O meu caminho até o culto doméstico (hearth cult)

Por Sonne Heljarskinn

Sunnôniz Fulka Herthaz

Geralmente faço textos bem objetivos, sobre aspectos generalistas da visão de mundo dos antigos povos germânicos, mas hoje a conversa é mais pessoal. Tenho estado um pouco afastado da escrita pois estou sem PC. Isso me deu a oportunidade de ler e viver muitas coisas, as quais eu gostaria de compartilhar com você.

Se tem um conselho que eu daria a qualquer pagão é: escreva aquilo que aprende, quando aprende. Eu tenho o costume de sistematizar e compartilhar as coisas que aprendo quando consigo evidência e fontes suficientes para isso, e termina que meus dois PDFs mais longos, acabaram ajudando a mim mesmo, não apenas a outras pessoas, e vou explicar a razão.

O paganismo é uma religião, um modo de pensar de liberdade. Embora eu discorde da forma como a maior parte da comunidade pagã nórdico-germânica entenda a antiga religião, eu acabei descobrindo que saber nem sempre é tudo.

O que quero dizer com isso? Olha, é claro que sua experiência é válida, mas nem sempre isso me é o suficiente. Eu sou um politeísta, animista, mas também um henoteísta, isto é, eu reconheço a verdade de todos os cultos, por exemplo o cristão, o islâmico, etc. Eu só não os pratico. E também não dou a mínima para que eles se pretendam a “Verdade Única”. Como eles agem e pensam é problema deles. Eu sou um heathen. Isso significa que por mais que você viva a sua experiência, se ela não possuir coerência com as diretrizes expostas na lore das sagas e documentos sobre os antigos pagãos, eu não considero isso legitimamente germânico.

Acontece que isso levava-me a me bater frequentemente contra todos, uma vez que a experiência é extremamente valorizada no Brasil. Mesmo quando ela contradiz ou escapa das diretrizes expostas pela lore.

Eu me defino como reconstrucionista, por dois motivos. O primeiro é que eu tento repetir atos dos antigos. Estou numa fase em que procuro pontos seguros sobre o que eles faziam e daí fazer. Eu não me considero totalmente seguro para criar, pura e simplesmente. O segundo motivo é que eu procuro manter fidelidade ao que os antigos faziam. Isso pode ser “vazio” para alguns, e eu posso garantir que não é para mim. Eu acho que nossa prática nossas ideias estão sempre evoluindo, porque elas são como plantas: quanto mais profundamente elas fincam suas raízes na lore (isto é, nos documentos que nos fornecem informações sobre os antigos), mais os galhos crescem e as folhas se esverdeiam em minha vida e ações cotidianas. É um processo de duas vias: ao mesmo tempo que eu absorvo o conhecimento, que descarto aquilo que é estritamente cristão, eu não simplesmente armazeno isso como conhecimento enciclopédico. Eu me esforço para olhar a realidade de uma forma diferente, forçando meu cérebro a se acostumar com os novos padrões de pensamento e percepção da realidade. Em uma palavra: tento me tornar mais “primitivo”, mais tribal.

Isso gera alguns problemas. Como moro em um local estritamente cristão, conservador e com baixas taxas de escolarização, a cultura local tende a ser um choque de realidade tremendo para mim. Por outro lado, eu vejo outros pagãos e muitas vezes percebo que nós estamos bem distantes no que pensamos, e percebo que eles parecem mais com um cristão ou um moderno que comigo. Vejam, não estou tentando ofender ninguém aqui. É este o ponto. Como absorver conhecimento, aplicá-lo praticamente, e não se tornar um individualista e egoísta?

E eu vinha pensando isso enquanto caminhava. Volta e meia eu vejo alguns pagãos, ásatrúars, ou mesmo heathens dos Estados Unidos e percebo que, à exceção de alguns, a grande maioria está preso no casulo do ego da sociedade estadunidense. Não é à toa que o budismo e hinduísmo sentiram uma necessidade tão messiânica de “des-egotizar” os estadunidenses. Eu, como descendente de indígenas sinto que o problema com o ego não é no todo tão importante como pra uma pessoa de cultura europeia. Não é a toa que eles nos consideravam menos evoluídos: Freud deixa claro que evolução é “europeização” e isso é individualização. Eu cheguei ao grave problema de defender a comunidade acima de mim mesmo, mesmo quando ela me prejudicava, mesmo quando ela negava meu sacrifício, e mesmo quando o meu sacrifício me prejudicava. Em vez de aceitar a sua lógica e me “egotizar”, preferi me apartar socialmente e procurar pessoas com mentalidade mais próxima do tribal para se aproximarem de meu innangard.

Eu achei, inicialmente, que alguém ser pagão era o suficiente para isso. Não era, não possuíamos identidade comum. Nem com os que são pagãos germânicos ou nórdicos. Aos poucos eu fui percebendo que dentro dos pagãos existem exatamente os mesmo grupos que existem entre os cristãos: os interesseiros, os falsos pastores, os fundamentalistas, uma grande massa sem direcionamento e sem muitas informações, mas também uma boa fração de pessoas, com conhecimento e controle do ego o suficiente para não serem ausentes de humildade ou com interesses de dominar os outros em excesso. E eu não queria cair no egoísmo e numa prática puramente individual.

Mas eu fui percebendo que eu precisava me fechar ainda um pouco mais. Eu percebi que eu poderia viver com uma mentalidade tribal e pagã na minha família cristã porque eles tinham um modus operandi muito tribal.

Mas até chegar aí, foi uma longa caminhada.

Eu, por exemplo, decidi assumir o hearth cult ou culto doméstico. É uma prática relativamente recentemente recuperada, que reconhece o lar como centro da prática familiar, e da família isso emana para a tribo ou kindred, e disso para escalas maiores. Mas ele é exatamente isso: uma tradição, uma religião pessoal. Eu achei extremamente confortante o fato de que eu pudesse então não me preocupar com o que outros faziam ou deixavam de fazer.

É até um pouco difícil continuar daqui, pois não sei bem qual é o começo do problema, nesta parte: se é a forma como somos acostumados a entender “religião”, ou, se meu desejo de viver uma prática realmente embasada em moldes antigos.

Nesse sentido, eu queria sim ter minha independência no culto, mas há muito tempo me afastei do esoterismo, e venho procurando simplesmente praticar religiosamente como os antigos. O mais próximo possível deles. Excluindo toda e qualquer prática que lhes seja estranha. Mas eu também queria uma comunidade.

E eu descobri que “Fé” era uma palavra que se aplicava muito mais à forma como os cristãos enxergam a realidade que a que os antigos a enxergavam. Mas que pouquíssimas pessoas compreendiam quando eu lhes falava isso. Por exemplo, os antigos diziam que o cristianismo era a “nýi siðr” o novo siðr. E o paganismo, o forn siðr, antigo siðr. “Siðr“, por sua vez, significa “costume, hábito”. O cristianismo era assim o novo costume/hábito religioso. Assim, os antigos definiam o cristianismo a partir de sua noção e, vejam, não está de forma alguma errado se definir o cristianismo como “costume”. O grande problema é, e quando pegamos a definição do cristianismo como “Fé”, e a usamos para retroagir ao paganismo, será que não estamos cometendo algum erro? Que siðr seja entendido como “costume cristão”, e, associado ao costume cristão, está a “fé cristã”, isso serve para usarmos a definição atual anacronicamente para definir o antigo?

Não estou com isso querendo dizer que os antigos não acreditavam nos seus deuses. Na verdade, eles acreditavam em seus deuses da mesma forma que acreditavam uns nos outros. Isso porque seus deuses eram o Trovão, o Furor, a Terra, a Fertilidade, etc. Eram coisas perceptíveis, tocáveis. Totalmente diferente do caso do deus cristão, distante, transcendente, metafísico, intocável. Você precisa *acreditar* que esse deus existe uma vez que você não pode vê-lo. E para acreditar em algo assim você precisa de *MUITA* fé. Por isso, como minha religião é uma religião de me relacionar com a comunidade humana, com os vættir (espíritos) que habitam árvores, pedras, o Trovão, nuvens, a Terra, é uma religião que eu posso ver e tocar, não é uma religião que me exige acreditar.

Como vocês podem ver, a palavra “Ásatrú” (fé nos æsir) passou a ser algo que não servia mais muito bem para me definir. Continuo usando por mera conveniência, embora eu me veja muito mais como um heathen (pagão), alguém que reproduz o costume do povo dos heaths, das zonas afastadas da cidade, e não pura e simplesmente “crê” nos mesmos deuses que os antigos heathens. Porque eu posso muito bem começar a tratar os deuses antigos como eu fui ensinado e vejo à minha volta todos tratando o deus cristão.

Vejam, isso é algo muito importante a se considerar. Os germanos, ao serem convertidos, passaram a se relacionar com o deus judaico-cristão da mesma forma que eles se relacionavam com os deuses antigos, fazendo ofertas e sacrifícios e não meramente “orando” para eles. A religião antiga era uma experiência comunitária, onde cada um e todos os indivíduos eram interdependentes e importantes. Não era uma mera religião de “aprimoramento individual”. Então eu tinha um impasse: se ninguém perto de mim (e umas pouquíssimas pessoas, mesmo à distância) via o siðr como eu o via, como um costume e não como fé, (muito menos fé com um F maiúsculo), como eu não cairia no individualismo? Como eu não me fecharia e acharia que só eu e os que me entendem estão certos – e óbvio, são melhores?

Foi aí que eu lembrei de algo que Descartes fala: se tem uma coisa que todo homem acha que tem o suficiente, é bom-senso, mesmo quando ele é, para os outros, o mais boçal e sem bom-senso possível. O meu desejo de vivenciar o tribalismo me elevava demais o ego por tão poucas pessoas quererem viver a mesma coisa. E por menos ainda delas estarem próximas de mim.

Isso foi gerando vários problemas. A comunidade pagã na internet possui sua própria forma de pensar e agir. Existem antigos dragões que ainda povoam as cavernas onde o ouro do conhecimento está depositado. E eles se deitam sobre o ouro; e eles protegem o ouro com fogo, e eles atacam todos aqueles que queiram se aproximar para olhar para o ouro. Mas para aqueles que se contentam com lata, os dragões jogam, um pouco, e se riem, se gabam do quanto são generosos e ajudam os outros. Eu diria que a própria noção que esses dragões tem sobre o que é ouro e lata é bem confusa e muitas vezes eles não são capazes de reconhecer o ouro quando veem. E assim, o que eu gostaria de transmitir aos pagãos foi sendo coibido — simplesmente porque existem pessoas que dominam meios de informação pagã virtual que não ensinam e não querem que os outros ensinem. Talvez para manter o próprio status de líder de merda nenhuma. Talvez por preguiça de eles próprios analisarem as informações e se permitirem evoluir. Talvez por uma mistura de ambos.

Por outro lado eu sinto que algumas pessoas só enxergam dois caminhos: ou o esoterismo ou a prática de kindreds. Eu já falei sobre o esoterismo, e sobre os kindreds, eu adoraria formar um… se onde moro houvessem pessoas interessadas também. O kindred é com certeza uma ótima forma de se relacionar religiosamente, o problema é que num imenso país de cultura cristã e de origem miscigenada, existem diversos problemas para se achar pessoas suficientes (2?) para se fazer um kindred começar. Então, o culto doméstico viria a servir muito bem para muitas pessoas que não tem outras próximas a si, ou mesmo para as que tem, e até para as que tem kindred, porque o culto doméstico é uma prática caseira, familiar. No caso da minha família cristã obviamente eu não vou poder participar de ritos com eles, mas pelo menos o sentimento de tribo e comunidade eu sinto muito forte entre eles. Muito mais que com “pagãos”, “ásatrúares” ou “heathens” em sua grande maioria. Isso porque muitas vezes a forma de prática do kindred é simplesmente tomada como o único objetivo possível. E uma ou outra pessoa de kindreds também acham que  os kindreds podem decidir sobre os rumos do paganismo no Brasil, quando possivelmente a maioria das pessoas que se auto-identificam como pagãs é, por vários motivos, obrigada a vivenciar o paganismo de maneira solitária.

Isso tudo me fez perceber o quanto é complexo para um pagão tribalista isolado geograficamente praticar o heathenismo com enfoque na tribo. Porque nosso objetivo é a friðr, e esta é *coletiva*. Porque os cultos sazonais eram *coletivos*Porque os ancestrais eram enterrados próximos para manter a tribo unida. Como aplicar isso numa prática individual, mesmo que forçada?

Com paciência, foi o que percebi. Conheci diversas pessoas que fazem parte de meu “innangard” virtual, que é essencialmente pagão. Mas meu kin, meu sangue, meus parentes, todos eles são cristãos. Como lidar com isso? Amando a eles e agindo como um pagão. Presenteando meus ancestrais, aproximando-os mesmo daqueles que não acreditam em culto ancestral. Me relacionando e ofertando para os vættir da terra para melhorar o ambiente à minha volta, também para meus familiares cristãos. Agradando o espírito da casa (húsvættir), para manter a friðr de meu lar. Até que eu e minha companheira estejamos enfim juntos, e possamos viver como um lar realmente de heathens (e como agradeço por ter te encontrado, menina!), o meu hearth ou lar atual vai ter essa identidade dividida, meio cristão, meio heathen. Onde o deus dos meus ancestrais recentes e os dos meus ancestrais antigos terão que se aceitar. Onde o nýi siðr (novos costumes/fé) cristão e forn siðr (antigos costumes) pagãos terão que conviver conjuntamente. Um dia, foi o processo inverso. A repaganização de meus descendentes está começando só agora.

Esse texto pode parecer um pouco complicado até aqui. Se você está um pouco familiarizado com os conceitos de innangard e útangard vai perceber que meu grande problema aqui foi definir o que estava dentro e o que estava fora do meu círculo de segurança.

Inicialmente eu pensei que ser pagão era o suficiente, me afastando de minha família/kin. Depois eu percebi que não era exatamente assim. Hoje em dia eu procedo como um tribal antigo: analiso, observo e vejo se a pessoa compreende as coisas como eu, ou se é meu parente. Estes são o meu innangard, aqueles entre os quais eu tento manter a friðr.

Isso porque, dia após dia tem sido um aprendizado. Precisei voltar lá nas minhas raízes, e ver o que eu pensava lá atrás sobre fundamentalismodogmatismo, e entender que não era simplesmente apresentando coisas (por mais óbvias) que elas pareçam, e tentando auxiliar as pessoas entenderem isso, que eu conseguiria o que desejava, fazer parte de uma comunidade pagã “offline“. Eu descobri que eu precisava saber separar o joio do trigo.

Espero que esse amontoado de ideias possa ajudar alguém que esteja caminhando pela estrada da compreensão da visão de mundo dos antigos povos tribais germânicos. Que auxilie, talvez, a evitar alguns erros que eu cometi. Para mim, no Sunnôniz Fulka Herþaz (o meu hearth/lar) ser tribal é ser fechado, é saber que pessoas trazer para seu innangardr para não desestabilizá-lo. Também é entender que, nessa fase inicial, nem todos os que são parte de meu innangard compartilham do mesmo siðr (religião) que eu. Mas que, por aqueles que fazem parte de meu innangard, eu lutarei com unhas e dentes. Já, para quem está no útangard, mesmo que seja um pagão, ásatrúar ou heathen, esse, se quiser nosso respeito e ajuda, terá que apresentar razões reais e seguras para tal: da mesma forma que não adoto determinadas práticas, e ninguém é obrigado a adotar as minhas (sim, eu percebi o quanto é estéril me dedicar a uma “grande” comunidade heathen, no final das contas ela é como é, e a maior parte das pessoas continuará praticando uma visão moderna de paganismo).

O Sunnôniz Fulka Herthaz apoia e está a disposição de ajudar todos aqueles que queiram iniciar o culto doméstico, por sua simplicidade e efetividade. Recentemente publicamos um livrinho sobre nossas visões no culto doméstico. Esperamos ver mais pessoas também podendo evoluir e compartilhando suas práticas de culto doméstico, para que possamos não apenas ser uma comunidade virtual, mas uma comunidade religiosa efetiva, desenvolvendo e vivendo a tradição pagã germânica na atualidade.

Em breve divulgaremos textos sobre nossas visões acerca do reconstrucionismo germânico dos povos de tal origem que influenciam em nosso país (ex-colônia de Portugal): os visigodos, suevos, e vândalos.

 Mais textos do meu hearth

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