Manifesto do Paganismo Germânico no Brasil: 2 Anos Depois

Por Sonne Valur (Heljarskinn)

Cultura Germânica e a Escalada do Ódio

Poucos dias atrás a ignorância emanando de Charlottesville levantou antigos debates, que nem parecem coisa do século XXI. A pequena cidade dos Estados Unidos foi palco para neonazistas exporem o seu ódio, usando como justificativa serem contra a (necessária) destruição de estátuas que representam figuras pró-escravidão de um dos (tantos) períodos vergonhosos da história da colonização das Américas pelos europeus.

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Neonazistas preparados para a violência em Charlottesville. No escudo, é possível ler “NSM” (Sigla de “National Socialist Movement”), uma bandeira dos EUA aparentemente inspirada no design da bandeira confederada dos separatistas racistas durante as guerras pró-escravidão dos EUA, e sobre tudo isso, uma runa Othala.

Nas passeatas, como é comum de se ver, gente branca, com cara de poucos amigos, se chamando de “gente de bem” e andando com armamento pesado nas ruas (em uma matéria do jornal El País, os jornalistas destacam que o armamento usado pelos “manifestantes” eram mais pesados inclusive que os das forças do Estado). Um dos simpatizantes dessas “vítimas do genocídio do povo branco” atropelou manifestantes contrários, resultando em dezenas de feridos e uma morte. A comoção popular aumentou, autoridades intervieram, e uma verdadeira guerra civil foi iniciada. Os manifestantes, abertamente apoiadores de políticas inspiradas no nacionalismo racial alemão, carregavam diversos símbolos, e, entre eles, além das Suásticas, várias runas Othala podiam ser vistas claramente.

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E mais runas Othalas, entre os símbolos visíveis, abaixo de um “1488”, que refere-se a um lema nazista com 14 palavras “We must secure the existence of our people and a future for White Children”(“Devemos assegurar a existência de nosso povo e um futuro para as Crianças Brancas”), e o 88 representando a oitava letra do alfabeto duas vezes (HH), sigla para “Heil Hitler”.

O uso de símbolos ancestrais germânicos, em especial as runas, não é estratégia nova de supremacistas raciais. A Schutzstaffel, tropa de elite de Adolf Hitler durante o Terceiro Reich alemão, utilizava-se de duas runas Sowilo (caractere rúnico para o fonema “S”), como seu logo. Mas não apenas o uso de símbolos, mas nomes de divindades, locais mitológicos, etc., tudo associado à cultura pré-cristã. Embora o próprio Adolf Hitler troçasse do reconstrucionismo pagão e do recriacionismo histórico, durante o século XX e XXI vem se tornando cada vez mais popular o uso de símbolos ancestrais, elementos mitológicos, por pessoas associadas ao neonazismo ou discriminação racial, que os apartam de seus significados e usos originais, dando-lhes novos usos, embora algo inspirado nos usos antigos.

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Soldados da SS durante o Terceiro Reich alemão. Repare nas runas Sowilo em seus capacetes e golas.

Na Escandinávia, por exemplo, o SMR, “Frente de Resistência Sueca”, utiliza um visual apelativo aos interessados em ecologia e cultura ancestral germânica, tendo uma runa Tiwaz em sua bandeira. Lá a coisa se complica pois aparentemente SMR e a NAS (Nordiska Asa-Samfundet), “Sociedade Nórdica dos Aesir”, um grupo que se diz apolítico, parece envolver-se com eles, e inclusive abertamente dividem muitas ideias em comum que, aparentemente, não têm nada a ver com o paganismo, mas com o racismo, separatismo e superioridade racial dos séculos XIX e XX.

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Svenska Motståndsrörelsen, SMR,”Frente de Resistência Sueca”, grupo de extrema direita da Suécia, e suas bandeiras utilizando a runa Tiwaz, em 2014.

Vale lembrar também das diversas gangues com o nome “Soldiers of Odin” que surgiram nos últimos tempos, com uma explosão pelo mundo em poucos meses, partindo da Finlândia.

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Jaqueta de Membro finlandês dos SoO. Detalhe para o ridiculamente errado elmo com chifres, forçando a estereotipação dos vikings.

As gangues do “Soldiers of Odin” parecem tentar preencher o vácuo deixado na extrema-direita pela falta de popularidade dos neonazistas que raspam a cabeça e se chamam de skinheads (mesmo a cultura skinhead tendo surgido de diversos movimentos trabalhadores e negros, sendo cooptados na Inglaterra, nos anos 70, por agruparem muitos jovens, presas dos políticos neonazistas da época, como hoje). Os Soldiers of Odin são abertamente partidários da violência, contra imigração, a favor do separatismo racial e agem desde a Escandinávia, Europa, EUA, com alguns simpatizantes razoavelmente tímidos no Brasil.

A própria suástica, principal  símbolo utilizado pelos nazistas no passado e no presente, é um símbolo antigo, associado à Sol, entre os povos germânicos, bem como rodas solares, e outros símbolos circulares/espiralados. Não foi criado, mas apropriado pelos nazistas. Hoje, olhar para uma suástica e não associá-la ao nazismo e superioridade branca é quase impossível. É essa confusão entre símbolos originais e os significados que alguns grupos abjetos lhes dão que muitos pagãos temem, na atualidade. Pois ao se apoderar dos símbolos germânicos os nazistas fazem parecer todo o paganismo nórdico ser idêntico a políticas racialistas, o que, bem, está longe de ser verdade.

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Swástika: o símbolo mais pervertido pelos nazistas e transformado em símbolo de suas atrocidades ideológicas e políticas.

Resposta Brasileira e Internacional

Como vimos, Charlottesville é apenas mais um episódio de uma antiga guerra entre racistas e reconstrucionistas da cultura e religião germânicas pré-cristãs. E essa guerra é travada também por brasileiros, de diversas formas. A própria Ásatrú & Liberdade surge como uma resposta à apropriação da cultura germânica por apoiadores brasileiros do neonazismo. Alguns dos episódios anteriores incluem a ostracização da AFA (Asatru Folk Assembly) dos Estados Unidos após declarações abertamente fundamentalistas e preoconceituosas em suas mídias sociais, que culminou na Declaration 127, encabeçada pelo Huginn’s Heathen Hof e assinada por dezenas de organizações ao redor do mundo.

No Brasil, em Novembro de 2015, foi publicado o “Manifesto dos pagãos da matriz cultural germânica do Brasil”, fruto do esforço somado de várias pessoas para assegurar a proteção da cultura germânica da apropriação por parte de políticas de extrema-direita (que sabem os deuses o que fazem num país altamente miscigenado como o Brasil). O projeto foi guiado principalmente pelo kindred Asas de Pedra, mas teve a colaboração de diversos pagãos no Brasil. Segundo Daniel Chalita, membro do Asas de Pedra “nossa motivação foi justamente nos separar desse tipo de pessoas”, evitando assim a confusão entre propaganda nazista (a qual é proibida constitucionalmente, sendo um crime), e a prática religiosa inspirada naquela dos povos germânicos pré-cristãos. O manifesto foi então protocolizado no Cartório do 1º Ofício de Macaé sob o número 93403 no livro A1 e registrado sob o número 93403 no livro B5 (você pode acessar as cópias digitais de todos os documentos aqui).

A importância desse documento para a comunidade pagã germânica é tremenda. Nele algumas diretrizes básicas são reconhecidas, como o culto à espíritos da terra, ancestrais, e deuses germânicos, e a importância das religiosidades germânicas pré-cristãs para os praticantes atuais. No manifesto, ainda, podemos ler:

Ressaltamos que nossa fé não possui qualquer grau de interação ou afiliação à qualquer corrente política (de qualquer natureza) e ou partidária. Esta é uma escolha pessoal e intransferível de qualquer individuo garantido pelo Art. 5o, inc. IX.

Acreditamos que o Estado deve permanecer laico, democrático e separado da religião.

Repudiamos de forma extremamente incisiva qualquer grupo, kindred ou individuo dentro e fora de nossa religião que assuma ou promova características racistas, xenofóbicas, homofóbicas, transfóbicas, sexistas, misogenias, sectaristas, ideologias violentas, neo-nazistas e terroristas. Repudiamos qualquer tipo de preconceito em qualquer grau ou nível da sociedade, pois estamos alinhados e de acordo com o art. 5, inc. XLII da Constituição Federal Brasileira de 1988.

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Esse documento possui uma importância singular justamente por declarar, e registrar a declaração, de que vários membros (possivelmente a maioria) do paganismo germânico não apoia, direta ou indiretamente, políticas racistas, discriminação racial e ódio. A comunidade pagã brasileira busca respeito da sociedade em geral, bem como reconhecimento, e, para nós, nada pior do que sermos confundidos com nazistas.

Qualquer pagão sabe que essa associação não é fortuita. Infelizmente o narcisismo racial (termo que vi sendo usado pela primeira vez por Maria Kvilhaug, acadêmica de história e pagã norueguesa) leva muitos interessados em racismo a idealizar a cultura germânica a partir dos materiais ufânicos que derivaram do Romantismo Alemão do século XIX (raízes do racismo moderno), e vendo na Ásatrú ou Odinismo seus correspondentes religiosos. Por outro lado, muitos pagãos também se iludem com o racismo, neonazismo e misticismo racialista. Isso torna um tanto mais difícil a desassociação do paganismo e do neonazismo nos dias atuais, na mente das pessoas que estão de fora do paganismo.

Maria Kvilhaug deixa claro como os nazistas, diferente dos reconstrucionistas, pouco se importam com a verdade. A eles a história não deve ser revelada através de lentes idôneas e baseadas na evidência. Não se isso contrariar as agendas políticas deles, o que está longe de ser pouco comum. Estudos genéticos provam a semelhança entre os grupos humanos, e mesmo afirmam que “A proporção de variação genética humana devido a diferenças entre as populações é modesta, e indivíduos de diferentes populações podem ser geneticamente mais parecidos que os indivíduos da mesma população” (Genetic Similarities Between Human Populations). Estudos arqueológicos e linguísticos provam o incessante intercâmbio de mercadorias e cultura entre povos germânicos e demais povos ao seu redor, ou distantes, com os quais negociavam, tirando como exemplo a estátua de Buddha encontrada em Helgo, Suécia, enterrada durante a Era Viking (link), e as diversas palavras de origem não-proto-indo-europeia nos idiomas germânicos, ou mesmo o caso do Viking Negro, Gudmundr Heljarskinn, filho de mãe mongol e pai de origem norueguesa (link).

O que nós, pagãos, queremos é justamente nos desassociar de todo esse tipo de propaganda política que importam para dentro do paganismo. Nesse sentido, o Manifesto Pagão de 2015 é uma ferramenta essencial que deve servir como prova de que nós podemos e devemos praticar nossos costumes e crenças livremente, e que não apoiamos o uso de nossos símbolos, divindades, nomes sagrados para usos políticos, com o objetivo de capturar a atenção de pessoas pouco informadas no assunto — ou gerar ódio contra nossos símbolos por parte de pessoas que, tanto quanto nós, odeiam a discriminação racial, ditaduras de extrema-direita, discriminação baseada em gênero e orientação sexual as quais estão longe de representarem o que é ideal nos dias de hoje para a prática e reavivamento da religião germânica pré-cristã.

 


Caso você queira demonstrar seu apoio, e possuir amparo legal sob o Manifesto, você pode imprimir os textos, assinar no campo especificado, como kindred ou indivíduo, e então registrar o documento em cartório. Como o documento inicial já foi registrado, a sua própria versão também ficará alinhada com ele.

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