Ēostre, Ostara, Páscoa

Escrito por Andreia Marques
Publicado originalmente em Heathen Brasil

Todo ano, mais ou menos nessa época, inevitavelmente aparece alguém do meio pagão associando a celebração da Páscoa com a deusa saxônica Ēostre (e agora, mais ou menos frequentemente, à deusa Ishtar). Daí surgiu a ideia desse post, para esclarecer algumas coisas.

Primeiramente, é fato que na língua inglesa o que chamamos “Páscoa” se chama “Easter”, e é quase certo que “Easter” vem de Ēostre, significando “aurora”. É fato que havia um mês do ano, Ēosturmōnaþ, que supostamente seria dedicado a esse deusa. Sabemos disso única e exclusivamente através do relato do Venerável Bede, do século VIII, em seu De temporum ratione. Neste relato, Bede diz que os pagãos anglo-saxões celebravam a deusa no mês de Ēosturmōnaþ:

Eosturmonath tem um nome que hoje é traduzido como mês pascal, que já foi chamado assim devido a uma deusa deles, em cuja honra celebravam-se banquetes durante este mês. Agora eles chamam as celebrações pascais por seu nome, nomeando as graças do novo rito, pelo celebrado nome da tradição antiga.

E só. É a única menção associativa feita entre a deusa Ēostre e a Páscoa. Observe que neste contexto não se diz quais são esses banquetes e ritos celebrados à deusa. Não há menção nenhuma a coelhos, ovos ou qualquer outra coisa do gênero.

Séculos depois, Jacob Grimm, em sua Deutsche Mythologie, associa Ēostre à deusa germânica Nerthus, deusa da terra e da fertilidade, ou a uma suposta (e igualmente desconhecida) deusa Ostara, cujo nome, assim como o de Ēostre, seria lembrado através de um mês do ano: Ostermonat. Grimm faz a associação desta deusa com ovos e lebres, e especula que a tradição pascal de ovos e lebres vem dessa deusa. É certo que na Alemanha, até hoje, a Páscoa chama-se Ostern. São os únicos idiomas a estabelecerem essa relação. As línguas escandinavas adotam termos similares ao nosso: Påsk (sueco), Påske (norueguês), Pasen (holandês), Påske (dinamarquês), Páskal (islandês).

A existência de Ēostre como uma deusa recebedora de honrarias ainda é questionada. Existem algumas evidências na forma de topônimos (nomes de locais específicos fazendo referência à deusa), tanto na Inglaterra quanto na Alemanha, a existência de alguns nomes pessoais derivados desses termos.

Em 1950, entretanto, encontrou-se mais de 150 inscrições na Alemanha, em Morken-Haff, referindo-se a Matronae Austriahenae — inscrições votivas em estilo bastante romano, mas que pareciam referir-se a uma deusa ou entidade local, datando do século II. Estas inscrições, em latin, referem-se à deusas Matronas — quase sempre deusas tríplices, representadas juntas, em altares e oferendas votivas.

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Altar para as Mães (matronas, matronae) de Aufania, encontrados sob uma igreja em Bonn, Alemanha. Exemplo de matronae romano-germânicas. Fonte: Wikicommons.

Conclui-se, então, que sabemos muito pouco sobre Ostara, Eostre e as matronas que poderiam estar associadas a elas.

Então, de onde vem a conexão dessas deusas com ovos e coelhos? Simplesmente, de Jacob Grimm — o único a fazer esta associação. Note que Jacob Grimm, folclorista e linguista, traça essa conexão em 1835.

Ovos pintados, decorados e coloridos eram bastante populares desde antes do cristianismo. Ovos de avestruz eram usados como frascos para carregar água desde tempos pré-históricos no Kalahari, o que faz perfeito sentido, pois são de um tamanho adequado e resistentes o suficiente para transportar. Um dos remanescentes mais antigos de tal uso data de 60.000 anos (!), encontrado aos pedaços, mas claramente colorido e decorado.

Da mesma forma, ovos coloridos foram encontrados em tumbas egípcias e sumérias, geralmente ovos de avestruz, de mais de 5000 anos. A tradição de colorir e decorar ovos animais certamente não nasceu com o cristianismo, mas, também, nunca foi exclusiva de um culto ou outro, ou sequer associado especificamente a algum culto. O costume já se encontrava presente entre os cristãos mesopotâmios, que provavelmente continuaram ou adotaram um costume mais antigo.

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Ovo de avestruz decorado com motivos púnicos. Fonte: Wikicommons.

Assim, é bastante provável que esse costume cristão, muito antigo, tenha se espalhado pelo resto da Europa junto com o cristianismo através das igrejas ortodoxas. O ovo também apresenta uma conexão específica com o período de quaresma, que precede a Páscoa, em que o consumo de carne, ovos e leite era proibido, proibição essa que terminava na Páscoa.

Ovos também são associados à celebração de Nowruz, o ano novo iraniano, que existe há pelo menos 3000 anos e era celebrado por vários povos ao redor, nas Bálcãs e no Cáucaso, e por sua vez também é associado ao Zoroastrismo.

A tradição de decorar ovos espalhou-se pela Europa e pelos países eslavos, provavelmente através das igrejas ortodoxas russas, e o ovo foi oficialmente associado com a ressureição em 1610, através do Rituale Romanum; texto esse que continha textos bem mais antigos.

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Ovo de Farbergé, ricamente decorado. Fonte: Wikicommons.

E o coelho? Bem, coelhos ou lebres são símbolos de fertilidade desde muito, muito tempo, por motivos óbvios: coelhos se reproduzem rápido e em grande número. No passado antigo, filósofos como Plínio acreditavam que coelhos eram hermafroditas, e que se reproduziam sozinhos; noção essa adotada pelos cristãos, que associaram o animal à Virgem Maria. É bastante comum ver coelhos representados em iluminuras e outras formas de arte cristãs.

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Nem sempre essas ilustrações eram sérias. Ou faziam sentido.

A menção mais antiga relacionando coelhos com Páscoa vem dos luteranos alemães, do próprio Martinho Lutero, e aparentemente o costume, a princípio puramente alemão, espalhou-se pelo mundo e tornou-se bastante popular, suplantando costumes associados a outros animais.

Também não existe nada em específico que associe coelhos a Ostara/Ēostre, além da menção de Jacob Grimm.

Assim, é bastante errôneo dizer a tradição de coelhos e ovos deriva destas deusas, principalmente considerando que a tradição de ovos coloridos pré-data o contato com os povos germânicos, e a tradição de coelhos é antiga e ampla na tradição cristã (e, de forma diferente, na tradição judaica), e especificamente a associação do coelho à Páscoa é muito posterior ao fim do paganismo germânico nestas regiões.

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Ticiano, A Madona do Coelho, 1530, óleo sobre tela. Fonte: Wikicommons.

É bastante provável que, se existia realmente uma deusa com o nome Ēostre (ou uma com o nome Ostara), algo que ainda é questionado, ela era exclusivamente saxônica ou anglo-saxônica, já que não há nem menções nem sinais de sua presença em outros lugares. Não há nada que diga que ovos e coelhos são associados a ela(s), e nem que eram deusas de fertilidade, e não apenas da aurora, como Eos (embora não seja improvável; Rudolf Simek acredita que eram sim deusas da fertilidade).

Eu, pessoalmente, não vejo mal em tal associação, pois o simbolismo do ovo e dos coelhos realmente se presta a isso, o mês associado à deusa era realmente o princípio da primavera (ou do verão, já que os antigos raramente dividiam o tempo em quatro estações, mas em apenas duas: verão e inverno), e ovos e coelhos realmente são associados à fertilidade, renascimento e primavera. Devemos ter em mente que, relativo a qualquer celebração de Ēostre e/ou Ostara, já que não sabemos nada sobre tais celebrações, será uma inovação ou especulação moderna.

Mas, já que não sabemos de qualquer forma, por que não criar nossas próprias tradições (com embasamento, claro)?


Imagem por Annie Spratt, via Unsplash

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