Forn siðr, um costume de múltiplas origens

Por Gabriel O’Dubhghaill

Gostaria de expor aqui algumas ideias que venho matutando ao longo das minhas pesquisas sobre o paganismo germano-escandinavo. Resumindo, minha hipótese é que os costumes pagãos que tentamos acessar tem origens em diversos de povos, cada qual contribuindo para diferentes aspectos do forn siðr.

Antes de tudo vou salientar aqui algo que meus hábitos de estudante de história não me deixam omitir. A maior parte das fontes que tive acesso são os escritos islandeses, que todos sabem ser posteriores a conversão formal dos habitantes dessa ilha ao cristianismo. Isso significa que ao usar essas fontes, para acessar os costumes e mitos antigos, nós estamos mais corretamente acessando os costumes islandeses, que derivam majoritariamente dos costumes noruegueses, e estes derivam majoritariamente dos dinamarqueses, sendo os costumes suecos, de onde se origina o segundo maior acervo de fontes, um segundo ramo dessa cultura, muito próximo porém distinto. E todo esse contexto escandinavo da era viking é ainda apenas uma parte, no tempo e espaço, de uma cultura maior germânica. Não vou entrar no mérito da questão indo-europeia, pois além de estar fora do meu alcance eu considero um objeto de estudo generalista demais, quase inócuo quando se trata de resgatar costumes de povos que viveram milhares de anos depois da dispersão desse suposto povo original das estepes.

Feitas as considerações sobre as fontes, vou realizar uma delimitação geográfica. Na maior parte de suas existências os povos germânicos viveram no que pode ser chamado de região norte-central da Europa. Delimitada a oeste pelo rio Reno, ao sul pelos Alpes e o rio Danúbio, ao norte pelas regiões férteis da península escandinava, e mantendo à leste uma ampla fronteira móvel com os povos eslavos, essa região raramente ultrapassava o território do nosso estado de Minas Gerais. É importante frisar isso para ter uma ideia da unidade desses povos, assim como do grande isolamento que eles poderiam ter uns dos outros, em especial devido a presença de enormes florestas entre eles. Ao analisar os costumes aqui, me parece honesto frisar que meu foco será nos escandinavos, com alguns paralelismos com os anglo-saxões, povos todos da porção mais ao norte do território germânico.

Paleolítico e mesolítico

As primeiras ocupações humanas nesse território são dos povos do paleolítico. Como esse período é simplesmente gigantesco, eu vou me limitar a análise sobre os seres da nossa espécie, o homo sapiens. Houve uma sucessão de culturas, e conforme as geleiras recuavam o norte foi sendo colonizado. A primeira cultura encontrada na Escandinávia (há onze mil anos) pertence já ao mesolítico (tecnicamente mais complexo que o paleolítico) e nesse período, que vai até a introdução da agricultura, várias culturas mais ou menos semelhantes conviveram lado a lado no futuro território germânico. Como povos caçadores-coletores, eles sempre viveram em pequenos grupos, que podem ter se refugiado no avanço dos povos neolíticos ao longo milênios nas áreas impróprias para a agricultura no interior do continente europeu, e vivido para interagir com os germânicos.
É importante salientar que os povos Sami, habitantes do norte da Escandinávia, apesar de terem mantido seu estilo de vida caçador-coletor até a era Viking, e aderido lentamente ao pastoreio de renas e depois a agricultura, não são ancestrais que resistiram a mudança de vida, mas um outro povo que migrou do leste por volta da mesma época em que os ancestrais dos nórdicos aderiram a agricultura. Estudos genéticos demonstram que entre os Sami existem um grande número de homens pertencentes às linhagens masculinas nórdicas, o que aponta para uma adesão desses homens a cultura Sami, uma evidência de seu poder de influência sobre os nórdicos antigos.

Para me subsidiar, na análise da possível influência cultural desses povos, eu utilizo aqui informações retiradas do livro “As máscaras de deus” de Joseph Campbell, especificamente do volume “Mitologia primitiva”.

Existe grande unidade na cultura material desses períodos, e apesar de variações regionais, a velocidade com que inovações nas técnicas se difundiam aponta para um constante contato, com intercâmbio, entre as culturas. Comparando os resquícios das práticas rituais desses povos antigos com povos contemporâneos que ainda vivem de forma semelhante, é possível reconstruir alguns elementos de suas religiosidades. Os elementos, que cabem salientar aqui são o animismo e o xamanismo.

O animismo aparece nos costumes nórdicos, anglo-saxões e francos de forma muito marcante nas relações com os espíritos da terra, materializados em árvores, rochas e nascentes. Essa mentalidade também está presente no culto aos espíritos domésticos, ainda que este se desenvolva somente mais tarde, com o desenvolvimento de habitações permanentes. Outros elementos são a atribuição de qualidades especiais a armas e montarias. Toda a ideia de um mundo povoado por seres dotados de vontades próprias, com a qual o pagão deveria se relacionar são elementos paleolíticos que foram sendo suprimidos em outros povos europeus. Junto aos germânicos, os celtas e os eslavos apresentarem muitos desses elementos. A visível importância menor entre latinos, gregos e outros povos do sul da Europa, atribuo a uma extinção precoce dos povos paleolíticos nessas regiões e a contínua importação de muitos cultos do crescente fértil pelas populações urbanas ao longo do Mediterrâneo.
Germânicos e celtas ao ocupar as regiões do norte da Europa se depararam com esses povos ainda vivos e muito aprenderam da cultura deles.

O xamanismo por sua vez é, entre os nórdicos, um elemento diferenciador em relação aos demais povos europeus. Ainda que os celtas irlandeses apresentem alguns aspectos xamanisticos, descrições exatamente iguais aos “transes” xamanicos dos Sami, siberianos, e outros povos primitivos só aparecem entre nórdico-germânicos. Pinturas rupestres da era do bronze, na Suécia cerca de 1000 a.E.C., quase certamente representam xamãs, ainda que um estilo de vida paleolítico já tivesse sido abandonado por esses povos a milênios.

No campo da mitologia, eu arrisco dizer que esses povos são representados pelos gigantes. Para além de serem grandes espíritos da terra, os gigantes interagem com os æsir e vanir como pessoas germânicas interagiriam com os caçadores-coletores. Eles são uma ameaça, moram no leste e norte, suas mulheres são vistas como potenciais esposas, e também são vistos como sábios, detentores de grandes conhecimentos, uma alusão, creio eu, ao fato de serem eles que na prática ensinaram aos germânicos o xamanismo e, portanto, serem os grandes dominadores da técnica.

Uma influência duradoura desses povos sobre os nórdicos é a designação do Sol, como uma divindade feminina. Não existe qualquer referência à Sól, ou Sunna, nas fontes nórdicas, que contradiga seu sexo feminino. Porém, praticamente todos os povos indo-europeus designam o sol como masculino, ao mesmo tempo em que os falantes das línguas fino-úgricas, da qual pertencem os Sami e finlandeses, consideram o sol feminino.

Neolítico

19184364_141467203081036_748708413_n

O neolítico se inicia na Europa com a migração de povos agricultores do oriente médio através do sudoeste europeu, e de norte-africanos através da península Ibérica.

Os primeiros agricultores a viverem no território analisado pertenciam a cultura “Danubiana”. Eles migraram, do oriente médio, levando consigo muitas espécies de grãos e leguminosas, plantas têxteis e animais domésticos, como vacas, porcos, cabras e ovelhas.

Enquanto os danubianos se instalavam ao sul, no norte vivia a última cultura mesolítica, com um desenvolvimento de cerâmica próprio, e domesticando apenas cães. Essa cultura irá entrar no neolítico tomando emprestado o pacote completo de plantas, animais e técnicas dos danubianos, com ênfase na criação de gado bovino.

A cerâmica, que dará para essa cultura o nome “Funnelbeaker”, no entanto, permanecerá diferente e contínua a do mesolítico, apontando para um desenvolvimento autóctone, que teria preservado hábitos antigos, diferente do sul, onde a população mesolítica foi expulsa diante do avanço dos danubianos. Pesquisas genéticas corroboram a sobrevivência de linhagens antigas entre os nórdicos, e reforçam a hipótese de continuidade cultural.

Essa cultura, Funnelbeaker, irá se fundir com a danubiana no final do neolítico, formando a “cultura da cerâmica cordada” que se estendeu por grande parte do norte da Europa. Essa nova cultura terá hábitos semi-nômades, com menos resquícios de agricultura, pastoreio principal de animais de menor porte e o abandono dos túmulos coletivos em prol dos individuais.
O termo “Europa antiga”, criado pela arqueóloga Marija Gimbutas, é usado para definir esse período que se estende de 6000 a.E.C. até cerca de 3500 a.E.C., na maior parte do continente.

Característica desse período é uma cultura matriarcal, relativamente pacífica, centrada em templos, construtora de obras megalíticas e túmulos coletivos, com povoados grandes praticando a agricultura de derrubada-queimada na proximidade dos cursos d’água. As trocas culturais com toda a Europa são atestadas por achados de âmbar do báltico há milhares de quilômetros de distância, inclusive no Egito pre-dinástico. Tal comércio foi contínuo até a era viking.

A sobreposição, em vez de substituição, dessa nova cultura com a antiga favoreceu a manutenção dos costumes religiosos animistas e xamãnicos. Mas não sem adaptações, como na atividade das volvas, que entravam em transe sentadas sobre uma plataforma e assistidas por uma plateia, algo muito distinto da reservada atividade dos xamãs paleolíticos, e condizente com a organização dessas sociedade ao redor de “templos”.

Resquícios dessas culturas se encontram no apreço ao papel feminino na religião, mais intenso entre os celtas, e nas próprias divindades vanires, em especial Freya.
A ritualística em céu aberto provavelmente é outro resquício.

A ideia de que os vanires habitaram a oeste também faz sentido, quando se leva em conta que a migração dos germanos veio do leste, estando sempre os últimos sobreviventes dessas culturas a oeste.

O povo da Europa antiga que sobreviveu por mais tempo foram os Iberos. Os ancestrais dos Iberos habitaram quase toda a Europa ocidental até que a grande expansão celta lhes tomou os territórios e os reduziu a uma pequena área da península Ibérica, onde foram “celtizados”, tendo restado apenas sua língua como distinção, isso ainda nos tempos do Império Romano. Assim os ancestrais dos germânicos conviveram alguns séculos com os vizinhos Iberos, mesmo após terem substituído as culturas neolíticas em seu próprio território.

Idade do Bronze

19141631_141468559747567_412117182_n

É na idade bronze que os elementos culturais mais característicos dos germânicos se introduzem na Europa. Fazendo parte de grande migração de povos indo-europeus, os povos que se tornariam os germânicos chegaram em seu novo lar levando a metalurgia do bronze e o cavalo.

Ao que tudo indica, em sua terra de origem, os povos da “europa antiga” ancestrais dos germânicos, aumentaram muito sua capacidade bélica graças ao bronze e o cavalo, se convertendo numa cultura guerreira e patriarcal.

Atraídos, provavelmente, pelas grandes florestas da Europa central eles migraram para o oeste. Lá eles submeteram às culturas anteriores causando, infelizmente, uma crise que levou a redução do tamanho dos povoados e desagregação política. É possível que a cultura da cerâmica cordada já fosse uma cultura indo-europeia. Nesse caso a expansão dos ancestrais de germânicos e eslavos pela região ocorreu ainda antes, e eles importaram os cavalos e o bronze depois.

19179291_141474689746954_1852528668_o

A redução do tamanho dos povoados se deveu a uma crise do sistema de agricultura de derrubada-queimada. Após muitos séculos, a população crescente acabou provocando o desmatamento das melhores áreas que suportavam esse sistema. O resultado foi uma queda na produtividade agrícola, com dispersão da população por áreas maiores. Antes que desenvolvessem um novo sistema agrícola para essas terras essas populações foram obrigadas a viver principalmente do pastoreio. Para maiores detalhes consulte “História das agriculturas no mundo”, de Mozoyer e Roudart.

A desagregação política, além de ser consequência do dito acima, foi intensificada pela beligerância da nova cultura que não permitia arranjos políticos muito extensos.
Alguns séculos depois da crise, por toda a Europa, se generalizou um novo sistema agrícola, o do pousio e arado. Petroglifos mostrando arados puxados por parelha de bois, na Suécia, datam da idade do bronze. Nesse sistema as populações se recuperaram, e mesmo cresceram nas áreas mais ao norte, ainda que a fragmentação política tenha se mantido.

Importante para o estudo da religiosidade dos nórdicos antigos é a explosão da produção de petroglifos que se verifica no princípio da idade do bronze. Antes disso essas gravações são poucas, e após a consolidação da idade do ferro elas desaparecem para retornar séculos depois já através das pedras rúnicas.

Tais gravações devem ter sido muito importantes para consolidar a nova cultura, diante dos resquícios mais imponentes do período anterior.

Mulheres são muito pouco representadas e, quando são, não apresentam características que lhes vinculem a deusas nórdicas conhecidas. Símbolos solares, porém, são comuns, e a representação posterior desse astro enquanto uma deusa pode preencher essa lacuna. A figura solar carregada sobre carroças ou barcos, lembra as procissões que carregavam figuras divinas, retratadas por Tácito já no período do império romano.

Aspectos do culto a Freyr, como espadas, javalis e a cópula com éguas, surgem em pinturas rupestres do período.

Um culto primitivo ao Thor também parece ser representado em figuras que portam um machado/martelo. Inclusive existe um petroglifo representando um casal ao lado de uma figura portando o machado, numa cena que lembra a “benção” feita com o Mjollnir à casamentos durante a era viking.

19141630_141468549747568_1709176703_n

Outra evidência da importância ritual do machado é o grande número de machados de batalha encontrados nas sepulturas individuais da idade do bronze escandinava. São tão frequentes que o ramo da cultura da cerâmica cordada escandinavo vai receber o nome de cultura do machado de batalha (Battle Axe Culture). Tais machados tinham duas lâminas e se representados de perfil seriam iguais ao “martelo” de Thor.

Possivelmente, uma divindade que se tornaria Odin também era representado em figuras portando lanças.

É nesse período que deve ter se consolidado o culto aos ancestrais, já que muitos povos germânicos remetiam sua origem a indivíduos específicos. O culto doméstico e ao fogo, com seus elementos animistas, também deve ter se consolidado nesse período, em detrimento do culto público.

Amuletos representando casais, e provavelmente casamentos, surgem e como não deviam ser muito relevantes os casamentos na anterior cultura matriarcal, é aqui que devem ter surgido as esposas divinas. Possivelmente a figura de Frigg começa a se separar da de Freiya, para ressaltar os aspectos de esposa e mãe, em oposição ao de “sacerdotisa”, guerreira e solteira que sob Freiya lhe relaciona com as mulheres da cultura anterior.

19113430_141468829747540_940384223_n

O isolamento Proto-Germânico

Todas as muitas referências a cavalos só podem ter surgido nesse período. O mito da vaca primordial, Audumbla, está presente em muitos povos indo-europeus, e mesmo que o gado já existindo antes na região, provavelmente o mito como conhecemos foi levado pelos ancestrais dos germânicos. Mitos como o de Gefjon, com seu arado, também não podem ter surgido antes. Os barcos são muito representados nos petroglifos, não há dúvidas de que os povos anteriores já dominavam a navegação, porém por falta de referências podemos supor que certos mitos envolvendo embarcações, como os barcos mágicos de Freyr e Ullr, ou a pescaria de Thor, tenham se consolidado nesse período.

Expansão inicial dos Germânicos

Expansão inicial dos Germânicos

Idade do ferro pré-romana

A idade do ferro começou de forma tardia na região. No momento em que a escassez de madeira obrigou os povos do oriente médio e Mediterrâneo a mudarem suas metalurgias do bronze para o ferro, o território germânico abrigava florestas formidáveis que não justificavam tal transição. Para mais detalhes sobre essa transição consulte “História das florestas” de John Perlin.

Por isso o surgimento da metalurgia do ferro só pode se consolidar por influência externa.
Essa influência se deveu a grande expansão celta. Armados com o ferro, os celtas saíram de seu pequeno território na península Ibérica e tomaram quase toda a Europa de assalto. Atingiram as fronteiras oeste do território germânico cruzando o rio Reno e colonizando ambas as margens. Criaram grandes fortalezas na Belgica, construíram suas mais prósperas cidades nos Alpes e avançaram por todo o Danúbio, colonizando ambas as margens e seus afluentes ao norte, penetrando nas florestas da Europa central.

Os povos que compunham a cultura da cerâmica cordada foram empurrados para o norte e confinados a um território muito menor do que antes, durante pelo menos três séculos. Isso deve ter favorecido uma unificação cultural e provocado a etnogenese dos proto-germanicos. Para a felicidade deles, os celtas não possuíam nada equivalente a um império, como o romano, que lhes assegurasse as fronteiras. Graças a isso os germânicos puderam se recuperar, aprenderam a forjar o ferro e expulsaram os celtas para além do Reno. Junto a outros povos também submeteram os celtas do Danúbio.

É por esse período que um culto a Odin deve ter começado a crescer, ainda em seus nomes “primitivos”. Isso porque Odin está associado a organização das elites guerreiras, que não teriam bons motivos para crescer sem ameaças externas. A própria denominação “german” significa lanceiro, e apesar de ser uma forma dos outros povos lhes chamarem, é um termo das línguas deles e deve ter sido um forma comum dos guerreiros se identificarem.

19114620_141477639746659_1131180868_n

Um bactreate mostrando um precursor de Odin. As patas podem ser a forma de mostrar as 8 patas de Sleipnir.

Os mitos que envolvem ferreiros, como Volundr, podem ter surgido antes, na era do bronze, mas é provável que tenham tido maior importância com o ferro. Considerados uma espécie de magos, os ferreiros tinham importante status social. Devido a grande semelhança do mito entre todos os povos germânicos em que foi registrado, ele provavelmente se consolidou nesse período de etnogenese.

É difícil avaliar quanta influência os proto-germânicos sofreram dos celtas. As evidências arqueológicas demonstram que os objetos celtas eram muito valorizados, sendo encontrados em muitas sepulturas. Fruto da pilhagem, ou do comércio, o fato é que tais objetos serviram de inspiração para a produção própria germânica, e certos símbolos, como o “triskele”, só aparecem na região a partir desse período.

Império Romano

Quando os romanos se expandiram pela Europa eles acabaram sendo limitados pela resistência germânica. É possível que os conflitos provocados pelos romanos com os celtas, ilírios e dácios, tenham enfraquecido esses povos e permitido aos germânicos se expandir, sobretudo ao sul, até alcançarem as margens do Danúbio. Após quase um século de tentativas, os generais romanos desistem de avançar e passam a manutenção das fronteiras fortificadas.

Em termos de cultura material, o contato prolongado com romanos beneficiou os germânicos tal como ocorreu antes durante a expansão celta. O surgimento de uma escrita própria dos germânicos nesse período, as runas, pode ser fruto de um contato anterior com o alfabeto grego usado pelos celtas, mas sua consolidação certamente teve influência romana. Por serem associadas a Odin, uma divindade da aristocracia guerreira, as runas podem ter tido função militar, tal como as cartas trocadas entre generais romanos, os chefes germânicos podem ter trocado mensagens talhadas em materiais perecíveis, como madeira, que não sobreviveram até nossos dias. Tácito também cita a utilização do que podem ter sido runas como um oráculo consultado antes de batalhas, mais uma associação com Odin.

A presença romana, pode ter agregado elementos mediterrânicos a cultura germânica. Por exemplo, as Nornes podem ser uma adaptação, ainda que modificada, das Moiras gregas. A ideia de deusas conhecerem o destino das pessoas e deuses é provavelmente anterior, mas a configuração em três figuras é bem especifica.

Outra influência é a descrição de Odin tomar vinho enquanto os demais æsir, e einherjar, bebem hidromel ou cerveja. O vinho, bebida típica mediterrânea, era raro e caro no norte da Europa, sendo uma distinção aristocrática Odin bebê-lo, ao mesmo tempo em que a ausência de referências mitológicas à fabricação dessa bebida, contra tantas de hidromel e cerveja, demonstra seu caráter de novidade.

Período das migrações/ Idade do ferro pós-romana

A queda do império romano foi um processo gradual provocado pela migração constante de povos germânicos para dentro das fronteiras do império. Nas últimas décadas antes de ninguém mais assumir o risco de se chamar “Imperador romano do ocidente”, grande parte dos combates se davam entre germânicos servindo ao império, contra germânicos “de fora”.

O ouro romano, nesse período, fluiu em abundância para o território germânico. Espécies de medalhas, chamadas bactreates, foram feitas a partir de moedas romanas usadas para pagar mercenários romanos, ou aplacar a fúria de atacantes. Os bactreates continham inscrições rúnicas, e imagens. Acreditasse que um figura muito frequente, associada a um cavalo e uma ave, seja Odin, ou seus deuses precursores. Frigg/Freya também aparecem em alguns.

Coincide com esse período a cultura Vendel na Suécia, caracterizada por uma abundante produção em ferro e o uso de cavalaria pesada nos combates. O ferro suéco foi, junto a peles e âmbar, um importante produto de exportação para essa cultura.

O mito heroico do Nibelungo, surge após a queda do império romano, tendo como um dos personagens Átila, líder dos hunos que aterrorizaram os povos germânicos do sul, e se tornou lendário entre muitos povos. Boa parte dos acontecimentos do mito envolverem a cobiça por um tesouro demonstra o quanto a pilhagem sobre o império romano impactou o imaginário germânico com cenas de riquezas fabulosas.

A queda do império romano em si levou ao surgimento, ou ressurgimento, de mitos de ancestrais heroicos, como Seaxnet para os saxões ou Gaut entre os godos. Isso graças a intensa etnogenese do período, ou seja, a formação de novos povos a partir dos povos germânicos que se desestruturavam no movimento migratório e se recriavam nos novos locais em que se estabeleciam.

Era Viking

Enquanto a maior parte dos germânicos que se instalaram na Europa ocidental foram cristianizados através do poder centralizador das monarquias francas e visigodas, os nórdicos permaneceram distantes dos missionários católicos.

Muitos são os fatores levantados para a ocorrência da era Viking. Importante aqui é salientar o sentimento de vingança contra os cristãos. Isso se deveu às “guerras saxônicas”, uma série de conflitos onde os francos carolíngios impuseram o cristianismo aos saxões, assim como a submissão destes ao seu império, no século VIII. Os saxões eram os vizinhos logo ao sul dos nórdicos dinamarqueses, e sua submissão significou que os cristãos alcançaram as portas do mundo nórdico. Fragilizado por conflitos internos, o império carolíngio, junto às ilhas britânicas e Irlanda entraram no repertório de saques provocados pelos nórdicos, que já desde a cultura Vendel vinham praticando suas pilhagens entre os povos do báltico e o eslavos.

O culto ao Odin nórdico, tão bem conhecido, provavelmente se fortaleceu na Escandinávia durante esse período e ,cada vez mais, com a formação das monarquias necessárias, primeiro, para fazer frente ao avanço dos cristãos (Dinamarca), e depois, para avançar contra estes.

Como demonstrado em algumas sagas, para melhor se integrar, às elites norueguesas, os islandeses “trocavam” seus cultos natais de Thor ou Frey, para o de Odin. Os reis remetiam suas genealogias aos æsir e vanir, num movimento típico de divinização das monarquias, ainda que tardio e sem o impacto político que havia na antiguidade. Odin passa mesmo a ter aspectos cada vez mais ampliados nesse período final, inclusive havendo suspeitas de influência cristã em algumas partes de seus mitos compilados pelos islandeses, ainda que os elementos pagãos, felizmente, preponderam.

Outra possível influência do mundo cristão foi a criação de templos fechados para o culto aos deuses, como o de Uppsala, que continha estátuas de Thor, Odin e Freyr, e onde eram realizadas grandes festividades a cada nove anos.

Conclusões

Se vc leu até aqui, espero que eu não tenha me expressado de forma muito confusa. A grande quantidade de elementos dos costumes pagãos germano-escandinavos torna difícil uma boa análise da evolução histórica da religiosidade desses povos. O fato de nem todos os elementos de tal paganismo terem sido levados pelos germânicos “do berço” apenas demonstra sua capacidade de adaptação e renovação ante as adversidades, e o reconhecimento do valor dos costumes dos povos com quem interagiram.

Certamente um estudo mais aprofundado, utilizando mais fontes, seria mais adequado e provavelmente irá contradizer algumas das minhas hipóteses. E ficarei muito satisfeito se assim ocorrer para o melhor entendimento, e uma fiel reconstrução do paganismo germano-escandinavo.

Versão 1.1 de 12/06/17

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s