Um Heathen Fora da Cidade

Por Sonne Heljarskinn

Estou num daqueles momentos que todos temos. Muitas responsabilidades, muitas coisas na cabeça, tantas preocupações que até o sono falta. Me enrolo em uns panos, venho para fora, olhar para Nótt, ver as estrelas brilhando, grilos cantando, um galo ou outro adiantado estufando o peito com seus cacarejos. As estrelas cintilam calmamente.

Vocês estão acostumados a me verem falando da importância de vários elementos da visão de mundo pagã, e eu sei que nem sempre sou o mais calmo ou mais talentoso com as palavras. Máni sorri lá de cima, passeando em sua carroça: ele sabe que é verdade. O céu, regido por Týr, está no ápice de sua escuridão ainda, embora a leste Sunna já esteja começando a mostrar, fracamente, o seu brilho.

Eu sinto o vento chacoalhando nas folhas. Eu posso ouvir as árvores sussurrando umas para as outras, e gostaria de conseguir entender o que elas me escondem em sua linguagem lenta, e sua vida calma. A natureza é uma coisa que não dá para se explicar. Só dá para se sentir. Isso não é utopia, bucolismo, idilismo, ou qualquer palavra complicada que foi tirada do léxico greco-romano clássico pra tentar fazer o homem da cidade parecer superior a nós no campo.

Os deuses antigos estão aqui.

Não, eu não estou falando de nenhuma mega gnose transcendental que elevou meu espírito num delírio bombástico. Eu não tenho isso pra vender pra vocês. Eu gostaria de dar, na verdade, o meu entendimento.

O ser humano moderno está duplamente preso. Afastado da natureza pelo cimento, pedras, fios e cabos; e afastado dos outros, preso em si mesmo. Tudo que eu defendia como a mais legítima liberdade algum tempo atrás me soa como uma prisão solitária, onde eu sou forçado a encarar o meu eu eternamente até o delírio e fazer ele sair do meu corpo. “Conhece-te a ti mesmo, conhece-te a ti mesmo”, o ditado desse mal-caráter filósofo ateniense, como diria Nietzsche, é uma prisão. Sócrates e os sofistas existem paralelamente não por um acaso; eles não são exatamente opositores, são apenas duas faces da mesma moeda; uma moeda civilizada, polida, urbana, assim como as pessoas da cidade — incluso as que se chamam de pagãs — se veem.

Falar tudo isso pode parecer um gigantesco argumento ad hominem. Não é. Eu não me inspiro pelos gregos, eu rejeito suas noções urbanas de ‘eu’, ‘bárbaro’, ‘civilizado’, etc. Eu me considero pagão germânico pelo amor sincero que eu tenho à cultura germânica. Pelo que ela me fez entender da realidade. Pela forma que ela fez eu ter de me relacionar com a realidade. Pelas obrigações que o fato entender essa cultura me trouxe.

Os vaettir passeiam por ali. Não posso vê-los, mas posso sentí-los. Nótt está tão negra quanto meus pensamentos e sentimentos. Eu posso espiar por uma brechinha e ver o passado, eu posso espiar por um minúsculo buraco o tempo dos germanos tribais. E eu passo todo o tempo que consigo olhando, até minha vista cansar. Eu sou fascinado pelo mundo deles, pois esse mundo está em nós, está ao nosso redor. Ele ainda está aqui. Mas, como um teatro abandonado, ele não consegue mais encenar o espetáculo de antes.

Eu venho falando há algum tempo da necessidade de se voltar à Terra, ao coletivo, à tribo, à cultura, aos Ancestrais, e não apenas aos deuses. Isso tem me rendido alguma dor de cabeça. Antes eu defendia um individualismo espiritual como se isso fosse liberdade no sentido mais puro, agora eu não sei se isso é realmente liberdade.

A internet é o local onde posso aprender e trocar experiências com mais humanos sobre o paganismo. Fora dela eu tenho a terra (veja que eu não disse ‘só’ a terra), tenho as várias criaturas, seres que me rodeiam. Mas bem, nem sempre isso é o suficiente. Eu realmente me pergunto: se as pessoas se voltam pra uma religião antiga, por que elas negam seus fundamentos básicos, e dizem “os deuses evoluíram”, “os tempos são outros”? Eu realmente gostaria de não pensar que estou sendo severo demais ao achar que isso não passa de preguiça e querer apenas encontrar um novo rótulo para si, sem se esforçar para alterar de fato a sua essência.

Toda essa ‘busca espiritual’ pra mim não faz mais o menor sentido. Quando nós estamos procurando a ‘espiritualidade’ dos germânicos, dos nórdicos, nós inventamos ela. Ela não existiu. Simples assim. É como perguntar para um velho tribal “o que você entende por espírito”, ele dizer “eu nem sei o que é espírito”, e você falar pros quatro cantos que aprendeu uma noção de aprimoramento do espírito, que vai pro Valhalla, e etc.

As pessoas dizem que minha prática é muito engessada, academicista, que quero recuperar um passado que não existe mais, que sou muito materialista e pouco espiritualista. Todas essas acusações estão completamente certas e totalmente erradas ao mesmo tempo. Porque o que eu aprendi dos nórdicos não consegue mais ser explicado nessas palavras. Porque eu me recuso a usar palavras que significam uma coisa pra nós, mas não tinham o menor significado pra eles.

Enquanto isso, a Sól vai nascendo, e eu me lembro de como eu a amo. De como eu amo olhar para ela e ver sua essência feminina subindo pelo céu, iniciando mais uma jornada, sorridente, derramando sua luz e seu calor sobre Jord. As Árvores conversam mais empolgadas. E eu apenas registro isso que passa por mim, que não sai de mim por meditação, por me fechar no meu ego e delírio pessoal. Minha ‘espiritualidade’ é relacional, é externa, e não interna. Ela é material. Eu não preciso ver coisas maravilhosas, eu me contento de ver o verde das árvores e o azul do céu.

Eu olho para essa Terra eu eu penso que meus Ancestrais trabalharam nela, e antes deles outras pessoas, indígenas, e muitos e muitos seres que eu nem posso imaginar. E essa terra está aqui, e esses seres fazem parte dela. E nessa época a Sól já passeava, trazendo alegria, e Thor já trazia as chuvas. E não havia nenhum humano para meditar neles. Mas hoje esta Terra está aqui ainda, a mesma Terra que existiu no tempo dos meus Ancestrais, dos meus avós, e dos Germânicos também.

E eu tento contar pras pessoas, com um desespero sereno como o do Touro Sentado em sua carta ao presidente dos EUA, de Atanarico dos Visigodos ao ver seu povo sendo engolido por hunos e pelo cristianismo romano, de Subcomandante Marcos nas florestas do México. O desespero sereno de quem tenta tirar as pessoas da prisão dos seus egos, onde se acham seguras por não terem ninguém as tocando. Por poderem ali serem donas dos próprios delírios. Por se recusarem a ver a razão.

E eu percebo que Wodans, o velho caolho, deve se coçar e rir como quando foi ao encontro de um rei que não o conheceu, e agiu com péssima hospitalidade com ele. Por se recusar a usar a razão.

A ‘espiritualidade’, tem vários caminhos. Mas eu me pergunto novamente: se é para ignorar os ensinamentos dos antigos, por que as pessoas começam a andar no caminho deles? A ‘espiritualidade’ germânica, de certa forma é inexistente porque matéria é igual a espírito. Porque o paganismo dos nórdicos e dos germânicos não negava a realidade, ele a aceitava, e vivia, como ela era. A ‘espiritualidade’, era caçar, ser forte o suficiente para matar um urso ou um javali, e se alimentar da carne dele. Se isso parece ‘primitivo demais’ para você, eu peço que repense o que é paganismo. O que estamos fazendo com a cultura germânica é como se fossemos aos indígenas, tupis guaranis, pedir seus conselhos, e mandar eles calarem a boca porque era ‘antiquado, inaplicável’ o que eles falam.

Eu realmente estou falando tudo isso pois gostaria de ver o paganismo sendo respeitado, entendido por si mesmo, e não apenas pelos nossos preconceitos modernos. Pelos pré-julgamentos que o ocultismo nos faz ter. Pelo problema que o individualismo nos faz ao querer inventar o que não existe no paganismo. Pela influência do catolicismo em diversos grupos. Sabe, eu estou cansado de individualismo. Se ele é uma liberdade pra vocês, ele é uma prisão para mim.

Eu espero ver o paganismo crescendo, não porque eu queira que muitos pensem igual a mim e os controlar. Mas porque eu não olho o paganismo como um consolo espiritual. Porque eu olho o paganismo com os olhos dos germânicos, eu ouço com os ouvidos deles. É o que me esforço, ao máximo possível. Porque para mim paganismo é uma forma de enxergar a realidade. Coletiva. E é por isso que vocês me veem procurando pessoas que pensam como eu, que querem o mesmo que eu quero. Quem não quer, problema deles. Mas eu acho que já está na hora de começarmos a perceber que a ‘espiritualidade’ não é somente pessoal. Ela pode ser coletiva. Conjunta. Desenvolvida na amizade e confiança, em busca da harmonia. Porque era assim que ela acontecia com os germânicos.

O paganismo possui ideias básicas. Ninguém os obriga a seguir. Mas ninguém os obriga a se chamar pagãos.

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Ostara, a Aurora, já clareou tudo novamente. Sunna já fez Nótt se ir. Máni ainda ri, no topo do céu, enquanto as árvores continuam sua conversa através do vento, e os beija-flores passeiam. A natureza e as criaturas da terra (vaettir) continuam aí. As pessoas continuam à nossa volta. Jord continua sob nossos pés, e abaixo dela, a terra de nossos ancestrais. Cabe somente a nós vermos todas as nossas ligações com as coisas ao nosso redor, em vez de nos fechar em nossos pensamentos.

Para mim, isso é só o começo do “ser pagão”.

Sonne Heljarskinn.

17 de julho de 2017.

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