Honra: “Eu não penso que a palavra significa o que você pensa que significa”

 

Por Christopher Scott Thompson
Publicado originalmente em Gods and Radicals 

Tradução de Gabriel O Dughghaill

O tema da “honra” é de interesse para alguns heathens e pagãos, especialmente aqueles que se vêem num “caminho de guerreiro”. De acordo com o “Heathen Handbook” do Wodens Folk Kindred:

A honra é o fundamento da sociedade pagã. Honra é a medida de uma pessoa de sua virtude e valor… A honra de uma pessoa vem de dentro…

Isso me lembra uma cena do filme Rob Roy, em que o protagonista (um guerreiro Highlander do século 18) diz a seus meninos que a honra é “um presente que você dá a si mesmo”, e que ninguém pode tirá-lo de você .

Infelizmente, esta não é uma compreensão historicamente exata da honra, seja na sociedade gaélica retratada no filme ou na antiga sociedade nórdica. No entanto, não é por acaso que o Wodens Folk Kindred e o roteirista de Rob Roy interpretaram a honra exatamente da mesma forma, porque a sociedade americana moderna não mais valoriza a honra como antes e esqueceu em grande parte o que originalmente significava.

Na sociedade americana, não há muito tempo, a honra não tinha nada a ver com sua medida interna de seu próprio valor, definitivamente não vinha de dentro e outras pessoas poderiam facilmente tirá-la de você. De acordo com artigo dos arquivos do governo do estado de Missouri sobre a cultura de duelos sulista:

O duelo geralmente se desenvolve a partir do desejo de um cavalheiro (gentleman) de corrigir um insulto percebido contra sua honra. Acreditava-se que era melhor morrer respeitosamente em um duelo por um insulto do que viver sem honra … Somente os cavalheiros eram considerados honrados e, portanto, elegíveis para duelar. Para manter o status e posição social, um cavalheiro tinha que estar disposto a se arriscar no campo (de batalha) da honra. Por outro lado, o Código do Duelo rejeitava que homens de classes sociais desiguais resolvessem, seus conflitos, por meio de duelos. Se um cavalheiro foi insultado por uma pessoa de classe baixa ele não a duelaria, mas poderia proceder com punição por chicotadas ou uma surra para humilhar seu oponente.

Em outras palavras, a honra nos Estados Unidos não era definida pelo que você pensava de si mesmo, mas apenas pelo que outras pessoas pensavam de você. Honra era a mesma coisa que status social, reputação, poder percebido na comunidade … em uma palavra, privilégio.

Se você não tem privilégios suficientes em relação à pessoa com quem você estava em conflito, você não tem nenhuma honra a perder, então você não tem permissão para se ofender com qualquer coisa que ele disse ou fez. Por outro lado, se ele ficou irritado com qualquer coisa que você disse ou fez, ele poderia bater-lhe publicamente com um pau ou um chicote. Se vocês dois fossem mais ou menos iguais em status, resolveriam o problema através de um combate letal. Isso não mudou realmente – durante a era do duelo, os principais assassinos de aristocratas eram outros aristocratas e os principais assassinos de pessoas de classe baixa eram outras pessoas de classe baixa.

Nos Estados Unidos modernos, assaltos e homicídios geralmente ocorrem entre pares e muito frequentemente sobre questões de respeito e desrespeito. Isso tem muita relevância em eventos recentes – se você quiser reivindicar auto-defesa após um tiro, ajuda se tiver status social mais elevado do que a pessoa em quem você atirou. Se você tem status social ou privilégio inferior, suas ações provavelmente não serão interpretadas como autodefesa pela polícia, promotores ou júris. Toda pessoa tem o mesmo direito de se defender de um assalto violento na lei como está escrito, mas não na lei como efetivamente aplicada. Assim como na cultura do duelo do século 19, a violência deve ser usada no mesmo nível social ou para baixo – mas nunca para cima.

De acordo com o Wodens Folk Kindred:

No mundo moderno, muitos riem de honra como um conceito ultrapassado e irreal.

Isso pode ser verdade, mas se a honra é apenas uma medida de quanto privilégio a comunidade lhe concede – incluindo o privilégio de dominar violentamente aqueles de status inferior – então talvez não devêssemos estar idealizando-a em primeiro lugar.

Mas isso é o que a honra significava para nossos ancestrais pagãos e politeístas? De acordo com o falecido Alexei Kondratiev, todas as antigas palavras celtas para honra referem-se a sua reputação e poder percebido, não a sua integridade interior:

A palavra tradicional irlandesa que normalmente é traduzida como “honra” é “oineach”… o que originalmente significa “face”… Assim, a idéeia de honra está relacionada principalmente com a “face” que deve ser salva aos olhos da comunidade. Um conceito intimamente relacionado, frequentemente mencionado nos mesmos contextos, é o de clú (“reputação” ou “fama”), que vem de uma raiz indo-européia que significa “ouvir” e, portanto, refere-se ao que está sendo dito sobre alguém. Ser honorável, então, é manter a “face” diante da comunidade e ser “ouvido” de uma boa maneira. Desonra vem de perder “face” e ser “ouvido” de uma maneira ruim. O termo ‘enech’ também expressa a idéia de poder pessoal, desde que alguém tenha “face” na comunidade é capaz de influenciar os outros: assim, as pessoas ou coisas que são sua responsabilidade ou sob sua proteção são descritas como sendo “em” ou “sob” a sua “face”. Quando você perde a “face”, é claro, você não é mais capaz de estender a proteção… O que emerge disso é um sentimento de honra e desonra sendo muito definido pela comunidade, ao invés dos códigos de honra individualmente escolhidos que são mais característicos do nosso modo de pensar moderno.

De acordo com o livro “Honor” de Frank Henderson Stewart, o antigo conceito de honra nórdica foi originalmente definido pelo mikilmenni ou “Grande homem” – um homem com bons antepassados, influência social, uma personalidade dominante e riqueza. Em outras palavras, o privilégio e o respeito da comunidade, assim como em outras culturas. No entanto, os nórdicos desenvolveram mais tarde um conceito que eles chamaram de drengskappir, que se baseava mais na coragem individual e na integridade e menos na opinião da comunidade ou no poder político. Drengskappir estava disponível não só para “Grandes homens”, mas para as pessoas livres de todas as classes.

No entanto, embora a drengskappir estivesse provavelmente muito mais próxima das idéias modernas de honra como uma espécie de integridade interior, ainda era largamente determinada pela opinião da comunidade. De acordo com Hurstwic (uma organização de pesquisa histórica Viking):

A fama e a honra de um homem na vida, e seu bom nome após a morte, eram tão importantes que um homem era hipersensível à opinião da comunidade. Ele pode não ter medo de nada, nem hesitar com a morte, mas o respeito da comunidade era de suma importância. Qualquer ofensa em palavra ou ação, ou qualquer coisa que pudesse borrar a honra de alguém tinha que ser tratada com firmeza, a fim de manter esse respeito. Assim, um nórdico estava constantemente em alerta para os equívocos contra sua pessoa ou seu nome. Esses equívocos eram proclamados abertamente, e depois vingados.

Assim, drengskappir estava disponível para as pessoas de mais de uma classe social, mas ainda era muito dependente da opinião da comunidade e da vontade da pessoa que alegou ter drengskappir para defender essa reivindicação por força violenta. É essencialmente um equivalente menos classista do Código de Duelo posterior, e assim como o ele, requer extrema sensibilidade ao insulto como uma pré-condição de qualquer reivindicação de honra.

É aqui que toda a questão da honra em um contexto heathen ou pagão se torna irônica. “The conservative Pagan, Heathen and Traditionalist Webring” (uma organização online), agora defunto, descreveu-se como colocando “um alto valor na razão, honra e piedade, e nenhum no politicamente correto.”

O Google define o politicamente correto como “o repúdio, muitas vezes considerado como levado a extremos, de formas de expressão ou ação que são percebidas excluindo, marginalizando ou insultando grupos de pessoas socialmente desfavorecidas ou discriminadas”.

Assim, na verdade, os “pagãos conservadores” estavam dizendo que não tinham intenção de conceder honra (o direito de se ofender) àqueles que eram de status social inferior (os “socialmente desfavorecidos ou discriminados”). Assim como no Código do Duelo , a honra só está em vigor entre aqueles de igual privilégio – uma pessoa de status inferior não pode se ofender porque eles são percebidos como não tendo nenhuma honra a perder.
Os conservadores geralmente se queixam de que as pessoas se tornaram muito sensíveis aos insultos. Isso pode ser verdade, mas historicamente um “homem de honra” era, por definição, uma pessoa que era hipersensível ao insulto. Dizer “ele não se importa com um insulto” era uma acusação grave de covardia e teria como resultado um duelo – no Velho Sul (dos EUA) ou na antiga Islândia.

Assim, as pessoas marginalizadas se ofenderem com os insultos pode ser entendido como uma afirmação de que eles também têm honra ou status, e descartar isso como “politicamente correto” pode ser entendido como uma tentativa de mantê-los “em seu lugar”.

Como pagãos e politeístas modernos, isso significa que devemos nos livrar completamente do conceito de honra? Năo acho que possamos. Se a honra é simplesmente sua reputação e status na comunidade, então a honra estará sempre conosco de alguma forma. Há aspectos dos velhos códigos de honra que muitos pagãos ainda admirariam, como a ênfase em ser moralmente corajoso e fiel à sua palavra como uma condição prévia para ser honrado pela comunidade. Mas criamos nossa própria comunidade, então decidimos por nós mesmos o que queremos honrar e o que não queremos.

Os antigos noruegueses honravam aqueles que vingavam os insultos com violência, mas não precisamos. Podemos escolher honrar aqueles que falam quando são insultados mesmo sob a ameaça de violência daqueles com maior status e poder. Podemos escolher honrar aqueles que honram a todos em vez de apenas os membros de sua própria classe privilegiada.


Christopher Scott Thompson é um escritor, instrutor de esgrima histórica e membro fundador de Clann Bhride, os Filhos de Brighid. Era ativo na ocupa Minneapolis e ocupa St. Paul. Sua escrita política pode ser encontrada em https://alienationorsolidarity.wordpress.com/

 

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