Beowulf – Esquema

(Este texto não é de autoria da Ásatrú e Liberdade. Está sendo republicado pois o original está num blog antigo, que pode sair do ar a qualquer momento, já que o wordpress exclui blogs inativos.)

1- Dados históricos:

Aproximadamente a partir do ano 285 d.C. os germanos do mar do norte descobriram sua vocação marítima, infestando a costa da Gália, Bretanha e do norte da Espanha com piratas oriundos do território, que atualmente designa a Alemanha e Dinamarca. Essa pirataria primitiva que era intensiva sobre as Ilhas Britânicas foi rapidamente transformada em núcleo de povoação, o que posteriormente se figurou como colonização. Em 407 d.C o imperador romano Constantino III buscando engrossar as defesas fronteiriças de Roma contra os “bárbaros”, fez a transferência das tropas romanas das Ilhas Britânicas para o continente, deixando o território livre para as incursões germânicas, que tiveram de enfrentar os povos celtas que habitaram aquela região após o domínio romano.

Dessa invasão de povos germânicos às Ilhas Britânicas, duas tribos se sobressaíram, os anglos e saxões, que posteriormente como o inglês antigo confirma se sintetizariam. O inglês antigo ou anglo-saxão é como a segunda denominação sugere, uma síntese da língua anglo e saxão, que podia ser entendido por monoglotas de cada tribo, dando uma idéia de unidade cultural.

 

2- Composição da Obra:

O poema Beowulf, escrito em inglês antigo por entre os anos de 680 e 729 d.C, mas que só nos foi preservado através de um manuscrito do século X, apresenta muitos aspectos da cultura pagã germânica desses povos colonizadores, uma sociedade heróica baseada em condutas militares e na memória oral.

Fruto de um poeta cristão anônimo, não se sabe ao certo se foi genuinamente composto ou apenas adaptado de um poema de tradição pagã oral anterior. O poema possui um tom claramente épico, foi composto em 3182 versos, que são divididos em fitts, umas espécies de capítulos, com a ressalva de que não necessariamente encerram aquela parte da narrativa.

A trama e as principais personagens do poema se referem às tribos germânicas e escandinavas do continente antes de sua chegada às Ilhas Britânicas, dentre os quais estão os antepassados dos anglo-saxões.

Segundo Erick Ramalho em sua tradução do poema, “a versificação germânica do poema torna-o fundamentalmente, se não essencialmente, um texto para leitura em voz alta, na qual melhor se expressa o estilo do poema, realçando-se seus artifícios literários”, o que juntamente com a metrificação germânica e resquícios culturais claramente de um paganismo germânico, são indícios de que o poema é apenas a adaptação de uma tradição oral anterior criado por um scop, o poeta anglo-saxão.

 

3- Estrutura do poema

A narrativa do poema pode ser superficialmente dividida em seus três conflitos e no resultado da morte do Herói, sendo assim nessas quatro partes:

  1. A Viagem de Beowulf a terra dos Danos, onde enfrenta uma criatura chamada Grendel que tem amaldiçoado o recém construído salão Heorot. O monstro consegue fugir da batalha mesmo que mortalmente ferido (do fitt 1 ao 12).
  2. Após o herói ser recompensado junto aos seus companheiros pelo rei dos Danos uma nova ameaça surge: a mãe de Grendel, sedente de vingança pela morte do seu filho. Beowulf a mata em seu próprio lar (do fitt 13 ao 24).
  3. Após novo banquete Beowulf volta ao seu lar, terra dos Getas. É narrado como ele obteve o titulo de rei. Em seguida após 50 anos de seu reinado ele tem de enfrentar um Dragão que ataca o seu povo, neste combate ambos oponentes são mortos (do fitt 25 ao 38).
  4. São narradas as implicações que a morte do rei Beowulf vai causar ao povo danês, entre elas a principal é o fim da trégua com povos inimigos sedentos de vingança por derrotas passadas (do fitt 39 ao 43).

Os 43 fitts do poema apresentam as seguintes narrativas:

Prefácio- Começo da linhagem dos reis de um povo conhecido como Dano.

I- Um rei danês chamado Hrothgar constrói um suntuoso salão de festas conhecido pelo nome de  Heorot.

II- Um monstro denominado Grendel começa a atacar o salão durante as noites, por se machucar com a felicidade que é emanada de lá todos os dias.

III- Beowulf um nobre do povo Geta ao ouvir falar das dificuldades dos Danos resolve ajudá-los.

IV- Ao chegar a costa marítima dos Danos, os Getas se apresentam como aliados.

V- Beowulf pede para falar com o Rei dos Danos.

VI- Beowulf se apresenta ao rei, dizendo que foi escolhido pelos Getas para matar o inimigo dos daneses.

VII- O rei se queixa a Beowulf das desgraças que Grendel trouxe ao seu povo.

VIII- Durante o banquete no salão Unferth, um nobre danês provoca Beowulf questionando seus resultados em ocasiões passadas.

VIIII- Beowulf se defende da provocação de Unferth.

X- O banquete é encerrado e os viajantes esperando a aparição do inimigo dormem no salão.

XXI- Grendel adentra o salão e começa uma batalha contra Beowulf.

XII- A batalha continua, ao perceber a força do herói o monstro consegue fugir do salão mortalmente ferido.

XIII- No dia seguinte a batalha todos os nobres vão ao salão contemplar a garra do monstro arrancada por Beowulf que havia ficado presa ao teto.

XIV- Hrothgar aclama em discurso no salão a vitória de Beowulf.

XV- O rei recompensa Beowulf com tesouros por livrar os daneses de um grande infortúnio.

XVI- Continuação da distribuição de tesouros para os companheiros de Beowulf.

XVII- Banquete no salão com o poeta cantando antigas histórias dos Danos.

XVIII- A rainha dos Danos agradece Beowulf por ter derrotado o terrível monstro.

XVIIII- Logo após o banquete enquanto dormiam a mãe de Grendel, sedenta de vingança pela morte do filho ataca o salão e mata um nobre conselheiro e confidente de Hrothgar.

XX- Hrothgar pede a Beowulf que se livre da mãe de Grendel, prometendo mais tesouros e honra.

XXI- Os nobres vão com Beowulf ao lago, lar da mãe de Grendel.

XXII- Beowulf entra no lago, após ser atacado por muitas criaturas, após ser imobilizado dentro d’agua é levado pela mãe de Grendel ao seu salão submerso.

XXIII- Beowulf vence a mãe de Grendel, no salão ao qual está encontra o corpo de Grendel morto e arranca-lhe a cabeça, levando como troféu.

XXIV- O herói se apresenta no salão Heorot como vencedor da batalha e com a cabeça de Grendel como troféu.

XXV- Banquete no salão com outra distribuição de tesouros.

XXVI- Despedida entre Beowulf e Hrothgar, vai voltar a sua terra.

XXVII- Retorno de Beowulf a sua terra, território Geta.

XXVIII- Beowulf conversa com Hygelac, Rei dos Getas.

XXVIIII/XXX- O herói repassa ao rei a situação dos Danos com os povos vizinhos, além de narrar seus atos heróicos em terra estrangeira.

XXXI- É narrado como Beowulf chega ao trono dos Getas e reinar por 50 anos.

XXXII- Um súdito do rei dos Getas rouba uma peça do tesouro escondido de um Dragão, este desperta e começa a atacar todo o reino em busca de vingança pelo tesouro ao qual protege ter sido violado.

XXXIII- Beowulf deseja vingar o povo Geta dos ataques da criatura, por isso pede ao súdito causador do problema que o leve juntamente com os nobres ao qual escolheu para o covil do monstro.

XXXIV- Beowulf enquanto espera o monstro conta sobre a sua vida desde a infância aos atos heróicos que fez.

XXXV- O Dragão ao ver o herói junto ao seu tesouro o ataca. Os companheiros de Beowulf fogem da batalha, restando apenas Wiglaf.

XXXVI- Ao ver seu Rei correndo risco de vida e seus companheiros fugindo, Wiglaf socorre Beowulf.

XVII- O Dragão é cortado em dois por Beowulf, mas este é envenanado pela criatura.

XXXVIII- Após dizer como quer seu rito funerário Beowulf morre.

XXXVIIII- Wiglaf censura os covardes por só voltarem após o fim da batalha e a morte do rei.

XL- É anunciada a morte do rei Beowulf ao povo Geta.

XLI- Se narra como a morte do rei pode ser recebida com felicidade pelos povos inimigos dos Getas, que sabendo da morte do seu protetor irão tentar vingança contra esse povo.

XLII- Se distribui o tesouro do Dragão como herança de Beowulf ao seu povo.

XLIII- É narrado o funeral crematório de Beowulf, o mais nobre de todos os Getas enquanto esteve vivo.

 

4- Algumas questões do Herói

4.1- O fado (destino)

– Uma das principais características do herói em Beowulf é sua confiança no fado (destino), têm-se a idéia de que ele é traçado no nascimento e o dia final já está fixado por Deus. Na tradição escandinava e de forma mais abrangente na tradição da Europa setentrional o destino era fixado na Orlog – lei fixada na origem – pelas nornas, três entidades divinas chamadas Urd, Verdandi e Skuld, que assim como as parcas gregas representavam respectivamente o passado, presente e futuro. Por já estar fixado não deveria se temer a escolha de Deus (no caso do poeta cristão) no destino do homem, pois ele não falha.

                                                                                                           “Assim, aqueles a quem
Deus protege escapam, pois, do pesar
e do exílio – a falecer não fadados.”
(Beowulf – XXXII)

 “Há de ditar o destino o fado- este,
criado por Deus pra criaturas.”
(Beowulf – XXXV)

4.2- Morte e Glória

 – A morte era algo alegre se gloriosa, já que o destino era fixado por Deus, assim no universo do poema o que se deve fazer em vida enquanto o fado não chega é buscar a fama, quando ela é experimentada a morte pode ser considerada plena.

“Melhor mesmo é a morte
de amigo desforrar que deplorá-la
com grandeza. Hemos de experimentar,
todos no mundo a morte. Quem merece
que faça, antes do fim da vida, fama –
pro varão não mais vivente é o melhor. “
( Beowulf – XXI)

– Os gloriosos mortos na mitologia escandinava iam para Valhalla, um salão em que apenas os grandes guerreiros escolhidos pelo deus Odin ficariam, treinando todos os dias para a batalha do “juízo final” dos deuses. Como o poema foi escrito por um cristão e o paganismo foi suprimido, as almas dos gloriosos vão para o paraíso que seria o lugar dos gloriosos. Quando Beowulf morre:

“Sua alma
partiu do peito para procurar
o juízo (grande glória) dos justos.”
(Beowulf – XXXVIII)

– A glória é ganha não apenas em nome do herói, mas de todo o seu povo e principalmente de seu rei. Durante o poema Beowulf exemplifica isso quando pede pra Hrothgar, rei dos Danos mandar os tesouros ao qual recompensou o herói para o rei dos Getas, Hygelac; e ao morrer quando o tesouro do Dragão ao qual conquista é dividido aos nobres do seu povo.

“Honrei, príncipe, teu povo com mi’a obra”
(Beowulf – XVIIII-XXX)

“Ao senhor, pelos ornatos
que vejo, graças verto em verbos (Lorde
eterno, Rei da glória) enfeites ganhos,
por mim, pro meu povo, antes de partir.”
( Beowulf – XXXVIII)

4.3- As armas

– Como a sociedade do poema é baseada em condutas aristocráticas e guerreiras, típicas dos povos nórdicos, as armas tinham um destaque em vingança de famílias, resolução de problemas pessoais, guerras e etc.; por isso possuíam grande valor, além disso, serviam para distinguir o nobre do gentio comum. Dessa forma o equipamento bélico do herói no qual se inclui espadas, escudos e cotas de malha servem para identificá-lo em relação aos demais nobres. Principalmente porque seus equipamentos foram ganhos em atos heróicos passados.

“Nunca vi cá virem varões co’escudos
tão patentes. (…)
Jamais vi maior varão que, dos vossos,
este que arnês traja. A julgar pelo ar,
não é serviçal.
(Beowulf – III)

“Ao guerreiro
o monstro tocou, mas não fez mal: malha
de prélio (elos de laço) protegia-lhe
o corpo (…).”
(Beowulf – XXII)

– Nesse tipo de sociedade a qualquer momento se poderia ser atacado, por múltiplos motivos: desde inimigos pessoais a confronto de povos. Portar uma arma era uma necessidade, o único meio de se sentir seguro, por isso não se separava dela.

“No salão, dentre os nobres, sobressaíam
poderosa lança, elmo (em prélio excelso)
e cota de correntes. Costumava-se
sempre pronto a prélio estar, precisasse
(seja em casa, seja no campo) seu
soberano. Era aquele seu bom povo.”
(Beowulf – XVIII)

4.4- Código de honra

– O herói épico serve para traçar as características boas e ruins dentro da sociedade na qual esta inserido. Como em Beowulf é exemplificado uma sociedade guerreira e aristocrática, algumas de suas virtudes ideais são a:

Justiça: O herói enfrenta os inimigos em nível de igualdade, no confronto contra Grendel ele tira sua armadura e pede que guardem sua espada, pois o inimigo não usa nenhum desses equipamentos bélicos. Essa igualdade se torna necessária para a luta ser justa, só em batalha de condições iguais entre os oponentes é que pode haver glória, pois só assim a coragem pode ser medida. O herói confia que o seu destino é vencer a criatura:

“Não venho para deixá-lo sem vida
com esta espada minha, embora isso eu
pudesse. Posto, pois, que não possui prática
de armas alguma, não há de atacar-me (…)
Se não temer ele lutar desarmado,
sem lâmina enfrentar-nos-emo. Que escolha
Deus sábio (senhor Sacro) o sobrevivente.”
(Beowulf – X)

Verdade: No fitt VIII, Unferth duvida dos feitos heróicos de Beowulf e diz ter pena do destino do mesmo ao enfrentar Grendel. No fitt seguinte Beowulf defende sua honra e faz o nobre danês se calar ao dizer que se Unferth fosse tão bom na espada quanto é em difamar os outros ele mesmo derrotaria a criatura aterrorizante.

Lealdade: Tanto ao rei quanto aos companheiros de batalha a lealdade é algo honroso e por isso glorificante. Quando ao lutar contra o Dragão os nobres escolhidos por Beowulf fogem eles quebram o laço de lealdade e por isso são duramente criticados por Wiglaf que permaneceu ao lado do seu rei até a sua morte.

 “Eu hei de então, os trazer,
rei-guerreiro, pra, de bom grado, rendê-los
a ti, pois é de ti que nos vêm todos
os favores.”
(Beowulf – XXXI)

“Assim amigos agem:
sem tecer sórdidas tramas – secretas
artimanhas não articulam eles
pra aliados co’elas assassinar.”
(Beowulf – XXXI)

-Coragem: Confiante em seu destino o herói pode entrar em batalhas sem qualquer temor, caso seu destino terminasse ali, seria uma morte gloriosa em combate. Além disso, o herói confiava no sangue de seu povo e nas suas armas que eram artefatos ganhos em outras circunstâncias. Um exemplo disso é que Beowulf adentra o lago onde vive a mãe de Grendel, com uma esplêndida cota de malha que o protege de diversos golpes de monstros, empunhando uma espada lendária entregue por Unferth ele tenta matar a mãe de Grendel, após a espada falhar ele encontra outra arma no salão submerso, com a qual consegue derrotar a criatura.

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