Jól e o inverno

Este dia de hoje, 20/06, quando começo a escrever este post, acontece o solstício de inverno (hemisfério sul) ou de verão (hemisfério norte). Nesta data, muitos pagãos brasileiros comemoram Jól, ou Yule, um dos principais eventos no “calendário” pagão.

A palavra Jól, ou mais popularmente Yule, tem origem incerta. Yule vem do inglês antigo, géol ou géola, Jól sendo sua versão islandesa e faroesa. Na Noruega e na Suécia, fala-se Jul. Embora não tenhamos uma origem certa para a palavra, acredita-se derivar do proto-germânico *jehwlą (celebração, festividade), possivelmente do proto-indo-europeu *yekə- , “brincadeira, piada”. A derivação “yule” seria sua forma plural — ou seja, festividades, mais de uma.

Jól correspondia a um mês (na verdade, dois) no calendário germânico antigo, atualmente equivalente a dezembro. Em inglês antigo, chamava-se ærra géola (pré-Yule ou “primeiro Yule”, equivalente a dezembro) e æftera géola (pós-Yule ou “segundo Yule”, equivalente a janeiro).

Ou seja, Jól, originalmente, não era uma celebração única, mas um período de tempo. O mês de novembro, por sua vez, era chamado Blōt-mōnaþ, mês dos sacrifícios. Os povos antigos usavam calendários lunisolares, alinhado com as fases da lua, de lua nova a lua nova, ou lua cheia a lua cheia, e completando anos solares com base nos meses lunares: assim, ele não necessariamente se alinha com o calendário moderno. Os respectivos nomes em alto alemão antigo seriam Herbist-mānod (“mês de outono”, novembro), Hailag-mānod (“mês sagrado”, dezembro) e Wintar-mánód (“mês de inverno”, janeiro).

De forma similar, o Bókarbót islandês, de 1220, identificava os meses Ýlir (entre novembro e dezembro do calendário juliano) e Jólmánuðr (dezembro e janeiro, calendário juliano), com o solstício de inverno marcando o fim de um e o princípio do outro.

O período de Jól inclui celebrações como o Modranicht anglo-saxão, dedicado aos seres femininos (similar ao Dísablót escandinavo) e a Caçada Selvagem. Mais que isso, é uma celebração de Jólnir, Aquele de Jól, ou Jólfáðr, Pai do Yule… ambos nomes do deus Odin, aquele que lidera a Caçada Selvagem. Os próprios deuses são chamados “seres de Yule” na Edda em prosa. Neste período, o espaço entre os vivos e os mortos diminui, e as fronteiras se atenuam. Existem fortes indícios que blót eram feitos, e algumas tradições, como o javali de Yule, continuam presentes na forma do presunto de Natal, ainda consumido em várias partes do mundo.

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A caçada selvagem (Åsgardsreien), por Peter Nicolai Arbo, 1872. Via Wikicommons.

É importante lembrar que, na antiga Escandinávia, não se considerava quatro estações, mas apenas duas: havia o verão e havia o inverno.

O verão era a estação ativa, “masculina”, onde se viaja, se faz comércio, saem expedições e guerras. É nele que se encontram eventos relacionados à fertilidade, ao nascimento, ao crescimento dos campos e, com eles, a prosperidade dos povos. O inverno, entretanto, representa quase o oposto: a morte (e, com ela, os ancestrais), a magia, os espíritos, as mulheres. Nessa época oferece-se comida a Frau Perchta, em algumas comunidades de Tyrol, que inspeciona as casas na época de Natal; em Wälschnoven, deixa-se o Gstampanuden para Stampa, ser feminino que tem um quê de sagrado, ainda hoje. Em alguns locais, ainda se chama a véspera da Epifania (festival cristão que precede o Natal) pelo nome desses seres: PerchtennachtFrauhollenabend.

Estas forças femininas, em alguns locais, também são associadas à Caçada Selvagem e, na época medieval, tiveram sua imagem demonizada no contexto cristão como bruxas ou seres malignos; o que não impediu seu “culto”, por assim dizer, de persistir tradicionalmente no folclore alpino.

Frau Holle, acredita-se, é um dos muitos nomes de Holda, uma deusa cujo culto, de acordo com alguns estudiosos,  precede até mesmo o culto aos Æsir nas regiões onde se encontram (Alpes, Áustria, partes da Alemanha, Suíça), sendo continuação direta do neolítico europeu. Frau Holle, Hulda, Perchta, recebem os espíritos da crianças que morrem na infância, dos quais cuidam.

Não é difícil ver a associação entre o Jól germânico antigo e outras celebrações invernais, a principal delas sendo, claro, o Natal — o nascimento tradicional de Cristo e atualmente uma das principais (se não a principal) celebrações cristãs existentes. Inclusive, em países escandinavos como a Islândia, a Noruega, a Suécia e a Dinamarca, Jól (Islândia e ilhas Faroe) e Jul (Noruega, Suécia e Dinamarca) continua sendo o nome da principal celebração invernal, ou seja: “Natal”, nesses países, se chama Jól (ou Jul).

Muito já se foi dito sobre a relação entre o Natal cristão e o Yule pagão, e não entrarei nelas no momento. Mas é certo que, mesmo com a cristianização, muitas tradições se mantiveram, principalmente nos países do norte, onde tais celebrações se mantém desde tempos imemoriais.

Temos o Julebukking, onde pessoas mascaradas, entre o Natal e o Ano Novo, vão de casa em casa, batendo na porta de seus vizinhos, na esperança de serem identificados. O bode de Yule (julebukk), feito de palha, é talvez uma lembrança da época em que o deus Thor era adorado na Escandinávia.

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Bode de Yule como ornamento em uma árvore de Natal. Por Pilecka, via Wikicommons.

O Yule log se refere a um pedaço de lenha trazido da floresta e queimado na celebração natalina. O famoso mistletoe que se coloca sobre os umbrais das portas, pode ser uma referência oblíqua a Baldr, mas mais provavelmente, ao renascimento da vida após o inverno. O jólaköttur, gato do Yule, devora pessoas que não ganharam roupas novas para a véspera de Natal. Ele é o gato da giganta Grýla, e de seus filhos, os jólasveinar.

Nesta época não é incomum decorar as casas com plantas perenes. Também era comum o blót — pois, sendo inverno, e o ponto mais frio e escuro deste, era tempo de celebrar, esperar pelo ressurgimento do verão… e, pelo lado mais prático, abater os animais que não são sustentáveis no longo inverno norte-europeu.

(Um fator importante a ser lembrado é que a famosa árvore de Natal decorada com luzes e outros objetos é uma tradição bastante moderna; não há indícios que sua incorporação na tradição cristã tenha algo em comum com tradições mais antigas, celtas ou germânicas.)

Então, percebe-se que o inverno, apesar dos pesares, se torna uma época propícia a certas celebrações, principalmente aquelas celebradas à noite, dentro das casas e no seio familiar.

Na sociedade brasileira moderna, o período de inverno é caracterizado pelas famosas festas juninas (e julinas), onde se acendem fogueiras, se festeja com alimentos típicos da época, bebidas e brincadeiras, embora uma festividade puramente cristã (e fortemente secularizada, como o próprio Natal).

Originalmente o festival de São João, trazido para o Brasil pelos portugueses, ocorre no período de verão do hemisfério norte, sendo fortemente associado a celebrações do solstício de verão em seu simbolismo: fitas, fogueiras, casamentos, etc., eventos típicos de festivais de primavera e verão desde o período pagão, e tão importantes em alguns países (como a Suécia) que são quase elevadas a nível de feriado nacional.

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Decoração para festa junina no Pelourinho, Salvador, Bahia. Foto por Luiza Marques.

Então nós celebramos no inverno um espectro das celebrações de verão cristãs que, por sua vez, trazem em si aspectos pagãos embutidos; e o nosso Natal cristão e secular, é celebrado no meio do verão brasileiro.

O que nos leva a outro aspecto do quebra-cabeça: o que significa inverno?

O Brasil é um país tropical, e com exceção do sul do país, onde há climas mais próximos do temperado (e no extremo sul, onde há a possibilidade, ainda que remota, de neve), o conceito de inverno se diferencia fortemente daquele entendido pelos povos escandinavos.  Além, é um país vasto, contendo diversos ecossistemas e biomas, cada qual com ciclos naturais diferentes.

Embora haja variações climáticas de acordo com as estações (em alguns estados mais que em outros), a depender do local onde nos encontramos, elas raramente são dramáticas ou sequer perceptíveis. Nosso inverno em muitos locais se assemelha mais ao verão escandinavo que nosso próprio verão (que é, por sua vez, muito mais quente).

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Inverno em Sandefjord, Noruega. Foto por Nicolai Berntsen, via Unsplash.

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“Inverno” em Camaçari, Bahia, Brasil. Foto por Andreia Marques.

Assim, encontramos um pequeno dilema.

As celebrações invernais, como já dito, tem por base as lendas dos seres que habitam a noite, aos ancestrais que partiram, a magia. Em muito, elas inspiram e celebram o retorno à vida que virá, pois o momento de solstício, a noite mais longa do ano, indica que logo a noite começará a diminuir, os dias tornar-se-ão mais longos, e o inverno, com sorte, acabará.

Essas situações interferem apenas de leve na mente e no ideário brasileiro. Nós não conhecemos, em grande maioria, um inverno real. Da mesma forma, a maioria de nós não depende da própria colheita, nem corre grandes riscos com o inverno brasileiro. Faz sentido celebrar Jól? E o que, exatamente, estamos celebrando?

Os festivais antigos, os mais antigos de todos, acompanham o ciclo da natureza e todos os seus aspectos. A religião germânica pré-cristã era profundamente rural: a dependência do próximo e do ciclo natural se faz presente em todos os seus aspectos. É nesse ponto que, ao resussitarmos a crença antiga, precisamos ter em mente a essência do que se busca, assim como a história e a tradição. É nesses pontos em que nos afastamos da reconstrução pura e seca, e procuramos o sentido naquilo que fazemos de acordo com nossa localidade — assim como os próprios povos germânicos faziam.

Eu, a autora, costumo celebrar o solstício, em reconhecimento ao ciclo astronômico do Sol e da Terra. Neste momento, celebro também a criação, e o renascimento por vir: do sacrifício de Ymir, de onde veio a nossa terra, nossa Midgard conforme o mito de criação islandês que conhecemos, da destruição do primeiro ser vivo para o sustento dos seus descendentes, o caos primeval de onde surge a ordem natural. O ciclo é longo, e da escuridão do inverno (que, convenhamos, nem é tão escuro assim por aqui), virá novamente o sol de verão.

Mais ainda, na região em que vivo, estamos no auge da seca, que, por sua vez, dará lugar às novas chuvas e a renovação da flora local. Este ciclo, naturalmente, é bem menos certo que aquele da lua e da Terra; mas também faz parte da vida e da morte, nascimento e renascimento.

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Ipê amarelo na seca de Brasília. Por Luiz Paulo, via Flickr.

Assim como o frio, a seca, as chuvas, e até mesmo o nível de luz solar que recebemos afetam nosso comportamento e nosso humor. É comum que, no inverno, haja aumento nos índices de crises depressivas na população. É comum que o frio traga doenças e riscos para os menos favorecidos, inclusive moradores de rua. O inverno, mesmo que quase inexistente no Brasil, ainda traz consigo certos riscos e certas implicações: seca, morte (por frio ou por sede), queimadas espontâneas. No passado, fazia-se a oivara, ou seja, a queimada da mata, que prepara a terra para o plantio. Em certas tribos, comemora-se a fatura, enquanto se pede o afastamento de espíritos maus da colheita por vir. Os rios secam, se não completamente, diminuem em volume; é a época da caça e da pesca, que complementa o período de crescimento das plantações por vir.

O nosso inverno é diferente, e, portando, faz-se necessário interpretá-lo de acordo.

Tradicionalmente, é o inverno que inicia o ano (no hemisfério norte, em janeiro), é aqui que fazemos a curva entre a morte e a nova vida. Assim, inicia-se um novo ano, um novo ciclo, na noite mais escura, na época mais sombria.

Como reconhecemos esse ciclo? Como você, leitor, celebra Jól e o ciclo natural?

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