Guerra de egos: a ruína da Ásatrú e de todo o paganismo germânico no Brasil

Por Seaxdēor

O paganismo germânico é uma religião que morreu. Existem pelo menos mil anos entre a última forma de paganismo de povos germânicos e a primeira tentativa de trazê-lo novamente à vida. Não existem tradições milenares intactas. E assim começamos nossa conversa.

O fato do paganismo ser uma religião morta por muito tempo, sem tradições de longa data, implica a necessidade de sua total reorganização nos dias atuais. Muitas pessoas não dão a mínima para isso, e veem o paganismo apenas como uma espiritualidade pessoal, embora qualquer olhada superficial no paganismo antigo prova a necessidade da comunidade no paganismo germânico.

Todavia, isso nos faz nos deparar com inúmeros problemas. Quem teria o direito de recuperar essa tradição? Racistas dirão que apenas pessoas brancas. Ignoram o fato de que muitas pessoas que não são 100% brancas possuem ancestralidade setentrional. Ignoram também que ancestralidade não se define apenas no tom da pele, mas na cultura.

Além disso, cor não diz muita coisa. Uma pessoa branca pode simplesmente discordar ou não entender a visão de mundo pagã, e ou jamais será pagão, ou trará vários vícios intelectuais e práticos do cristianismo, caso não queira desconstruir essa mentalidade profundamente.

Por outro lado, a grossa maioria dos locais onde o paganismo germânico tem adeptos possui alguma influência da cultura germânica: o Brasil, por exemplo, possui suevos e visigodos como parte de nossos ancestrais culturais. Todavia, a ausência de ancestralidade cultural não implica impedimento de prática: na verdade, se você está disposto a aplicar a visão de mundo germânica pré-cristã na sua vida, você é mais do que bem-vindo.

Só que estamos no Brasil. O local onde mercadores da fé passeiam livremente e preenchem bancadas políticas. Local onde pessoas como Mirella Faur são tomadas como referência no paganismo, mesmo após amplamente desacreditadas, a nível histórico, por estudiosos sérios como Johnni Langer. O movimento pagão germânico é conhecido mundialmente por ser, em maior ou menor grau, ligado ao método reconstrucionista, mas aqui no Brasil a maioria dos pagãos ou desconhece a ideia ou simplesmente a despreza, ou ambas as coisas.

Se não queremos ser como fundamentalistas que tomam sua Bíblia literalmente, e não temos uma tradição oral viva, só resta reconstruir aquilo que foi perdido. Não há nada absurdo aqui. Nada infantil, errôneo ou limitado. Após a recuperação das informações em livros, folclore, evidências arqueológicas, é possível aplicá-las e viver como qualquer outra religião.

Mas nem todos querem se esforçar para ajudar a trazer o paganismo de volta à vida, desde suas etapas mais básicas. E se alguém se propor a fazer o trabalho de pesquisa, alguns sempre estarão incomodados porque as coisas não são do jeito que eles querem. Na verdade, as coisas não são sempre exatamente como ninguém quer. Parte do processo de troca de religião é a compreensão e vivência de novos conceitos.

Nossa tradição está, fora da Ásatrú & Liberdade, com um atraso de (pelo menos) 30 anos nas informações. Foi por isso que nossa página surgiu. Enquanto práticas como divinação rúnica são entendidas como criação moderna (inventadas na década de 80 a partir de uma leitura pouco sugestiva de Tácito) fora do Brasil, aqui são de certa forma o centro do paganismo. Muitas pessoas não têm interesse em aprender e desvendar o que de fato era o paganismo, mas simplesmente ditar suas opiniões pessoais para todos os outros, chamando isso de “vivência” e tolhendo toda a liberdade de interpretação dos praticantes. Isso é ridículo e absurdo. O que nós temos de certo é aquilo que a história e demais ciências nos dizem; como nós aplicamos isso em nossas vidas é que transforma isso em religião. Não é possível ressignificar a religião ao bel prazer, sem tolher a liberdade de todos os praticantes. E por isso assumir uma postura histórica é tão importante.

Mas sejamos sinceros. As pessoas têm fome espiritual e querem ser pagãs, e trazem diversos conceitos não pagãos ao paganismo, e querem passá-los adiante como paganismo germânico legítimo. Nada contra quem quer viver qualquer outro caminho que não seja o paganismo germânico. Mas conceitos estrangeiros nem sempre possuem equivalentes na cultura germânica, a ponto de serem importados sem qualquer prejuízo às ideias centrais do paganismo germânico.

Nosso entendimento do paganismo evoluiu drasticamente em 30 anos. Não dá pra se esperar que pagãos que entrem em contato com material mais recente tenham a mesma visão de quem só lê aquilo que agrada, com uma perspectiva hermética, rosacruciana, ocultista ou esotérica, e não tenham uma perspectiva diferente da dessas pessoas (nada contra esses caminhos, eles só são bastante diferentes do paganismo em sua forma original). A pluralidade foi a característica do paganismo sempre. Querer unificar todas as opiniões sob a perspectiva de um kindred ou dois, apenas porque seus líderes se acham acima da crítica, é contra qualquer princípio de tolerância religiosa. Pra nos tolerarmos não precisamos concordar. É apenas necessário não querer nos destruir mutuamente.

Não querer nos destruir mutuamente. Quão difícil é esse sentimento no paganismo germânico? Eu mesmo quero que os nazistas sumam. Até aí tudo bem, mesmo o liberal Karl Popper lembra que não dá pra tolerar intolerantes em uma sociedade aberta. Porque eles conspiram pelo fim dessa sociedade. Mas e quando as pessoas conspiram pelo fim de quem é contra os mesmos inimigos que você? O nome disso é briga de ego, luta por poder. Não existe uma comunidade sincera onde as pessoas estão o tempo todo tentando dominar todas as outras.

O paganismo germânico brasileiro está assim. Pessoas que entendem e vivem o paganismo se matando por discordâncias mínimas de opinião ou diferentes perspectivas. Não importa o que os antigos fizeram, não importa o respeito pelo outro: importa o que o ego de uma minoria deseja. Não importa vivenciar a religião em sua profundidade, importa falar “hail irmão” e compartilhar memes de Thor na quinta-feira. Substitui-se o debate pela postura estéril do dogma. Não foi pra isso que eu me tornei pagão. Sem diálogo, e com altas hierarquizações, e o desprezo de grupos do sudeste do país pela opinião dos pagãos do resto do Brasil o paganismo germânico no Brasil começa a entrar numa era negra, assim como nossa política: a época em que a ignorância impera, porque a ignorância agrada as massas e as torna manuseáveis por uma minoria de pseudo-iluminados.

Espero sinceramente que essa loucura que tomou conta da comunidade pagã germânica, ou ao menos membros proeminentes dela, possa, da melhor forma, ser resolvida. Não adianta querer combater um papa se tornando outro papa. A comunidade pagã brasileira precisa dialogar e se tolerar mutuamente de norte a sul do país, e, para isso, a internet é sim uma ótima ferramenta de conexão. Precisamos de uma organização séria a nível nacional. É assim que é na Suécia, Inglaterra, etc. Não deixemos nosso ego arruinar o progresso do paganismo germânico. A desunião só nos torna mais vulneráveis ao fundamentalismo religioso que assombra nossa política.

 

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