éotenas de fogo, Myspell. Com exceção de Myspell, todos os reinos vieram do Reino Primordial de Lei e Ordem regido pelo Deus Celeste da Justiça, Tíw. Eormensýl conectou todos eles e foi usado pelos ése ou qualquer outro viajante desejando alcançar outro mundo.[80]

 

VII. O Nascimento de Mann, Ingui Fréa, Fríġe e da Humanidade

Tíwessunu então viveu nos locais mais inóspitos de Middanġeard, no seu oeste[81]. Ele então lentamente moveu-se e teve um filho, chamado Mann. Mann veio para a Jutlândia[82], onde ele viveu pacificamente entre os ælfe, ali ele teve três filhos com Neorþe[83]; o primeiro tornou-se o pai dos Ingaevones[84], seu nome é Ingui Fréa, e logo ele tornou-se conhecido como o Senhor dos ælfe e o regente de Ælfham[85]. Dos outros dois filhos, veio a descendência dos Istaevones e Hermiones.

Neorþe então, depois de dançar por tanto tempo a dança dos ælfe, apaixonou-se por um deles, Féorġen[86] era seu nome. Ele tinha uma lira, e eles então amaram-se um ao outro, e tiveram uma filha chamada Fríġe, a qual era uma bruxa, e ela, com um ser que surgiu das profundezas da terra, era uma divindade ctônica, tendo encontrado as Wyrdas e conhecendo seus mistérios e Orlæġ que governou seus atos[87].

 Fríġe também conhecia a Orlæġ de todas os seres. Tudo que acontecia e que devia acontecer havia sido assim designado pelas Wyrdas; mesmo os ése não podiam quebrar as regras impostas pelo padrão tecido da Wyrd.

Rapidamente Fríġe tornou-se a Senhora das mulheres sábias, coletando as mortas e as dando a habilidade de conhecer a Wyrd de homens e mulheres, então elas puderam tecer os fios dos descendentes delas quando eles nasciam[88]. Fríġe também permitiu que algumas delas seguissem os seus descendentes por toda a vida deles para protegê-los[89]. Os ése e os ælfe viveram em friþ uns com os outros, e eles frequentemente eram encontrados juntos na habitação um do outro[90].

 

VIII. A Construção do Muro de Ésaġeard[91]

Depois disso, os ése começaram a se preocupar com os lobos, éotenas e þyrses de Éotenham. Eles sabiam que uma ferida devia ser paga com uma ferida, e que os habitantes de Éotenham não estavam muito felizes com o que havia acontecido ao cynn deles[92]. Um dia, entretanto, um homem veio a Ésaġeard montado num cavalo. Ele foi ao local de encontro dos ése e seus amigos ælfe, oferecendo-se para construir para eles um muro de pedras ao redor da habitação dos ése.

Naquele tempo, o ano era divido em duas estações, verão e inverno. Então ele pediu por três estações para fazer o trabalho, e por Sunne, Mona e Fríġe como preço pelo seu trabalho. Os ése e os ælfe então sentiram-se ultrajados com aquela proposta, e então Loc viu uma chance de prejudicar o cynn dos ése. Ele então pediu por um tempo para discutir aquela ideia com os ése e eles relutantemente aceitaram.

Quando o estrangeiro foi novamente convidado, os ése apresentaram as suas próprias condições: que o homem deveria fazer o muro até o fim daquele inverno e quando Éostre aparecesse novamente todas as pedras deveriam estar no lugar, e aquele homem deveria ser o único homem a trabalhar ali, não menos que isso. Mesmo esse plano os ése não estavam dispostos a aceitar, mas Loc disse-lhes que provavelmente o estrangeiro não aceitaria aqui, assim isso seria uma recusa muito educada.

Mas, surpreendentemente o bastante, isso seria aceito, se os ése pudessem aceitar que ele tivesse o cavalo dele como única ajuda. Loc então antecipou todos os ése e ælfe reunidos ali, aceitando aquela duvidosa proposta. Loc então silenciosamente riu, e todos os ése souberam que algo ruim estava para acontecer.

O construtor e seu cavalo trabalharam pesado mesmo no primeiro dia. Todos os ése sentiram que havia algo errado, e aquele sentimento angustiante foi crescendo dia após dia. Loc então ironicamente disse que aquela era a melhor opção, que o innanġeard dos ése deveria ser protegido[93]. Perto do fim do inverno, aquele muro estava quase pronto, e então os ése violentamente forçaram Loc a resolver o problema, já que ele tinha feito um juramento por eles que eles nem mesmo estavam dispostos a fazer por si mesmos.

Então Loc transformou-se numa maravilhosa égua, e o cavalo, o qual estava fazendo a maior parte do serviço, repentinamente foi atrás da égua, deixando sua tarefa, correndo para dentro das florestas onde ela tinha ido. O homem correu atrás de seu cavalo por muito tempo; quando ele percebeu que ele estava no último dia do seu trabalho e que ele ainda tinha que finalizá-lo mais rápido do que ele podia, ele entrou em fúria, mostrando sua aparência de éoten, atacando os ése. Mas quando os ése perceberam que eles estavam lidando com uma besta do útanġeard, eles procuraram pela ajuda de Þunor e ele esmagou a face daquele éoten[94].

Também, depois disso, Loc deu à luz um potro cinza, o qual foi então chamado Slíepescóh[95], e ele foi dado a Wóden, tornando-se sua montaria através dos sete mundos[96], como uma forma de pagar o prejuízo que Loc quase deu a todo o cynn dos ése e os ælfe e o innanġeard deles.

 

IX. A Primeira Guerra, Cwæs e o Hidromel

Fríġe então soube do poder dos ése e ela estava faminta de ouro, como uma deusa da fertilidade[97]. Ela disfarçou sua aparência e foi até o lar dos ése, onde ela foi perfurada por lanças e queimada por três vezes[98], mas ela não poderia ser morta daquela forma: aquilo não era o que a Wyrd havia designado para ela.

Quando os parentes de Fríġe do ælfecynn[99] souberam que ela estava em perigo, eles começaram uma guerra contra os ése, os quais responderam atirando uma lança contra eles em batalha, como uma maldição[100]. Os ælfe também dispararam[101] contra os ése muitas vezes, envenenando e profundamente ferindo-os. Esta foi a primeira guerra, e ela durou por muito tempo, e, após isso, nenhuma das tribos pôde finalmente vencer a outra. Então, eles fizeram um acordo de paz, trocaram reféns e Fríġe casou-se com Wóden[102].

Quando a griþ foi restabelecida entre eles, os ése e o ælfecynn estavam festejando juntos, então cada um das tribos deles cuspiram num jarro; eles fermentaram aquele líquido, e um sábio deus da poesia nasceu; o nome dele era Cwæs[103] ele era o resultado do tratado de paz entre os ése e o ælfecynn[104].

Cwæs era um sábio e inspirado ós; ele sabia sobre como governar e como fecundar a terra; mas ele também sabia sobre poesia e aliteração, seus versos tinham metáforas tão vívidas que suas palavras mesmo tornavam-se nas coisas que ele estava discorrendo sobre na frente daqueles que o ouviam. Mas Cwæs também sabia sobre o álcool, seu próprio sangue era feito disso, ele ensinou os mistérios dele na antiga palavra “alu”[105].

Ainda assim, ele viveu uma curta vida e foi morto pelos dweorgas Hýdere e Gælere[106], e ardilosamente eles prepararam o hidromel com seu sangue, misturando-o com mel. Entretanto, estes dweorgas mataram o pai do éoten Suttung[107], e como seu wergild[108], eles deram-no o jarro com hidromel; Suttung o escondeu sob uma montanha após deixar sua filha Gúþhlot[109] cuidando dele.

Wóden não podia simplesmente ignorar que o sangue de Cwæs tinha uma grande quantidade de mæġen. Ele roubou o hidromel da poesia das profundezas da montanha do éoten, uma vez que ele era um ós do êxtase e transe. Wóden matou todos os camponeses de um homem para oferecê-lo seus próprios serviços, pedindo o hidromel como pagamento. Mas o homem não tinha o hidromel, apesar de saber onde ele estava escondido.

Então Wóden foi lá; ele disfarçou-se como uma serpente para penetrar na montanha. Então, ele dormiu com Gúþhlot, a filha do éoten Suttung, e bebeu todo o hidromel em três grandes goles, deixando a morada do éoten como uma ave. Suttung também tomou a forma de uma ave e voou atrás de Wóden.

Wóden alcançou Ésaġeard e seu inimigo foi queimado, perdendo a habilidade de voar e caindo morto no solo. Assim, os ése possuem o hidromel da poesia e inspiração novamente, como sua bebida sagrada. Se alguém deseja agradar aos deuses, derramar hidromel, cerveja ou qualquer bebida alcoólica para eles é sempre uma boa escolha[110].

 

X. Funções de Ingui Fréa e Móna

Após isso, Ingi Fréa enviou um mensageiro ao submundo e este pediu a Neorþe[111] para casar-se com seu Senhor. Ela não estava muito inclinada a fazer isso, mas ela teve de aceitar para evitar ser amaldiçoada. Ingui Fréa deu-a sua espada e tornou-se um ós de friþ e prosperidade, garantindo que os homens tivessem boas colheitas, felicidade e abundância se eles dessem-lhe ofertas[112]. Assim, os homens então aprenderam que quando eles dão presentes aos wihta ou aos ése eles recebem algo de volta, e que a mæġen deles era aumentada, permitindo-os viver melhor[113].

Mona era também um importante ós. Desde os tempos mais antigos, os habitantes de Middanġeard aprenderam como sua luz e sua dança ao redor de Neorþe era importante; como as colheitas e os mares eram influenciados por sua dança. Por muito tempo as pessoas esperavam pela fase correta dele para obter vantagem de sua mæġen; e existem homens e mulheres sábios que desenvolveram um complexo conhecimento sobre como usar sua mæġen da maneira mais efetiva[114].

 

XI. Tíw ensina a Política

Quando as primeiras tribos surgiram, Tíw veio a Middanġeard, o Deus da Justiça também amava a humanidade; ele ensinou-os a reunirem-se para tomar decisões; ele é o moderador sagrado da folcġemót[115]. Nenhum homem é permitido entrar o espaço sagrado da folcġemót carregando uma lâmina ou arma[116]; eles precisam manter a friþ[117] entre eles naquele tempo sagrado.

Os reis e chefes também tiveram de aprender a ser as crianças do povo em vez de seus ditadores[118]. Os homens tiveram de aprender a seguir pelo mérito e pelos atos, a seguir pela virtude e pela coragem[119]; a ser conscientes e a discutir política, bem como a se rebelar contra os líderes tiranos. Tíw também ensinou-os a sacrificar os chefes incapazes e manter a friþ, e a evitarem serem controlados sem direito de participar nas decisões políticas que afetam o cynn de um homem ou uma mulher.

 

XII. O Nascimento de Hréðe[120]

Havia um tempo em que um éoten malicioso, Sceaþa[121] era seu nome, sequestrou a esposa de um rei guerreiro de uma tribo Ingaevônica[122]. O rei e seus homens procuraram por ela em todos os lugares, mas não puderam encontrá-la. Sceaþa havia escondido a rainha sob uma montanha[123], e ali eles viveram por muitos anos. A rainha então teve uma filha, e ela deu-a o nome de Æðelþryð, que significa “força nobre”.

Æðelþryð tinha todas as características de um nobre, e ela era uma linda garota, embora ela também tivesse uma força e coragem dignas de um éoten. Quando Tíw veio aos Ingaevones, ele também se disfarçou como um lobo[124] para vagar e caçar na floresta. Ele estava caçando javalis[125], e então ele encontrou um local onde encontravam-se os mais gordos deles. Mas ali ele também encontrou Æðelþryð com uma lança; ela estava vestida em pele de lobo, e a face dela estava pintada com sangue de lobo[126].

Logo o caçador tornou-se a caça, e a destemida garota começou a perseguir aquele forte lobo. Æðelþryð atacou Tíw em sua forma animal, e a batalha foi tão difícil que ele quase foi mortalmente ferido[127]. Então Tíw apresentou-a sua brilhante forma humana, uma vez que ele estava impressionado com as habilidades, força e nobreza dela. Ela ofereceu-o hidromel, pois ela havia percebido que ele era um nobre guerreiro.

Æðelþryð contou então a Tíw que sua mãe havia lhe ensinado sobre sua nobreza, e seu pai éoten ensinou-a a lutar. Ela então vingou sua mãe ao matar seu pai[128], mas ela não se sentia confortável o suficiente para viver entre os Ingaevones, pois ela era violentamente mais forte que qualquer homem. Eles então se amaram e tiveram uma filha: o nome dela é Hréðe, e ela tornou-se a Deusa da Fúria e da Vitória.

Então Tíw fez uma morada para Æðelþryð e Hréðe no topo de uma montanha. Hréðe então capturou um dragão branco[129] e cuidou dele; assim, o dragão tornou-se o símbolo de sua força. O dragão guardava as armas que Hréðe obtinha em batalha e levava para sua casa. Como seu pai, Hréðe podia lutar na forma de um terrível lobo[130].

 

XIII. O Nascimento de Seaxnéat, dos Saxões e de seu þéaw[131]

Fríġe e Wóden tiveram muitos filhos. O primeiro deles é chamado Seaxnéat[132], o “companheiro de adaga”. Quando Seaxnéat nasceu, Wóden deixou-o entre cavalos brancos[133], e então ele teve de aprender como viver apenas com uma faca[134]. Ele cresceu e aprendeu como entender e como montar cavalos, e ele então tornou-se um aterrorizante guerreiro.

Então, Hréðe e Seaxnéat encontraram-se; eles casaram-se e os saxões nasceram deles[135]. Seaxnéat deu a seax aos saxões, a sagrada lâmina de apenas um gume deles, que os fazia tão poderosos. Ele ensinou-os como lutar e como governar; ele ensinou-os a montar e cuidar dos cavalos; ele os deu o seu primeiro rei guerreiro, Ġesecg, e Seaxnéat também ensinou aos saxões seu þéaw tribal. É por isso que ele é chamado alternativamente “companheiro dos saxões”.[136]

Seaxnéat também ensinou seu povo que a mæġen pode ser mesmo uma força e influência política ou pessoal, mas que a mæġen era também uma força espiritual, manipulada através de artes ocultas por bruxas e aqueles que trabalham com espíritos, ou ainda uma força usada por guerreiros, especialmente os wulfheodenas[137]. Hréðe era uma provedora de uma mæġen violenta, e é por essa razão que os antigos anglo-saxões ofereceram sacrifícios para ela[138].

Seaxnéat também ordenou que os saxões construíssem uma grande coluna, um pilar onde eles poderiam deixar oferendas e mais facilmente contatar os ése e seus ancestrais. Este foi chamado Eormensýl, como a árvore do mundo, uma vez que ele havia sido feito com a mesma função[139], e ele foi cultuado por muito tempo, até que Carlos Magno o destruiu e saqueou.

Seaxnéat também mostrou como construir fortes casas, e como construir amplos salões de hidromel para reunir pessoas dentro deles; ele ensinou a importância de gabar-se de bons atos e brindar;[140] foi Seaxnéat que ensinou a chamar os cavalos gêmeos Hengist e Horsa usando emblemas de cabeças de cavalo duplas para garantir a proteção de um ambiente contra bruxas más e perigosos wihta[141].

Como o ós da tribo, Seaxnéat também ensinou os homens como ser um bom þingere[142], ou líder espiritual da família, como cuidar das suas famílias; ele ensinou as crianças como cuidar do conhecimento ancestral bem como aos velhos como ser sábios e passar o seu conhecimento. Seaxnéat contou histórias aos seus filhos em torno do fogo da lareira, e sobre a importância do fogo em suas vidas.[143]

 

XIV. Como os hobs aliaram-se aos humanos

Logo, o lar tornou-se repleto de mæġen. Às vezes as pessoas enterravam um falecido nas fundações da casa; e então ele tornava-se o protetor daquela família. Às vezes um wiht escolha viver entre os humanos. Em ambos os casos, eles começavam a desenvolver um tipo de relação baseada numa ajuda recíproca, e este tipo de wiht é conhecido como hob[144].

Ele é comumente visto com uma pessoa pequena, barbada ou mesmo peluda, às vezes com um gorro vermelho. Este ser pode ajudar a família humana com a qual ele escolheu viver, se essa família agradá-lo com boas ofertas de comida, mas às vezes ele pode ser malicioso, se desrespeitado ou não receber recompensado. Esta relação próxima é muito importante na vida diária, e um wiht do lar não é menos importante que um dos ése, na vida humana diária.

 

XV. Fosǽta, Bealdor e os feitos de Wóden

Fosǽta[145] era outro dos filhos de Wóden com Fríġe. Ele era o deus da justiça[146], e ele e dito ser tão justo que em toda contenda humana ele consegue encontrar uma solução pacífica que ambas as partes concordam e sentem-se recompensadas[147]. Bealdor foi o mais brilhante deus; ele também era um filho de Wóden e Fríġe embora ele tenha sido cuidado por Sunne e a acompanhado muitas vezes, pelo que ele adquiriu seu título.[148] A morte de Bealdor é o primeiro sinal do colapso do mundo dos ése como ele foi projetado.

Wóden, em vez de ser um rei supérfluo, é um andarilho, procurando por conhecimento. Mesmo que Wóden seja um verdadeiro Provedor-de-Anéis[149], trocando mæġen com aqueles que são leais a ele, ele conhece sobre ervas, como as usar e como curar;[150] ele mesmo pendurou-se em Eormensýl para criar o Tomilho[151] e o Funcho[152]; assim, ele enviou-os aos sete mundos.

Wóden era um curandeiro e ele ensinou a tradição das ervas e medicina popular para a humanidade. Ele também aprendeu seið[153] da sua esposa Fríġe, pelo que ele foi amplamente condenado uma vez que isso era considerado afeminado, mas Wóden não se preocupou muito com isso: ele estava procurando por mais mæġen, e isso deu a ele mæġen. Fríġe também contou a Wóden o Orlæġ de todos os homens e outros wihta.  Fríġe, como senhora das wælcyrian, divide metade dos mortos em batalha que elas coletam para si, e eles são enviados ao salão de Wóden, onde eles lutam todos os dias.[154]

Wóden também bebeu da Fonte do Conhecimento em Éotenham, mesmo que Mími, o Guardião da fonte, tenha o pedido seu próprio olho como pagamento, e então ele se tornou o Caolho Andarilho Cinzento. Wóden também tem dois corvos cujos nomes significam “Pensamento” e “Memória”.

Como Senhor dos Mortos, Wóden é o psicopompo, aquele que guia os mortos ao Hell. No tempo mais liminar do ano, a Caçada Selvagem, Wóden abre as portas do submundo, trazendo os espíritos dos mortos consigo, em uma jornada através dos céus que dura até o Ġéol. Naquela época do ano as fronteiras do visível e invisível ficam borradas, e o outro-mundo participa mais ativamente na vida dos habitantes de Middanġeard.

Wóden também foi aquele que encontrou as runas e as deu à humanidade. Diz-se que ele pendurou-se a si mesmo em Eormensýl por nove noites e nove dias até que ele descobriu as runas[155].

 

XVI. Os Filhos de Loc

Enquanto Wóden estava procurando por sabedoria, Loc estava procurando por poder e traição.[156] Ele foi até a Floresta de Ferro[157]; e ali encontrou os lobos e a bruxa éoten.[158] Longe de seu próprio ġeard ele planejou atacá-lo em quebrar sua friþ; Loc trabalhou para destruir a ordem dos ése; ele então teve três filhos com a bruxa dos éotenas: o lobo gigante Fenndwellende[159] e a serpente Éormengand.[160]

Quando os ése souberam disso, eles tentaram muitas vezes prender o terrível lobo Fenndwellende; o que não pode ser feito sem Tíw perder sua mão num ato de traquinagem e sacrifício para manter a ordem do Orlæġ, evitando que a condenação do mundo acontecesse em um tempo anterior ao que devia acontecer.[161]

Os ése pediram ajuda dos dweorgas os quais fizeram uma corrente mágica; ela era tão fina que mesmo Fenndwellende pensou que ele não poderia quebrá-la facilmente, então Tíw teve de pôr sua mão na boca da besta, a qual engoliu-a quando não pode quebrar as correntes. É dito que o lobo irá devorar Wóden no dia final, antes de ser morto por um filho de Wóden, Wídhár.[162]

Éormengand foi lançada nas profundezas dos oceanos, e Þunor tornou-se seu inimigo; como ela era um ser selvagem e cheio de ódio do mar,  Þunor tentou matá-la muitas vezes, mas é dito que quando o dia final chegar, Þunor e Éormengand vão matar-se um ao outro.[163]

 

XVII. Hell, Neorxnawang e os Ancestrais

Hell, como a meio-morta[164] primeira moradora na habitação com seu nome localizada em Nifolham, assim tornou-se a regente dos mortos. Ali a maioria dos homens e mulheres reuniam-se para viver em friþ; eles podem continuar suas vidas e permanecer juntos, cuidando uns dos outros.[165] Eles podem viver no Hell com as coisas que seus parentes os enterraram, e quanto mais poderoso alguém foi quando era vivo, mais chances ele tem de alcançar uma vida boa e próspera após a morte no outro-mundo subterrâneo dos mortos.[166]

Mas alguns mortos também podem viver em Neorxnawang, no mundo superior de Ælfham. Naquela região os mortos que foram cremados ou especialmente poderosos ou honrados em alguma forma podiam viver entre o cynn dos ælfe e mesmo se tornar um deles; ali eles vivem em friþ e ajudam a fertilidade da terra e a prosperidade do seu cynn.[167]

Do submundo, os mortos também enviam mæġen e são frequentemente procurados pelos vivos para obter conhecimento. Ancestrais poderosos cuidam de seus descendentes em Middanġeard, ajudando suas vidas e os fazendo mais felizes e mais prósperos. Os vivos frequentemente deixam-lhes ofertas de ouro, comida, ou qualquer coisa de valor aos mortos; assim os ancestrais dão aos seus parentes algo de volta em retorno.[168]

Apesar disso, Hell também tem um local de punição, pois aqueles que são injustos com seu próprio cynn, mentindo, quebrando juramentos, matando seus próprios parentes, eram enviados ao Wyrmsele, onde a serpente Níþhéawere os engole. Eles não eram considerados bons o suficiente para desfrutar de suas vidas entre os mortos honrados.[169]

 

XVIII. Wéland[170]

Consequentemente, os homens também fizeram história e estórias.

Havia um habilidoso ferreiro, Wéland é seu nome. Ele casou-se com uma wælcyrġe, a qual após algum tempo o deixou, mas deu a ele um anel. Ele então forjou setecentas cópias daquele anel. Todavia, o rei Niðhad capturou Wéland quando ele estava dormindo, e ordenou que ele tivesse suas pernas inutilizadas, e o aprisionou, forçando-o a trabalhar.

Wéland teve sua espada roubada pelo rei, e o anel de sua esposa foi dado à filha do rei. Mas Wéland matou os filhos do rei em uma emboscada; ele então produziu cálices com seus crânios e joias com seus olhos e um broche com os dentes deles. Quando a filha do rei trouxe-lhe o anel para ser consertado, Wéland a estuprou, tendo um filho com ela. Ele então voou usando asas feitas por si mesmo. Mas Wéland também forjou muitas das armas míticas que os homens empunharam.

 

XIX. Hengest e Horsa e a Conquista da Grã-Bretanha[171]

Houve um tempo em que Hengest e Horsa foram permitidos por Sunne para vir a Middanġeard como humanos.[172] Eles o fizeram como irmãos, naquele tempo as tribos germânicas estavam vagando, lutando e conquistando novas terras. Hengest e Horsa foram poderosos chefes entre os descendentes dos povos Ingaevônicos.

Naquele tempo, na Grã-Bretanha haviam muitas guerras, e o rei britônico Vortigern convidou Hengest e Horsa como tropas auxiliares contra seus inimigos. Eles então contaram sobre uma terra onde éotenas que construíram grandes cidades de pedra um dia habitaram.[173] Eles ensinaram os anglos, saxões, frísios e jutos como navegar e eles atravessaram o mar para a Grã-Bretanha.[174]

Hengest e Horsa lutaram contra Vortimer, filho de Vortigern oposto às alianças de seu pai com os saxões, e na terceira de quatro batalhas, alguns dizem que Horsa foi morto, junto de Cartigern, irmão de Vortimer. Na quarta, os saxões foram expelidos, saindo da Grã-Bretanha.

Pouco depois, todavia, Vortimer morre, e os saxões e suas tribos aliadas voltam novamente. Oferecendo paz, os saxões encontram-se com Vortigern, e então eles tinham seaxas escondidas sob suas roupas. Hengest gritou “nemet oure saxas”, peguem suas adagas; e eles então mataram todos os homens do rei e fizeram Vortigern prisioneiro. Existem relatos que Horsa foi morto nesta noite, todavia. Algumas batalhas depois, Hengest foi capturado e morto. Hengest foi também o primeiro rei de Kent, o Reino Juto da Inglaterra.[175]

 

XX. Primeiros Reis Anglo-Saxões da Inglaterra

Os bretões lutaram bem, mas em todo caso, eles perderam a Grã-Bretanha, a qual é agora a maior parte do que nós chamamos Inglaterra; muitos poderosos e honrados reis guerreiros viveram ali com seus povos, como Ċerdiċ, o primeiro rei de Wessex, Æscwine, o primeiro rei de Essex, filho de Ġesecg, filho de Seaxnéat, Ælle, o primeiro rei de Sussex, Ælle o primeiro rei de Deira, na Nortúmbria, Esa, o primeiro rei dos bernícios na Nortúmbria, Wehha, o primeiro rei da Ânglia Oriental, Icel, o primeiro rei da Mércia, bem como o rei merciano Penda e o tardio rei anglo-saxão Ælfréd, o Grande, o qual defendeu seu reino contra as invasões dos vikingues e desenvolveu a educação na Inglaterra, bem como fortificou o sistema legal e estrutura militar.[176]

Ċerdiċ atracou em Hampshire no final do século V da Era Comum, seguido por seu filho Cynric, em cinco barcos. Ali eles lutaram contra o rei bretão Natanleod; e depois estabeleceram a casa de Wessex. Ele também conquistou a Ilha de Wight.

Icel deu seu nome à casa merciana dos Iclingas, e ele é de origem angla. Ele é dito ser filho de Offa de Angel, um poderoso rei guereiro do Período das Migrações, marido de Modþryð, filho de Wermund.

O Rei Guerreiro Penda foi um terrível chefe tribal Heathen num tempo em que a maioria dos reis estavam se convertendo à cultura romana. Ele conseguiu a vitória em muitas batalhas importantes, tornando-se um dos mais poderosos reis tribais da história da Inglaterra.

Penda matou o rei Edwin em 633, e nove anos depois ele fez o mesmo com seu sucessor, Oswald, na Batalha de Maserfield. Penda esquartejou o corpo de Oswald, colocando suas mãos, cabeça e membro em estacas. Ele também repentinamente batalhas contra os reis da Mércia Oriental e exilou o rei Cenwalh de Wessex por três anos. Penda durou até uma batalha contra o sucessor de Oswald, quando ele perdeu muitos guerreiros para uma enchente num rio.

 

XXI. O Conto de Mæðhild e Ġéat[177]

Havia uma mulher chamada Mæðhild, ela apaixonou-se por Ġéat. Mas ela previu a própria Wyrd dela, e ela soube que ela morreria afogada num rio. Ġéat, todavia, disse que ele construiria uma forte ponte sobre o rio. Mas Mæðhild sabia que ninguém pode escapar da Wyrd. Então, ela teve de atravessar o rio, e então a ponte caiu. Ġéat, em seu desespero, pegou sua harpa e tocou-a tão bem que os espíritos do submundo foram tocados por ela; então alguns dizem que Mæðhild boiou viva, outros dizem que ela boiou já morta. Depois de a enterrar, Ġéat então fez novas cordas para sua harpa com os cabelos de sua amada.

 

XXII. A Lenda de Beowulf e o Fim dos Tempos Heathens[178]

Também Beowulf é um herói lendário; provavelmente descendente do clã sueco dos Wægmundingas, ele era filho de Ecgþéow, o qual fugiu para a Inglaterra após matar Heaðolaf do clã dos Wulfingas. O rei Hróþgár, marido da rainha Wealhþeow, então pagou o wergild[179] para Ecgþéow.

Hróþgár então construiu um grande salão de hidromel chamado Heorot,[180] mas ele rapidamente atraiu a inveja de uma besta do útanġeard: Grendel, o terrível monstro. Ele então começou a atacar Hróþgár e a matar seu povo, tornando impossível para eles reunirem-se para aproveitar a mæġen do rei. O povo então deixou ofertas seguindo o seu antigo þéaw, pedindo pela ajuda de Wóden, como o Assassino de Espíritos.[181]

Wóden ouviu as preces deles. Então o herói geata Beowulf atravessou o oceano com sua tropa de guerra. Beowulf ouviu sobre o sofrimento de Hróþgár, e, como filho de Ecgþéow, ele sentiu que era sua obrigação o retorno de um favor.[182] Beowulf jurou para Hróþgár que ele iria matar o monstro, no momento que ele tivesse chance de encontrá-lo.

Beowulf fez como ele prometeu, e Hróþgár deu-o muitos presentes;[183] todavia, eles não sabiam que Grendel tinha uma mãe. Depois de ir à caverna subterrânea da mãe de Grendel após seus ataques, Beowulf também a matou usando uma espada de éoten que ele encontrou ali. Ele então voltou para sua terra.

Ali ele se tornou um rei, e ele reinou em friþ; trazendo prosperidade por muitos anos, até que um dragão acordou e começou a matar seu povo; então o herói mais uma vez pegou sua espada e matou o monstro do útanġeard, mas desta vez Beowulf foi mortalmente ferido e envenenado, morrendo após matar seu último inimigo para manter a honra e a friþ de seu povo.

O poderoso rei merciano Penda foi o último rei guerreiro de seu þéaw anglo-saxão original. Talvez um dos últimos eventos que deu aos anglo-saxões o sentimento de velhos tempos foi a batalha de Brunanburh em 937, quando o rei Æþelstan expulsou tanto celtas quanto vikings da Inglaterra, dado à Ilha muito de sua forma política moderna.[184] Mas provavelmente a mais importante parte daquele tempo já estava perdida. Aquela fúria de batalha foi provavelmente dada pelos antigos ése de um tempo não tão distante, naquele momento.

XXIII. A Metafísica do Andarilho[185]

Nessa nova era, os seguidores do antigo þéaw repentinamente ficaram perdidos. Isto aconteceu por muitas razões, mas alguns deles foram transformados em um eardstapa, um andarilho. Estes andarilhos foram forçados nos wræclastas, os “caminhos do exílio”, tristemente enfrentando sua própria Wyrd, uma vez que toda felicidade havia morrido.

De um þeġen ou um æðeling, um homem então tornara-se num ánhaga, um “homem solitário”, sofrendo pela morte de seus companheiros guerreiros e seu senhor, perdido num mundo que não tinha lugar para ele. Este homem solitário percebe que ele perdeu muitos dos prazeres da cultura do salão de hidromel, como a doação de presentes, a lealdade de seu senhor e seus companheiros. Ele então deve esconder seus pensamentos, para manter seus costumes.

Este tipo de andarilho então pode tornar-se um modcearig mann, um homem problemático da mente, meditando em quão pesada a vida é, como as mortes moldaram sua vida, e como sobreviver como um estrangeiro nessa nova ordem. A Wyrd também pode ser cruel.

O andarilho então perceberia assim que o mundo tinha mudado; toda a glória do passado estava morta e o þéaw antigo não existe mais, nem os tesouros, festas, batalhas, nem mesmo os cavalos, em uma palavra, toda aquela cultura está morta: ele então alcança o estado de snottor on mode, um “homem sábio”, embora isso pareça ser um estado um pouco pessimista e sem esperança num mundo pós-anglo-saxão. Isto é o que a ausência do antigo þéaw leva o andarilho a sentir.

XXIV. A Velha Semente

Depois que a religião romana foi imposta, a Era das Trevas começou.[186] Mas o fim apenas marca um novo ponto de começo. Aquilo foi superado, então isso pode ser. A natureza e o tempo são cíclicos. Os atores podem mudar, mas os papeis são os mesmos. A semente foi deixada e esquecida por muitos séculos, mas agora é o tempo de fazer ela crescer novamente.

É dito que um dia Loc e suas bestas do útanġeard vão finalmente voltar e atacar os ése, com Syrt e os éotenas de fogo e gelo, bem como os tolos þyrses, e muitos dos ése vão morrer,[187] bem como o mundo será queimado e renovado, como foi designado pela Wyrd.[188] Mas a terra continua viva e abundante em wihta, nossos ancestrais ainda estão respondendo nossos chamados e os deuses estão ainda lutando e fazendo a terra fértil. Esse dia ainda não chegou.[189]


Notas:

[1] Muitos anglo-saxonistas, principalmente os mais afeitos ao método reconstrucionista, assim como eu, podem discordar bastante desta parte, e outras, que foram retiradas dos mitos nórdicos e quase não possuem correlatos atestados na Grã-Bretanha ou continente. Todavia, aquilo que foi preservado dos mitos anglo-saxões é tão pouco que, na verdade, ou se reconstrói algo do zero a partir de gnose pessoal, ou a partir de fontes atestadas (o que escolhi sempre que possível), ou simplesmente se desiste de recuperar a visão de mundo anglo-saxã. Se tivéssemos sido mais felizmente agraciados com uma quantidade maior de mitos, evidências, etc. nada disso seria necessário. Algumas escolhas são duras a se fazer quando se quer reviver uma tradição com tantas lacunas, como a anglo-saxã. Não me considero menos fiel às fontes antigas por fazer o preenchimento, quando isso foi estritamente necessário. Não ignorei material anglo-saxão em detrimento de material estrangeiro. Está na hora do reconstrucionismo dar um passo adiante; queremos manter o fogo, tão similar ao antigo quanto possível e não cultuar as cinzas. E, na verdade, como dito na nota 6, existe precedente para esse tipo de interpretação.

[2] Isto é, antes da matéria como conhecemos existir, não é possível o tempo, ou ao menos o tempo como o conhecemos.

[3] Estes seriam espíritos ancestrais de tempos imemoriais, que não podem mais ser recordados. Materializados nas próprias estrelas, atualmente. Parece plausível de se supor que alguém tenha testemunhado o nascimento do cosmos já que na Völuspá nórdica, por exemplo, a narradora sugere ao interlocutor que teria presenciado ele acontecendo. Julgo que consciências antigas, possivelmente materializadas em ancestrais poderosos e deuses, observaram todo o processo de criação do cosmos.

[4] Aqui Tíw assume a função do *Dyḗus Ptḗr proto-indo-europeu, como pai celeste e atributos envolvidos. Apoiado por pesquisas etimológicas. Outros cognatos são Zeus e Júpiter. Baseado fortemente na visão exposta por Ceisiwr Serith.

[5] Assumindo aqui as funções do Týr nórdico antigo.

[6] Myspell, do nórdico antigo Musspell, alto-alemão antigo muspilli e saxão antigo mutspelli e mudspelli. O conceito de corrupção final, tanto como apresentado no ragnarök eddaico promovido pelos habitantes de Musspell, quanto o juízo final cristão saxão antigo, e o castigo pós-morte no inferno alto-alemão antigo tecem uma teia de significados curiosos que, apesar de embebidos de significado cristão, proporcionam evidências para se sugerir que uma ideia similar, mas pagã, existiu de alguma forma. Numa sociedade onde havia a noção de tempo cíclico, é provável que isso significasse não um fim em absoluto do mundo, mas apenas uma morte e recomeço. Nome reconstruído por Hermes Saucedo em Fyrnsidu.

[7] Dada a variedade imensa de palavras para “gigante” tanto de origem germânica quanto latina usada pelos anglo-saxões, achei por bem simplificar as coisas e dividir os gigantes em duas categorias principais: de um lado os irracionais þyrses, de outro os sábios éotenas. Ambos são igualmente fortes e assemelhados, a diferença básica está em sua cultura material. Os éotenas são associados à ideia anglo-saxã de construções em pedra abissais; já os þyrses à grande crueldade, perigo ao innanġeard.

[8] Baseado no Surtr nórdico antigo.

[9] Baseado no Niflheimr nórdico antigo. A reconstrução é do nome foi baseada em Hermes Saucedo, Fyrnsidu. E na reconstrução proposta pelo Ealdríce.

[10] Baseado no Ginnungagap nórdico antigo. A partir do livro de Hermes Saucedo, Fyrnsidu.

[11] Mæġen como exposta por Eric Wódening, We are our deeds, complementada com as noções de cræft em G. Storms, Anglo-Saxon Magic. Mæġen e cræft são tratadas como a mesma força, embora eu tenha preferido o uso do primeiro termo, para facilitar.

[12] Veja a nota n. 11.

[13] Dada a importância do conceito de wyrd para os anglo-saxões achei bem justo colocá-lo como motor de tudo, destacando, metaforicamente, sua importância. Creio que esse foi um dos insights mais acertados que tive, se não o mais: a wyrd é a força que move tudo.

[14] Aqui eu sigo a tendência de considerar wyrd e ørlǫg duas coisas distintas, embora elas pareçam sinônimos nas fontes antigas. Até onde fui levado a crer, wyrd é a teia de atos anglo-saxã; ørlǫg é o fio da predeterminação nórdica. Eles podem trabalhar em conjunto, mas eu não gostaria de afirmar que isso é um conceito estritamente histórico. É possível que futuramente eu tire a ørlǫg e fique apenas a wyrd.

[15] A reconstrução do nome foi tirada do Lárhús Fyrnsida.

[16] Repare no jogo de palavras e conceitos homófonos: (Or)læġ, lay (down), lei.

[17] Reconstruções a partir dos nomes atestados em nórdico antigo: Urðr, Verðandi e Skuld.

[18] Isso é pura figura de linguagem, não havia tempo.

[19] Movimento (wyrd) e matéria se encontram criando o tempo e a existência material.

[20] Shame on me, por derivação lógica, só posso pensar que a consciência material mais antiga era feminina, para então seguir a ideia proto-indo-europeia de casamento entre o céu e a terra, representando talvez a chuva, a fertilidade, mas também os próprios mistérios da criação.

[21] Vinda da Nerthus de Tácito. Por alguma razão, creio que esse seja o melhor nome, em oposição ao incerto “Erce” e nomes comuns em inglês antigo. Neorþe aqui é a matéria contida no espaço; Tíw, como “céu” é o espaço contentor dessa matéria. A reconstrução do nome é do Ealdríce.

[22] Essa foi talvez a parte mais problemática. O relato de Snorri nas Eddas claramente demoniza a morte, o Hel e sua homônima governante. A personificação do reino dos mortos parece algo tardio, e mesmo a imagem meio pútrida pode ser algo não muito mais antigo que a imaginação de Snorri. Para evitar esse problema haviam dois modelos essenciais: a Kali hindu, aparentemente linguisticamente relacionada, e Perséfone (Core) entre os gregos, possivelmente associada por Saxão Gramático no Gesta Danorum à deusa do submundo nórdica. Nenhuma das duas fornecia um modelo similar à ideia nórdica: Kali é mais próxima de um psicopompo e Perséfone é uma deusa da fertilidade, que causa morte de maneira passiva, não ativa, como Hel. Em vez de optar por um princípio de morte eterno como em Kali, ou de uma morte nascendo em um ponto razoavelmente aleatório, como com Perséfone e Hel, ou de aceitar o relato de Snorri claramente tentando demonizar a morte, optei por uma via impensada, no que pude ver de deidades indo-europeias comparáveis: a mote nascendo junto com a vida, como seu complemento, ambas se alimentando mutuamente.

[23] O casamento primordial proto-indo-europeu e os gêmeos primordiais dando início à existência.

[24] A partir do Ymir nórdico, linguisticamente, associável a figuras gêmeas proto-indo-europeias, principalmente *Yemo- (“gêmeo”). Veja também o Yama (“gêmeo”) hindu, chamado de Yima, no Zend-Avesta do zoroastrianismo.

[25] A partir do Tuisto (“Gêmeo”?) ou Tuisco (“Filho de Tíwaz”?) de Tácito. O texto de Tácito possui variações ortográficas, dependendo da cópia do documento. Adotei aqui ambos os significados da grafia do nome; o nome é filho de Tíw, e na prática ele é um dos gêmeos primordiais. Compare Tuisto com o sueco antigo tvistra (“separado”), e com as raízes proto-germânicas *tvai “dois” e *tvis, “dobrado”, “duas vezes”.

[26] Perceba que morte é parte do ciclo da existência, com Hell. Mas que a corrupção, com Syrt e Myspell, é o oposto da existência, sua destruição. A oposição vida e morte é criadora, a de matéria e corrupção, destruidora.

[27] O tema da árvore-mundo, baseado no nome Irminsul, seguindo palpites modernos, mas funcionalmente como a Yggdrasil nórdica antiga. Graças à falta de evidências, sua função é complementada com material eurasiático e indo-europeu.

[28] Aqui o relato nórdico é simplificado, com o cynn dos gigantes brotando de Ymir.

[29] Pulsões de sobrevivência e guerra parecem bem comuns, motores da existência.

[30] Ao estilo Chronos, eu sei.

[31] A vaca primordial é provavelmente uma emanação da feminilidade materna de Neorþe. Tema não exclusivo dos nórdicos no mundo indo-europeu.

[32] Seguindo a etimologia proto-indo-europeia, sempre considero os ése como seres brilhantes e de alguma forma associados ao céu.

[33] Do nórdico antigo Búri, reconstrução de Hermes Saucedo, no Frumgesceap.

[34] “Família, tipo, raça, espécie”.

[35] Æsir em nórdico antigo. Singular “ós”.

[36] Do nórdico antigo Bórr, reconstrução de Hermes Saucedo, no Frumgesceap.

[37] Atestado nas fontes anglo-saxãs, não oferece problemas. Aqui tentei manter o caráter de Wóden distinto da variante nórdica, sempre que possível.

[38] Do nórdico antigo Vili, reconstrução de Hermes Saucedo, no Frumgesceap.

[39] Do nórdico antigo Vé, reconstrução de Hermes Saucedo, no Frumgesceap.

[40] Ligando a todos e se tornando a árvore que proporciona o contato entre os diversos seres, como é comum em visões de mundo tradicionais, possibilitando o papel do xamã.

[41] O trançado de nove fios, com três retos e três vindo de cada lado, cruzando-o em diagonal.

[42] A partir do Loki nórdico antigo. Repare, todavia, que esse não é exatamente Loki, mas uma personificação do útanġeard. Loki não foi atestado nas fontes anglo-saxãs, todavia, seguindo o anglo-saxonismo moderno, com certeza ele serve para desempenhar o papel de personificação de algumas das falhas morais mais indesejadas na visão de mundo anglo-saxã, e é certo que no passado houve uma figura ou mais que representou isso, como Loki representa entre os nórdicos.

[43] Os éotenas de fogo são quase que a personificação da antimatéria. Na física moderna, a antimatéria é definida como um material composto pela antipartícula (ou “parceiros”) nas partículas correspondentes de matéria comum. Em teoria, uma partícula e sua anti-partícula (por exemplo, próton e antipróton) têm a mesma massa que a outra, mas a carga elétrica inversa e outras diferenças nos números quânticos. Por exemplo, um próton tem carga positiva enquanto um antipróton tem carga negativa. Uma colisão entre qualquer partícula e seu parceiro antipartícula é conhecida por levar a sua aniquilação mútua, dando origem a várias proporções de fótons intensos (raios gama), neutrinos e, às vezes, pares de partículas e partículas antipartículas.

[44] Ou seja, em um mundo tribal, Loc está sempre agindo de acordo apenas com seu próprio desejo, em oposição àquilo que é necessário à sobrevivência de seu próprio grupo. Em tempos antigos – e mesmo hoje – essa é uma falha que prejudica severamente o grupo. Aqui eu busco também dar sentido à origem de Loki, a qual é um tanto obscura nas Eddas nórdicas.

[45] Reproduzindo aqui a primeira batalha contra Ymir, provinda dos mitos nórdicos.

[46] Esse tipo de fúria é mencionado tanto por parte de Þórr, quanto de gigantes, como no mito da construção do muro de Ásgarðr, encontrado no Grimnismál.

[47] A batalha indo-europeia dos gêmeos fundadores, passando-se por cima do tradicional mito nórdico, apesar de em certa medida dependente dele.

[48] Reproduzindo aqui o mito nórdico.

[49] Tíwessunu, como uma força natural primordial, está bem pouco interessado em todas os problemas criados pelos ése e sua tendência civilizacional.

[50] Ou seja, num mundo sustentado pela Wyrd que os éotenas de fogo não eram capazes de destruir, fica acordado que quando a própria ordem não puder se sustentar, a corrupção então pode cumprir seu papel. Teoricamente, os éotenas de fogo são prejudicados pela Wyrd, e em um mundo sem sucessão de eventos, sem acontecimentos, eles podem existir indefinidamente. Eis o porque os éotenas de fogo são tão contrários ao mundo que surge das Wyrdas.

[51] Esse tratado de paz era necessário, na medida que a primeira guerra relatada nas Eddas é entre os æsir e os vanir, e não há relatos de conflitos com gigantes de fogo antes do ragnarök.

[52] Aqui o mito tradicional é modificado para acompanhar a teoria heliocêntrica. Acho improvável que os anglo-saxões fossem negar o conhecimento astronômico correto, quando eles eram um povo tão pragmático, oposto ao dogmatismo que se seguiu com a conversão ao credo romanizado. É possível criar mito disso, não é porque é cientificamente correto que é mitologicamente inútil.

[53] A carruagem ficou quase sem função aqui… mas ainda assim, dentro do contexto indo-europeu que o mito se insere, era necessário. É comum que nas mitologias elementos se tornem menos úteis, com o passar do tempo. A carruagem e os cavalos fazem mais sentido com a Terra sendo centro do universo, mas, por motivos culturais, achei útil deixa-la.

[54] Seguindo os palpites indo-europeus, em vez de Árvakr e Alsviðr, os irmãos-cavalo ocupam a posição de puxadores da carroça solar; logo Hengest e Horsa então, seguindo a etimologia, são então associados a essa função.

[55] Isto é, a fermentou.

[56] A pluralidade desnecessária e confusa de elfos de Snorri foi simplificada com elfos luminosos (ljósálfar) sendo equivalentes de ælfe e todas as outras variantes “escuras” (svartálfar, døkkálfar e dvergar) foram simplificadas nos dweorgas. Repare, aliás, na relação entre os ælfe, dweorgas e cogumelos.

[57] Lembre da associação mencionada na nota 56 e a capacidade de fazer música.

[58] Pequena crítica da visão “terra-centrista”.

[59] Novamente, adaptando o mito para encaixar-se na visão mais acertada atualmente sobre astronomia, e mais uma vez vemos que a ciência e a mitologia podem andar lado a lado.

[60] Eis a função do primeiro sacrifício indo-europeu, como eu o compreendo.

[61] Mais uma vez, seguindo o mito nórdico… mas com precedente indo-europeu.

[62] Wada, como divindade liminar aquática, atestada entre os saxões e embasada nas pesquisas do Lárhús Fyrnsida. Assume também alguns atributos do Ægir nórdico, o qual pode ser ligado ao conceito de mæġen. Parece bastante plausível que uma divindade do sub/outro-mundo seja provedora dessa energia.

[63] Como axis mundi, a árvore alcançando e interligando tudo. Segue-se a noção nórdica de que uma das Nornir cuidaria de uma das raízes de Yggdrasil, pois isso parece algo bastante importante a se destacar: se Eormensýl é o eixo que tudo sustenta e de certa forma, torna possível a manutenção da existência, então, nada mais justo que uma daquelas que trabalha com a lei primordial (Orlæġ) e trouxe o mundo à existência tecendo a Wyrdeswebb, ajude a manter essa ordem/realidade cultivando e cuidando das raízes do eixo do mundo.

[64] Aqui destaca-se o papel do animismo indígena, bastante similar ao nórdico (veja os comentários de Snorri na Edda em prosa: “… isso eles perceberam, que todas as coisas foram formadas de alguma essência”, e “… eles reconheceram que a terra era rápida, e tinha vida com algum tipo de natureza própria; e eles entenderam que ela era maravilhosa em anos e poderosa em espécie: ela alimentava tudo o que vivia, e ela tomou para si mesma aquilo que morreu”). Apesar das pequenas menções animistas aqui, é útil lembrar que esse mundo mencionado em poucos parágrafos compreendia a maior parte da interação dos antigos anglo-saxões em sua existência, e mesmo a nossa, hoje em dia – pelo menos quando não estamos presos num espaço urbano.

[65] Como Tíw é o correspondente tardio entre os anglo-saxões da divindade central do culto proto-indo-europeu, em algum momento ele foi submetido pelos cultuadores do *Wódanaz. O culto de *Wódanaz e seus desenvolvimentos parece bastante tardio, e não creio que no período proto-germânico ele tivesse um papel tão proeminente como tem entre os nórdicos e parece ter entre os anglo-saxões.

[66] Aqui, Fjörgyn dá lugar à Nerthus. A razão de convergir todas as deusas da terra em apenas uma é simples: os indo-europeus impuseram seu culto masculino, patriarcal e bélico e incorporaram os cultos férteis, agrários locais. Como a ideia é um mito exclusivamente anglo-saxão, parece razoavelmente desnecessário manter diversas divindades não atestadas, exteriores, para a mesma função que apenas uma divindade local pode manter. Se os anglo-saxões tiveram várias divindades da terra – como aparentemente os nórdicos tiveram – está para se provar, mas creio que a evidência textual/arqueológica não pode dizer muito sobre isso. Então, penso que o melhor caminho seja simplificar com o culto a uma única deusa da terra, incorporando todos os mitos que são relacionados a esse tipo de divindades locais, tomando o solo anglo-saxão como referência.

[67] Incorporando características do Þórr nórdico e do báltico Perkūnas como deus ferreiro. Associar Þunor a esse tipo de função me parece nada mais que uma derivação lógica do fato de que ele usa um martelo e é associado ao trabalho e às classes mais populares (embora os próprios ferreiros pudessem alcançar um alto status dada a importância de seu ofício).

[68] Novamente, características do Þórr nórdico.

[69] Seguindo o Encantamento das Nove Ervas aqui ao decidir por sete, e não nove mundos. Esse é um dos traços essenciais de diferença entre o que sabemos de anglo-saxões e nórdicos, embora não tenhamos registro de quais sejam esses sete mundos. Todavia, do lado nórdico os próprios nove são incertos e mal enumerados, e não há como se saber com certeza quais todos eles quais são.

[70] A partir de Ásgarðr dos nórdicos. Reconstrução baseada na de Hermes Saucedo, em Fyrn Sidu.

[71] A partir de Álfheimr dos nórdicos. Reconstrução baseada na de Hermes Saucedo, em Fyrn Sidu.

[72] Neorxnawang é um conceito que demanda muito cuidado. A palavra pode ser decomposta em Neor (próximo, near), na (não, not) e wang (jardim, garden), dando como resultado “Garden-not-near” ou “Jardim-não-próximo”. O “x” é de etimologia incerta e problemática. Neorxnawang aparece em contextos bíblicos e parece se referir a uma espécie de “Campos Elísios”; todavia, a insistência de Ælfric ao usar esse termo paralelamente a “Paradisum”, evidencia a possibilidade de Neorxnawang refletir um conceito nativo, em oposição ao estrangeiro, cristão. É essa ideia que seguimos aqui; e em vez de situá-lo em Ésaġeard, penso que é mais lógico situá-lo no local onde as criaturas do campo (ælfe) vivem. Até porque seguindo o palpite de Hilda Ellis Davidson e Gabriel Turville-Petre, um paraíso associado a campos lembra muito a noção do mundo dos álfar nos quais humanos poderiam se tornar.

[73] Atestado entre os anglo-saxões, não tem dificuldades.

[74] Veja a nota 9.

[75] Seguindo a narrativa nórdica, aqui.

[76] Atestado no poema épico Judith, que embora se trate de uma obra que traga uma narrativa bíblica para o contexto anglo-saxão, intercala várias noções nativas. O Wyrmsele aqui foi algo como influenciado pela ideia de Náströnd nórdica.

[77] Reconstrução a partir da Níðhöggr nórdica.

[78] Reconstrução a partir do Svartalfheimr nórdico; sugerido por Hermes Saucedo em Fyrn Sidu.

[79] Reconstrução a partir do Jötunheimr nórdico; sugerido por Hermes Saucedo em Fyrn Sidu.

[80] Os mundos aqui foram divididos essencialmente em três: superiores, mediano e inferiores, com ligações entre si. Essa é a ideia mais simplista e comum encontrada em povos “xamânicos”. Dentro dessas três esferas maiores, foram inseridas as divisões particulares, para totalizar sete mundos. As moradas interiores não são contadas como mundos separados.

[81] A origem dos proto-indo-europeus.

[82] A origem dos (pré?) proto-germânicos.

[83] Novamente convergindo as deusas da terra numa única.

[84] Sugere-se que o etnônimo “ingaevone” seja derivado do teônimo “Ing(ui)”, e o mesmo pra “hermione”, com “Irmin”. Apenas os istaevones ficam com etimologia incerta; possivelmente sua divindade fundacional teve seus registros perdidos ou jamais escritos.

[85] Seguindo aqui a descrição fornecida nos mitos nórdicos para Freyr.

[86] Novamente a divindade feminina da terra (Fjörgyn) foi renderizada como Neorþe. Todavia, a masculina, Fjörgynn, teve seu nome convertido para uma possível forma anglo-saxã.

[87] Fríġe reúne as características de Frigg e Freyja, a exemplo das variantes em outros povos germânicos, onde há apenas uma das descendentes da *PriHxeHa proto-indo-europeia. A divisão parece bem tardia e possivelmente feita por Snorri, e decidiu-se aqui seguir aqui um arquétipo amoral, não encaixável na sociedade contemporânea de uma deusa completa, que é o que se representa na fusão dos mitos de Frigg e Freyja. Inclusive seus mitos em muitos pontos possuem ligações (a solidão de Freyja e de Frigg, as barganhas por joias, etc.).

[88] Função de Nornir atestada nas estrofes 2-4 da Helgakviða Hundingsbana I da Edda Poética.

[89] Baseadas nas ættarfylgjur (seguidoras familiares) em nórdico antigo.

[90] Seguindo a sugestão da Völuspá, e outras passagens onde álfar são colocados no mesmo patamar que os æsir, e possivelmente são um sinônimo para os vanir. As diferenças entre vanir e álfar muitas vezes são em demasia problemáticas, dadas as associações de ambos com Freyr e a fertilidade.

[91] Esse mito, apesar de proveniente da Edda de Snorri, foi ressignificado para explicar a dinâmica de innanġeard versus útanġeard, própria do paganismo anglo-saxão moderno, em especial do theodismo.

[92] Isso por causa da noção de “honra” tribal, na qual uma ferida feita contra o cynn precisava ser vingada por outros membros ou ele mesmo.

[93] Aqui busca-se em metáforas explicar que o cerco do innanġeard só existe graças ao local “caótico”, onde a lei tribal e o parentesco (kinship) não funcionam. É do mundo externo que surgem os principais agentes desestabilizadores e perigosos (ao menos numa sociedade tribal que funciona sadiamente), e é ele que cria a necessidade dos cercamentos de proteção. O mesmo acontece hoje em nossa sociedade onde os costumes cristianizados compreendem o grosso do útanġeard que busca nos desestabilizar, enquanto heathens. Mas, infelizmente, mesmo entre heathens aqueles que poderiam ser nosso innanġeard comumente se colocam em posição de lobos, buscando destruir nosso grupo, pelos mais vis motivos, criando a necessidade dos muros (por favor, não confunda isso com a ridícula xenofobia de Trump. Tribalismo é bastante diferente de racismo).

[94] Þunor, protetor da propriedade e innanġeard, como apresentado por Wódgár Inguing em Warden of Property: Þunor Eodorweard.

[95] Baseado no Sleipnir nórdico.

[96] O cavalo xamânico.

[97] Se infere que Gullveig era Freyja disfarçada, e, como mencionado na nota 87, Frigg e Freyja são tratadas como uma deusa só.

[98] Seguindo o relato da Völuspá na Edda Poética.

[99] Ælfecynn aqui visivelmente assumindo o papel dos vanir.

[100] Tema que aparece ao menos uma vez nas Eddas, e nos relatos anglo-saxões, quando o sacerdote pagão atira uma lança contra seu próprio templo ao converter-se ao cristianismo (provando quão mal cristão ele era, em partes).

[101] Os “elf shots”, contra os quais encantamentos de cura foram feitos muitas vezes pelos anglo-saxões.

[102] Tentando organizar os eventos do mito nórdico de maneira lógica, e supondo que Frigg e Freyja são a mesma, obviamente.

[103] Do nórdico antigo Kvasir.

[104] Aqui o mito do roubo do hidromel segue o padrão exposto nas Eddas.

[105] Veja o poema Sigrdrífumál, mencionando o conhecimento de ölrúnar (ale runes, runas de cerveja) e em Beowulf o termo ealuscerwen, obscuro, mas talvez “derramar alu”. A palavra aparece em várias bracteatas metálicas e parece ter sido uma forma de magia rúnica ou invocação. É comumente ligada ao proto-germânico *aluþ, cerveja. Pode estar ligado ao inglês antigo ealh e ao gótico alhs, ambos significando “templo”. Aqui cabe lembrar a relação de sacralidade que os antigos tinham com o álcool.

[106] Do nórdico antigo, Fjalar e Galar.

[107] O nome foi mantido a versão nórdica antiga, por falta de capacidade de traduzir mesmo.

[108] Wergild também conhecido como man price (“preço do homem”), foi um valor colocado em cada ser e parte de propriedade, por exemplo no Código Sálico Franco. Se a propriedade foi roubada, ou alguém foi ferido ou morto, a pessoa culpada teria que pagar o wergild como uma restituição à família da vítima ou ao dono da propriedade.

[109] Do nórdico antigo Gunnlöð.

[110] Avanço aqui o mito eddaico e destaco o papel do do ut des através do álcool como bebida sagrada. É muito importante se recuperar a função sacra do álcool no paganismo atual, a qual se perdeu praticamente de forma completa; o álcool é tratado meramente como uma diversão, num total ato de dessacralidade. Com esse mito, busca-se evidenciar a função ritual e não recreativa do álcool.

[111] Desta vez foi Gerda que convergiu em Nerthus. O incesto, creio eu, nunca foi um grande problema no mundo divino.

[112] Sigo aqui os apontamentos tanto da Edda de Snorri, no Skirnismál, quanto de Gudmund Schutte, em The Cult of Nerthus, onde ele destaca o culto e o depósito de ofertas em túmulos.

[113] Novamente destacando o papel do do ut des, ou ciclo de presentes, a filosofia do “você me dá algo e eu te dou algo em troca”, olhada tão pejorativamente, mas que é a base do paganismo. Através do ciclo de presentes se desenvolvem todas as relações com divindades e wihta de todos os tipos.

[114] Aqui busco evidenciar algo que Tácito menciona: a importância das noites e de Mona para os povos germânicos em geral. É uma vergonha que no paganismo contemporâneo o conhecimento do uso do poder de Mona esteja tão esquecido.

[115] (a) Aqui busca-se destacar a ideia de Tíw como Mars Thincsus (“Marte da þing” menção possivelmente feita a Tíw, do altar RIB 1593, encontrado em Hexham, Northumberland, Inglaterra, nas dependências da antiga Muralha de Adriano romana, e, apesar de pré-anglo-saxão, tem possível origem frísia – a cives Tvihantis mencionada na inscrição podendo ser identificada com Twenthe, na província de Over-Yssel, na Holanda), e o principal deus relacionado à ordem social e à folcġemót. (b) “Folcġemót” é usado como o conceito anglo-saxão nativo no local do nórdico þing. Ambos denotam assembleias populares de homens livres, embora o folcġemót (“encontro do povo”) tenha se desenvolvido para a forma aristrocrática do witenaġemót (“encontro de sábios”), entre os séculos VII e XI.

[116] Apesar de se tratar de uma sociedade guerreira, Tácito menciona que em períodos limítrofes como o culto de Nerthus todas as armas ficavam trancadas e ninguém era permitido utilizar armas. Parece natural supor que em outros períodos sagrados como a folcġemót/þing o mesmo acontecesse.

[117] A friþ é mencionada algumas vezes no corpo do texto, embora em nenhuma delas seja claramente explicada. É uma espécie de harmonia e acordo de mútua proteção estabelecido pelos membros de um innanġeard, que reflete-se não apenas na paz, mas na manutenção da honra tribal.

[118] Seguindo aqui a ideia apresentada pelo dicionário de inglês antigo Bosworth-Toller, para a entrada cyning: “Ele é a representação do povo, e brota deles, como um filho faz a partir de seus pais. O rei (king) anglo-saxão foi eleito pelo povo; ele era, portanto, o rei (king) do povo. Ele era o representante escolhido das pessoas, sua personificação, a criança, e não o pai do povo. Ele não era o senhor do solo, mas o líder de seu povo […] O rei (king) era, na verdade, essencialmente um com o povo, por eles e o poder deles ele reinava; mas a terra dele era como a deles, propriedade privada. Não era o sistema feudal, e nunca permitiu-se que o rei (king) fosse dono de toda a terra em um país”.

[119] De acordo com o relato de Tácito sobre a personalidade política dos germânicos.

[120] O mito do nascimento de *Hréðe foi totalmente desenvolvido por mim, mas tentando encaixá-lo dentro da lógica dos mitos antigos dos germânicos. Essa parte é total recriação, embora uma recriação baseada na reconstrução e não na mera imaginação. A partir de Rheda, atestada por Beda e de termos como ureð saxão antigo.

[121] Inimigo, no idioma anglo-saxão.

[122] Aqui busca-se situar logicamente a linha temporal que vai aos saxões, descendendo dos ingaevones.

[123] Os éotenas e þyrses são tratados como essencialmente os wihta que habitam montanhas e grandes paisagens, como sugere, entre outros, o mito do roubo do hidromel na Edda de Snorri.

[124] A ideia aqui é ligar o deus do combate direto aos ulfheðnar, os guerreiros-lobo, em oposição aos berserkir, os guerreiros-urso de Óðinn.

[125] Assumindo que o javali é um animal importante para os saxões, pela ligação de Freyr com os javalis (Gullinbursti, o javali de ouro, em especial), e de achados arqueológicos como os restos do elmo de Benty Grange, datado do século VII, encontrado em Derbyshire, Inglaterra, o qual possui em seu topo um javali ornado em metal.

[126] O que a situaria como uma protetora do animal totêmico dos saxões, mas usando a força lupina.

[127] Aqui, em vez de se pintar uma mulher dócil, quis se destacar uma mulher guerreira, autossuficiente, como existiram – certamente – várias no passado pré-conversão.

[128] Restituindo a honra tribal de seu innanġeard, como no mito da morte de Balder, nas Eddas.

[129] Assumindo a importância da simbologia do dragão (wyrm) para os anglo-saxões, como nos mitos célticos sobre os novos habitantes da Grã-Bretanha, e mesmo na bandeira de Wessex.

[130] Novamente associando Tíw com os lobos e os guerreiros-lobo (ulfheðnar).

[131] O mito de Seaxnéat também é recriação, mas baseada na simbologia e etimologias disponíveis.

[132] Seguindo aqui as genealogias de Essex. Não acredito que situar Seaxnéat como filho de Wóden seja de alguma forma diminuir seu poder, força ou influência. Þunor também é um filho de Wóden e sua contraparte nórdica, descontada alguma influência de Snorri, não parece subordinado ou inferior a seu pai.

[133] Lembrando da importância dos cavalos, tanto para os saxões continentais quanto para os jutos, na bandeira de Kent. Junto dos dragões, os cavalos são os animais mais importantes os (anglo-)saxões, talvez até mais que os javalis, pela evidência atestada.

[134] Destacando o aspecto sobrevivencialista aparente da etimologia de Seaxnéat, como “companheiro de adaga”.

[135] Achei que o mais justo para um mito de etnogênese saxão fossem duas divindades puramente saxãs, como *Hréðe e Seaxnéat.

[136] Situando, assim, Seaxnéat como uma divindade cultural, o deus tribal dos saxões, explorando suas definições etimológicas.

[137] Do nórdico antigo ulfheðnar.

[138] Seguindo e interpretando o relato de Beda em De Temporum Ratione.

[139] Aqui segue-se a ideia de que os ritos religiosos humanos são réplicas de eventos mitológicos/divinos. Inicialmente eu quis dois nomes diferentes para cada um dos eixos (o do mundo e o simbólico, dos saxões), mas que o Irminsul seja um reflexo da Yggdrasil é algo plenamente compreensível.

[140] Novamente situando Seaxnéat como divindade cultural-civilizacional.

[141] Situando aqui, mitologicamente, a arquitetura das construções baixo-alemãs, e a importância dos Dúrupálas no culto do lar, como exposto por Wódgár Inguing em Threshold Guardians: Dúrupálas.

[142] Reconstrução feita pelo Lárhús Fyrnsida.

[143] Destacando a importância do culto doméstico (hearth cult).

[144] Destacando a importância dos wihta do lar (cófgodas).

[145] Do nórdico antigo Forseti, e Fosite, um deus frísio. Veja o alemão moderno Vorsitzender, “aquele que preside”.

[146] Veja-se o conto medieval contado por Adão de Bremen, onde uma figura identificada com Fosite ensina as leis aos memorizadores das leis frísios.

[147] Seguindo aqui o relato das Eddas.

[148] Aqui tentando justificar a relação entre Balder e o sol, nos mitos nórdicos.

[149] Lembre do anel mágico Draupnir o qual pode se multiplicar nove vezes.

[150] Seguindo o Encantamento das Nove Ervas.

[151] O nome original é “Fille”, em inglês antigo. O dicionário Bosworth-Toller apresenta como significado para essa erva “thyme”, a Thymus vulgaris, ou tomilho; todavia as duas traduções que usei como base identificam “fille” com chervil, Anthriscus cerefolium, conhecida em português como cerefólio.

[152] Finule, em inglês antigo, indicada como Fennel (Foeniculum vulgare), erva-doce ou funcho.

[153] Seguindo o relato das Eddas.

[154] Novamente, sintetizando os relatos das Eddas.

[155] Alguns mitos mais importantes sobre Wóden que foram reproduzidos a partir das Eddas. Não foram muito detalhados, apenas para dar uma noção geral da imagem de Wóden que se desejou reconstruir.

[156] Repare como Loc é o o agente do útanġeard.

[157] Do nórdico antigo Járnviðr, a floresta ao leste de Midgarðr.

[158] Da nórdica Angrboða.

[159] Do nórdico antigo Fenrir.

[160] Do nórdico antigo Jörmungandr.

[161] Replicando o mito das Eddas.

[162] Do nórdico antigo Víðarr.

[163] Novamente, reproduzindo mitos nórdicos.

[164] A imagem pintada por Snorri de Hel como meio-morta é possivelmente imaginário tardio ou pessoal, enquanto cristão. Ainda assim, será assumido aqui, uma vez que é bem característico.

[165] Negando claramente o relato de Snorri, quando ele tenta demonizar o submundo.

[166] Seguindo as interpretações de historiadores e arqueólogos sobre a cultura material encontrada em ambientes funerários.

[167] Veja a nota 72. Eu acho que é bastante improvável que o Neorxnawang fosse associado à habitação dos ælfe, mas hoje a associação me parece bastante lógica, com a escassez de evidências que enfrentamos, na reconstrução da visão de mundo anglo-saxã.

[168] Veja Gudmund Schutte, The Cult of Nerthus, bem como o quarto capítulo de Road to Hel de Hilda Roderick Ellis. Aqui busca-se trabalhar a evidência literária e arqueológica que suporta a ideia do culto ancestral, embora ela seja comumente colocada de lado.

[169] Não creio que seja uma ideia cristã associar os outlaws a uma punição pós-vida. Não parece de acordo que num pós-vida de continuidade, como é o germânico, tão associado ao mundo dos vivos, que aqueles que são expulsos da sociedade sejam aceitos livremente após a morte. Não acredito que isso tenha a ver com o inferno cristão e sim com a noção de innanġeard e útanġeard levadas ao âmbito além da vida, como eles são levados na própria vida.

[170] Personagem importante que aparece na Völundarkviða, um poema na Edda Poética, e na Þiðreks saga. Menções são feitas em Déor e em Beowulf, e na Urna de Frank.

[171] (a) A partir daqui entramos na parte semi-histórica da visão de mundo. Essa parte é a que mais precisa ser desenvolvida, no sentido de que novos mitos precisam ser criados para figuras como Hengest e Horsa, Ġesecg, Ċerdiċ, Penda, entre outros. Note a mudança de tom aqui, que é, obviamente, menos mitológica e mais descritiva, na maioria dos contos. (b) Os relatos sobre Hengest e Horsa provém das Crônicas Anglo-Saxãs, Historia Brittonum, de Nennius, Historia Regum Britanniae, de Geoffrey Monmouth e Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, de Bede, e foram fusionados de forma a fazer sentido. Obviamente, o que faz sentido para um, pode não fazer para outro(s).

[172] Novamente aqui o motivo proto-indo-europeu dos irmãos-cavalo, e dos irmãos-fundadores aparece. Tolkien argumenta por uma base histórica para Hengest e Horsa, eu penso que eles são realmente semi-históricos (como quase toda grande figura no imaginário pagão).

[173] Aproveitando o imaginário saxão sobre as cidades romanas abandonadas.

[174] Sendo posicionados assim, como divindades culturais.

[175] A ideia aqui é que Hengest, além de divindade associada ao sol, seja entendido como um herói civilizacional, cultural, possibilitando um elo entre a “alta mitologia” e o dia-a-dia do heathen anglo-saxão, como veremos nos exemplos posteriores dos reis que são mencionados.

[176] Este parágrafo e os seguintes são o estabelecimento de uma genealogia “política” para os anglo-saxões, e, por consequência, para os heathens anglo-saxonistas modernos.

[177] Conto que foi preservado parcialmente no poema anglo-saxão Déor, e em uma balada medieval escandinava, registrada no século XIX.

[178] Essa parte é, na verdade, um resumo geral do poema Beowulf.

[179] Veja a nota 108.

[180] O salão de hidromel, na cultura anglo-saxã, tinha uma função social e religiosa importantíssima, a qual não creio que consegue ser claramente destacada aqui, mas que no poema Beowulf é a razão dos ataques da besta vinda do desconhecido.

[181] O gástbona, traduzido por Seamus Heaney como “killer of souls”, apesar de não ser mencionado o nome, dentro do contexto no poema Beowulf, provavelmente era uma divindade pagã da guerra e/ou da vitória, logo, Wóden, Tíwaz, *Hréðe ou Seaxnéat. Dada a importância que Beda parece dar à Rheda em De Temporum Ratione, é bem difícil optar por Wóden; ainda assim sigo essa opinião. Cabe ressaltar a tentativa (falha) de cristianização dessa parte em especial de Beowulf.

[182] Seguindo a noção de honra tribal.

[183] Nesta passagem, é possível notar a importância do ciclo de presentes na mentalidade antiga.

[184] Æþelstan foi o último grande rei anglo-saxão. Se Harold Godwinson não tivesse caído na armadilha do tirano bastardo que assumiu o poder na Normandia, após vencer Harald Hardrada, Godwinson tinha plenas condições de manter a Inglaterra anglo-saxã. Todavia, não havia como prever que as mudanças instituídas pela conquista normanda seriam tão grandes em sua época, e que a classe regente anglo-saxã seria limpa da Inglaterra, deixando o país em mãos de estrangeiros, por quase mil anos, até os dias atuais.

[185] Síntese do poema comumente chamado Se Eardstapa ou “O Andarilho”, encontrado no Livro de Exeter, datando do final do século X. Aqui a condição existencial anglo-saxã tardia é discutida, e a terceira fase do texto entra em ação, onde o leitor é convidado a, entendendo todo o imaginário exposto até aqui, ver como o cristianismo antigo da Inglaterra, numa época em que o paganismo tardio ainda estava com força, mas as bases da sociedade pagã e anglo-saxã vinham sendo substituídas, pelo catolicismo, as invasões vikingues constantes e o domínio normando e como toda a perda de identidade e todos os elos que mantinham os anglo-saxões unidos, em sua diversidade, era prejudicial à mentalidade subjetiva dos membros da sociedade anglo-saxã em seus dias finais. A ideia é, conhecendo, se evitar essas condições.

[186] E foi intensificada com a conquista dos normandos.

[187] O ragnarök nórdico.

[188] A inserção do ragnarök numa narrativa pagã, dependente de tempo cíclico.

[189] Em resumo, o paganismo germânico, e mesmo o anglo-saxão, ainda podem ser vividos na atualidade.