Uma reflexão sobre Freyja

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Demorei muito para escrever sobre Freyja pois o texto não poderia ser curto. Uma análise sobre a Senhora (tradução literal de seu nome) é algo perigoso. Freyja é uma deusa muito popular e superficialmente muito conhecida. Mas ela é uma estrela estereotipada. Não vou aqui simplesmente mencionar nomes e objetos desta deusa – isso você encontra facilmente na Wikipédia ou em qualquer página meia-boca sobre mitologia. Sua importância provavelmente reflete o fato de que apenas um nome indireto tenha chegado dela para nós – é bem possível que ela fosse chamada por outro nome, mas a forma respeitosa “Senhora” tenha se mantido por ser mais popular que chamá-la por seu nome real.

 Freyja é a energia que vem com a primavera, aquela que derrete o gelo do inverno que castiga a Europa. Através dos mitos ela quase sempre é colocada em oposição para com outra figura importante e pouco conhecida, Frigg. Enquanto a Mardöll é aquela que é relacionada à vida sexual desenfreada, liberdade, Frigg é geralmente presa a tudo que se relaciona à casa. Em uma palavra: enquanto uma é a mãe, a outra é a meretriz.
Essa divisão é mais recente do que se pensa. Estudos linguísticos apontam para uma raiz comum às duas deusas: a divindade proto-indo-europeia *Pria, a qual o nome significa querida, amada. Com as semelhanças que apresentaremos não queremos dizer que ambas são a mesma deusa. Apenas que possuem uma origem comum, em uma mesma divindade anterior e muito antiga. A certeza disso vem com a maneira que as simbologias de ambas as deusas se misturam: ambas tem mitos que envolvem troca de favores sexuais por joias; Freyja é chamada de “Vanadís”, a dís dos Vanir, e é a deusa das dísir, os espíritos protetores femininos de uma família, e, enquanto Frigg é associada à criação, ou ao menos o conhecimento dos destinos, o que a liga indubitavelmente às Nornir, essas três figuras mitológicas são também chamadas, elas mesmas de “dísir”.
Freyja também estava relacionada a aspectos matriarcais como a proteção e presença no nascimento de uma nova criança, fato que também é atribuído às dísir e Nornir. As próprias dísir são espíritos matriarcais, que, segundo a tradicional dicotomia, ficariam melhor agrupadas como sendo regidas por Frigg. O esposo de Freyja é chamado “Óðr” (mente, espírito, música, poesia) que é a raiz do nome “Óðinn”, sua forma adjetivada: ele é uma figura muito ausente, por quem a deusa derrama lágrimas de ouro de saudade. Além disso, a constelação de Órion era chamada de “Roca de Freyja” ou “Roca de Frigg”. O ato de fiar geralmente é associado à Frigg, o que serve como mais um ponto de conexão.
Não podemos desconsiderar o fato de que as mitologias não são um corpo coeso e completo de mitos que foi transmitido de forma integral e sem modificações com o passar dos tempos. O fato é que com as migrações germânicas os cultos de diferentes aspectos da divindade provavelmente se especializaram e a e ela se dividiu em mais de uma figura, tanto no imaginário popular, quanto na cultura transmitida pelos cantos dos escaldos. Mas isso tudo é um estudo antropológico e social dela, que, embora precise ser feito, não dá conta de todos os significados dessa divindade.
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Freyja geralmente é associada também às valkyrjor, as quais por sua vez são ligadas a Óðinn, o que a associa à guerra. Hildisvíni, o “javali de guerra” é um dos seus animais. Mas, assim como seu irmão Van, Freyr, ela também possui ligação com o sentimento de paz e felicidade, a “friðr”, tanto na etimologia da palavra, quanto na ideia dos Vanir como deuses agrários, que propiciavam boas colheitas e harmonia no frændgarðr (cerco familiar). O javali é, assim como o gado (representado na runa Fehu), as colheitas e o ouro, um símbolo de prosperidade, bem-estar e friðr. O ouro a liga também à misteriosa Gullveig, a qual muito provavelmente era um kenning para Freyja. Se Óðinn anda disfarçado como Bolverk, um andarilho, em busca de conhecimento, parece muito plausível que uma deusa do bem-estar disfarce-se de völva para adquirir mais riquezas, como o nome Gullveig (“intoxicação por ouro”) sugere.
Sua importância era tanta que ainda em 1139 Geoffrey of Monmouth, ao escrever sua “Historia Regum Britanniae” menciona no Livro 6, seção 98 que “nós cultuamos Frea, a mais poderosa das Deusas, a quem nós dedicamos o sexto dia, o qual chamamos “Fridei” (Friday) após ela”. A sexta-feira para os germânicos é outro ponto de convergência, pois em alguns casos o culto parece ser a Frigg e não à deusa Van – embora a própria Frigg tenha também uma origem telúrica que muito nos faz questionar até que ponto ambas estão separadas, uma vez que tanto nos pares Njörðr/Nerthus (pais de Freyja) quanto em Fjörgynn/Fjorgyn (pais de Frigg) existe o grande problema de se determinar se se tratam de um casal de divindades gêmeas ou uma única divindade que se manifesta de maneira hermafrodita: mas ambos os nomes se remetem à terra.
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Segundo o cristão Snorri Sturluson na Edda em Prosa, ela era invocada também em casos de sucesso no amor, da onde deriva muito de sua associação com outras divindades, como Afrodite e Vênus. Embora essas deusas também tenham origem na *Pria proto-indo-europeia, não são mais do que desenvolvimentos ainda mais diversos de Freyja do que esta própria é em relação à Frigg, sua “gêmea” no sentido histórico, não mitológico. Não me deterei muito neste aspecto “sexual” de Freyja não por purismo de minha parte: apenas porque isso é facilmente encontrado por aí.
Esse aspecto sensual fez com que Freyja fosse extremamente focada como alvo durante o período de conversão, sendo insultada como “prostituta”, enquanto o ideal da “virgem imaculada” era colocado como seu oposto. Apesar disso, à mãe do redentor da religião romana foram atribuídas funções que antes eram de Freyja, como proteger a vegetação e intervir com recém-nascidos, além do nome de várias plantas que eram associadas com Freyja: ela sempre foi uma divindade extremamente agrária. Basta analisar mais cuidadosamente o seu mito com os anões que criaram o Brisingamen: enquanto muitos enfatizam a questão dela ter tido relações com os anões pelo objeto, acabam esquecendo o que a joia em si significava: gado, em outras palavras, fartura, prosperidade. Freyja é ao lado de Freyr, vale repetir, a deusa do bem-estar.
Ainda sobre sua relação com Óðinn não é apenas no que se refere aos mortos em batalha que ela tem acordos praticamente maritais com ele. Freyja é conhecida por ser a deusa do seiðr, uma forma de magia que alguns – que a desconhecem – muito demonizam, imputando divisões de bem/mal essencialmente cristãs sobre a deusa e sua magia. O seiðr é uma forma de magia muito versátil, sendo em alguns casos sinônimos de spá, a capacidade de ver o futuro, além de ser usada nas sagas para controlar aspectos naturais, podendo ser utilizada ainda como magia de ataque, ou com algo que fica entre o xamanismo e a necromancia. Essa é uma forma de magia extremamente visceral, ligada a aspectos telúricos, mas também obviamente relacionada com elementos ctônicos, e como sabemos, para os germanos os mortos, ancestrais e o solo e sua fecundidade estavam em profunda relação.
Na Völuspá é relatado que após ser morta por lanças e queimada três vezes, Gullveig assume o nome de Heiðr, e sai para praticar magias mundo à fora – enquanto os Æsir e os Vanir iniciam uma dura guerra. A mim parece uma função extremamente próxima de uma deusa da guerra ou uma das valkyrjor, das quais Freyja é senhora e são retratadas fiando redes com cadáveres humanos (lembre da relação do ato de fiar com o destino).
O manto de falcão de Freyja é facilmente associado à função do Sleipnir de Óðinn. É um animal com um significado xamânico, voltado ao transe e a viagens fora do corpo, muito realizadas pelas feiticeiras e videntes antigas, para entrar em contato com os mortos – função para a qual também é utilizada claramente por Loki, quando o usa para fazer viagens através dos mundos. Freyja e não Óðinn é a deusa do transe; se Óðinn sabe algo de transe, foi a Senhora völva quem o ensinou.
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As völur e seiðkonur usavam um cajado em forma de roca de fiar, o qual é provavelmente o ponto que gera mais problemas ao se analisar tanto o papel do seiðr quanto o de Freyja. Uma das atividades que possuíam divisão sexual de trabalho forte entre os germanos era a fiação e tecelagem, que era uma atividade demasiadamente atribuída às mulheres e meninas. Por isso, a associação com elementos de fiação pode ser um dos fatores que caracteriza o seiðr como magia feminina. Por outro lado, a fiação é uma atividade claramente ligada tanto às Nornir quanto à Frigga. É aqui onde a figura de ambas se casa novamente, e não pode ser compreendida de maneira separada. Frigg é uma deusa associada com aspectos maternos, claramente visualizados no mito de Baldr, como uma protetora, conhecedora dos destinos. Já Freyja é, como vimos, a deusa do bem estar e fertilidade. O seiðr é uma ferramenta para se conseguir ambas as coisas: com a manipulação do wyrd através das rocas de fiar mágicas do seiðr, alguém poderia conseguir tanto proteção quanto bem-estar, e o trabalhador mágico sempre foi tido em alta conta na Escandinávia e Islândia. Tanto para a guerra, quanto para casamentos, para boas colheitas… para tudo se tinha um pouco de trabalho de uma völva, spákona ou seiðkona.
Mas existe ainda uma última figura que merece ser apresentada: Gefjun. Um dos nomes de Freyja é Gefn, e, embora a Lokasenna apresente Freyja, Gefjun e Frigg como três deusas diferentes, é importante lembrar a relação entre elas que provavelmente é o elo final que mostra a interdependência das três deusas. Gefjun é ligada à fertilidade, e talvez à promiscuidade, por Snorri, quando do mito de fundação da ilha de Sealand. Mas na Edda Poética, enquanto os deuses de Ásgarðr discutem com Loki, é mencionado que Gefjun conhece todos os Ørlǫgs. Gefjun possui assim três elementos que a ligam a Freyja (fertilidade e promiscuidade) e um que a liga a Frigg (conhecimento dos destinos).

 

Quem melhor que alguém que conhece o destino invariável das coisas para distribuir a fertilidade aos humanos? Quem pode através da magia mudar o curso das coisas se não conhece esse curso? Por que Freyja ensinaria uma magia tão poderosa como o seiðr para Óðinn se ele fosse apenas seu amante? Assim, todos os elementos de Frigg, Gefjun, Gullveig e Freyja casam-se perfeitamente se analisados sob a ótica da magia seiðr. Além disso, basta lembrar nas sagas como valkyrjor que se casam abandonam os atributos relacionados à Freyja e se aproximam daquilo que é mais particular à Frigg… A própria deusa ao casar-se não teria então passado por um processo similar, e deixado os aspectos guerreiros por atividades mais relacionadas à família e manutenção do clã – ou talvez ainda mantido suas funções guerreiras e adicionado a elas as obrigações com seus descendentes?
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Com isso, todavia, não queremos partir de um ponto de vista wiccaniano, e postular que todas as deusas são uma. Não são. Todavia, Frigg, Gefjun e Freyja são três derivações, cada qual se desenvolvendo de maneira particular e independente, de acordo com o culto que recebia, mas com origem na antiga deusa *Pria, a “amada” dos proto-indo-europeus. Imagine o inverno nórdico sem a primavera aparecendo para fazer florir e derreter o gelo, operando o milagre de levar a vida ao que está adormecido sob a neve? É esse o poder que Freyja tem, e também através do seiðr: o de conhecer o tempo e as estações, o de trazer fartura e bem-estar ou causar um grande inverno na vida daqueles que por algum motivo não tiverem razão nenhuma para que ela beneficie seus Ørlǫgs. Freyja é, se levada em consideração que se manifesta na mitologia a partir dessas quatro figuras, uma deusa do destino, do nascimento, do bem-estar, da guerra e da morte; uma deusa completa, e uma poderosa força que impulsiona a vida em todas as suas fases, sejam elas agradáveis ou necessariamente desagradáveis. Para que a prosperidade pudesse vir ainda mais a ela e sua à família, foi necessário acontecer uma guerra poderosa. Freyja é assim a riqueza e a miséria, o benefício e o prejuízo, paz e guerra, nascimento e morte, uma deusa completa: exatamente como a magia seiðr pode ser, de acordo com seu uso.

Sonne Heljarskinn,
em respeito à poderosa sábia,
12 de janeiro de 2017
asatrueliberdade.com

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