A deficiência física e o heathenismo

Certa vez me perguntaram como eu, a autora, conciliava minha fé (nos deuses, ancestrais, vættir, o que for) e minha condição de deficiente física. Se eu não tinha raiva desse seres “permitirem” que eu fosse assim, etc.. Minha resposta, à época, é que simplesmente não há conflito: enquanto pagã e heathen, eu não espero um milagre, salvação, ou algo do gênero, e sentir raiva da realidade é meio improdutivo.

Uma grande parte do pensamento heathen é aceitar o mundo. Isso envolve não crer em uma salvação divina, ou em uma existência melhor do outro lado, uma existência transcendente e perfeita, em recompensas eternas se apenas nós acreditarmos o bastante. Ao contrário, o foco do heathenismo é o hoje — o presente continuamente construído por nossas próprias ações.

Aceitar o mundo significa aceitar a vida como ela é, em suas coisas positivas e negativas. Nosso mundo não é perfeito. Ele tem problemas, transtornos e delícias, também. Nossa Miðgard é do jeito que ela é, com sua harmonia peculiar, de acordo com sua própria örlög.

Pra quem não sabe, eu sou deficiente física, cadeirante, desde sempre. Fui diagnosticada com uma doença autoimune, incurável e de causa desconhecida com menos de um ano de idade, que deixou sequelas profundas e irrecuperáveis em meu corpo.

Esta doença se chama artrite reumatóide juvenil (ARJ), e é bastante incomum (especialmente em crianças tão jovens quanto eu era). No meu caso, ela foi sistêmica (afetou o corpo inteiro) e grave. Mas, continuemos.

Em situações como essa (e uso a minha apenas por ser, bem, a realidade que conheço), vê-se claramente a distinção entre o que é aceitar o mundo e rejeitá-lo. Enquanto criança, em uma sociedade cristã, eu ouvi várias vezes a ideia que Deus cura. Deus opera milagres, Ele o faz por amor a seus filhos, basta apenas aceitá-Lo e amá-Lo. E se isso não acontecer, bem, é a vontade d’Ele.

Certo ou errado, esse tipo de pensamento nunca me agradou. Não cabe a mim criticar a religião alheia (apenas respeitá-la e aos que a praticam), mas, de qualquer forma, não era um pensamento que fazia sentido para mim. Outras pessoas pensam diferente. Tranquilo.

As religiões pagãs, de forma geral, nasceram e morreram em um mundo profundamente hostil. Não havia uma sacralidade inerente à vida no pensamento antigo. Na Islândia, era comum expor crianças doentes ou indesejadas por motivos que, embora tristes, fazem muito sentido: em um ambiente profundamente inóspito, onde comida é escassa, mais crianças significa mais bocas para alimentar, mais chances de outras pessoas morrerem de fome. Esse costume era tão vital e essencial para a sobrevivência na ilha, que foi uma das condições levantadas para se aceitar a cristianização: que a exposição de crianças indesejadas continuasse legal, algo que conflita diretamente com a crença cristã.

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Mulher russa abandona seus filhos aos lobos, por Charles Michel Geoffroy (1845). Via Wikicommons.

Essa prática de expor crianças indesejadas está presente em mais de uma cultura, ainda existindo em algumas tribos nativas das Américas e em outros locais do mundo.

É importante lembrar que o pagão não necessariamente encara a morte com temor fervoroso. Ela é parte natural da vida. Embora seja algo a ser evitado, não faz sentido ter medo ou pudor para com algo inevitável e mais: algo que, à época, era presente na vida diária deles.

Também importante lembrar que crianças saudáveis, mas indesejadas, também poderiam ser expostas aos elementos e, assim, efetivamente mortas, se houvesse necessidade de preservar a vida de outrem, em caso de fome, por exemplo. Também é comum o assassínio ou abandono de bebês do sexo feminino em culturas onde o homem é mais socialmente relevante.

Mesmo crianças aceitas corriam o risco de morrerem, por doenças e acidentes. A mortalidade infantil ainda é alta em diversos locais do mundo e, até relativamente recente aqui no Brasil mesmo, ainda era bastante alta (ela caiu 73% em 25 anos). Em vários lugares, é comum não se dar nome às crianças até que passem do tempo de risco — até que cheguem a uma certa idade.

Nós, em grande parte, não vivemos nesse mesmo mundo. A mortalidade infantil caiu drasticamente, em todo mundo. A taxa de natalidade é decrescente em diversos países, principalmente nos países desenvolvidos. Mais pessoas escolhem não ter filhos, e os que nascem, tem mais condições de sobreviver até a idade adulta. Vacinação e saneamento básico eliminaram muitos dos riscos a crianças, como, por exemplo, a poliomielite, doença que causa efeitos devastadores sobre crianças que a contraem.

Nascida eu na época antiga, é bastante provável que não chegasse à idade adulta. Talvez fosse exposta aos elementos, ou simplesmente morresse com as febres altas que tive. Febres reumáticas e reumatismo, como é popularmente conhecida a artrite, não eram desconhecidas dos povos antigos, mas pouco ou nada se poderia fazer contra seus efeitos deformadores sobre o corpo.

Mas eu não nasci naquela época, e, portanto, pude sobreviver.

Claro, nem todas as deficiências começam na infância. Muitas vem depois, de acidentes, da guerra, doenças adquiridas na idade adulta, e muitas outras. A artrite reumatóide, por exemplo, é mais comum em adultos; a osteoartrite, quase uma certeza entre pessoas de mais idade. E nesses casos, quando a pessoa não simplesmente morre, bem, havia diversas maneiras de se lidar com isso.

O Hávámal dá a dica, bastante claramente:

Mais abençoados são os vivos que os mortos,
são os vivos que tocam o gado;
Eu vi a lareira acesa de um homem rico,
E seu corpo morto na porta.
O manco pode andar a cavalo, o maneta, tocar o gado,
O surdo pode lutar e vencer.
É mais feliz o cego que aquele na pira funerária,
Mas nenhum homem tem uso para um cadáver.

Embora muitos o usem como tal, o Hávamál não é exatamente um “código” pagão (o que não faz dele cristão, também, claro). Escrito muito no período pós-conversão, ele traz alguns pensamentos que, no entanto, refletem o pensamento local que, embora já desvinculado, ainda tem traços de uma religião e cultura mais antigas, assim como as interpretações e conselhos do próprio autor (este desconhecido). Independente de sua origem, ele possui diversos conselhos de como se conduzir a vida, muitos deles úteis e interessantes, independente de sua conexão com a cultura pré-cristã ou falta dela.

E estas estrofes (70 e 71) tem um conselho interessante. É melhor estar vivo que morto, e todos tem uma função na sociedade. O cego, aquele sem a mão, aquele sem a perna, o surdo, enquanto vivos, têm utilidade.

Em tempos de Paralimpíadas, podemos ver que essas coisas não impedem uma vida produtiva. Talvez sejam obstáculos; mas não exatamente deterrentes (é claro, havendo casos e casos, e deficiências e deficiências, algumas sendo mais incapacitantes que outras).

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Esgrima em cadeira de rodas. Via Wikicommons.

Inclusive, quando vemos as sagas e os próprios Eddas, algumas deficiências ou problemas físicos podem ser indicativos de super-habilidades — estas adquiridas na troca da utilidade física por aquela divina.

Em alguns casos, pode-se dizer que a própria deficiência vem do contato com o divino, e que o contato com o divino pode ser a causa de, por exemplo, uma perda de visão ou audição. Temos profetas cegos em diversas culturas, e os próprios deuses trocam partes de seus corpos em favor de outras coisas, como é o caso do deus Týr, que demonstra sua bravura excepcional quando perde a mão para o Fenris-úlfr, e o caso de Odin, quando deixa seu olho como tributo pela sabedoria de Mímir.

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Desenho representando o lobo Fenrir e Tyr, inspirado em uma bracteate do período migratório, encontrada em Trollhättan, em Västergödland, Suécia. Desenho por Gunnar Creutz. Via Wikicommons.

Em outras culturas, pessoas que hoje seriam consideradas doentes, como pessoas com problemas psiquiátricos (esquizofrenia, por exemplo), ou epilepsia, poderiam ser consideradas como detentoras de grandes poderes mágicos.

(É claro, nem sempre. Em diversas outras culturas, pessoas albinas, por exemplo, são consideradas como seres do mal.)

Partindo do que sabemos através dos poucos registros escritos que temos, podemos entender que os povos germânicos pré-cristãos não consideravam uma deficiência como necessariamente ruim, em um nível pessoal (embora indesejável, ela não transforma a vida de uma pessoa em uma tragédia); ela é potencialmente um problema social, quando pode se tornar um risco à sociedade como um tudo. Em um tempo em que a sociedade vive ou morre de acordo com a participação de seus membros, uma pessoa que não pode participar de forma completa, ou que tem um ponto fraco, é por si só um ponto onde a tribo pode ser atacada.

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Loki e Hödr. Via Wikicommons.

A preocupação é menos com o indivíduo e seu sofrimento, ou falta de, e mais com o coletivo e como ele pode ser impactado pelas dificuldades de outrem. As sagas incluem mais de um exemplo onde um homem cego é usado para matar um parente, por exemplo, o que seria uma grande violação social para o povo da época. É o caso do deus Hödr, usado por Loki para matar Baldr, como descrito tanto na Edda em prosa quanto na Poética.

(Curiosamente, o incidente com Loki e Hödr não existe em outras versões do mesmo mito.)

Portanto, não é que a cura seja impossível, ou que pessoas não a buscassem nos mais diversos lugares; apenas que não havia, exatamente, um estigma para com a pessoa que porventura apresentasse deficiência. Não era, necessariamente, um fator determinante sobre como a pessoa era percebida, mas sim, mais uma de suas muitas características. Um fato da vida.

Posteriormente, após a conversão, temos a ideia de que essas pessoas possuiam espíritos impuros; deformidades ou deficiências poderiam ser consideradas influência de demônios, possessão, e coisas afins. Isso se vê na forma como pessoas que hoje seriam consideradas doentes eram tratadas como possuídas por espíritos malignos, ou amaldiçoadas, e muitas vezes mortas.

Isso gerou a marginalização das pessoas deficientes. Se antes elas poderiam (e, por força da cultura da época e da necessidade, assim como os recursos escassos, deveriam) ser totalmente integradas à sociedade, se encaixando no que podiam, agora elas eram isoladas da mesma, sendo tratadas como alvo de caridade cristã e, muitas vezes, isoladas em monastérios. Essa ideia perdurou até relativamente recente, com a existência de vários sanatórios e institutos onde se deixavam pessoas deficientes, partindo-se do paradigma religioso para o médico, em que a doença deve ser curada.

Ironicamente, em uma época onde a vida era significantemente mais difícil, em termos de recursos, havia mais integração social de pessoas deficientes que em épocas posteriores.

Trazendo de volta à realidade atual: acredito eu que essa mentalidade (que todos são úteis, que não há nada particularmente especial ou trágico em circunstâncias da vida) é bastante compatível com o mundo moderno, e com a religião que desejamos reavivar. Lidar com a realidade, e com as possibilidades que ela traz, é bastante — a meu ver — mais saudável que esperar um milagre que, muito provavelmente, não virá — e, francamente, nem precisa vir.


Imagem por Craig Toron, via Freeimages.

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