Urðr, örlög, destino

Texto de Andreia Marques
Publicado originalmente em Heathen Brasil

Certa vez, uma amiga me contou a seguinte estória: imagine que você está viajando, e você tem que atravessar um grande campo. Seu objetivo é atravessar este campo, mas você pode fazê-lo de várias maneiras: você pode escolher atravessar as montanhas, pode seguir o curso do rio, pode caminhar pelas áreas planas, etc..

E pode ser que não lhe seja dada uma escolha, e você realmente tenha que seguir um determinado caminho. As circunstâncias nem sempre estão sob seu controle, afinal.

Mas as escolhas e ações e decisões que você toma definirão o quão fácil ou difícil será seu caminho, e quanto tempo você vai levar para chegar a seu objetivo.

Assim é a urðr, também conhecida como wyrd; eu usarei o termo urðr (romanizado como “urd”) para combinar com o termo örlög, ambos do nórdico antigo.

(Wyrd é um termo do inglês antigo, cognato com urd e que tem o mesmo significado — lê-se weird, como a palavra em inglês moderno para “estranho”, que é derivada de wyrd.)

Urðr significa, literalmente, aquilo que foi. É a forma passada do verbo verða, “ser” — e também significa “destino”. É o nome dado a uma das Norns, juntamente a Verðandi (aquilo que é, ou vem sendo) e Skuld (aquilo que será… mas que também significa dívida).

web
Representação da web of wyrd — a teia de wyrd.

Urd. Wyrd. Aquilo que foi. Faz um terrível sentido, se formos pensar. Urd é a soma de nossos atos. Escolhas e eventos passados, que darão — e dão — forma ao nosso presente, que por sua vez, determinará outros presentes — o futuro não-escrito.

Há algo de profundo em saber que nossa urd — nosso destino — é literalmente o nosso passado: apenas o que nós fazemos pode ter uma consequência real no mundo, e esses atos, essa série de decisões, terão consequências futuras.

Nós somos os nossos atos é uma frase frequentemente repetida no meio heathen, e por um bom motivo, pois nossos atos tem consequências, e nós não somos nada mais que a soma de todos eles, e de todos os atos praticados sobre nós, também — que fazem de nós, nós mesmos).

É tão simples e tão complexo quanto isso. Assim, nosso futuro é a soma de tudo que nós somos e fizemos e os caminhos que nós mesmos determinamos, em ondas sucessivas de passado-presente.

A urd é uma teia. Não é à toa que ela é representada pelas fiandeiras — pelo tecido, e as fiandeiras tecendo nosso futuro, a partir de nosso passado. Só é possível construir, tecer algo, sobre algo que já foi tecido, com as escolhas que já foram feitas, com os fios que já foram entrelaçados.

Mas estas escolhas são limitadas pelo que é possível. A teia toma a forma e a extensão da base sobre a qual é fiada.

A urd é limitada pela örlög.

Nosso universo, a natureza, Midgard, nós mesmos, tudo é restrito pela örlög, e a örlög nada nem ninguém pode mudar. Ela é nosso passado e as leis naturais (inclusive as leis da física, as leis biológicas, tudo); ela é tudo que já foi, o substrato sobre o qual nós existimos, e os limites impostos à nossa existência.

Ou seja, a örlög é o material, a base, sobre as quais podemos trabalhar. Por mais livre que seja nossa urd, ela não é infinitamente  livre (pois é limitada pelos nossos atos passados) e por nossa própria natureza e circunstâncias, as leis que são alheias à nossa vontade que regem o universo onde vivemos.

Se a urd são os caminhos que podemos escolher (voltando à metáfora do início), a örlög é nosso ponto de partida e o nosso ponto de chegada — duas coisas sendo certas: nosso nascimento, e nossa morte.

Se a urd é uma teia, esta teia é limitada pelo espaço e pelos alicerces sobre o qual ela se afixa, nossa örlög. Uma tapeçaria limitado pelos materiais e a base a nosso dispor. A örlög é aquilo já foi determinado, pelo passado, pelos limites do possível, por tudo que existe.

Assim é o destino. Nosso passado, entrelaçado com nosso presente, que impõe limites a um futuro.

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