Ēostre, Ostara, Páscoa

Escrito por Andreia Marques
Publicado originalmente em Heathen Brasil

Todo ano, mais ou menos nessa época, inevitavelmente aparece alguém do meio pagão associando a celebração da Páscoa com a deusa saxônica Ēostre (e agora, mais ou menos frequentemente, à deusa Ishtar). Daí surgiu a ideia desse post, para esclarecer algumas coisas.

Primeiramente, é fato que na língua inglesa o que chamamos “Páscoa” se chama “Easter”, e é quase certo que “Easter” vem de Ēostre, significando “aurora”. É fato que havia um mês do ano, Ēosturmōnaþ, que supostamente seria dedicado a esse deusa. Sabemos disso única e exclusivamente através do relato do Venerável Bede, do século VIII, em seu De temporum ratione. Neste relato, Bede diz que os pagãos anglo-saxões celebravam a deusa no mês de Ēosturmōnaþ:

Eosturmonath tem um nome que hoje é traduzido como mês pascal, que já foi chamado assim devido a uma deusa deles, em cuja honra celebravam-se banquetes durante este mês. Agora eles chamam as celebrações pascais por seu nome, nomeando as graças do novo rito, pelo celebrado nome da tradição antiga.

E só. É a única menção associativa feita entre a deusa Ēostre e a Páscoa. Observe que neste contexto não se diz quais são esses banquetes e ritos celebrados à deusa. Não há menção nenhuma a coelhos, ovos ou qualquer outra coisa do gênero.

Séculos depois, Jacob Grimm, em sua Deutsche Mythologie, associa Ēostre à deusa germânica Nerthus, deusa da terra e da fertilidade, ou a uma suposta (e igualmente desconhecida) deusa Ostara, cujo nome, assim como o de Ēostre, seria lembrado através de um mês do ano: Ostermonat. Grimm faz a associação desta deusa com ovos e lebres, e especula que a tradição pascal de ovos e lebres vem dessa deusa. É certo que na Alemanha, até hoje, a Páscoa chama-se Ostern. São os únicos idiomas a estabelecerem essa relação. As línguas escandinavas adotam termos similares ao nosso: Påsk (sueco), Påske (norueguês), Pasen (holandês), Påske (dinamarquês), Páskal (islandês).

A existência de Ēostre como uma deusa recebedora de honrarias ainda é questionada. Existem algumas evidências na forma de topônimos (nomes de locais específicos fazendo referência à deusa), tanto na Inglaterra quanto na Alemanha, a existência de alguns nomes pessoais derivados desses termos.

Em 1950, entretanto, encontrou-se mais de 150 inscrições na Alemanha, em Morken-Haff, referindo-se a Matronae Austriahenae — inscrições votivas em estilo bastante romano, mas que pareciam referir-se a uma deusa ou entidade local, datando do século II. Estas inscrições, em latin, referem-se à deusas Matronas — quase sempre deusas tríplices, representadas juntas, em altares e oferendas votivas.

matronae
Altar para as Mães (matronas, matronae) de Aufania, encontrados sob uma igreja em Bonn, Alemanha. Exemplo de matronae romano-germânicas. Fonte: Wikicommons.

Conclui-se, então, que sabemos muito pouco sobre Ostara, Eostre e as matronas que poderiam estar associadas a elas.

Então, de onde vem a conexão dessas deusas com ovos e coelhos? Simplesmente, de Jacob Grimm — o único a fazer esta associação. Note que Jacob Grimm, folclorista e linguista, traça essa conexão em 1835.

Ovos pintados, decorados e coloridos eram bastante populares desde antes do cristianismo. Ovos de avestruz eram usados como frascos para carregar água desde tempos pré-históricos no Kalahari, o que faz perfeito sentido, pois são de um tamanho adequado e resistentes o suficiente para transportar. Um dos remanescentes mais antigos de tal uso data de 60.000 anos (!), encontrado aos pedaços, mas claramente colorido e decorado.

Da mesma forma, ovos coloridos foram encontrados em tumbas egípcias e sumérias, geralmente ovos de avestruz, de mais de 5000 anos. A tradição de colorir e decorar ovos animais certamente não nasceu com o cristianismo, mas, também, nunca foi exclusiva de um culto ou outro, ou sequer associado especificamente a algum culto. O costume já se encontrava presente entre os cristãos mesopotâmios, que provavelmente continuaram ou adotaram um costume mais antigo.

ovo-decorado-punico
Ovo de avestruz decorado com motivos púnicos. Fonte: Wikicommons.

Assim, é bastante provável que esse costume cristão, muito antigo, tenha se espalhado pelo resto da Europa junto com o cristianismo através das igrejas ortodoxas. O ovo também apresenta uma conexão específica com o período de quaresma, que precede a Páscoa, em que o consumo de carne, ovos e leite era proibido, proibição essa que terminava na Páscoa.

Ovos também são associados à celebração de Nowruz, o ano novo iraniano, que existe há pelo menos 3000 anos e era celebrado por vários povos ao redor, nas Bálcãs e no Cáucaso, e por sua vez também é associado ao Zoroastrismo.

A tradição de decorar ovos espalhou-se pela Europa e pelos países eslavos, provavelmente através das igrejas ortodoxas russas, e o ovo foi oficialmente associado com a ressureição em 1610, através do Rituale Romanum; texto esse que continha textos bem mais antigos.

470px-house_of_fabergecc81_-_rose_trellis_egg_-_walters_44501
Ovo de Farbergé, ricamente decorado. Fonte: Wikicommons.

E o coelho? Bem, coelhos ou lebres são símbolos de fertilidade desde muito, muito tempo, por motivos óbvios: coelhos se reproduzem rápido e em grande número. No passado antigo, filósofos como Plínio acreditavam que coelhos eram hermafroditas, e que se reproduziam sozinhos; noção essa adotada pelos cristãos, que associaram o animal à Virgem Maria. É bastante comum ver coelhos representados em iluminuras e outras formas de arte cristãs.

hare-illuminated
Nem sempre essas ilustrações eram sérias. Ou faziam sentido.

A menção mais antiga relacionando coelhos com Páscoa vem dos luteranos alemães, do próprio Martinho Lutero, e aparentemente o costume, a princípio puramente alemão, espalhou-se pelo mundo e tornou-se bastante popular, suplantando costumes associados a outros animais.

Também não existe nada em específico que associe coelhos a Ostara/Ēostre, além da menção de Jacob Grimm.

Assim, é bastante errôneo dizer a tradição de coelhos e ovos deriva destas deusas, principalmente considerando que a tradição de ovos coloridos pré-data o contato com os povos germânicos, e a tradição de coelhos é antiga e ampla na tradição cristã (e, de forma diferente, na tradição judaica), e especificamente a associação do coelho à Páscoa é muito posterior ao fim do paganismo germânico nestas regiões.

tizian-madonna_mit_dem_kaninchen
Ticiano, A Madona do Coelho, 1530, óleo sobre tela. Fonte: Wikicommons.

É bastante provável que, se existia realmente uma deusa com o nome Ēostre (ou uma com o nome Ostara), algo que ainda é questionado, ela era exclusivamente saxônica ou anglo-saxônica, já que não há nem menções nem sinais de sua presença em outros lugares. Não há nada que diga que ovos e coelhos são associados a ela(s), e nem que eram deusas de fertilidade, e não apenas da aurora, como Eos (embora não seja improvável; Rudolf Simek acredita que eram sim deusas da fertilidade).

Eu, pessoalmente, não vejo mal em tal associação, pois o simbolismo do ovo e dos coelhos realmente se presta a isso, o mês associado à deusa era realmente o princípio da primavera (ou do verão, já que os antigos raramente dividiam o tempo em quatro estações, mas em apenas duas: verão e inverno), e ovos e coelhos realmente são associados à fertilidade, renascimento e primavera. Devemos ter em mente que, relativo a qualquer celebração de Ēostre e/ou Ostara, já que não sabemos nada sobre tais celebrações, será uma inovação ou especulação moderna.

Mas, já que não sabemos de qualquer forma, por que não criar nossas próprias tradições (com embasamento, claro)?


Imagem por Annie Spratt, via Unsplash

Irmandade e Visão de Mundo

Escrito por Andreia Marques e publicado originalmente em Heathen Brasil.

É bastante comum ver novos heathens (ou ásatruár, ou até mesmo pagãos em geral), empolgados com a descoberta de outros heathens ou pagãos, cumprimentá-los da maneira: “Hail, irmãos!”

Irmandade é uma coisa interessante. A visão de mundo dos povos germânicos pré-cristão é bastante fundamentada em irmandade, e nos laços familiares. Não é à toa que honramos nossos ancestrais e que quebrar um juramento é uma das piores coisas que se pode fazer. A visão de mundo desses povos era profundamente enraizada na comunidade e na solidariedade mútua intra-tribo, intra-clã, intra-família.

E quando dizemos família, dizemos no sentido mais amplo. Pai, mãe, irmãos, irmãs, tios, tias, primos e primas, e suas famílias associadas, formam a grande e interconectada rede de relacionamentos de um germânico antigo. Essa rede é seu ponto de apoio, onde sua sorte é compartilhada, onde sua reputação importa, onde sua vida e sua fama crescem.

Isso tem consequências. A principal delas é que pessoas fora dessa rede — da sua tribo, da sua família, do seu clã — não necessariamente irão importar muito. Ao contrário, elas podem ser prejudiciais à sua tribo, ou família, ou clã. Assim, respeitando-se as leis de hospitalidade, o estranho é tratado com, no máximo, uma polida desconfiança.

Não será maltratado, claro. Não era bem assim. Mas também não terá a mesma importância ou privilégio que o seu familiar, seu parceiro de tribo, àqueles a quem você deve, direta ou indiretamente, sua subsistência, reforçada pelo ciclo de reciprocidade.

Isso é típico de uma religião que é essencialmente tribal. A tribo é, de certa forma, seu universo.

E isso é também em oposição às religiões universais que, teoricamente, dentro de seu credo, declaram pertencer e abarcar a todos. Assim, todos que a ela pertencem são irmãos; ela é o grande traço unificador.

O que isso tem a ver com o início desse post? Simples. Assumir uma relação próxima com um desconhecido — chamando-o de irmão — é algo bastante contrário à visão de mundo heathen. Estranhos, mesmo que da mesma religião, não são seus irmãos, simplesmente em virtude da religião que professam, porque irmandade é mais importante que isso. É mais profunda que isso. É mais real que isso, dentro do paganismo germânico. Só porque você tem a mesma religião que eu, não significa que nós compartilhamos nada mais.

Isso quer dizer que é uma ofensa enorme chamar os outros de irmãos? Claro que não. As gírias, os informalismos da vida, levam a isso. Mas considerar estranhos realmente como irmãos — isso já apresenta problemas. Nós não somos irmãos sob Odin. Aqui não funciona como “todos são filhos de deus”. Não é assim que o paganismo germânico funcionava, e não há absolutamente nenhum motivo para criar essas relações artificiais — até porque, a diversidade cultural dentro das tribos germânicas existia, e por que não haveria de continuar existindo?


imagem: New Forest National Park, Reino Unido. Foto por Annie Spratt, via Unsplash

Pequenas reflexões sobre a Völva, o conhecimento, e o papel da mulher no heathenismo

14695302_554476844747559_5818401500287770855_n

Texto por Sonne Heljarskinn
Postado originalmente em facebook

As völvas são mulheres que nas tribos nórdicas desenvolviam funções *semelhantes* mas não idênticas às dos xamãs. Elas tinham a liberdade de viajar e fazer oráculos, sendo bem recebidas e gratificadas por seu saber. Ainda assim, não nos interessa falar das völvas em geral aqui, mas de uma em particular, tamanha a sua importância: aquela que Óðinn foi buscar no mundo dos mortos, em sua sede de conhecimento.

Descrita na Völuspá, a passagem pode ser uma alusão a mesmo uma viagem “xamanística” – embora não estritamente xamânica – que o deus Caolho faz em busca de sabedoria. O próprio processo de seiðr envolve esse ato de ir ao mundo dos mortos com perguntas em busca respostas – e aqui abre-se uma brecha rápida para mencionar a GRANDE importância de Hel como deusa dos que morreram -, e existe uma grande identidade entre o que a Völuspá narra e aquilo que völvur ou seiðkonur praticam.

Isso dá-nos a oportunidade para uma coisa importante ser notada: é preciso compreender, ainda que ligeiramente, o papel da mulher na sociedade e na Heiðni, ou forn siðr, a antiga ritualística pagã do norte da Europa. Embora mulheres tivessem direito ao divórcio, à propriedade, e em alguns casos ainda pudessem se representar na thing, cabe lembrar que a maioria – mulheres pobres – ainda era forçada a se casar, o que só mudou ligeiramente com a entrada do cristianismo.

Todavia, se a mulher histórica da Escandinávia possui essa complexidade, a Völva que Óðinn chama dos mortos não tem tanta dificuldade em ser compreendida: ela conta a história do nascimento dos nove mundos até o seu fim. E, por que Óðinn a invocaria sem uma razão grande? Como o fato dela testemunhar os fatos que narrara? Essa Völva, essa grande völva, ao contrário das mulheres das religiões reveladas que possuem um papel misto entre o desastre, a irresponsabilidade e que contrastam com uma sexualidade desenfreada, é uma grande sábia fora de todos esses padrões e é procurada por Óðinn tanto quanto Mimir, para fins de aumentar o saber do velho Andarilho.

Essa völva que viu o fogo lamber o gelo primordial, que viu Ymir nascendo, que viu Auðumbla dando-lhe de comer, que viu o primeiro Aesir saindo do gelo a partir das lambidas dela, é a fonte de sabedoria desse poderoso deus, e chama a sua atenção por aquilo que tem a oferecer. Óðinn, como um seiðmann, busca esse poderoso espírito para se instruir.

Assim, a Völva, e aquilo que ela aprendeu mexendo com espíritos é muito útil. Sonhos, viagens, tudo isso serve na hora de contar suas histórias para Óðinn; e ainda assim ela é conhecida só o suficiente para alguém poderoso, mas humilde procura-la. O que a Völva não viu seu conhecimento das teias passadas e presentes do wyrd a faz inferir com precisão cirúrgica do que está por vir.

Pois a Völva precisa ser manifestada naquilo que ela arquetipiza: a poderosa mulher livre, sábia, autossuficiente, dona de si e do conhecimento universal – e perante a qual até mesmo o Furor precisa partir em busca para chegar a um nível de saber superior.

Þórr e Jormungand: uma reflexão

11891110_411840319011213_1216194224985863030_n

Texto por Sonne Heljarskinn
Originalmente postado no facebook

O mito da intriga entre Þórr [Thor], o Vermelho, e Jormungand e suas batalhas frequentes nos transporta àquele mundo da vasta sabedoria não-escrita dos povos do Norte.

O Campeão dos Deuses, filho da Terra e do Furor, criado por Aquela que Tece as Nuvens, é o Trovão; aquele que marcha sempre contra a serpente que dá a volta na Terra-do-Meio, embora não a destrua.

Há ali quase que uma equivalência de forças; o Trovão é o filho do deus multifacetado, que abrange desde a morte, sabedoria, magia até a guerra, e, por outro lado, também tem pulsando em suas veias parte da mesma essência dos gigantes que envolve igualmente os filhos de Loki e a obscura giganta da Floresta-de-Ferro, Angrboda, dos quais Jormungand faz parte.

Þórr contra Jormungand é uma luta de eras, um duelo de forças naturais poderosas tentando se equilibrar. Thor gosta da humanidade; ajuda a protegê-la, e a manter a harmonia em seu mundo. Sabemos que a Serpente-do-Mundo não é *apenas* caótica; para além da dualidade maniqueísta pós-heathen que foi-nos imposta, podemos perceber que esse grande monstro é responsável por manter os mares contidos entre seu corpo gigantesco, e que as pescas de Thor talvez não fossem senão uma forma de disciplinar essa força irascível, enquanto o dia do grande crepúsculo, dos deuses e do Universo que se prende ao Grande Freixo de Yggdrasil, não tenha chegado.

As grandes aventuras de Þórr contra a serpente, por outro lado, nos inspiram a coragem; a vitalidade, o desejo de viver e desafiar; fazer-nos ter ciência da força inestimável da luz rápida, porém profunda e poderosa que, assim como o Trovão, é a nossa existência perante as eras incontáveis: e que devemos provocar aquela força que nos envolve, mas que apesar disso, precisamos controlar antes que subleve-se contra nós… e deixe escoar o mar de nossa existência rumo ao Ginnungagap do esquecimento ou desonra.

Bindrunes Nórdicas

Publicado originalmente por Justin Foster.
Tradução por Sonne Heljarskinn.

Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p117.
Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p117.

A palavra bindrune significa a ligação [binding] de duas ou mais runas. Elas ocorrem intermitentemente em escritos rúnicos, no entanto, era predominante em escritos nórdicos e raramente em anglo-saxões. A finalidade usual era abreviar a escrita mas em alguns casos foi usada esconder o que foi escrito.

Inicialmente usadas durante a Era Viking em lápides nórdicas gradualmente caiu em desuso, juntamente com todos os outros escritos rúnicos, exceto na Islândia, onde a tradição continuou. Não só eles foram usados lá com a finalidade de escrever em geral, mas eles também foram usados na magia, incluindo encantos, feitiços e seus Galdrastafir – símbolos mágicos.

Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p120.
Runir Seu Danica, O Worm, 1651, p120.

Ole Worm fez um extenso estudo de runas e escreveu no Runir Seu Danica latino, uma seção sobre bindrunes que ele chama “jugationibus“. Ele fornece um exemplo mostrando um glifo do nome “Olafur”, e depois dá uma extensa tabela de combinações possíveis.

Isso demonstra claramente como bindrunes são de dois tipos. Uma delas é uma sequência de várias runas para ser lida de cima para baixo ou de baixo para cima ao longo de uma única haste. O outro é um caso mais simples de duas runas usando sua haste principal para voltar atrás. Não inesperadamente, a A-runa “ᛆ”, a O-runa “ᚮ” e a U-runa “ᚢ” foram as mais comuns a serem usadas.

IS IR; 153 (I) – Lápide de Stórholt, Condado de Skagafjarðar, 1600

ru-island-storholt

 Transcrição  hie·r : Huile·r : unde·r : tHomas : BRanda·r : s·o·n : huors : sHal : ed [–]d [:]
uardueite : unde·r : sinne : blessan : a
 br-storholt-stone
 Transliteração  Hér hvílir undir Thómas Brandarson, hvörs [hvers] sál eð Guð
varðveiti undir sinni blessan a[men]
 Tradução  Aqui abaixo repousa Thómas Brandarson, cuja alma permanece com Deus
Mantenha sob a sua bênção, Amém

Datado do século XVII, esta lápide rúnica tem alguns caracteres usando letras latinas (o “H” e o “BR”), bem como várias bindrunes. O bind “er” aparece várias vezes e emprega sobreposição considerável das runas “e” e “r”, o “son” mostra que a colocação de runa (por exemplo, uma ordem de cima para baixo) não é rigorosa e com o bind “ar” nem é a direção que uma runa está se voltando (à esquerda ou à direita). Essa última regra exigiria cautela devido à runa “a” ser um espelho da runa “n” e a runa “t” sendo um espelho da runa “l”.

Também digno de nota é a runa “s” estranha visualmente na palavra final “blessan”. Tem sido sugerido que estas são em vez disso, runas “z” muito raras. Finalmente, eu não consegui encontrar qualquer cidade de Stórholt em Skagafjarðar ainda que as fontes afirmem que a pedra foi encontrada enterrada no pátio da igreja Stórholt em 1918 e mais tarde transferida para o Museu Nacional.

IS IR;145 (I) -Fragmento de Lápide, século XVII

 ru-island-holt1a
 Transcrição: her × hu·i·l·e·r × to·rfe × [bia·r·n]
Transliteração: Hér hvílir Torfi Bjarn[a sonr].
Tradução: Aqui descansa o filho de Torfi Bjôrn.
 br-huiler-stone

Também do século XVII, esta é uma de duas partes encontradas perto da porta da igreja da paróquia de Holt no condado de Ísafjarðar na Islândia. Desenhos passados mostram que a segunda peça tinha o nome de Bjarn também escrito com uma bindrune.

ÍBR 64 8vo Samtíningur, II. hluti, Ísland 1813

 ibr64-8vo-71-72
 ÍBR 64 8vo, 71v & 72r
 Nokkur rúna og villuleturs stafróf.

(Algumas runas e alfabetos de letras alternativas.)
Diversas bind-runes estão copiadas no Galdrakver LBS 4627 8vo, também do século XIX.

JS 149 fol – século XIX:

 js149fol-24r  js149fol-66r  js149fol-108r
 JS 149 fol 24r  JS 149 fol 66r  JS 149 fol 108r
 Samtíningur um rúnir úr fórum Jóns Sigurðssonar; Denmark, ca. 1830-1870.
(Miscelânia relativa às runas, guardadas por Jons Sigurdsson …)

Einkaeign Stafabók:

 einkaeign-30v
 Rún pág. 30v
 einkaeign-34v
 Rún pág. 34v
 Rún, rúnaletur o.fl. ritað fyrir Magnús Steingrímsson, Hólum í Staðardal 1928.
(Runas secretas e caracteres rúnicos, etc., escritas para Magnus Steingrímsson …)

Não é surpreendente que as bindrunes encontraram um lugar na cultura moderna para encantos, palavras de significado em tatuagens e outras simbologias. No entanto, é desconcertante que atualmente os caracteres rúnicos usados são anglo-saxões e não noruegueses ou islandeses, e os significados atribuídos a runas são derivados de origens anglo-saxônicas ao invés dos bem documentados poemas de runas nórdicos.

O que caracteriza o Paganismo Germânico?

Muitas pessoas procuram as diretrizes que compõem o paganismo germânico (ou “Ásatrú”, “Forn Sed”, entre muitos outros nomes), aquilo que o estrutura e guia, e assim se voltam para as Nove Nobre Virtudes. Cunhadas na década de 1970 pelo grupo Odinic Rite a partir do Hávamál, considero-as muito gerais e universais para serem tomadas como autenticamente pagãs. Por isso, discutirei aqui o que para mim são as características principais do paganismo germânico, que o diferenciam não apenas de outras religiões como também de outras manifestações pagãs.

Imagem destacada: lemuren

Uma das principais características do paganismo germânico desde eras antigas é justamente uma que torna difícil de apontar o que definitivamente o compõe: a pluralidade. Tribos e condados vizinhos poderiam seguir o mesmo panteão, mas com ritos, enfoques e costumes completamente diferentes; e hoje em dia, esta liberdade ainda é buscada e mantida, com diversos grupos usando variadas abordagens. Para uma religião lembrada como sem dogmas(ou pelo menos muito poucos) e sem livro sagrado, pode ser difícil traçar suas diretrizes. Por isso, é muito importante destacar que embora observe as características que aponto aqui em diversos grupos e lugares, elas não são seguidas a risca por todos e podem vir da minha própria visão do paganismo.

valhalla-por-carl-emil-doepler-1905-768x513

Valhalla, por Carl Emil Doepler (1905)

A primeira de todas é uma relação mais direta com os deuses. Durante a Era Viking, os povos escandinavos não possuíam sacerdotes; os ritos familiares eram comandados pelo pai e a mãe, enquanto os públicos eram responsabilidade da nobreza e normalmente conduzidos pelo jarl local. Quando a figura do goði ougyðja (respectivamente, “sacerdote” e “sacerdotisa”) surgiu na Islândia, era mais como um cargo político que espiritual. Embora muitos grupos atuais usem estas nomenclaturas para seus líderes, eles não podem falar pelos deuses; cada um deve buscar sua própria forma de estabelecer um relacionamento com os deuses, sem a necessidade de um intermediário. Muitos dizem que o Ásatrú possui uma relação de amizade com seus deuses, onde ambos negociam os termos da relação.

O Ásatrú também não possui um objetivo transcendental; seu enfoque está no presente. Por suas origens a partir de um povo pragmático e a noção de Wyrd, o pagão germânico não está buscando uma iluminação ou preocupado com um destino após sua vida terrena. O “aqui e agora” é considerado uma dádiva, e Miðgarðr um mundo belo e sagrado. O culto à natureza também é uma característica bem presente, herdada da vida agrária dos escandinavos e mantida pelo respeito à Miðgarðr; este culto pode nos ensinar sobre os padrões cíclicos do mundo e da própria vida, no qual a morte é vista como parte e apenas uma “mudança de estado”, sem haver uma possível punição nos esperando após.

vikings-1x81

Outra herança dessa época que se mantém presente é a valorização da comunidade. Este valor era expressado pela palavra friðr, que pode ser entendida como a harmonia entre o indivíduo e o seu entorno – sua família, o local onde ele mora e o sagrado. A partir disso e da noção de Wyrd também podemos tomar como característica a observação do peso de nossas atitudes. O pagão nórdico precisa sempre refletir as consequências de seus atos, tanto como Orlög pessoal quanto na forma que irá repercutir no ambiente externo. Por isso, ao causar danos para alguém, espera-se que um pagão tome atitudes para reparar seu erro ao invés de apenas esperar ser perdoado.

Estas são apenas algumas das características que compõem e orientam o paganismo germânico. Novamente reforço que são baseadas em minha observação e vivência como Ásatrú, e não devem ser levadas como definições absolutas. Em cada local que se manifesta o paganismo se adapta, adquirindo novos aspectos adotados pelas pessoas que o trazem. É importante nos atentarmos àquilo que o fazem único, diferente inclusive de outas religiões pagãs.

Sjáumst bráðlega!

Fenrir e a anti-ordem

Texto por Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente no facebook

A pedidos, tentarei fazer uma análise da figura de Fenrir. Sei que não será o suficiente para explicar todos os aspectos dessa figura, ou mesmo com detalhes cada um deles, mas uma explicação menos comum é necessária.

O lobo Fenrir, um dos três filhos bestiais de Loki e Angrboda, é sem dúvida aquele que carrega traços mais destrutivos. Desde seu nascimento é apresentado como uma catástrofe. Uma fera que apenas Týr, deus símbolo da bravura e coragem dos guerreiros, da honra e dos destemidos, somente um deus dessa envergadura era capaz de alimentar.

Mas não podemos falar de Fenrir sem falarmos dos lobos mais especialmente. Ao contrário dos dias atuais, é pouco provável que as virtudes das tribos humanas pudessem ser vistas em conformidade com aquelas dos lobos. O lobo representa a rapina, a solidão, o banimento da comunidade, coisas que eram necessariamente negativas, pois dispendiosas ou antissociais. Mesmo os lobos de Óðinn têm um significado semelhante: enquanto os corvos representavam o domínio sobre a memória e o pensamento, os lobos representavam o perigo apaziguado, as criações protegidas do ataque de feras, a fome sob controle. Não são os lobos – mas o fato de ter-lhes amansado – que confere poder a Óðinn.

Fenrir representa o potencial destrutivo do arranjo de coisas na mitologia nórdica. Ele é o matador de Óðinn, o deus ordenador, e tudo o que os Æsir conseguem fazer é prender Fenrir numa corrente curiosa, chamada Gleipnir, pois ela era feita do cuspe de uma ave, os nervos de um urso, o fôlego de um peixe, a raiz de uma montanha, as barbas de uma mulher e o som da queda de um gato. Coisas ou inexistentes ou muito difíceis de se conseguir que nos fazem pensar o quão imaginária não era essa corrente: e o quanto Fenrir não ficaria preso nas próprias ilusões.

Apenas pela mentira seria possível controlar Fenrir. Somente com a perda da mão do guerreiro mais bravo, que já não empunharia espadas como antes. Coisas que tem um alto preço: o Ragnarök. Mas, uma vez amarrado, o lobo Fenrir não é executado. Óðinn sabe de sua determinação, daquilo que fora designado em seu örlög. Seria inútil lutar contra o fim – restava “atrasá-lo”, ou talvez, simplesmente fazê-lo ocorrer na hora certa.

Então se a ilusão (Gleipnir) é aquilo que segura o fim (Fenrir), por outro lado nem mesmo aqueles que criaram o Universo, segundo os antigos mitos, estavam livres do desaparecimento, como uma grande árvore que vê muitas e muitas colheitas ao seu redor, enquanto ela mesma floresce e dá frutos, mas sabe que suas raízes não permanecerão eternamente no solo. Junto do lobo bestial vêm os gigantes de gelo e fogo, após quatro longos invernos, dar cabo dos deuses conhecidos em sua quase totalidade.

Fenrir é então o símbolo de que tudo o que vive, carrega em si a semente de sua própria destruição. Assim como Hel que é metade morta, Fenrir é inteiro destruição; e somente a Vingança, representada por Vidar, é capaz de restituir ao cosmos sua ordem original. Apenas com a Vingança o clã é protegido. Apenas com a vingança as coisas se renovam.

O local de Fenrir na mitologia nórdica é muito especial e destacado. Apesar de ser uma força caótica, seu mito reflete sua necessidade e inevitabilidade. Não existe ordem sem caos. Não existe justiça sem dívida. Não existe honra sem morte gloriosa. Não existe vida sem um clã, e sem se doar por ele.