Crer nos deuses certos ou agir corretamente?: Um dilema na Ásatrú

Por Sonne Heljarskinn

Tentarei, por vários motivos ser breve neste texto. Por isso alguns pontos serão aprofundados apenas futuramente.

Esse texto será apenas um amontoado rápido de questionamentos. Espero que sirva para causar reflexão tanto em pagãos recentes, ou mesmo naqueles que são filhos de pagãos.

Um comentário sobre a conversão dos germanos ao cristianismo

O cristianismo não é apenas uma “Fé”. Ele é uma maneira de enxergar a realidade. Ele é uma cultura. Os primeiros cristãos, ainda que convertidos, não eram cristianizados. Cristianização e conversão são coisas diferentes. Quando alguém se “converte” ao cristianismo, ele “adere” ao cristianismo. Pense nos seguintes termos: Imagine que alguém queira ensinar latim para você. O fato de você entender como funciona a flexão dos nomes em casos gramaticais como Acusativo, Genitivo, Dativo, etc, e fazer você ter vontade de aprender latim, e se autoproclamar um “adepto/estudante do latim” vai fazer, por si só, você falar latim? Quando alguém é “cristianizado”, todavia, é quando o processo atinge o seu ápice. É quando os antigos passaram a viver no mundo de ideias cristãos, enxergar a realidade como cristãos. A Sol deixou de ser feminina e viva, as árvores deixaram de ser milagrosos seres, a voz dos pássaros não podia mais ser ouvida. Comparando linguisticamente, é quando você é capaz de ver, ouvir, entender, falar em latim fluentemente, como se fosse sua própria língua — ou num grau não tão distante disso.

Crer nos deuses pagãos?

Já falei sobre isso em outro texto. A aceitação do cristianismo por parte dos germanos significou profundamente a adoção de novos paradigmas de pensamento. O que isso significa? Que, por exemplo, a ideia de vida após a morte era mais ou menos estranha, na forma que os cristãos a apresentavam.

Você já viu Power Rangers? Onde vários rangers se juntam, e formam um megazorde que era guiado por todos eles, do qual todos eles tinham uma parcela de responsabilidade no funcionamento? Uma tribo pagã funcionava de maneira similar. A “identidade”, “personalidade” não era algo pessoal, mas tribal. Não importa a sua honra, você nunca vai ser considerado “bom” ou “honrado” se seu clã/tribo for reconhecido como corrupto. Você será apenas mais um corrupto, porque você não carregava a identidade de “José” ou “Maria”, mas de “tribo X” ou “tribo Y”. Você era parte deles, e eles eram parte de você. Logo, a noção de salvação pós-vida individual era meio complicada de se entender — era como dizer que seu braço podia ser salvo e sua perna ir pro inferno. O cristianismo fragmentou a identidade dos germânicos para que eles pudessem entender o que era o cristianismo — e como vemos pelas reformas, eles não entenderam muito bem nunca, mas é óbvio que ficaram bastante distantes do paganismo.

Eu citei apenas um exemplo. Existem várias ideias pagãs que precisaram ser esmagadas antes do cristianismo ser adotado como religião entre os germanos. Mas isso implica que a relação de Fé, fundamentalmente dependente da “Salvação Individual” oferecida pelo deus cristão, não pode ser exatamente aplicada aos deuses pagãos, justamente pela ausência do conceito de indivíduo entre os pagãos antigos.

Agir de acordo com os costumes

O paganismo, então, não era apenas um sistema de crenças. Ele era uma ritualística profunda: existiam ritos para permitir batalhas — e assegurar a vitória nelas — para as pessoas se unirem, para filhos ganharem nome, para se caçar, para entrar na vida adulta, e esses costumes eram formas a sociedade manter a sua identidade, segurança e frith (paz, felicidade, prosperidade). No que isso difere dos batizados cristãos, por exemplo?

Imagine da seguinte forma. Cada povo possui os seus valores, coisas que reconhece como benéficas e prejudiciais, suas comidas típicas, etc. Por exemplo, fumar maconha no Uruguai, em alguns estados dos EUA ou em Amsterdã, por exemplo, dependendo de várias circunstâncias,  pode não ser considerado ilegal, isto é, fora da lei. No Brasil, todavia, não existe essa possibilidade — embora o porte que seja enquadrado como “usuário” não seja mais vítima de tantas perseguições, como no passado. Esses costumes se manifestavam também na relação com os deuses. Não bastava “crer” nos deuses da mesma forma que não basta dizer que ama uma pessoa para se estar casada com ela. É preciso aliança no dedo, é preciso estar sob o mesmo teto, etc. Nada disso também faz sentido sem o cuidado mútuo entre o casal, por exemplo.  Da mesma forma com os deuses: eles eram parte da comunidade humana e espiritual, eles recebiam presentes, e as ofertas/sacrifícios foram, por centenas (ou milhares) de anos a forma primária de honra aos deuses. Qualquer local religioso que seja escavado vai demonstrar quantos objetos, animais, pessoas, foram sacrificados, quebrados, pendurados em árvores, jogados em poços, etc. A “fé” nunca foi o suficiente: existia a contraparte disso, a forma como essa fé se manifestava: o costume.

Problemáticas contemporâneas

Tudo isso pode ser um pouco complicado de entender para os pagãos, sejam eles recentemente “desconvertidos”, sejam eles filhos de pagãos de uma ou duas gerações. O processo de cristianização, como vemos no começo de nossa conversa, não era algo instantâneo, mas progressivo. Da mesma forma é o processo de “descristianização”. O cristianismo destruiu a tribo e ofereceu o modelo decadente da civilização romana como progresso, um processo que a Europa não está deixando de pagar seu preço nos dias atuais. A cidade, a família como ela está condicionada na cidade, a maneira como enterramos nossos mortos, a maneira como vemos plantas, animais, deuses, tudo isso está profundamente influenciado pelo cristianismo à nossa volta.

A descristianização é um processo, do qual talvez nenhum de nós seja capaz de completar. Isso não é pra nos desmotivar. O pagão germânico sabe que sua vida não se resume em si mesmo, mas passa através de si, vindo de seus ancestrais e indo para as gerações futuras. Nada mais honrado do que começar o quanto antes esse processo de libertação do cristianismo e alteração de cultura. Todavia, nenhum de nós consegue se fechar para a sociedade à nossa volta, completamente. E, mesmo que isso fosse possível ainda assim jamais conseguiríamos simplesmente formatar nosso cérebro e instalar outra cultura na nossa mente. O processo de paganização é algo que exige consciência desperta, olhar e perceber a personalidade de árvores, do vento, de animais, pedras, perceber as sutis forças que passam despercebidas por nós a cada momento. Requer não apenas aprender e transmitir as histórias dos deuses, mas também ver as novas histórias que nascem a cada dia, ver a sacralidade da própria família, esteja ela viva ou sejam nossos honrados ancestrais, sejam eles pagãos ou não.

Dessa forma, pretendo ter evidenciado porque o processo de paganização ou descristianização é algo lento, que independe de simplesmente colocar um Mjöllnir no pescoço, ouvir determinado tipo de música (MODERNA!), “acreditar” nos deuses antigos; não é simplesmente uma cultura que se compra, mas uma cultura que se aprende e se pratica. A aprendemos dos relatos sobre os pagãos antigos, analisando os vestígios que deixaram e aplicando os seus costumes em nossas vidas. Dessa forma, que não é a única, mas é uma forma muito importante de ser resgatada, o paganismo se torna plenamente um reavivamento das ações dos antigos, abordando o paganismo da mesma forma como eles o abordavam: como uma cultura com seus hábitos, maneiras de pensar, agir, e não simplesmente a crença vazia em divindades, o que nos foi ensinado pelo cristianismo.

Por isso, quando enfatizamos a necessidade de “agir corretamente” estamos nos afastando da ideia “ortodoxa” — cristã — e nos aproximando da “ortopráxica” — das religiões populares e tribais. Quando você vê que destacamos a importância de fazer determinadas coisas, é justamente pelo nosso alinhamento religioso, baseado no fato de que buscamos recuperar, repetir e desenvolver os atos culturais e religiosos dos antigos, e não queremos, com isso, ser uma espécie de mandões ou nada assim. Qualquer um quer encontrar as fontes, conseguir observar as práticas que nelas são relatadas, também as seguirá e desenvolverá da mesma forma que nós o fazemos. As práticas nunca serão iguais; todavia, no tempo dos antigos, quando elas eram baseadas no costume, e não na crença, elas também não eram — tão — diferentes assim, e possuíam um fio que as conectava entre as várias tribos germânicas, como o animismo, o culto ancestral, o círculo de presentes entre a comunidade humana, espiritual e divina, e os demais costumes que integravam o dia-a-dia de uma vida baseada na agricultura, na proteção contra tribos rivais, e no amor pelo seu próprio kin (família, tribo) e cultura.

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