A política de se reviver uma religião pagã na atualidade

Por Seaxdēor, tempo estimado de leitura: 10 minutos.

Algum tempo atrás o The Atlantic publicou a matéria chamada The politics of retelling Norse mythology, cobrindo a repercussão do livro de Neil Gaiman, Norse Mythology, o qual teve uma estranhamente rápida tradução para o português pela editora Intrínseca. No citado artigo, é discutido como parte do público recebeu negativamente a obra, inclusive a própria comunidade pagã, por diversos motivos. Alguns acham isso uma espécie de distorção ou profanação dos antigos escritos, outros simplesmente reclamam da forma que Gaiman ligou sua história. Curiosamente, na própria comunidade pagã germânica recontar o passado gera grandes problemas, e é isso que vamos analisar neste artigo.

Paganismo como uma religião do passado

O primeiro aspecto que temos que ter em conta é que o paganismo como religião simplesmente morreu. Eu sei que em alguns círculos gregos se fala da manutenção de uma tradição até os dias atuais, o mesmo que acontece com expoentes da Wicca como Gardner ou autores brasileiros que prefiro nem mencionar. Mais comum na bruxaria, esses mitos fundacionais buscando ligar o passado ao presente de forma ininterrupta, geralmente funcionam como uma forma de legitimação das práticas contemporâneas, as colocando numa escala evolutiva com o passado; outras pessoas no próprio paganismo nórdico vão se proclamar possuidoras de uma tradição oral que não foi registrada.

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Navio de Oseberg: suas descobertas nos esclareceram vários pontos sobre a vida e religião no passado entre os povos germânicos.

Isso em si demonstra que o passado importa. O paganismo é e sempre será, após a imposição do cristianismo como religião dominante, uma forma de religiosidade rebelde; o problema é que “rebelde contra o cristianismo” possui tantos significados e formas de acontecer, que os próprios pagãos são incapazes de dialogar muito sadiamente entre si. O passado, no paganismo, nos importa porque o paganismo não é o presente, a maioria de nós foi criada em famílias católicas, evangélicas, espíritas, no máximo espiritualistas. Estamos reerguendo as tradições pagãs agora, e é bastante natural que tragamos conceitos do presente e queiramos os aplicar ao passado, de maneira inconsciente.

Liberdade

O que todo rebelde busca é a liberdade; o rebelde encontra nas coisas como elas são uma forma de aprisionamento, e a maior forma de aprisionamento é o cristianismo, para um pagão. Por isso, é natural que uma negação veemente do cristianismo seja tão comum (nem tanto assim, muitas vezes).

O problema é que a liberdade possui vários níveis; muitas pessoas acham a sharia islâmica uma forma de viver livre, outros a política liberal dos EUA, outros uma utopia baseada na política da URSS do século XX. Para alguns liberdade significa meramente não pagar impostos. Todavia; quando falamos em espiritualidade, geralmente a “liberdade” estão associadas as ideias mais ou menos popularizadas através de Aleister Crowley: faça o que tu queres, aja de acordo unicamente com sua própria vontade, e assim por diante.

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Aleister Crowley: o influente mago que moldou a ideia de espiritualidade e liberdade religiosa moderna entre diversas correntes espiritualistas.

Não estou aqui pra emitir um juízo de valor negativo sobre essa noção individualista e nascida da sociedade cristã sobre o que é a liberdade, eu só gostaria de lembrar que a liberdade, nos tempos antigos, nada tinha a ver com isso. E, como sabemos, somos pagãos porque a sociedade atual não nos basta, e queremos uma forma de viver mais livre; aparentemente há um paradoxo em se dizer que liberdade pagã pode ser diferente de fazer tudo o que quiser de acordo com a vontade, mas calma lá.

Rótulos, significados e essências

A atriz pornô Kamilla Werneck recentemente se declarou evangélica, o que levou algumas críticas conservadoras, outras mais liberais, mas a questão se aplica de forma similar aqui: o que significa ser pagão, o que significa ser evangélico? Se depreende que quando você assume um rótulo, “eu sou evangélico”, você está de acordo com uma determinada forma de pensar e agir, um determinado ethos, algo que fornece um determinado pertencimento a uma certa comunidade. Podem ser coisas simples como uma forma de falar, como a observância de certos ritos, o respeito de certos tabus, o comparecimento em determinadas assembleias onde pessoas com o mesmo rótulo se encontram, enfim, diversas coisas. Em uma religiosidade tão conservadora como o cristianismo evangélico brasileiro, onde as mulheres são submetidas e domesticadas, onde o sexo é um tabu gigantesco, é estranho encontrar uma atriz pornô que se acha identificada com aquele rótulo. É como aquele nosso amigo que vive tendo relações com pessoas do mesmo sexo mas jamais admite ser chamado de bissexual ou homossexual, para ele, ele é apenas um hétero.

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Você não compraria isto como hidromel, compraria? Então por que chamar as coisas pelos nomes que você quiser?

É aqui que chegamos num ponto importante. Um título ou rótulo não é algo “limitador”; na verdade ele é a expressão de nossa própria essência, daquilo que de fato somos. O rótulo precisa se adequar à prática; como você pode ser um perfeito evangélico, sabendo da condenação cristã da promiscuidade, em especial a feminina, e se sentir identificado com esse rótulo? É uma boa questão, não quero aqui julgar ninguém; mas é interessante notar que é importante que as palavras tenham algum significado. Ninguém gostaria de comprar uma garrafa de hidromel e vir água dentro, simplesmente porque o criador do hidromel acha muito limitado definir hidromel apenas como uma bebida produto da fermentação do mel, e que ele acredita que a água, para ele, é hidromel, se engarrafada e rotulada como tal, porque é essa a crença dele.

Paganismo como religião do presente

Então, chegamos aqui no presente pagão de algumas pessoas, rodeadas por uma sociedade massivamente cristã. Como religião que está sendo recriada no presente, o paganismo carece de vários aspectos básicos de ética, moral, ritualística, não porque não hajam evidências de como isso era feito, mas simplesmente porque as pessoas nem sempre estão suficientemente inclinadas a reconhecer as evidências históricas, ou concordar sobre o que era o paganismo. Alguns desses motivos são a noção de liberdade vinda do esoterismo ocidental, em especial de Crowley, o esvaziamento de significado das palavras, com as pessoas preferindo lhes atribuir significados totalmente subjetivos, interesses pessoais como a criação de uma casta religiosa pagã, além das bagagens pessoais que dificilmente aceitam serem postas a ferro quando as pessoas se assumem “pagãs” preferindo apenas carregar seus antigos hábitos com um novo rótulo.

Visão de mundo

Essa palavra gera bastante desentendidos, mas ela é basicamente a estrutura que usamos para entender a realidade ao nosso redor. Nossos sentidos e pensamentos são condicionados pessoalmente. O eterno exemplo disso, é que vemos o Sol e a Lua como masculino e feminino, e em culturas germânicas a Lua é masculina e o Sol é feminino. Isso se aplica a diversas coisas, inclusive às formas de culto; as relações básicas com os deuses são condicionadas pela sociedade em que essas divindades estavam inseridas, então, por exemplo, você não encontrará muitas evidências que os antigos tinham templos para devotar sua fé da maneira moderna que estamos acostumados, mas o oferecimento de presentes e sacrifícios era a forma mais comum de se agradar as divindades e se expressar a devoção a elas, não apenas a mera crença, e isso é devido ao contexto social em que o culto dos povos germânicos estava inserido. A visão de mundo faz nós falarmos de forma diferente, pensar de forma diferente, chegando a discrepâncias absurdas entre culturas, como a ideia de que os índios preferiam produzir o suficiente para viver bem, enquanto os ocidentais produzem de maneira incessante apenas para aumentar o poder pessoal; por tal razão os indígenas parecem “preguiçosos” ao olhar ocidental.

A política de reviver uma religião do passado

Então, como vimos, existem diversos fatores que interferem na forma que interpretamos e vivemos o paganismo na atualidade.

Quando adentramos uma religião, pensamos que basta preencher as gavetas de nossos móveis atuais com conteúdo pagão. Isso pode ser uma abordagem do paganismo, mas não é a única. O paganismo em grande parte exige que joguemos nossos móveis fora, e construamos outros. Parece complicado? Vou esclarecer melhor: por exemplo, no cristianismo, temos um deus. No paganismo, vários. No cristianismo temos a noção de Céu e Inferno, no paganismo Valhalla e Hel. Só que nem sempre essas correspondências são exatas; Valhalla e Hel não são opostos, e o Valhalla não é o único ou principal destino após a morte dos nórdicos. Os deuses, como mencionamos, eram cultuados através de presentes. As nove virtudes são criações modernas, e não necessariamente servem como guia como os dez mandamentos cristãos que as inspiraram, e a lista de falsas similaridades é enorme.

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O portão para o Valhalla no seriado Vikings, o qual ajudou a difundir a ideia do Valhalla como uma espécie de paraíso nórdico, o qual a maioria dos fãs de cultura nórdica acreditam ser o único destino honrado para os mortos.

Mas as pessoas dificilmente gostam desse desconforto que uma nova religião causa; na verdade tudo que as pessoas querem quando trocam de religião é conforto. Então, analisar o passado, e compreendê-lo o máximo possível por si mesmo é uma tarefa quimérica. Isso porque nossa visão de mundo, que em nossa sociedade atual sempre é cristã a menos que sejamos membros de algumas tradições africanas ou indígenas, e assim tentamos adaptar as ideias pagãs aos moldes que estamos acostumados do que seja religião, culto, etc. tais ideias são inconscientes e não é um trabalho fácil deixar o conforto da nossa cultura para entender uma outra cultura por si mesma, eliminando o cristianismo onde o reconheçamos, facilmente ou mais dificilmente.

É claro que aqui é necessário ressaltar que cada um pratica como quiser. Mas existem diversas formas de religiosidade, e o paganismo muitas vezes pode não ser exatamente igual entre vários grupos. Quando falamos de uma crença tribal por exemplo, o coletivo tem um papel bastante importante, o qual não vemos em formas mais individualizadas de espiritualidade. Quando as pessoas esvaziam completamente as definições, e querem simplesmente juntar tudo em sua mistura pessoal de religiosidade, muitas vezes elas acabam impedindo pessoas com visões mais tradicionalistas de praticarem sua espiritualidade como gostariam; e aí entramos no aspecto de que as várias formas de se tentar reviver uma mesma religião podem entrar em conflito tão grande que as pessoas de um mesmo grupo podem quase se matarem mutuamente. Em minha caminhada curta pelo paganismo já fui traído e atacado por pessoas que se fingiam minhas amigas apenas porque eu discordava delas. Existe um grande vácuo entre liberdade de praticar em geral, e aquela que determinados membros mais expoentes do paganismo querem que os outros pratiquem.

Ou seja, cada pessoa está buscando uma religiosidade que se adeque às suas expectativas. Um indivíduo qualquer pode compartilhar uma visão com outros heathens tribais, por que é isso que eles reconhecem como mais próximo daquilo que se praticava no passado; outros pagãos vão praticar algo mais influenciado por tradições esotéricas e o cristianismo e se acham igualmente corretos. Mas muitas vezes não existe aquela tolerância básica e os grupos minoritários começam a se atacar entre si. Aquela velha intolerância cristã porque uns não gostam da prática dos outros, e veja, temos uma cisão porque as pessoas sequer suportam se ouvir.

Cultura pop e metal

Como conclusão, gostaria só de destacar o grande boom que o paganismo germânico teve a nível mundial após o seriado supostamente histórico do History Channel, o Vikings. Junto das produções da Marvel e outras obras, como metal de temática mitológica, eles têm servido como portas de entrada para várias pessoas conhecerem o que é o paganismo. O problema é que essas obras geralmente são produzidas ou por cristãos ou por pessoas que, por mais bem intencionadas que sejam, trazem vários preconceitos e ideias pre-concebidas que jamais conseguem submeter à análise crítica. Vale mais deixar o cabelo crescer, ter mil tatuagens, ouvir metal, assistir Vikings, se achar o guerreirão de Odin que vai pro Valhalla, do que parar e se analisar, mudar a própria essência.

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O Ragnar Lothbrok interpretado pelo australiano Travis Fimmel, o qual influenciou diversas pessoas ao ponto de não distinguirem mais com clareza entre o seriado e a cultura pagã histórica.

Essas portas de entrada têm o fator positivo de atraírem mais gente, embora esse proselitismo nem sempre seja ideal. Mas o fato é que ser pagão jamais será comprar determinados produtos, pagar de malvadão, querer ir pro Valhalla. Se você chegou até aqui e compreendeu a mensagem deste texto: parabéns, você é um dos poucos, mas geralmente o caminho que a onda vai só leva mesmo à destruição. O paganismo exige que estudemos e nos dediquemos porque veja, não vivemos em uma cultura pagã. Se queremos de fato reviver isso, deixe a preguiça mental de lado, e leia e julgue por si mesmo; você vai ver que não há nenhum non sense no que dissemos. Mas por favor: se dedique antes de criticar e pare de querer um palanque pra ficar famoso: já estamos cansados de gente infantil e sem maturidade o suficiente pra deixar o cristianismo do próprio inconsciente, apedrejando pessoas que se dedicam a viver o paganismo em suas vidas cotidianas, afastando-se das religiões abraâmicas o máximo possível. Que tal uma autocrítica? Que tal, se você discorda de algo, viver sua própria experiência sem tentar distorcer a dos outros? Que tal parar de tentar conformar o passado aos próprios desejos? Que tal tentar mudar a própria essência, e entender de fato o passado, no lugar de simplesmente tentar ser diferentão?

 

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