Os Landvaettir

The Spirit of the Forest. Unusual tree found in the mountains of Bulgaria. Photo: Deyan Kossev

Espírito da Floresta. Árvore incomum encontrada em montanhas da Bulgária. Foto: Deyan Kossev

 

Por Sarenth Odinson em inglês. Tradução por Wander Stayner.

Pedi sugestões de tema sobre os quais eu pudesse escrever, e meu amigo Rhyd Wildermuth do Paganarch me pediu que escrevesse sobre os landvaettir.

Os Landvaettir são espíritos da terra. Podem ser tão grandes quanto uma cidade inteira, se extender ao comprimento de um vale, ou ser tão grandes quanto uma montanha. Podem ser árvores ou pedregulhos milenares, ou pequenas pedras e pedaços de terra. Eles são o espírito vivo da terra em si. Compartilhamos cada centímetro e cada momento de nossas vidas com os landvaettir. Eles estão nas fazendas, na selva e nas cidades. São o nosso lar, e a variedade de materiais nos quais eles se dividem; eu os chamo housevaettir.

Eu notei que os landvaettir podem se apresentar a nós através de interações próximas, íntimas, como mensagens diretas ou presságios. Costumo percebê-las em volta da minha casa e em parques locais. Os landvaettir também podem ser distantes, mal notando nossa presença, ou simplesmente não desejando interagir com os humanos, algo que percebi na cidade e na floresta. Também podem ser mais sutis que a messagem direta, como uma sensação de reverência e presença que senti ao estar de frente ao Mount Beacon, em Nova Iorque, ou ao lado de um carvalho ancestral na propriedade de um amigo. Os landvaettir, em um mesmo pedaço de terra, podem ser mais ou menos inclinados a interagir com humanos; nas terras do meu amigo, o carvalho ancestral é bem amigável, enquanto o salgueiro, nem tanto.

Ser bons aliados e vizinhos dos landvaettir é nosso maior interesse. Quando vivemos bem sobre e na terra, vivemos bem com os landvaettir, e então, o ambiente e nossas vidas se tornam melhores por isso. Viver bem com os landvaettir pode ser tão simples quanto manter a terra livre de coisas como produtos químicos fortes e lixo, ou mais complicado como oferendas regulares que faço aos housevaettir. Do mesmo jeito que cada relação pessoal será diferente com um dado Deus, o mesmo vai acontecer com os landvaettir. Eles podem ser mais rápidos ao se afeiçoar, interagir ou abençoar determinadas pessoas, especialmente aqueles que vivem bem sobre Eles e vivem bem com Eles.

Quando chego numa cidade, eu tento encontrar o vaettr ou os vaettir (espírito ou espíritos, respectivamente) e fazer uma oferenda. Algumas vezes é algo pequeno, como uma pouco de tabaco ou artemísia, outras vezes pode ser um pouco de bebida, se estiver visitando uma cafeteria local. Isso é não só educado, como hóspede na casa dos vaettir, mas também significa que estou vivendo em consciência de que quando ando sobre a cidade, estou andando em meio a um vaettr, e que Ele está tão vivo quanto uma floresta, ou o solo embaixo da minha casa. Também existe o lado prático de uma boa relação com os landvaettir: Eles podem nos alertar, mesmo de forma sutil, como um arrepio na nuca ou uma sensação de agouro, nos avisando a não seguir por uma rua ou lugar. Uma vez estava perdido em uma cidade que não conhecia, e depois de mais uma menos uma hora vagando, eu fiz uma oferenda de café para os landvaettir da cidade. Pouco tempo depois, eu encontrei o caminho. Quando me abri a uma boa relação com os vaettir da cidade, e então levá-la adiante, ouvindo-Os, consegui encontrar meu caminho.

Vivo numa área semirrural; as bençãos dos landvaettir são visíveis nas fazendas e em nosso próprio quintal. A temporada de aspargos começou, e na primeira semana de maio, os talos cresceram bastante, e alto o suficiente para corte. Antes de ir para a colheita, faço uma pequena prece, dizendo: “Obrigado, landvaettir. Obrigado, Freyr. Obrigado por esta colheita”. Daí, posso dizer “Ves heil!” ou “Hail!” antes ou durante a colheita. Os landvaettir permitiram que minha família comesse bem na noite passada, e deram o suficiente para que eu pudesse comer hoje à noite, no trabalho. Como associo aspargos a Freyer, eu O saudei, também, pois Ele os abençoou, assim como os landvaettir o fizeram, ajudando-os a crescer bem.

A velha máxima de “toda política é local” muito se aplica à minha própria quanto aos landvaettir. Porque eles não têm voz na sociedade dominante atual, parte de nosso papel é ser sua voz, advogado, e/ou ativista. Isso mesmo, todos que trabalham com eles se alistaram para serem o Lorax (personagem infantil criado pelo Dr. Seuss, na década de 70, com um perfil ambientalista). E como não? Se esses vaettir, esses parceiros de nossas vidas, devem perpetuar e crescer, e continuar como ecossistemas vivos, é nosso dever ajudar a protegê-los de nós mesmos, seja catando lixo no parque, evitando elementos químicos em nossa grama, cultivando plantas nativas onde for possível e/ou agindo diretamente no sentido de proteger os landvaettir selvagens.  Reprogramar nossa relação com a terra em si, não apenas como um ecossistema e um habitat, mas também como uma relação bem real com a terra (como a que existe entre nós e outros seres espirituais bem reais e presentes) será necessária uma atitude que a mantenha e a ajude a crescer.

Essa relação se extende, quando a desdobramos, em decisões diárias, como aquilo que compramos, e como lidamos com o que sobra do que compramos e consumimos. Quando voltei a morar na minha antiga casa novamente, e realmente lidar com os landvaettir alguns anos atrás, comecei a transfomar em adubo todo lixo orgânico que podia em nossa casa. É impressionante a quantidade de lixo orgânico que produzimos, e como ele enriquece essa terra negra argilosa, que então ajuda as plantas a crescer. O que é bem interessante é como isso me faz bem, quando levo o balde de quase 20 litros para o composto e saúdo os landvaettir, Niðogg, e Hela. Isso me deixa feliz, deixa os landvaettir felizes, e ajuda a minha família a ser mais autossuficiente. Agora que eu tenho meu próprio veículo estou preparado para coletar carcaças de animais e preservar seu couro e ossos seja onde for, devido à quantidade de animais à beira da estrada que não são comidos por animais necrófagos. Comecei a aprender a trabalhar com couro e em vez de comprar de um fornecedor, na medida do possível, gostaria de produzi-lo eu mesmo. É uma longa estrada (sem falar de transporte, abate, e outras coisas a partir de uma única vaca) a percorrer, desde um distribuidor como Jo-Ann Fabrics ou diretamente da Tandy, só para conseguir fazer uma bolsa. Assim como a pilha de compostagem que começamos com um simples balde, cada decisão que tomamos para melhorar melhora nossa relação com os landveattir.

Conviver com os landvaettir não é uma questão de apenas fazer oferendas e cultivar plantas nativas, é toda uma consciência com a qual Os abordamos, a terra sobre a qual moramos, o jeito que vivemos nossas vidas. Por isso mencionei antes as pessoas que moram sobre a terra e as pessoas que convivem com a terra. Conviver com os landvaettir requer engajamento com esses seres em Seu nível, física e espiritualmente. É entrar em uma relação viva, na qual haverá um empurra e puxa, e que definitivamente exigirá Gebo, prêmio por um prêmio. Os landvaettir oferecem Sua generosidade com a colheita de aspargos; que presente posso Lhes dar em espécie? Qual o melhor presente que posso Lhes dar em retorno pelo Seu presente na forma de boa comida? Quando minha capacidade de sobrevivência vem do chão, através da água e da comida (temos um poço artesiano), que presentes posso dar em retorno por tudo que dá sustento à minha vida? Se eu estivesse apenas vivendo bem sobre a terra, essas questões seriam objetivas e práticas, como cuidar do solo, usar métodos naturais de controle de pragas, manter a água limpa, etc. Uma vez que convivo com os landvaettir, esses pontos ainda são importantes, e trazem um significado adicional e um peso espiritual. Eu também tenho que considerar, ao conviver com Eles, o que Eles querem. Até então, Eles estão felizes com o composto, as orações, e as oferendas que deixamos perto de Suas árvores. Podem ter outras necessidades no futuro, e para manter uma boa relação com Eles faremos o possível para attendê-Los. Afinal de contas, somos hóspedes o que é e sempre foi Deles, e Eles mesmos.

Pertencemos aos landvaettir muito mais do que Eles pertencem a nós. São os Seres a partir de cujos corpos podemos comer, respirar, beber, nos abrigar, e viver bem. Vivemos sobre Eles; Seus corpos são o meio pelo qual nos vestimos e construimos nossos lares. Seus espíritos ressoam à nossa volta, seja debaixo de nossos pés no tapete, concreto ou pó, o vento nos salgueiros, as páginas de um livro, ou os compostos plásticos e metais que formam seu computador ou aparelho móvel, e lhe permitem visualizar essa publicação.

Ao entender isso, podemos também entender que somos Ancestrais em formação, assim como landvaettir em formação. O lich (corpo) é uma parte de nossa alma, e fica para trás, enquanto outras partes da matriz de nossa alma segue adiante. Nosso corpo, então, se torna parte da terra, onde quer que acabe ficando, no fim. A terra da qual faremos parte, o que fazemos com essa terra quando nos tornarmos parte dela, deveria ser algo a se pensar. Quando morremos nos encomporamos à terra e somos colocados sobre e/ou dentro dela.

Tornar-se um com os landvaettir é inevitável; como vivemos e se morremos bem com Eles é uma decisão nossa.

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