Oráculo de Runas: Uma Análise Crítica

Por Seaxdéor

A Antítese

Runas são um assunto complexo. Elas não foram usadas pelos germânicos como um oráculo. A primeira vez que elas são claramente assim mencionadas é a partir da obra de Ralph Blum, The Book of Runes: A Handbook for the Use of an Ancient Oracle, um livro dos anos 1980. O título em si é um erro não muito bem intencionado. Dentro do livro, as descrições das runas possuem uma interpretação completamente subjetiva, além do claro uso anacrônico de runas do período antigo, o Fuþark Antigo (usado entre os séculos II e VI), dizendo que elas são “Vikings”, sendo que estes usavam as novas runas do Fuþark Jovem com 16, e não 24 runas. Não fossem esses erros suficientes, despontam, no corpo do texto, inúmeras citações de livros totalmente alheios culturalmente aos germânicos, inclusive da própria Bíblia cristã, no livro de Blum.

Mas muitos que usam as runas como oráculos afirmam, sem nenhuma base segura, que Tácito, no final do primeiro século da nossa era, menciona a tiragem de runas. O argumento é visivelmente falho. O primeiro artefato rúnico encontrado data de cerca de 170 da nossa era, o que é cerca de 72 anos depois da obra de Tácito. É bastante improvável que em 98, se as runas fossem realmente conhecidas a ponto de serem usadas como oráculo, Tácito tivesse usado o termo mais que genérico notæ,  e não as reconhecesse de outros objetos que as portavam como veículos de escrita normal, examente como os romanos usavam o seu próprio alfabeto. As notæ de Tácito pouco provavelmente são runas, e podem ter sido qualquer símbolo particular ou mesmo aleatório. Não há suporte histórico que comprove que as runas já eram amplamente difundidas em 98, nem em fontes escritas, nem arqueológicas.

Todo o método de tiragem de runas atual é baseado em ideias espalhadas na renascença, a partir de Johannes Bureus e seu livro Adalruna Rediviva, o qual quis atribuir aos caracteres rúnicos o mesmo poder das letras do alfabeto hebraico, baseado em seus próprios equívocos pessoais como um membro da Rosacruz, da qual fazia parte, numa época em que pouco se sabia de objetivo sobre as runas.

Em ocasiões anteriores já falei do uso das runas como veículo de magia escrita. Esse é o único uso do qual temos evidências históricas, tanto pelo uso de palavras e poemas mágicos, como, ocasionalmente, mensagens cifradas e pouco comumente as runas sendo usadas a partir do significado de seu nome, como ideogramas. Sobre essa forma de uso as runas podem ser usadas de forma totalmente coerente com a visão de mundo dos germânicos, e com evidências arqueológicas que não deixam muitas dúvidas sobre como fazer isso; e nesse aspecto elas não divergem muito no uso mágico do alfabeto latino.

Entretanto, os oráculos citados por Tácito, tanto as varas com os símbolos (notæ), quanto os oráculos com cavalos, vozes e voos de aves e a passagem da Eiriks saga rauða  que retrata a mulher sábia Þorbjǫrg Lítilvǫlva fazendo uma predição do futuro através do ritual de spá, atestam que oráculos tinham uma função dentro do mundo dos germânicos. Nosso grande problema é que não mais que esparsos fragmentos e menções dúbias e inconclusivas como as do Hávamál são tudo o que nos restou sobre como usar as runas, e geralmente são tomadas como verdades absolutas a partir de interpretações baseadas no costume moderno, cristianizado, e em tradições externas, e não nos próprios povos germânicos.

Além disso, uma interpretação bastante forçada e subjetiva dos poemas rúnicos geralmente desconsidera os aspectos culturais básicos dos povos germânicos, não havendo a empatia básica necessária para compreender seus significados e origens. Os poemas são ressignificados a bel prazer por cada um dos “exploradores” espirituais em busca de um conhecimento antigo que geralmente é posto de lado em prol de uma liberdade interpretativa que desconsidera todo o ambiente nativo das runas — e, assim, o conhecimento antigo em si mesmo.

Os próprios poemas rúnicos parecem-se mais com fórmulas mnemônicas, ou seja, para facilitar a memorização de seus significados, e assim, de suas formas e sons, em vez de algo esotérico, extraordinário. Além disso, o conjunto de runas mais utilizado, o Fuþark Antigo, não possui um poema rúnico atribuído a si, tendo as runas deste conjunto seus nomes e significados reconstruídos a partir de poemas mais recentes, como o dos islandeses e anglo-saxões. Isso faz com que seus significados sejam muitas vezes incertos e sem dúvida alguns deles não estão exatamente corretos historicamente falando.

Os oráculos não são necessariamente uma forma de ver o futuro; muitas vezes eles servem como ferramentas de autoconhecimento, auxílio de tomada de decisões, uma forma de se olhar de outra perspectiva. Toda a argumentação que busca basear o oráculo rúnico em algo antigo, sobrenatural, pode ser facilmente provada imprópria com as evidências históricas. Todavia, num sistema espiritual pagão germânico carecemos de um oráculo prático.

Outro problema está na interpretação da própria palavra “runa” que pode significar “segredo, conselho”, mas também está ligada ao ato de entalhar. Em nossa sociedade a escrita é uma tecnologia amplamente básica e ensinada à maioria dos cidadãos, o que não era o caso dos tempos germânicos tribais. O que para nós é algo evidente, nos tempos antigos era algo mágico, oculto. Por isso, muitas vezes as pessoas procuram por significados ocultos, segredos, etc. que na verdade estão nas próprias palavras escritas, em muitos casos, que para nós é algo cotidiano, mas em tempos antigos era um sinal de poder e distinção.

Isso tudo nos levou ao surgimento de uma verdadeira elite esotérica que mistura diversas culturas as quais não entendem muito bem, associando diversos tipos de sistemas e ideais totalmente discrepantes e reagrupando isso sobre o nome de “oráculo das runas”. Não raramente o misticismo (em seu sentido pobre e negativo) deturpa completamente o significado das runas, seu uso, etc. Mais comumente ainda, as runas são usadas como ferramentas de monetização e elitização, hierarquização do paganismo, tudo baseado em um suposto conhecimento oral que pessoas propagandeiam ter, sem nenhuma base histórica ou mesmo de bom-senso.

A síntese

Fora do Brasil, o uso de oráculos rúnicos tem caído em desuso, e boa parte da comunidade mais influente no exterior tem descrédito com o uso das runas para qualquer coisa que não escrita ou magia escrita. O uso de runas como oráculos se popularizou a partir das influências do movimento new age, da Wicca, e de autores tradicionalmente ligados ao esoterismo ocidental, muito mais baseados em tradições espirituais alheias que ao mundo dos germânicos, como Edred Thorsson e Diana Paxson.

Só que não é como se os heathens reconstrucionistas desprezassem o uso de oráculos, em  si mesmo. Apenas a reconstrução de um sistema de oráculos entre os germânicos é uma tarefa quimérica, baseada em tão poucas evidências, que é, na verdade, uma recriação. Falando a nível pessoal, o oráculo rúnico me parece uma boa alternativa moderna, desde que usado com o discernimento necessário, o que é bastante raro.

Baseado na descrição de Tácito nós temos:

São (entre outros povos) os que mais acreditam (observam) nos augúrios e oráculos (sortilégios). O modo (costume) de tirar a sorte é simples. Cortam uma vara de árvore frutífera e espalham discretamente, ao acaso assinalando-as, por sobre uma alva toalha, (pano branco). Então, o sacerdote da cidade, se a consulta é pública, ou o pai da família, se for privada, oferece uma oração aos deuses e, olhando para o céu, pega três varas, uma de cada vez, e lê o significado dos sinais previamente marcados nelas. Se a sorte proibir uma empreitada, não há deliberação nesse dia sobre o assunto em questão; se a permitir, é necessária a confirmação pela aceitação de auspícios.

Os símbolos cravados ou assinalados nas varas poderiam ser qualquer coisa. Mas, qual a vantagem de se usar runas para isso?

Basicamente temos descrições dos poemas rúnicos que nos fornecem uma introdução no modo de pensar antigo. Pegue, por exemplo, os versos da primeira runa, do Poema Rúnico Anglo-Saxão, a Feoh:

A Riqueza é um conforto a todos os homens;
embora cada qual deva aplicá-la livremente,
se almeja obter a honra aos olhos do Senhor.

Com a delimitação de um padrão ou arquétipo, associado ao símbolo, quando lançadas as varas os contendo é então possível buscar uma identificação desse padrão fornecido pelos versos do poema com a própria vida pessoal. Todavia, é muito importante não se ater apenas aos versos do poema, mas conhecer e estudar as fontes antigas; os antigos heathens estavam imersos na cultura e visão de mundo e compreendiam clara e profundamente o que significava cada coisa, e os próprios poemas já foram registrados bem tardiamente, possuindo uma clara influência cristã em vários momentos, como nos versos citados, a menção ao “Senhor” (dryhten), o deus cristão, o que os torna, como toda fonte no paganismo, passível de crítica e análise.

Por exemplo feoh, traduzido aqui por “riqueza”, era literalmente “gado, animais de criação”. Feoh só assume o significado de riqueza por sua associação ao bem-estar; quanto mais gado você tiver em um local gelado, mais segurança você tem de passar o inverno. O gado era literalmente alimento, fonte de energia, e não uma espécie de poder inanimado e abstrato como a riqueza em contas de bancos moderna. Todavia, sentidos secundários de feoh se tornaram “dinheiro, valor, preço, propriedade, riqueza, bem-estar”.

Mas a questão é, o que isso significava na sociedade antiga, principalmente entre os anglo-saxões, que deram origem a esse poema? O mesmo vale para aqueles que usam os poemas nórdicos, quando usando o conjunto de runas do Fuþark Jovem, por exemplo (repare como o uso do Fuþark Antigo se torna problemático, graças à falta de descrições seguras). Entender o significado de cada uma dessas coisas na sua cultura nativa, e então aplicar esse conhecimento à nossa vida atual é uma alternativa dificilmente considerada. Geralmente a interpretação subjetiva é tomada como único caminho, através principalmente da meditação; esse é sim o caminho mais fácil, mas e a cultura antiga que pretendíamos usar para nos ensinar e guiar… onde fica nisso?

Por exemplo, supondo que a runa Feoh tenha saído em uma determinada ocasião, qual é, então, o seu significado em nossa vida? Essa resposta será sempre variável e dependente das condições como o que estamos consultando e o que acontece nas nossas vidas. Ninguém melhor do que si mesmo para entender como o arquétipo bruto será aplicado em nossa vida. O que aquele que tira as runas, se não for o próprio a ser consultado, pode fazer é fornecer uma interpretação genérica, a qual aquele que está consultando decidirá como aplicar à própria vida.

Se formos falar de material, creio que existam algumas importantes razões para o uso de galhos cortados em pequenas varas em vez de corte em rodelas ou o uso de pedras. Primeiro, é a importância espiritual da madeira e das árvores para os povos germânicos em geral, os quais a trabalhavam de forma singular e que a usavam como principal material na construção de suas habitações e boa parte de seus utensílios cotidianos. A segunda, é que o próprio relato de Tácito fala de varas e não qualquer outra forma. A terceira é o poder espiritual inerente à madeira, a qual é coletada viva e pode ter seu espírito trabalhado por aquele que a tirou da natureza.

Falando de método, creio que o lançamento que Tácito menciona está um pouco distante do método utilizado atualmente: primeiro, as varas com runas seriam lançadas sobre um pano branco e então, após oferecer uma prece aos deuses, três seriam escolhidas ao acaso ou intuitivamente, e então seriam interpretadas. Como podemos ver, elas não falam sobre o futuro diretamente, mas sobre as condições presentes e o auxílio na tomada de decisões. Se o auspício com os símbolos fosse negativo, uma decisão deixaria de ser tomada; Tácito não menciona as pessoas vendo fatos objetivos e singulares acontecendo no futuro — essa função, aparentemente, era ocupada pelo spá, como relatado nas sagas islandesas.

Comentário Final

Apesar da total ausência de evidências do uso das runas como oráculos entre os antigos, atualmente elas podem ser usadas como uma espécie de oráculo, de forma similar a outras tradições. Nos dias atuais, não existem descrições seguras de como funcionavam a maioria dos oráculos germânicos, sendo o mais detalhado, embora ainda assim bastante pobre, o relato do funcionamento da sessão de spá.

Sobre o relato de Tácito é improvável se concluir que fossem runas, mas parece bastante razoável que, dado o conjunto de símbolos oferecidos pelos poemas rúnicos, que eles sejam utilizados para cumprir essa função.

O fato das runas não serem um oráculo histórico não tira a sua utilidade e função;  ele apenas aponta para o fato de olharmos para o heathenry sem idealizações, observando que algumas novas práticas podem surgir para ocupar funções que existiam antigamente, mas cujos relatos nós perdemos praticamente por completo, não sabendo de fato como essas coisas funcionavam. Todavia, um uso de runas como oráculos possui um teor bem menos misterioso e esotérico do que comumente se julga, uma vez que, importante repetir, o uso de símbolos para gravar mensagens entre povos iletrados comumente possuiu um caráter mágico em si mesmo, o que não é o caso de nossa sociedade atual, o que coloca uma cortina de névoa em nosso entendimento, abrindo espaço para interpretações que muitas vezes carecem de bom-senso.

Todavia, como podemos ver, em determinadas situações chave, tais oráculos de varas com símbolos eram utilizados. Não creio pessoalmente que fosse algo feito a todo o instante; todavia, em situações complexas que demandem um discernimento específico, sob o céu os deuses eram consultados para auxiliar os humanos a tomar decisões, e a maneira que eles usavam para se comunicar eram símbolos gravados em varinhas de madeira.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s