Desfazendo mitos modernos sobre o reconstrucionismo Heathen

O antigo paganismo, depois de intensa guerra religiosa, foi destruído. E agora, como o recuperaremos?

Por Seaxdēor

Como existe muita controvérsia sobre “o que” é o reconstrucionismo e muitas pessoas o criticam sem sequer entender, vamos tentar apresentar o que ele é, e o que ele não é, do nosso ponto de vista enquanto reconstrucionistas (já que não-reconstrucionistas vivem dizendo o que é, do ponto de vista deles).

O reconstrucionismo é um método de análise. A maioria das religiões que conhecemos possui uma longa tradição ininterrupta, e fontes escritas como livros, que lhes servem de guias na vida e como códigos morais. O Heathenry reconstrucionista não tem isso.

Assim, é necessário saber o que nos irá informar sobre nossa prática nos dias atuais. As fontes primárias que temos são todas registros produzidos por convertidos ou produzidas muito tempo após a conversão. Entre as principais das fontes destacadas temos: Eddas, Sagas, poemas e épicos medievais, registros históricos em latim, códigos de leis, com nórdicos ou anglo-saxões, folclore, grimórios mágicos, achados arqueológicos e pedras ou objetos com runas gravadas.

Muitas dessas fontes possuem ou influência cristã, ou necessitam de um aparato técnico e de conhecimento específico para serem interpretadas, os reconstrucionistas consideram de grande valia também livros, artigos e teses acadêmicas sobre o assunto. Essas fontes são capazes de nos colocar o mais próximo possível do entendimento do que elas significaram de fato para os povos antigos.

Nenhum reconstrucionista toma (ou deveria tomar) opiniões acadêmicas a ferro e fogo, silenciando o debate com argumentos do tipo ad verecundiam, ou seja, apelando à falácia de autoridade. Como nosso conhecimento é baseado no entendimento que temos, e sempre que surgem novas evidências mais ele se aprimora, algumas vezes ideias são revistas e deixadas de lado. A ideia do reconstrucionismo não é usar os textos para justificar ideias, muitas vezes falaciosas, pré-concebidas, mas checar se o que entendemos está de fato em conformidade com o que é mais provável ou possível de ser verdade.

O reconstrucionismo, partindo desses pressupostos desenvolve toda uma nova abordagem da religião. Em vez de se focar em preencher os espaços aparentemente vazios com opinião pessoal ou UPG (sigla em inglês para Conhecimento Pessoal Não-Verificado), o reconstrucionista busca entender firmemente a estrutura daquilo que sobrou e através de seus estudos remover a influência cristã e objetivos políticos (muitas vezes contrários ao Heathenry tribal antigo) da informação, visando lapidá-la para torná-la novamente utilizável.

O método reconstrucionista

Questão

O primeiro passo é a dúvida. É necessário se querer compreender algo. A dúvida pode ser tão objetiva quanto “como os antigos entendiam sorte?”, ou tão genérica quanto “quais deuses os antigos cultuavam?”.

Pesquisa

O bom e velho google.com é um dos seus melhores amigos aqui. Infelizmente, a grande e maior parte da informação encontra-se disponível em inglês. Muitas vezes as fontes em Português são simplesmente insuficientes para entender a grossa maior parte da religião e visão de mundo dos povos antigos. É aqui onde junta-se e lê artigos acadêmicos, fontes primárias como Eddas, Sagas ou outras. Esta etapa no começo é lenta, ao passar do tempo o reconstrucionista terá encontrado vários assuntos extras quando pesquisava coisas diferentes e esse trabalho ficará cada vez mais rápido.

Hipótese

Baseado nas fontes pesquisadas, desenvolva uma hipótese inicial que tente responder à pergunta que motivou o inicio da pesquisa.

Teste das fontes

Em vez de simplesmente ficar com as fontes que mais agradam a opinião pessoal, é importante olhar a data, entender o background político por trás da confecção do trabalho, e ver se outras fontes contestam as opiniões expostas. Muito material produzido no século XIX está disponível gratuitamente na internet, só que no século XX as ciências humanas deram um salto gigantesco, e tais fontes tornaram-se amplamente desatualizadas na maior parte das suas ideias, para se pegar apenas um exemplo. Esse cuidado é necessário para se evitar erros ou acreditar em fraudes como o Homem de Piltdown.

Recorte Histórico

Muitas vezes, a depender do contexto a que a informação se refere, as respostas podem variar. Uma boa alternativa é fazer um recorte histórico em determinado povo, local ou período. Mesmo que se consulte outras fontes, relativas a outros períodos, esse recorte auxiliará a guiar e direcionar as respostas, de forma a perceber padrões e entender a evolução dessa ideia através do espaço e tempo.

Análise e Conclusão

Aqui é feita a análise de toda a informação, e, se necessário, o retorno à etapa de pesquisa e prova de fontes, procurando por mais informações para aclarar, sintetizar e embasar as ideias. A partir das opiniões mais atualizadas sobre assunto, é possível desenhar paralelos, e frequentemente essas pesquisas terminam sendo compartilhadas por pagãos através de blogs na internet ou terminam compondo livros. Essas informações assim podem ser adotadas pelos heathens tribais em seu processo de reconstrução, garantindo que sua prática se aproxime o máximo possível da prática dos antigos pagãos.

E porque o uso desse método?

O método reconstrucionista é comumente criticado pelas divergências de opinião que é capaz de gerar entre os pagãos reconstrucionistas e o resto da comunidade (e mesmo entre os reconstrucionistas entre si). Mas o reconstrucionismo é uma metodologia, e não uma prática religiosa em si mesmo. O reconstrucionismo não é uma espécie de dogma ortodoxo, ele é uma tentativa de aproximação o melhor possível das crenças dos heathens reconstrucionistas nos dias atuais com aquilo que foi pensado pelos antigos heathens antes da conversão.

A ideia básica do reconstrucionismo é reunir tanta informação segura quanto seja possível, e a partir daí, decidir o que fazer com a informação coletada. Só que comumente quando reconstrucionistas chegam a esse estágio de aquisição de informação, eles formam um background que diverge amplamente das práticas esotéricas e ecléticas.

O grande primeiro aspecto é que o paganismo é cada vez menos enxergado apenas em seu aspecto mágico ou de forma iniciática, passando a ser cada vez mais entendido como um conjunto de costumes e visão de mundo, indissolúvel de uma certa sociedade, e que requer que mais fatores, não apenas religiosos, sejam trazidos à tona. Isso levou nos anos 70, 80 e 90 nos Estados Unidos cada vez mais à divisão entre os pagãos reconstrucionistas e outros tipos de pagãos, uma vez que tais conclusões tornavam as práticas e ideias de ambos praticamente sem ligação, por mais que fizessem uso de alguma ou outra fonte mitológica em comum e ambos intentassem trazer um antigo culto para os dias atuais.

Isso porque muitos reconstrucionistas entendem a diferença entre religiões modulares, que podem ser levadas durante o espaço e o tempo sem tantas alterações, e as religiões tribais, às quais estão associadas a uma determinada paisagem, à historicidade e costumes populares de um determinado povo. O Heathenry reconstrucionista possui muito menos espaço para certas práticas atuais, porque ele reconhece que elas surgem muito posteriormente, ou têm origem muito alheia ao conjunto de ideias que está sendo reconstruído. Na verdade, o grosso das informações necessárias à recriação de tradições reconstrucionistas heathens dos povos germânicos pode ser retirado de fontes específicas sobre os povos germânicos, sem a necessidade de se misturar visões de mundo de outros povos.

Mas, mesmo quando necessário acessar tais informações estrangeiras, os reconstrucionistas o fazem muitas vezes sem mais dor de cabeça, apenas quando é necessário. Para reconstrucionistas interessados em práticas de culto à lareira ou culto doméstico, culto aos ancestrais e culto aos espíritos da terra, é inevitável o uso de informação comparada indo-europeia ou mesmo de outros povos mais distantes. A diferença é que esses conceitos não são simplesmentes importados, eles são adaptados dentro do contexto germânico, visando complementar algo que se sabe que esses povos tinham.

Daí que alguns grupos e indivíduos reconstrucionistas prefiram o termo retro-heathen, no sentido de que se veem como pagãos germânicos que visam continuar uma tradição germânica o tanto mais próximo do contexto nativo possível, se fazendo a pergunta “e se os antigos heathens não tivessem se convertido, a partir de todas as informações que temos, como poderíamos vivenciar a religião deles hoje?”, ao passo que muitos neopagãos não tem esse cuidado em recuperar a visão de mundo e continuar uma tradição, apenas buscar ferramentas religiosas que supram suas necessidades imediatas.

Comumente reconstrucionistas têm uma visão mais diacrônica, visando um projeto multi-geracional de desconversão e reavivamento da visão de mundo, entendendo que todo povo possui uma visão de mundo e incentivar o desenvolvimento da reconstrução da visão de mundo não é um processo de forçar ideias religiosas, apenas de substituir o background de pensamentos próprios do cristãos por um heathen. Reconstrucionistas comumente compreendem que a influência do cristianismo é muito mais profunda que meramente a aparência do culto, ela promoveu uma mudança radical na forma de pensar, e eles visão combater também isso, enquanto neopagãos ecléticos, que misturam várias tradições visando encontrar respostas pessoais, geralmente consideram isso algo impositivo (sem perceber o próprio background cristão que fundamenta seus pensamentos).

A crítica final a ser rebatida é que os reconstrucionistas possuem uma prática menos autêntica por ser aparentemente desespiritualizada, destituída de misticismo, ou mesmo morta. Com o estudo profundo das informações restantes é possível perceber que o heathenry não é impossível de se recuperar, e nem mesmo possui tantas lacunas assim, ao menos se falamos dos germânicos continentais, anglo-saxões e nórdicos, e usando informações desses três grupos sob um determinado viés, para a recriação de uma visão de mundo particular a um deles ou de maneira pan-germânica.

O problema é que quando todas essas informações são reunidas e o culto entra em prática, percebe-se que ele diverge claramente das formas de religião atual. Afinal, não era de se esperar que um idioma usado no século V fosse compreendido por pessoas que falam idiomas que descendem desse idioma antigo, mesmo morando na mesma região. Religiões modificam-se com o tempo como idiomas, e quando você recupera boa parte da “gramática” e das “palavras” de uma religião antiga ela se torna incompreensível para quem não conheça essa estrutura interna. Para os reconstrucionistas a efetividade é sensível.

Isso porque o reconstrucionismo não é meramente reproduzir receitas de bolos antigos, o nome disso é recriacionismo histórico, reenactment. Reenactment não é reconstrucionismo. O que o reconstrucionismo busca não é copiar um rito na íntegra,  não é apenas repetir o “como” esse rito era feito, mas entender o “porquê”, a razão que motivava os povos germânicos a fazerem-no (ou não fazerem-no). Respondendo o porquê, o “como” pode ser mantido ou atualizado. O “como” fazer é resposta para recriadores, o “porque” para reconstrucionistas, porque o objetivo destes é trazer de volta a visão de mundo heathen antiga de volta a vida tanto quanto possível, ligando-se assim a deuses, espíritos da terra e ancestrais nos termos deles, e não da forma que fomos ensinados por formas de religiosidade pós-cristãs ocidentais, embora elas pareçam comumente mais “corretas”, ou mais “espiritualizadas”.

Os heathens tribais reconstrucionistas partem dos mesmos problemas e perguntas que esotéricos, ecléticos, místicos etc. A diferença é que eles não olham apenas para a “efetividade” daquilo que fazem; eles olham também com o respeito e a paixão necessária para trazer isso de volta à vida, visando fazer parte novamente dessa comunidade cultural.

Referências:

Bil Linzie, Reconstructionisms Role in Modern Heathenry. 2007. <link>

Marc Beneduci. On Religious Reconstruction within Paganism: A Methodological Defense. <link>

Näf. Misconceptions of Reconstructionism. <link>

Joshua Rood. Reconstructionism in Modern Heathenry: An Introduction. <link>

Wikipédia. O Homem de Piltdown. <link>

Xan Folmer. The Reconstrucionist Method. <link>

One thought on “Desfazendo mitos modernos sobre o reconstrucionismo Heathen

  1. Muito bom esta explicação !! – (P.S)- Pelo o que podem ver , meu nome é o mais cristão possível , se não fosse por isso , não seria pagão kkk .
    Muito obrigado a todos os responsáveis pela ÁSATRÚ & LIBERDADE , estou aprendendo muito com vocês. Foi aqui que descobri o paganismo germânico e aqui que aprendo diariamente !! Sjáumst bráðlega!

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