A morte e depois dela, IV: destinos

Por Andreia Marques.

Publicado originalmente em Heathen Brasil.

Os mortos estão entre nós. E, um dia, nós nos juntaremos a eles. De uma forma ou de outra, haja uma vida posterior ou não, nossa existência continua: quer no impacto que nossas vidas causaram, nas lembranças que deixamos na mente dos sobreviventes, quer com um simbolismo cruel na forma do draugr, quer em um reino, ou mundo, ou estado alterado, onde os mortos habitam.

O principal destino, de todos nós, é o mound — ou seja, nosso túmulo. Nosso lugar final de descanso, por assim dizer. E isso não é uma coisa ruim. É a existência natural de um heathen, tornar-se protetor de nossa família após a morte, tornar-se um ancestral, digno de receber culto.

Essas mamoas variavam em tamanho, estilo, formato, se eram marcadas ou não. Não existia padrão, na Escandinávia antiga, de um túmulo, câmara funerária ou sepultamento. Embora na Suécia fosse comum a cremação, em outros pontos da Escandinávia misturavam-se as tradições de inumação (sepultamento do corpo) e cremação.

Mas mesmo após a cremação, os corpos eram sepultados, juntamente com seus bens materiais. Em algumas mamoas, encontramos navios inteiros, corpos de animais, múltiplas pessoas, crianças junto de (presume-se) seus pais. Em outros locais, os túmulos eram marcados com fileiras de pedra sugerindo navios.

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Navios vikings de pedra, em Bastelunda, próximo de Västerås, Suécia. Via Wikicommons.

Em outros lugares, pessoas poderiam ser sepultadas dentro de caixas, ou de carroças, ou caixões de forma mais moderna. Em alguns lugares os túmulos são marcados com pedras, algumas elaboradas, outras não. Em alguns locais, existem verdadeiras câmaras funerárias, feitas de madeira ou de pedra, e escavadas na terra — quadradas e largas. Dentro delas, pessoas poderiam ser sepultadas sentadas, deitadas como se dormissem, inclusive com travesseiros e cobertas, de costas, em poses expressivas (em um túmulo, um homem e uma mulher foram sepultados juntos, ambos com uma das mãos para trás e uma sobre os genitais, e a mulher com duas grandes pedras colocadas sobre seu torso), e outras muitas maneiras.

A grande variedade de funerais demonstra que havia uma grande diversidade de tradições envolvidas, regionais, locais e até individuais, embora alguns pontos permaneçam em comum, como a presença de itens funerários, geralmente itens que, presume-se, pertenciam à pessoa morta, e determinadas localidades possuiam determinados padrões, como cremação ou inumação.

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Itens funerários pertencentes a uma völva, incluindo o famoso cetro da völva. Encontrado em Köpingsvik, Öland, Suécia. Via Wikicommons.

Interessantemente, muitos dos corpos eram sepultados com animais — especialmente cães. Mesmo antes, na pré-história, dentro do Neolítico e do mesolítico, vemos cães sepultados com pessoas e, especialmente no Mesolítico, cães sepultados sozinhos. Cavalos também eram comuns.

De forma um tanto mórbida, tanto cães quanto cavalos, em alguns túmulos, são desmembrados e decapitados. Outros túmulos contém apenas partes de animais (dois, em especial, continham apenas a cabeça de um cavalo, disposta mais ou menos no mesmo local, em túmulos bastante diferentes de outra forma), alguns partes humanas (um túmulo continha vários dedos decepados). Aves, também, são encontradas, muitas vezes despedaçadas e distribuídas pelo espaço aberto para o corpo.

Assim como cães e cavalos, animais como vacas e porcos também são encontrados, mas de forma mais associada com alimentação que com os animais em si.

De qualquer forma, percebe-se que se dá importância aos corpos — e, mais ainda, onde, como e com o quê são sepultados. A distribuição dos itens são deliberadas; em vários pontos, há claros sinais de “simulação” de um hall, na distribuição dos itens.

Neil Price, arqueólogo inglês especialista no período viking, teoriza que a disposição dos bens, e o processo de criar tais funerais, tem componentes dramáticos neles — que cada túmulo, e túmulos a ele associados, contam uma história, uma dramatização que pode, de tal forma, ser pessoal e única para o morto, e contínua para com outros túmulos relacionados. Quanto mais rica a pessoa em questão, mais complexa, numerosa e detalhada sua apresentação — até suntuosos navios, entre eles o navio do Osenberg, o navio viking mais completo que conhecemos, sepultado com duas mulheres.

Em contraste, nem todas as pessoas tinham um funeral. Havia aquelas que morriam no mar, ou aquelas que morriam longe, e temos sinais de memoriais a essas pessoas, construídos por aqueles que a conheceram, marcando suas mortes mesmo sem seus corpos — e de forma similar, há túmulos sem corpos. Pessoas muito pobres ou escravos (thralls) muito provavelmente não tinham um sepultamento da mesma forma que pessoas mais ricas, se sequer eram sepultadas. Da mesma forma, há poucos túmulos dedicados a crianças, embora eles existam.

Em alguns lugares (especialmente em Götland), o morto era celebrado por grandes pedras funerárias, que contam uma história pictórica e provavelmente marcavam um território familiar. Muitas vezes, as diversas pedras encontradas complementam uma a outra, em sequência lógica, e tinham a figura de um navio — sendo substitutas para o navio em si.

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Uma das pedras funerárias em Stora i Hammar, Götland, Suécia. Via Wikicommons.

Mas, para onde vão as pessoas, depois de mortas?

Normalmente, acredita-se que para seus túmulos. Em várias sagas encontramos menções de pessoas que, ao passar por uma mamoa, viam os mortos celebrando e bebendo dentro de suas câmaras funerárias. As pessoas certamente eram sepultadas com seus bens, com alimentos, sacrifícios eram oferecidos a elas, muito provavelmente nas suas mamoas, e há menções em sagas, também, de pessoas deitando-se ou sentando-se sobre o monte, de forma a abrir uma conexão com os mortos, trazê-los de volta e questioná-los.

Em alguns casos, quando a construção demorava muito, havia indícios de sepultamentos temporários, onde o corpo era deixado enquanto se construía o túmulo definitivo. Em um caso específico, narrado por Ibn Fadlan, o morto foi deixado em um túmulo temporário com uma lira, bebidas e alimentos, enquanto o túmulo principal era construído.

Assim, mais uma vez, percebemos o quão física é a morte e o quão associada ao corpo ela é.

Snorri Sturloson, em seu prefácio para a Ynglinga saga, descreve uma suposta lei, supostamente ditada por Odin, na interpretação dele um rei mortal, que os corpos deviam ser cremados para obter acesso ao Valhöll. Obviamente, como vimos, essa lei aparenta ser furada, já que muitos corpos simplesmente não eram cremados, e muitas outras tradições existiam nesse sentido.

De qualquer forma, a ideia do Valhöll como um local glorioso permanece, e continua a permear o imaginário de heathens diversos. Valhöll é descrito como um hall, pertecente ao deus Odin (um de muitos outros halls), onde aqueles mortos em batalha lutam durante o dia, sendo ressucitados ao final do dia, caso morram, e festejam durante a noite. Valhöll, como o deus que o preside, é um local violento, um campo de treinamento para os einherjar — os soldados de Odin.

Valhöll é descrito de uma forma bastante específica, como um hall de várias portas (quinhentas e quarenta, conforme descrito na Grímnismál), com um teto suportado por lanças e coberto de escudos, onde cotas de malha se encontram espalhadas e um lobo se encontra enforcado sobre as portas do oeste  — claramente um local de guerreiros e, teoriza-se, uma abstração do próprio campo de batalha.

Assim, Valhöll seria, de alguma forma, o hall daqueles que morreram no campo de batalha, e cujos corpos, lá deixados, são cobertos pelos seus escudos e suas armas.

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Uma Valkyrja, com o chifre nas mãos, recebe os guerreiros nos portões do Valhöll. Pedra de Tjängvide, Götland, Suécia. Via Wikicommons.

Mas Valhöll, uma destinação bastante específica (guerreiros), não é o único destino. Os próprios mortos em batalha são divididos, de acordo com as Eddas, com a deusa Freyja, que os leva para Sessrúmnir (curiosamente, a própria Grímnismál indica que quem escolhe é Freyja, e Odin leva o remanescente). Outras pessoas, como artesãos, skálds, pessoas dedicadas a um deus específico e notóreas o suficiente para chamar sua atenção, poderiam juntar-se a este deus em seu hall específico, já que, presume-se, todos os deuses tem seu hall, e muitos deles são mencionados, embora não descritos, nas Eddas.

Da mesma forma, pessoas mortas no mar, cujos corpos são impossíveis de recuperar, destinam-se a Rán — a deusa do mar aberto, do mar revolto, que recebe os afogados. Rán, cujo nome pode significar “ladra”, é acusada de roubar os homens perdidos no mar.

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Rán, por Johannes Gehrts. Rán puxa o homem para o fundo do mar, onde ele encontrará seu fim. Via Wikicommons.

E também temos Hel, um mundo em si próprio, presidido, de acordo com as Eddas, por uma deusa de mesmo nome. Alguns especulam que Hel, o reino subterrâneo abaixo de Midgard, seja uma referência ao próprio túmulo, ou que este seja uma passagem para aquele.

Embora alguns tratem como um lugar “negativo”, e as descrições nas Eddas, especialmente de Snorri, certamente acabam por causar uma impressão ruim do local, não há indício que este seja um lugar especialmente negativo. Afinal, o próprio deus Baldr, quando de sua morte, não se junta a seu pai, Odin, em Valhöll, mas sim vai para Hel, como, presume-se, vão a maioria dos seres, inclusive (e especialmente) nós mortais. Funerais, em nórdico antigo, eram nomeados de Helför, jornada a Hel, e doenças fatais, Helsótt (doença de Hel).

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Hel (1889), por Johannes Gehrts. Via Wikicommons.

Em Hel, moram — de acordo com a mitologia que nós temos atualmente — todos aqueles que morreram “pacificamente”: de doença, de idade, de causas naturais e não gloriosamente em batalha, nem afogados no mar, nem tão notórios que seriam levados a outros locais.

Na Baldrs draumar, Odin viaja até Hel, onde ele traz de volta à vida, temporariamente, uma völva que lhe faz uma profecia, mencionando fatos do Ragnarök. Grímnismál cita que Hel se encontra abaixo das raízes de Yggdrasil — ou seja, abaixo e no meio da base da própria existência de todas as coisas.

Dentro de Hel, ou próximo a ele, ficaria Náströnd — a praia dos mortos, onde os corpos daqueles indignos existiriam. Estes são perjuros, adúlteros e assassinos, que vivem em tormento, devorados por Nídhöggr, a serpente. Níd é um termo em nórdico antigo, associado a vilões, criminosos, pessoas com estigma social negativo.

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Nídhögg, de acordo com um manuscrito islandês do séc. XVII, roendo as raízes de Yggdrasil. Via Wikicommons.

De forma bastante peculiar, existe um componente aparentemente sexual na morte, e na forma como se encara a própria morte. Poemas skáldicos antigos referenciam a morte como “abraço de Hel”, e o próprio ritual funerário descrito por Ibn Fadlan contém diversas instâncias em que uma escrava, que se voluntaria ao sacrifício para seguir seu senhor, performa vários atos sexuais com pessoas próximas ao morto, antes e até mesmo durante o próprio sacrifício.

Há quem diga que as narrativas éddicas têm influência cristã, e que Snorri, em especial, pode ter sido influenciado por uma visão cristianizada do mundo ao descrever a vida após a morte. Há quem diga que estes conceitos se entrelaçam, como realidades paralelas.

Similarmente, temos Helgafjell — uma formação montanhosa real, que se dizia tão sagrada que não se podia olhar diretamente sem lavar o rosto primeiro, e que, se dizia, quem tinha a visão poderia ver os mortos nela, festejando e vivendo uma vida paralela bastante similar à vida “real”. Esta montanha seria o destino do(s) clã(s) da região, especificamente, e não um destino geral.

Então, para onde vamos? A grande verdade é que nós não sabemos — e, provavelmente, não saberemos até o momento de nossa morte. A teoria mais provável, é que nosso destino (barrando guerras, afogamento e, quem sabe, certos atos bastante nocivos para com a nossa sociedade), seja nosso túmulo mesmo, a partir do qual viveremos uma outra vida, e de onde veremos nossos sucessores.

Independente da morte e da realidade que encontraremos além, a visão de mundo germânica não a compreendia como um objetivo, uma salvação ou um ponto final — mas preocupava-se sim como a vida, com o viver, o existir, da melhor maneira possível. Se as Norns fiam nossas vidas, e nós não temos controle absoluto sobre ela, então, a questão é viver da melhor maneira possível, com nossos atos.

A morte é inevitável, e nosso destino, no fundo, desconhecido. A vida, entretanto, nós podemos afetar.

Mas isso é assunto pra outros posts.


Imagem por Gonzalo Haro, via Freeimages.

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