Pra que religião?

Este site, assim como outros sites, versa muito sobre religião — desde a reconstrução de uma crença antiga, a uma crença moderna da qual tentamos nos desvencilhar. Existem aqueles que dizem que paganismo não é religião, mas um estilo de vida; existem aqueles que relegam o budismo ao campo da filosofia; existem aqueles que acham que, sem religião, não vivemos.

Recentemente eu fiz justamente a pergunta do título em grupos sobre paganismo germânico/heathenismo. As respostas foram muitas, das mais diversas. Pra que serve a religião? Alguns dizem que é sobre controle. Outros dizem que é sobre comunhão. Para organizar tribos, para controlar pessoas, para passar um compasso moral, para dar sentido à vida e uma noção de propósito, para explicar o mundo…

Minha pergunta não foi esperando resultados embasados em estudos antropológicos, em sociologia ou história da religião. Eu realmente queria saber o que as pessoas, quem quer que sejam, acham que é religião e para que serve.

Bem, eu li todas as respostas. Eu, claro, tenho minhas próprias ideias. São essas ideias que gostaria de passar aqui, deixando bem claro que são apenas e unicamente a minha opinião sobre o assunto.

Eu tenho uma tendência a procurar, ou até mesmo achar, respostas em locais pouco explorados. É uma característica minha; eu tendo a pensar não de forma verticalizada, mas de forma horizontal. Radial, talvez. Pode ser útil às vezes, outras vezes nem tanto. Mas enfim.

 

Religião é uma palavra que por si só é complicada de definir. O termo vem do latim, religare, reconectar. Mas conectar-se a que? Deidades? Outras pessoas? O sobre- ou supernatural? É uma daquelas palavras que trazem imagens, intuitivamente, pra nossa cabeça, mesmo que nós não saibamos precisar sobre o que exatamente falamos.

Igrejas, talvez. Construções com cruzes. Pessoas com vestimentas especiais, liderando fiéis, talvez. Claro, temos uma visão ocidental do que é religião. Uma visão pautada na crença judaico-cristã. Talvez vejamos pessoas com coroas de flores, dançando em volta de uma fogueira. Vai da experiência de cada um.

Eu, Andreia, fui uma ateia feliz por vinte oito anos dos meus trinta e dois anos de vida. Eu me lembro de questionar a existência do Deus cristão aos seis anos. Já mencionei isso outras vezes aqui e no meu próprio blog. Eu nunca vi muito sentido no sobrenatural, e muito menos em poderes mágicos e em milagres.

Minha visão claramente mudou, ou eu não estaria escrevendo isso aqui. Mas, uma coisa muitos religiosos esquecem: a vida sem deus(es) não é horrível. Ela não falta em sentido ou em profundidade. Ateus e ateias muitas vezes encontram o mesmo êxtase que muitos encontram na religião, em outras coisas. No céu estrelado, na noite profunda, nas nuvens, no sol, nos animais, nos rios e mares. Na música e na arte. Eu era uma ateia feliz e hoje sou uma heathen igualmente feliz.

(Eu gosto de imaginar que, há muitos séculos, algum ancestral meu encontrou o mesmo êxtase que eu no céu estrelado e na noite profunda. E que ele ou ela, assim como eu, sentiu a imensidão além e se perguntou: de onde veio tudo isso? Como tudo isso se construiu?

E talvez nós tenhamos chegado a conclusões diferentes a respeito. Mas a imensidão é a mesma, e o êxtase, o mesmo.)

Mas, é fato que humanos, muitos humanos, quase todas (se não todas) as culturas humanas têm algum tipo de crença. Elas podem até ser crenças que não incluem deidades (como algumas vertentes do budismo, e o próprio daoismo de Laozi, muito modificado ao longo do tempo). Mas existe uma crença.

Crença em que, se não em deus(es)? Em ancestrais, em espíritos, na vida dos rios e dos mares; nos simbolismos das estrelas e dos sinais da natureza; nos poderes de uma série de seres, visíveis e invisíveis; em reencarnação, em karma, no dao ou na ørlög.

Voltando ao achar respostas em lugares inusitados.

Eu sou escritora, nas horas vagas. Sim, de ficção. E como tal, leio muito sobre a estrutura literária, a arte de criar histórias e tramas. E foi lendo um desses livros que me veio a opinião que demonstrarei a seguir.

Esse livro (Story Genius) parte de uma ideia interessante. O cérebro humano é voltado para histórias. Nós, humanos, percebemos tudo em termos de narrativa, e a narrativa vem, de certa forma, nos instruir, entreter e alertar, nos oferecer ferramentas para lidar com o mundo que não conhecemos, com certas situações que poderiam muito bem nos matar. Essas situações podem ser concretas, embora improváveis (como escapar de um apocalipse zumbi?), quanto emocionais (o que faríamos se nos apaixonamos, ambos pacientes terminais?), quanto sociais (como seria o mundo na mão de ditadores que nos vigiam o tempo todo?). Não importa o quão fantástica, qualquer narrativa tem um fundamento humano, em problemas humanos, por ser criada por humanos e para humanos.

Isso é tão forte, que estamos usando histórias para ensinar ética e moral a inteligências artificiais.

Mas, o que isso tem a ver com religião?

Eu penso que a religião é a narrativa de um povo.

Mas como assim?

Explico.

No passado mais distante, não havia filosofia, religião e cultura. Não porque essas coisas não existiam, mas simplesmente porque eram a mesma coisa. Assim como não havia distinção entre o estado e a prática religiosa, não havia uma separação entre filosofia e pensamento religioso. Isso porque a religião, de uma forma geral (pagã ou judaico-cristã) tem uma característica: ela orienta o pensamento de um povo, sua ética, seus valores. Aquilo que é considerado sagrado, aquilo que é tabu, aquilo que é precioso, aquilo que é perverso.

Isso não quer dizer que essas coisas dependem de crença em algo sobrenatural para existir, porque crença em deuses e outros seres é apenas um aspecto de uma religião. Claro, ele é um aspecto importante, porque a crença, em maior ou menor grau, é o que influencia o pensamento e os valores de um povo. Ora, se você acredita que pessoas tem um direito à liberdade, à vida e à propriedade privada, isso é uma crença. Não há nada objetivamente concreto nisso, e removendo-se os deuses e outros seres dessa natureza, não há nada que force tal coisa a ser real. Mas essa crença cria toda a narrativa cultural de um povo, de forma idêntica à religião que estamos acostumados a ver.

Claro, nós podemos arrumar mil justificativas para tal crença, mas ela não deixará de ser menos arbitrária, não será mais concreta, apenas porque concordamos ou discordamos dela. Durante séculos humanos mantiveram escravos; o direito à liberdade individual nunca se estendeu a eles. Assim como o perdão divino não se estende a hereges. Por quê?

Ora, porque essa é a narrativa dos povos que acatam tais crenças. Essa é a narrativa que permeia toda sua existência e tudo que fazem.

Claro, essa é uma simplificação enorme. Humanos diversos têm crenças diversas, embasadas religiosamente ou não, em coisas concretas ou empíricas ou não.

“Mas,” alguém pode perguntar. “E daí?”

E daí que é mais que importante, é fundamental, pensar nisso. Qual a narrativa que você quer para seu povo? A narrativa heathen vem embasada em mitos (contos que não devem ser levados literalmente, mas pensando em seu potencial simbólico assim como seu sentido literal). Valhalla é um grande campo de batalha, mas o que isso significa? Obviamente, que grandes guerreiros serão recompensados, porque a guerra fazia parte da narrativa cultural dos povos que acreditam em Valhalla. Mais que isso, que, como tudo que tem um princípio, os próprios deuses enfrentarão seu fim — o tempo é cíclico, como o passar das estações.

Esse, claro, é só um exemplo. Há outros. Os deuses dependem de “maçãs mágicas”, pois não são imortais por si só. Thor é derrotado pela encarnação da Velhice — aquela força que nem um deus, poderoso como Thor, pode derrubar. Há lições nesse meio. Noções que ensinam sobre a natureza dos deuses, tanto quanto sobre a natureza humana. Contra a velhice, nem mesmo os deuses podem lutar. Ela é absoluta.

A saga de Volsung demonstra que nem sempre o contato com os deuses é positivo. Outras tantas mostram que eles podem falhar, que podem errar.

Narrativas culturais, de uma cultura que não dependia de milagres nem de compaixão divina para sobreviver. De auxílio? Sim, mas condicionado a uma oferta. Um presente por um presente. Nada é de graça; algo positivo deve ser recompensado.

Dentro dos mitos, encontramos, literalmente, a narrativa. Mas ela também está presente nas músicas, nos instrumentos, nas roupas, nas canções folclóricas; na comida e nos costumes. Tudo isso entremeia o pensamento mítico-religioso e o pensamento cultural.

Pode parecer que eu estou dizendo que os deuses não existem, que é tudo um artifício — uma ficção — para educar humanos. Mas não é bem assim. É perfeitamente possível que os deuses existam — e perfeitamente possível que não existam. Isso, é algo que ninguém saberá com absoluta certeza. Nossos sentidos limitam nossa capacidade de perceber o mundo, e tudo que percebemos é através deles. Assim como não conseguimos imaginar uma cor que não podemos enxergar, não podemos ter certeza absoluta que deuses e outros seres existem ou não.

Claro, temos as evidências de nossas crenças, sentidos, pensamentos, sonhos. Todas essas coisas são reais, porque elas existem, elas acontecem. E nós, como humanos, colocamos essas coisas na narrativa que nos agrada.

O heathenismo me agrada. Ele traz uma narrativa que eu gosto, uma filosofia e uma maneira de ver o mundo que é tão simples quanto é profunda, tão bela quanto primitiva (não primitiva em um sentido pejorativo, mas no sentido de primal, de primordial).

Poderia, claro, ser qualquer outra narrativa — de qualquer outro povo.

No passado, as pessoas nasciam inseridas nessa narrativa. Hoje, nós podemos escolhê-las, temos acesso ao grande mercado de ideias. Hoje, nós frequentemente abandonamos aquela narrativa em que nascemos, em busca de outras. Quer seja ateísta, quer seja pagã, quer seja budista ou católica ou islâmica.

E assim encontramos nosso povo, aqueles que pensam como nós.

Outras narrativas agradam a outras pessoas. Mas como minha narrativa é de aceitação do mundo real e concreto em que vivemos, e não universalismo, isso não interfere na minha crença. Elas podem crer em outros deuses, e esses deuses não necessariamente deixam de existir por causa disso. Nem os meus, é claro. E a terra continua sendo a terra, e o mundo continua sendo o mundo, a wyrd (parte de minha narrativa) continua seguindo inexorável.

Nosso mundo é vasto. Nele convivem diversas narrativas, diversos deuses, diversos seres, vivos e nem tão vivos. O universo pode ser hostil (a força de um terremoto, o poder uma tsunami, a devastação de um vulcão), mas ele também é acolhedor. Tão acolhedor, que pequenos primatas bípedes conseguiram sobreviver o bastante para olhar para a noite estrelada e ver Nótt em seu cavalo, Hrimfaxi.

Se Nótt e Hrimfaxi existem de verdade, pouco importa. Eu os vejo e, talvez, eles me vejam de volta. Ou não.

Afinal, essa é a narrativa que eu escolhi.

faxi-small.png

Skinfaxi e Hrimfaxi, os cavalos do sol e da lua. Montagem por mim mesma.

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