Entendendo o Pós-Vida e o Espírito dos Nórdicos e Germânicos

Por Sonne Heljarskinn

Na imagem em destaque, vemos uma representação de como os mortos eram comumente enterrados entre os germânicos.

Vou tentar ser breve. Breve não, brevíssimo, porque esse assunto dá um livro facilmente. Aviso inicial: se você está há pouco tempo no paganismo nórdico ou germânico em geral (do qual o nórdico é só uma parte) você pode talvez não entender este texto de cara. Talvez você precise de algum tempo e se familiarizar com algumas ideias que raramente são vistas à nossa volta, mesmo no meio pagão. Vou tentar fazer ele fornecer, resumidamente, tudo o que você precisa saber para entender a noção de pós-vida pagã, mas talvez não seja o suficiente em uma ou duas leituras. Lembrando que isso aqui não é verdade absoluta, só o ponto onde meus estudos chegaram até o momento, e aceito todas as contribuições possíveis.

Negar ou aceitar a realidade?

Existem dois principais tipos de religião: as que aceitam o mundo e as que negam o mundo. As primeiras são chamadas de ‘world accepting’ e o segundo tipo de ‘world rejecting’. Algumas das religiões mais famosas do mundo são religiões que negam a realidade: o cristianismo, o islamismo, o budismo, o hinduísmo, etc. Isso é o traço essencial que as une.

No cristianismo você vive uma vida de sofrimento ou boas obras intentando ir para o céu e evitando ir para o inferno, no islamismo isso, mas também há uma grande ênfase na observância correta dos ritos e orações, no budismo há a noção de ‘nirvana’, de não-preocupação e não-desejo a se alcançar, e no hinduísmo a realidade é simplesmente ‘maya’, ilusão. Todas essas religiões têm em comum o fato de prometer a seus praticantes algo que está além daqui, e transforma o aqui ou em algo a se negar, ou em um local de mera transição rumo a uma elevação.

Mas a maioria dos casos em que religiões pagãs se desenvolveram, elas tiveram um caráter bem diferente. Elas eram religiões associadas ao dia-a-dia, e estavam muito mais conectadas com as tarefas da vida cotidiana e a inserção do ser humano na ordem natural das coisas, como agente e auxiliar dos acontecimentos naturais. O objetivo de religiões que aceitam a realidade é em geral proteger a vida da família, causar bem-estar e fertilidade, coisas associadas à vida mesmo, bem materiais. Elas não têm ou têm de maneira confusa uma noção de remuneração pra depois da vida. O paganismo nórdico-germânico está nesse segundo tipo.

Tempo cíclico versus tempo linear

Existem também basicamente duas noções de tempo, influenciadas por essas religiões. Uma é a de tempo linear. Essa é a nossa noção de tempo, enquanto ocidentais. O mundo para os cristãos nasceu em algum momento, e vai terminar em algum momento. Contamos o tempo de acordo com o nascimento de Cristo de maneira fixa. Estamos no ano 2017 depois disso, e o que veio antes disso é contado regressivamente. A história é uma grande narrativa, e os eventos são únicos e irrepetíveis. Essa é a história dos indivíduos.

A segunda noção de tempo, é a cíclica. Aqui se encontram as religiões pagãs praticamente como um todo. Essa noção de tempo foca menos nos fatos individuais, mas em seus padrões. O tempo não é enxergado de maneira absoluta, mas fragmentada, em eras. Eventos se repetem, mas mudam os atores que interpretam os personagens. Reis nascem e morrem. Planta-se e depois se colhe. O tempo é regulado pela natureza, pelo nascer da Sól, caminhar da Lua, e pelas quatro estações. Os eventos se medem relativamente, como quando dizia-se “quarto inverno do rei X”, e não numa medida absoluta e invariável de tempo, que ia, supostamente, do começo ao fim do cosmos, como no nosso caso. Depois de algum tempo da morte do rei X sua era também se encerra, e o que estava ligado a isso. O rei X vira mito, e começa fazer parte do tempo mitológico, um tanto impossível de se datar da maneira que nos acostumamos com o tempo linear.

É importante notar que o tempo linear faz com que as sociedades que se desenvolvem sobre ele tenham uma tendência maior de dominar a natureza, pois a enxergam como mero objeto, enquanto grupos tribais ou comunidades humanas sob tempo cíclico entendem que os indivíduos humanos não são tão poderosos, e estão submetidos às leis da natureza. Basta abrir a Germania de Tácito e você encontrará relatos de guerras e assembleias tribais sendo adiadas até determinadas fases da Lua ou eventos naturais. Isso porque a vontade humana não se sobrepunha à natural. Até hoje ela não se sobrepõe, mas alimentamos essa ilusão de que sim.

Religiões individuais versus religiões coletivas

O próximo ponto a se considerar é que as religiões que negam a realidade tendem a focar nos indivíduos. Aqui é colocada a importância toda na experiência ou na salvação individual, na premiação depois da vida. Ela tira a consciência coletiva e molda o ego. Ninguém pode salvar terceiros, ninguém pode levar terceiros ao nirvana. Apenas você mesmo. Se vire.

As religiões pagãs, todavia, são mais focadas na comunidade. Como são religiões que aceitam a realidade, e se circunscrevem em noções de tempo cíclicas, há a necessidade do trabalho coletivo para causar o bem-estar. O ser humano aqui não é visto como independente da natureza e da comunidade humana como um todo, mas como parte. A personalidade é do grupo, da tribo. Somos, assim, só uma parte disso. É como se a tribo fosse o indivíduo, e nós apenas partes divididas, dividuais, e não individuais. É como se fossemos apenas uma mão braço, dedo, ou dente do corpo. “Individualmente” não somos muita coisa. Isso porque no passado, os humanos tinham consciência da necessidade de se inscrever dentro da comunidade humana e o banimento, a solidão, era um castigo tão cruel quanto a morte, e que eventualmente levava a ela.

Não haviam noções tão pessoais de relação com divindades (desculpem, místicos!) mas ‘pagamentos’, remunerações, presentes dados às divindades e seres poderosos, de maneira a fazer com que a comunidade recebesse sua ajuda. A comunidade era importante porque era reconhecida como existente e necessária, caso não muito comum hoje, onde o ego sempre fala mais alto.

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Religiões Ortodoxas versus Religiões Ortopráticas

O cristianismo, assim como muitas religiões, são formadas na noção de culto através da Fé (com F maiúsculo). A fé é o que leva suas preces pro deus deles, e é a fé que foi levada a uma escala absurdamente mais importante do que já era pelo protestantismo. A própria necessidade de ação vai ser negada, desde que se tenha Fé, crença. Resumindo: faça o que você quiser, desde que você acredite.

As religiões étnicas (étnicas, não raciais, veja a diferença), ou populares, ou pagãs, ou tribais, todavia, em vez de serem centralizadas na relação de Fé (individual e com F maiúsculo), desenvolvem-se mais a partir do costume. Ou seja, partindo da noção de inserção no tempo cíclico, que também é mantido pela ação humana, da noção de não-dualidade de espírito e matéria, bem como da de caráter coletivo da religião, e mais importante que todas, a aceitação da realidade, as religiões tribais e pagãs baseiam-se na preservação de determinados atos, na troca de presentes com humanos, criaturas (vaettir) e divindades.

Os presentes aqui em geral cumprem o papel da Fé, da mesma forma que na vida real. Um animal era morto, e compartilhado com o deus X, parte da colheita queimada pra ser enviada ao deus Y, objetos valiosos eram quebrados para liberarem a força para o ser a quem se ofertava. Aqui vale ressaltar que há uma troca de megin, isto é, de poder, de energia, que através do sacríficio/morte/queima envia essa megin para os seres a quem queremos, e eles, aceitando os presentes, se veêm obrigados a retribuí-los num círculo de fraternidade e harmonia (friðr).

Enquanto nas religiões baseadas na ortodoxia se visa a crença correta, “acredite em deus acima de todas as coisas!”, nas religiões baseadas na prática, é mais uma questão de se manter o equilíbrio natural através da manutenção dos atos tradicionais. Mas, vale lembrar, esses atos não devem ser feitos mecanicamente, mas com consciência, profundidade, e respeito. Manter os ritos sem as intenções os esvazia de sentido.

Dualismo versus não-dualismo

O seguinte ponto a se analisar é a relação da ideia de matéria-espírito. Para a sociedade ocidental, influenciada pelo cristianismo (mesmo os que não são cristãos!), existe a noção de matéria de um lado e espírito do outro. O espírito anima e dá consciência à matéria, ele é imortal, enquanto a matéria é mortal. É por isso que abre-se a brecha para interpretar a vida como passagem, como caminho de aperfeiçoamento. O espírito vai pra algum lugar e a matéria acaba. Platão, Cristo, e a maioria dos grandes profetas pensa assim, pois isso casa-se com a ideia de remuneração pós-vida. A matéria precisa ser separada do espírito pra que ela possa ser sacrificada em prol do bem maior.

Religiões pagãs, muitas vezes, não têm isso. Para elas não existe uma divisão de matéria versus espírito, mortal versus imortal. O que existe é matéria-espírito, uma coisa una e inseparável. Se tem matéria, tem espírito. O espírito não é visto exatamente como uma consciência individual; na verdade ele é mais uma força, “might”, como no nórdico antigo megin ou no anglo-saxão mæġen. Ter uma personalidade é diferente de ter uma individualidade, na verdade, personalidades são coisas relacionais, definidas não através do sujeito em si, mas de sua interação com outros. Não a toa as virtudes pagãs eram coletivas, e não individuais como infelizmente as Nove Virtudes inventadas no século XX fazem parecer ser.

Uma das provas mais cabais em relação a isso é o fato dos antigos caçarem ritualmente. Comer a carne de determinados animais era assim incorporar parte da essência e características deles. Se matéria-espírito é uma coisa una, ao alimentar-se de um, você também incorpora o outro. Assim, não existem duas coisas separadas, para os antigos, mas apenas uma. O corpo é igual ao espírito e o espírito é igual ao corpo. “Mas isso não faz sentido, e a morte?”, vamos chegar lá, calma.

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Espírito multiparte

Esse aqui eu creio que seja o ponto mais confuso pra todos. Ao passo que o corpo “espiritual” não era entendido como algo individual, mas dividido, relacional, que tinha sua importância enquanto parte de um coletivo, e não em si mesmo, ele, em si mesmo, também se dividia.

Vamos com calma, e partindo do nosso ponto de referência, o cristianismo e o esoterismo ocidental. Para o cristianismo o espírito é individual e habita o corpo, e pode se relacionar com o divino somente através da fé ou de bons atos. Pro esoterismo em geral o espírito tem suas raízes na matéria, mas suas folhas e galhos tendem a se espalhar por outras dimensões “superiores”. Daí eles olham pra Yggdrasil, e… Calma, não é bem como você tá pensando. Como você deve ter percebido o esoterismo por si só já cai na noção de negação da realidade, então sendo incompatível com o paganismo, em certa medida.

Pense o seguinte: uma confederação é formada de várias tribos, uma tribo de vários clãs, um clã de várias famílias, uma família de várias pessoas. Existem níveis de consciência coletiva diferentes entre cada um desses pontos. A família tem uma postura, o clã, outra, a tribo, outra. Uma família sozinha pode ser pobre, mas ser rica dentro de uma confederação rica, e contribuir com essa riqueza.

Da mesma forma nosso corpo possui várias células, vários microorganismos que vivem dentro de nós. Eles são vivos de maneira particular, mas são dependentes do todo. Todos juntos esses microorganismos e células formam o que chamamos de “nosso corpo” individual.

Isso acontece também com as forças ou poderes, as criaturas que formam o que chamamos de “hamr”. A hamr não é um todo dividido em vários órgãos. Hugr, Munr, Fylgja, Ættarfylgja são seres quase independentes, ligados por um laço chamado ørlög, o destino. O próprio corpo material (líkr) é considerado parte da hamr. Sabe a Sociedade do Anel, no primeiro livro da série de Tolkien? Ela nasce com um propósito, não é? Destruir o Um Anel era o ørlög dela, sua razão de existir. Mas ela é feita de membros distintos, que se unem com um propósito comum. É isso que as criaturas e forças fazem, ao receber um ørlög. Assim como a Sociedade do Anel, ganhamos nosso nome. Somos um amontoado de “espíritos”, de consciências e personalidades juntas, com um objetivo, um destino. Cada um de nós é uma “Sociedade do Anel” em si mesmo.

As “partes” do “espírito” são na verdade vários espíritos-criaturas-forças, que, juntos, assumem uma forma ou “hamr“. Algumas dessas criaturas ou forças ficam no corpo físico, mesmo após a morte, e outras vão vagar, até se juntarem em outro ser humano ou animal. Vale lembrar que, mesmo não visíveis para a maioria das pessoas, as partes da forma (hamr) não eram entendidas como etéreas ou espirituais, transcendentais, mas materiais. Uma noção de alma (soul) entra na Escandinávia só com o cristianismo, através da palavra sál, que sequer existia no tempo pagão, e se refere à noção judaico-cristã de alma.

Ufa, respira

Nesse ponto você pode ter percebido que o cristianismo e a visão de mundo ocidental, mesmo quando não-cristã se baseiam nos seguintes pontos: a) negação da realidade, b) tempo linear, c) religiosidade individual, d) ortodoxia ou crença correta, e) dualismo entre matéria e espírito, f) espírito indivisível. Enquanto isso, o paganismo dos germânicos e nórdicos a) aceita a realidade, b) tem tempo cíclico, c) religiosidade coletiva, d) ortopraxia ou agir conforme a tradição, e) não dualismo, matéria-espírito unificada, f) tem um espírito divisível. Cristianismo e paganismo são ideias de vida inversamente proporcionais, em vez de passíveis de terem equivalências a serem substituídas entre si (como trocar um deus por vários, deixar de desejar o céu e desejar o valhalla, etc.).

Cristianismo Paganismo Germânico
Vida Mundana Nega Aceita
Tempo Linear Cíclico
“Espiritualidade” Individual Coletiva
Abordagem do divino Fé (ortodoxia) Ritual (ortopraxia)
“Espírito” e matéria Separados (dualismo) Unificados, não distintos
Percepção do “espírito” Indivisível Composto de entidades separadas

(Mantive o espírito entre aspas pois hamr não significa exatamente espírito)

É preciso ter tudo isso em consideração quando vamos falar de vida após a morte aos germânicos, pra evitar procurar respostas que parecem perfeitamente corretas para nós (a partir de nossa visão de mundo ocidental, filha do cristianismo!), mas que na verdade não se encaixam com muita precisão dentro da maneira de ver as coisas tribal. As respostas sobre o pós-vida parecem estranhas, vagas, sem sentido. Isso é normal: elas fazem sentido dentro do paganismo dos germânicos, que, como vimos, é um paganismo (caipirismo, algo que gente da cidade chama de “superstição”), um conjunto de costumes, cultura, e as palavras “religião” e “espiritualidade” definem muito mais o que nós, humanos ocidentais modernos, entendemos e praticamos como relação com o divino do que aquilo que os antigos entendiam e praticavam.

Eu morri, e agora?

À primeira vista pode parecer estranho então. A ideia que surge é: se o espírito (na verdade a hamr, “forma”) é divisível e não-individual, tendo pontos de contato com sua comunidade humana, não delimitado dentro do “self”, parece ser um pouco confuso entender a razão que fundamenta uma “religiosidade” ou “espiritualidade”: você está certo, aí que está a entradinha da toca do coelho pagão.

Hel, o reino dos mortos, se localiza nas raízes do freixo de Yggdrasil. Como sabemos, Midgard fica na terra do meio, por onde o tronco de Yggdrasil se levanta. Se analisamos isso sem noções dualistas, e entendemos o subsolo como algo literal, a terra mesmo sob os nossos pés, onde as gerações anteriores estão enterradas, então, bem, as coisas começam a fazer sentido.

Hel não é um local espiritual. Hel está literalmente sob nossos pés. Hel é feito de solo.

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Sim, eu sei que à primeira vista isso parece estranho. Todavia, vamos elucidar alguns fatos. 1) Odin viaja através do mundo dos mortos, e mais alguns personagens. A descrição, quase sempre, é de maneira literal — não espiritual! — de idas com cavalos, mantos de falcão, etc. 2) Os locais onde os mortos eram enterrados, eram considerados locais sagrados. Não respeitados. Não preservados. Sagrados no mesmo sentido que comumente vemos relacionados a divindades. 3) Os túmulos eram porta(i)s de acesso ao mundo dos mortos. Literalmente assim. 4) Mortos reconhecidos por sua influência na sorte e fertilidade durante a vida eram cultuados com o mesmo respeito dos deuses deuses. Halfdan, o Negro, por exemplo, tem seu corpo dividido em quatro partes, levada a cada uma das localidades do seu reino, para poder manter a fertilidade de tais regiões, em vez de uma única. 5) Os mortos eram comumente enterrados com vários objetos, como armas, alimentos, ferramentas, várias coisas que indicam não uma homenagem pura e simplesmente por parte dos vivos, mas a entrega de coisas que podem ser utilizadas no pós-vida.

Perceba que tudo isso corrobora para uma identificação da terra com a casa dos mortos, e da superfície do solo como porta(l) de contato com eles.

Perceba também que se a matéria e espírito não estão separados, faz todo sentido que machados, lanças, e todo e qualquer objeto seja deixado junto com quem está sendo enterrado. Ele pode certamente usar os objetos que foram deixados.

Vemos por exemplo, o monte Helgafjel na Islândia, que, provavelmente era o destino para os mortos apenas de um determinado grupo tribal, mas que certamente refletia uma crença mais genérica. É possível que várias localidades tivessem associado a vida após a morte com algum monte (seja ele de tamanho humano, ou uma montanha), e tais montes eram considerados altamente sagrados, ao ponto de não se olhar para eles sem antes se lavar o rosto, como retratado no caso do próprio monte Helgafjel.

Os montes, por sua vez, eram comumente entendidos como habitações de elfos, e os elfos, então, também eram considerados não apenas como criaturas (vaettir) da natureza e da terra, mas eles próprios muitas vezes eram vistos como Ancestrais, ou como aqueles nos quais alguns Ancestrais especialmente honrados se tornaram. Entendendo que a noção de vaettir é mais próxima de “criatura” do que de “espírito”, percebemos que isso também está em perfeito sentido com a noção de não-dualidade espiritual que se preserva mesmo após a morte.

Mais claramente associadas a rochas ou pedras, temos as dísir, que são consideradas uma contraparte feminina dos elfos, as ancestrais femininas responsáveis por tecer o destino dos recém-nascidos do clã, dando a eles seu ørlög. As ancestrais femininas, isto é, as mulheres sábias e poderosas da família eram tão importantes que eram consideradas uma parte da hamr de membro de um clã, raramente de forma individualizada, mas coletiva, e a sorte de uma pessoa também era medida em quantas aettarfylgjur (acompanhantes familiares) ela tinha. Entre os germano-célticos continentais nos encontramos os cultos e altares às Matronae, as quais raramente tinham nomes repetidos, o que atesta que eram cultos familiares ou regionais, e certamente relacionados à ancestrais femininas. As mulheres ancestrais tinham então um alto status nas religiões germânicas, seja na Escandinávia e Islândia, seja na fronteira com Roma.

Ancestrais

Não é só isso! Se dividimos partes da nossa hamr (forma) com familiares, membros de nossos grupos tribais e Ancestrais, e se matéria e espírito não são separadas, então, vejam, o culto aos Ancestrais faz todo o sentido.

O mortos não eram vistos distantes dos vivos, eles eram parte da vida destes, não eram somente reverenciados em agradecimento pelo que fizeram em vida, na verdade, mesmo após a morte, eles continuavam fazendo parte da vida da família. Eram o “lado de lá”, subterrâneo da família, e interagia com os vivos.

Ofertas eram então deixadas para garantir a amizade e o respeito entre vivos e mortos, como você pode ver, familiares mortos nem sempre se tornam Ancestrais, “Ancestral” é uma categoria reservada a mortos honráveis. Quanto maior sua reputação e influência em vida, maior a sua reputação e influência após a morte. Maior a necessidade dos vivos de manterem boas relações com você. Vivos e mortos faziam parte de uma e mesma comunidade, ligada pelo orthanc, a herança familiar.

 

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Os draugar

Uma parte muito importante do pensamento sobre vida após a morte, em especial entre os povos germânicos da Escandinávia e Islândia, eram os draugar, os mortos animados. Um draugr era ao mesmo tempo um morto-vivo e um fantasma. A melhor definição continua sendo a mais literal “aquele que caminha depois de morto”.

Embora o draugr continuasse habitando o túmulo, por não estar descansando em paz, ele continuava assombrando a comunidade humana viva. Nas Sagas isso poderia se resolver com a decaptação ou cremação do corpo, em casos mais graves. Nesse caso, a destruição do corpo material parece equivaler à destruição, ou pelo menos à liberação da hamr, a forma “espiritual”.

Na mentalidade moderna, os corpos raramente permanecem ligados aos espíritos de mortos que assombram as comunidades vivas. A destruição do corpo não implica a destruição da alma. Como podemos perceber, isso se deve justamente à oposição de uma visão de mundo que divide a realidade em matéria e espírito, e uma que a pensa como matéria-espírito integrada. Em todo o caso, para os germânicos, a sua vida após a morte, através dos draugar é perceptivelmente ligada ao local de sepultamento e a maneira que o morto era respeitado ou cultuado pelos vivos.

 

Mas… E as Eddas?

Eu sabia que você ia perguntar isso. As Eddas foram escritas bem tardiamente, bem como as Sagas. O problema é que a Ásatrúarfélag islandesa instituiu o costume de só analisarmos as Eddas (o próprio sumo-sacerdote da organização admite isso aqui), e as evidências arqueológicas, esmiuçadas por Hilda Roderick Ellis em The Road to Hel, que servem como base pra nosso texto, também não parecem ser consideradas.

A versão das Eddas data provavelmente o século XIII e lida somente com temas ligados à poesia, ou então com a mitologia superior. Snorri Sturluson explica o Gylfaginning como maneira de situar o poeta no Skáldskaparmál, a parte em que o uso dos nomes poéticos é explicado, maneira de ensinar a própria arte poética islandesa, não sendo, portanto, um texto revelado. Pela influência cristã do autor a estrutura da obra acaba lembrando a da Bíblia, o que facilita o seu uso um tanto irrefletido nos dias atuais, como se possuísse a mesma função.

As Eddas fornecem destinos múltiplos, se somarmos com as respostas dadas também pela versão poética, mas todos associados a uma divindade, e é inegável que Sturluson pintar Hel como uma deusa e não simplesmente como uma região do subsolo indica influência dele e muito pouco provavelmente do estágio tardio da religião. O “psychopomp“, aquele que traz a morte e guia os mortos no submundo é Odin, Hel aparece então emprestando uma função que era originalmente dele. Além disso, a pintura de Hel como pestilenta, em certa medida maligna, sem dúvida se aproxima muito mais da noção de pós-vida de religiões que negam a realidade, como o cristianismo. Dada a equivalência de Asgard com o céu, no topo da árvore Yggdrasil, fica fácil associar esse local com o paraíso cristão, por outro lado. A dicotomia se torna óbvia e palatável para pessoas modernas, influenciadas pela visão de mundo e religiosidade ocidental, moldada pelo cristianismo.

Mas Valhalla de um lado, e Hel do outro, não são o mesmo binômio que céu e inferno. Se a morte em batalha valesse mais que a vida, os povos nórdicos tinham se extinguido. Simples assim. Porque viver, se morrer em batalha leva ao paraíso? Mas essa noção só faz sentido dentro de religiões que negam a realidade. O paganismo germânico não é uma delas.

Outra coisa que não ajuda no entendimento do real significado do Hel é o fato do Nástrond, o local onde a serpente Nidhog se encontra, ser localizado no subsolo, mais especificamente, na terra dos mortos. Nidhog é a serpente que devora as raízes de Yggdrasil, que precisam ser regadas e curadas pelas Nornir. Todavia, quem alimenta esse dragão são os traidores, assassinos e aqueles que quebram a palavra. Não sei se vocês repararam, mas essas são todas qualidades péssimas pra uma vida coletiva, tribal. Eu não posso afirmar que essa é uma crença antiga dos povos germânicos, todavia, não posso também negá-la. Em todo o caso, ela parece carregar um sentido forte de punição para aqueles que atrapalham a harmonia (fridr) do grupo. Me parece mais uma ideia de uma religião que aceita a realidade (por punir atos egoístas e que atrapalham a vida cotidiana) ao encontrar com uma religião que nega a realidade (por jogar essa punição para um pós-vida).

Além disso, as Eddas ainda apresentam mais dois destinos: o Bilskirnir de Thor, para onde os escravos iriam, e servir a Gefjun, destino reservado para as mulheres que morressem virgens. Chegando nesse ponto não é fácil discernir o conceito de pós-vida pagão do cristão, as Eddas apresentam muitas respostas,  e, embora nenhuma entre em profunda contradição entre si, é um tanto difícil acreditar que elas eram de fato correntes no período pagão, uma vez que a evidência arqueológica firma o pós-vida de uma forma tão material e próxima do clã. É importante, todavia, se notar que as mulheres, infelizmente, eram tratadas como moedas de troca em alianças entre famílias, e os escravos certamente não gozavam de status de familiares. Se assumirmos que Hel é só um outro mundo, exatamente como este, mas para os mortos, parece compreensível que de certa forma pessoas que fossem usadas como mercadoria de troca por terem uma sub-cidadania tivessem destinos diferentes daqueles reservados a um membro legítimo do grupo tribal.

Cabe mencionar que os que morriam no mar tinham outro destino: o reino de Aegir e Rán. Neste ponto fica ainda mais perceptível como matéria e espírito são uma coisa só, e como Rán enquanto caçadora de marinheiros é algo real. Os antigos andavam com moedas para, uma vez caídos no mar, poderem ter como negociar com Rán, e terem uma estadia mais vantajosa. Aqui novamente vemos o elemento material ligado à morte, e que o ouro podia sim ser usado pela deusa — aliás, Aegir, esposo de Rán, é um colecionador de ouro. Se matéria e espírito fossem coisas separadas, se o ouro não tivesse uma qualidade útil após a morte, não faria o menor sentido para os navegantes pagãos tal prática, uma vez que para nós o ouro é um objeto, algo não-vivo, o que, percebe-se, não era o caso para eles.

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Voltando ao Valhalla…

Eu já devo ter dito umas mil vezes em outros textos, mas vou repetir mais uma: quem causa essa obsessão nas pessoas para ir ao Valhalla é a mídia, a cultura pop. Ela certamente funciona sob a noção Valhalla versus Hel, Paraíso versus Inferno, Premiação versus Punição, em suma.

A noção que a maioria das pessoas têm de pós-vida é influenciada por religiões individualistas, que negam a realidade, são dualistas, e partem de uma noção de espírito indivisível, e eu aposto muita coisa como a maior parte dos pagãos vê as coisas sob essa ótica. Não estou falando isso como uma crítica negativa ou senso de superioridade. Mas é que esses detalhes estão tão profundamente enraízados em nossa mentalidade que é difícil os perceber. Só um trabalho consciente de mudança desses pensamentos pode fazer sair disso.

Vê-se isso claramente na glorificação da morte em batalha. Eu gostaria de convidar todos que puderem a ler o poema anglo-saxão Beowulf, ele trata do conceito de batalha de uma forma muito mais clara, e fica evidente que o guerreiro não se entrega simplesmente pensando no pós-vida, na verdade, o guerreiro sabe que ele não tem muita escolha, o seu destino já está definido, e só lhe resta aceitar a ordem das coisas (alguém lembra do tempo cíclico, acima?) e ‘encenar’ o seu papel da melhor forma possível. Quem decide a vitória ou a derrota é a wyrd e não a sua coragem, ou desejo de ir pra junto de Odin. É muito mais importante a reputação e honra do guerreiro no mundo dos vivos que o destino hipotético de sua alma.

Por outro lado, se analisarmos os critérios para se ir ao Valhalla — e lembramos que corpo-espírito é a ideia germânica em vez de um corpo separado do espírito — percebemos que existem algumas regrinhas, não é só se querer ir para lá. Você precisa ter o seu corpo destruído em batalha, ou através do fogo. Alguém lembra como as ofertas eram entregues aos deuses? Através da inutilização, destruição material. O mesmo vale pra ofertas humanas. O segundo ponto é: o Valhalla é um local pra dois tipos de pessoas: a) nobres (que poderiam entrar através de cremação do cadáver, se não morto em batalha), ou b) guerreiros. Em todo o caso a destruição do corpo é uma etapa essencial para se liberar a megin e a hamr.

Você já deve ter notado que, se corpo-espírito não se separam, então a luta do Ragnarök — o motivo pelo qual Odin pega mortos em batalha ou nobres — essa luta é algo bem real e sanguinário. Que você precisa ser um guerreiro de verdade. Então, vamos lá, é hora de admitir que lutar no dia-a-dia contra a realidade não te dará utilidade nenhuma no dia do Ragnarök. Muito pouco provavelmente existe um motivo para você querer estar lá, exceto o fato de que todos os programas/quadrinhos/mídia que você vê falando (de maneira superficial) sobre os vikings fala sobre isso, por ignorar todos os conceitos do paganismo germânico, como te mostramos até agora.

Mas, antes de encerrar o assunto Valhalla, eu tenho mais uma má notícia pra você: Freyja tem um acordo com Odin, e direito a metade dos guerreiros e nobres recolhidos. Ela escolhe primeiro, e não existe garantia nenhuma de que você não vá para Sessrúmnir em vez de ir para Valhalla.

Conclusão

“O homem que vive atualmente, ó rei, parece-me, em comparação com aquele tempo que nos é desconhecido, ser como o vôo rápido de um pardal através do salão em que você se senta para ceiar no inverno em meio a seus oficiais e ministros, com um bom fogo no meio, enquanto as tempestades de chuva e neve prevalecem no exterior; o pardal, eu diria, voando para dentro de uma porta e imediatamente indo para fora pela outra, enquanto está dentro fica a salvo do clima invernal. Mas depois de um curto espaço de tempo bom, ele imediatamente desaparece da sua visão para o inverno escuro do qual ele surgiu. Então, esta vida humana aparece por um curto período de tempo. Mas do que foi antes ou o que se segue, somos ignorantes. Se, portanto, esta nova doutrina [o cristianismo] contém algo mais certo, parece justamente merecer ser seguido “.

Beda, História Eclesiástica da Nação Inglesa, por volta de 731 da Era Comum

A passagem citada é retirada de um momento crucial na história dos povos germânicos da Inglaterra, os anglo-saxões: a conversão ao cristianismo.

É durante esse processo que se chocam as duas visões de mundo, a tribal e a cristã, e a vida, sob o paganismo, é comparada com a ave que, enquanto vive, ou seja, está dentro do salão, está segura do inverno e das tempestades de fora. O mundo fora das duas janelas, pela qual a ave entra e sai, é a ‘eternidade’, o momento em que a alma estaria fora da vida. Como podemos ver, o texto termina com a ideia de que a vida cristã, a alma para o cristianismo, não é como a alma pagã, ela é individual, como a ave que passa no salão, e ao mesmo tempo ela possui uma verdade, um conhecimento do que há para além da vida, o que não parece ser a vida dos pagãos.

Há de se considerar que esse argumento de Beda poderia ser, simplesmente, estar fazendo propaganda negativa do paganismo, como um clérigo. Todavia, o período em que Beda escreve ainda não está distante o suficiente do período pagão para se supor isso, uma vez que as pessoas poderiam ler e reconhecer a falsificação dele, se fosse o caso.

Mas eu diria que se isso parece um problema, é pelo nosso costume de ocidentais com a forma religiosa cristã. Por que uma religião precisa de um promessa de além-vida? Por que é necessário um destino, algo depois da morte? Tais perguntas são essenciais, uma vez que precisamos entender: queremos de fato uma nova religião, ou pegar partes de outra religião que se encaixem no que estamos acostumados? Se analisarmos os argumentos de Bede, e compararmos com o registro arqueológico da Inglaterra e Escandinávia, veremos que a hipótese dos mortos vivendo no solo parece ser forte demais pra ser ignorada, mesmo que a opinião erroneamente tomada como canônica das Eddas vá contra.

Todavia, o que é mais importante de se tirar do trecho de Beda é que, enquanto ele queria desqualificar o paganismo por não ter uma noção tão clara do que acontece no além da vida, ele deixa evidente o fato do paganismo aceitar a realidade e a vida como elas são, em todas as suas facetas. O tiro de Beda sai pela culatra, pois é exatamente isso que, particularmente eu, como heathen (pagão), mais admiro no heathenismo: a aceitação do mundo da forma que ele é, e a dose de mistério que tem para excitar a nossa mente, no que se refere ao além da vida. O paganismo é material, tocável, algo que se vive no dia-a-dia, e não uma doutrina que nos força ideias absurdas de remuneração depois da morte.  Uma das maiores lições do paganismo é a sua capacidade de abrir nossos olhos para o que está aqui, a relacionalidade de nosso ‘eu’ com tudo que está ao nosso redor, incluindo vaettir (criaturas da terra), Ancestrais e deuses. O pós-vida é uma continuidade disso, ou algo que desconhecemos. Isso não faz ele ser de maneira nenhuma algo negativo.

Essas são as conclusões mais profundas que minhas investigações sobre a noção de continuidade do espírito entre os germânicos após a vida me fizeram chegar, até o presente momento. Todavia, parece que o paganismo preferia se basear em algumas dúvidas, em lugar de meias verdades ao estilo cristão e seus paraísos e punições.

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