Fenrir e a anti-ordem

Texto por Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente no facebook

A pedidos, tentarei fazer uma análise da figura de Fenrir. Sei que não será o suficiente para explicar todos os aspectos dessa figura, ou mesmo com detalhes cada um deles, mas uma explicação menos comum é necessária.

O lobo Fenrir, um dos três filhos bestiais de Loki e Angrboda, é sem dúvida aquele que carrega traços mais destrutivos. Desde seu nascimento é apresentado como uma catástrofe. Uma fera que apenas Týr, deus símbolo da bravura e coragem dos guerreiros, da honra e dos destemidos, somente um deus dessa envergadura era capaz de alimentar.

Mas não podemos falar de Fenrir sem falarmos dos lobos mais especialmente. Ao contrário dos dias atuais, é pouco provável que as virtudes das tribos humanas pudessem ser vistas em conformidade com aquelas dos lobos. O lobo representa a rapina, a solidão, o banimento da comunidade, coisas que eram necessariamente negativas, pois dispendiosas ou antissociais. Mesmo os lobos de Óðinn têm um significado semelhante: enquanto os corvos representavam o domínio sobre a memória e o pensamento, os lobos representavam o perigo apaziguado, as criações protegidas do ataque de feras, a fome sob controle. Não são os lobos – mas o fato de ter-lhes amansado – que confere poder a Óðinn.

Fenrir representa o potencial destrutivo do arranjo de coisas na mitologia nórdica. Ele é o matador de Óðinn, o deus ordenador, e tudo o que os Æsir conseguem fazer é prender Fenrir numa corrente curiosa, chamada Gleipnir, pois ela era feita do cuspe de uma ave, os nervos de um urso, o fôlego de um peixe, a raiz de uma montanha, as barbas de uma mulher e o som da queda de um gato. Coisas ou inexistentes ou muito difíceis de se conseguir que nos fazem pensar o quão imaginária não era essa corrente: e o quanto Fenrir não ficaria preso nas próprias ilusões.

Apenas pela mentira seria possível controlar Fenrir. Somente com a perda da mão do guerreiro mais bravo, que já não empunharia espadas como antes. Coisas que tem um alto preço: o Ragnarök. Mas, uma vez amarrado, o lobo Fenrir não é executado. Óðinn sabe de sua determinação, daquilo que fora designado em seu örlög. Seria inútil lutar contra o fim – restava “atrasá-lo”, ou talvez, simplesmente fazê-lo ocorrer na hora certa.

Então se a ilusão (Gleipnir) é aquilo que segura o fim (Fenrir), por outro lado nem mesmo aqueles que criaram o Universo, segundo os antigos mitos, estavam livres do desaparecimento, como uma grande árvore que vê muitas e muitas colheitas ao seu redor, enquanto ela mesma floresce e dá frutos, mas sabe que suas raízes não permanecerão eternamente no solo. Junto do lobo bestial vêm os gigantes de gelo e fogo, após quatro longos invernos, dar cabo dos deuses conhecidos em sua quase totalidade.

Fenrir é então o símbolo de que tudo o que vive, carrega em si a semente de sua própria destruição. Assim como Hel que é metade morta, Fenrir é inteiro destruição; e somente a Vingança, representada por Vidar, é capaz de restituir ao cosmos sua ordem original. Apenas com a Vingança o clã é protegido. Apenas com a vingança as coisas se renovam.

O local de Fenrir na mitologia nórdica é muito especial e destacado. Apesar de ser uma força caótica, seu mito reflete sua necessidade e inevitabilidade. Não existe ordem sem caos. Não existe justiça sem dívida. Não existe honra sem morte gloriosa. Não existe vida sem um clã, e sem se doar por ele.

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