Sunnôniz Fulka Herþaz: Um lar Heathen

Já faz pelo menos seis anos que iniciei minha caminhada através do paganismo. Nessa jornada, sempre habitando fora dos grandes centros de convergência de pessoas que se autodenominam pagãs, fui obrigado a seguir um caminho solitário, e , não importa quão paradoxal isso que seja, extremamente dependente da internet.

A grande verdade é que durante a maior parte da minha curta caminhada no paganismo eu entendia muito pouco do que era ele à exceção de mitologia. Deus disso, deus daquilo. Isso se devia principalmente a um grave problema: minha dependência praticamente exclusiva do português como fonte de informação.

Desde que conhecia Andreia Marques, as coisas mudaram. Ela me forçou a desbravar o mundo anglófono do paganismo, tanto em textos acadêmicos, quanto me possibilitando conhecer várias pessoas como Einar Valur Bjarnason Maack, Lēoht Steren, Eirin e Jake Shira, e, mais indiretamente Æsc Adams e Heather O’Brien: o grupo Heathen Hvergelmir International, para o qual eu, respeitosamente, devo agradecer profundamente. Todas essas pessoas foram muito importantes nos últimos meses, somada à extensa carga de textos lidos, dos quais muitos me empenhei em traduzir, tão fascinado me tornei por informações sobre o paganismo que jamais seria capaz de encontrar em língua vernácula, exceto por algumas sínteses geniais de Andreia Marques.

Boa parte dessa jornada de estudos ficou registrada na página e blog “Ásatrú & Liberdade”. Eu não conseguia guardar esse tesouro de conhecimentos só para mim, eu precisava mostrar para as pessoas no Brasil, que não tinham a oportunidade de ler em inglês, que havia muito, muito além dessa camada superficial do que vulgarmente se entende por “paganismo nórdico” no Brasil. Não estou de forma alguma querendo dizer que lá fora é exatamente um paraíso e os brasileiros são ignorantes completos. Apenas estou falando da realidade que conheço diretamente.

Aqui, em nosso país, existem essencialmente dois caminhos: ou você tem a sorte de morar em uma região onde exista um foco de pessoas interessada em paganismo (como em São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente), ou você se torna exclusivamente dependente da internet como fonte de pesquisa, para não citar materiais mais esdrúxulos e ultrapassados como a obra de Mirella Faur e autores similares que, a despeito de estarem em português, farão aquele omelete com opinião pessoal, inverdades e preconceitos históricos, misticismo de péssima qualidade e um esoterismo incipiente. Não tenho nenhum problema com quem decide escolher um caminho voltado ao misticismo ou magia, da mesma forma que não tenho nenhum rancor por não ter podido criar ou participar de um kindred onde moro.

Eu só queria mais. Muito mais. Bem, eu, como 99% dos interessados em paganismo me sentia como algo que “chamado pelos deuses”, e aquilo que muitos chamam de “caminho de Óðinn”, eu levei muito a sério como uma busca por conhecimento. O conhecimento exigiria sacrifícios. E eu não temi em os realizar sempre que isso foi necessário.

Aos poucos eu fui percebendo que havia algo mais que esse tradicional caminho demasiadamente mais próximo do hinduísmo e do cristianismo do que a maioria das pessoas que se diz pagã e não estão anexadas a um kindred (ou por vezes estão) conseguem perceber. Que eu precisava não apenas buscar ascender à essência de um deus, ou de muitos, que não era sobre ir ao Valhǫll, não era sobre poder beber sem culpa, não era só sobre força pessoal, resistência, guerra. Havia mais. Havia muito, muito mais.

Posso dizer com bastante segurança que me sinto muito mais livre nos fóruns pagãos virtuais em língua inglesa do que os em língua portuguesa. Aqui no Brasil reina um “faça como quiser”, “cada um é cada um”, um individualismo estéril e improdutivo que impede nossa religião de se manifestar (curiosamente) de maneiras mais atualizadas (como tende a acontecer no exterior, embora ainda não seja um movimento de nenhuma forma majoritário). Aqui o “faça como quiser” impede que o reconstrucionismo religioso funcione com seriedade: qualquer fetiche se usando de símbolos germânicos, nórdicos, qualquer nomenclatura superficial é tomada como paganismo. A despeito de eu não poder fazer virtualmente “nada” a contra a bagunça total, no sentido de reprimi-la, por falta de vontade disso, ou mesmo por falta de forças,  eu não posso apoiá-la.

Aqui no Brasil tende-se a tomar os termos como “Ásatrú”, “Odinismo”, “Heathenismo”, “Wotanismo”, “Forn Sed” como equivalentes e sem nenhuma distinção entre si. Se isso é de alguma forma válido para o neopaganismo brasileiro, não é de forma alguma válido para o exterior. “Asatru” (sem acentos) geralmente se refere à religião de alguma forma fetichizada e superficial praticada com fortes influências do neopaganismo (e Wicca) estadunidenses, “Ásatrú” é tomado muitas vezes por indivíduos solitários com um conhecimento inicial na religião, que não passa muito de blót e sumbl (quando nisso chega). “Forn Sed” (em suas várias modalidades como o escandinavo forn siðr, o anglo-saxão fyrnsidu, o franco alt sidu, o alemão firne sitte) tem um enfoque tanto mais cultural, prosaico, ritual que propriamente religioso. Negar a (forte) carga política do Odinismo, ligado ao antissemitismo e nacionalismo alemão de maneira quase indissociável, que gerou como fruto o Wotanismo (“W.O.T.A.N. sendo aqui um acrônimo para “Will of the Aryan Nation”, “Vontade da Raça Ariana” e *não* a versão alemã do deus Wotan/Óðinn), é desconhecer a própria história desses movimentos. Heathenism (aportuguesado “Heathenismo”) ou Heathenry é cada vez mais um termo usado buscando se distinguir entre uma forma tribalista, que visa a formação de comunidades onde o paganismo seja vivenciado de maneira integral, reconstruindo hábitos, costumes, pensamentos, organização social, e todos os demais aspectos das vidas dos povos pré-cristãos o quanto possam ser resgatados em tribos onde as próprias habitações são construídas com técnicas antigas. Diferenciar todos esses movimentos não é querer dizer que eles são como “igrejas” diferentes e todos levam ao mesmo caminho. O que a Ásatrú quer é uma espécie de autoajuda, bem estar pessoal ou individual, não raramente ligado ao misticismo, o que o “forn sed” quer é uma reconstrução cultural, o que o “odinismo/wotanismo” quer não se disassocia do racismo e darwinismo social, o que o heathenismo tribalista quer não se comporta em nenhuma das categorias anteriores, configurando uma maneira de se organizar completamente diferente, embora em certo sentido correlacionado com “forn sed”, pelo interesse na cultura.

Os primeiros movimentos possuem alguma popularidade entre os meio pagão germânico (que é quase exclusivamente “nórdico”, o que tende a equalizar os dois termos no Brasil). Porém o Heathenismo, na profundidade do tribalismo, do animismo, da veneração ancestral, quase sempre são colocados à margem nas terras tupiniquins. As pessoas pegam as religiões híbridas com um forte tempero wiccano que geralmente se limitam ao culto de divindades, magia/misticismo, e dificilmente conseguem desejar ir além, ir à raiz da religião…

Nossa cultura atual tende a privilegiar o consumo “você é o que você tem”, então, se você pode comprar CD’s dessa ou daquela banda, se você pode comprar um Martelo de Þórr, se você pode tatuar símbolos pagãos, isso, por si, é quase sempre tratado como “converter-se ao paganismo”.

Com a fundação do meu hearth, eu objetivo um novo (embora seja desnecessário dizer que não o “único”) caminho para o paganismo no Brasil. Como ainda ontem Andreia o definiu, um hearth é

“simplesmente seu lar, sua casa, o local em que você e sua família habitam. O nome vem de lareira, o fogo central da casa, que a aquecia e que também era o centro do culto doméstico.

No passado (e até no presente, embora seja mais comum para fazendas e sítios — que seriam a “norma” no passado — e grandes propriedades), era comum dar nomes às propriedades e casas. Nomear uma propriedade (ou qualquer coisa) é dar personalidade a ela: ela passa a ter vida, a ter características próprias, que fazem toda a diferença no fim.”

Como podemos perceber isso está profundamente ligado ao animismo tão frequentemente esquecido. O hearth busca então ser o centro da sua religiosidade, onde você mantém os espíritos favoráveis (vættir amigáveis, ancestrais e deuses) próximos através da sacralização/separação de espaços para culto, memória e oferendas, entre outras coisas, e visa manter os outros, perigosos e mal-intencionados, distantes. Além disso ele visa a interação entre os membros do local, respeito mútuo, pois sabemos, a família era de importância central para o paganismo. Sua família/tribo/comunidade era a sua identidade verdadeira, na qual o indivíduo não tem um papel mais importante do que um sentido físico da sua percepção individual tem para o todo do seu corpo/espírito. Assim, viso uma prática do paganismo que, apesar de ter um foco comunitário não exige que toda a minha comunidade (família) seja pagã. Nem me joga na inércia. Nem no misticismo. Nem na busca eterna por kinsmen que nunca encontro.

Ao resgatar o caráter tribal da religião antiga, uma questão se levanta: o debate entre ortodoxia e ortopraxia. Comumente a religião é definida na sociedade moderna pela(s) divindade(s) em que uma pessoa ou grupo delas creem.  Não é raro achar no exterior heathens/pagãos ateus. “Como assim, ser pagão sem acreditar em Óðinn e nos demais deuses? Absurdo!”, muitos diriam. Embora eu não me considere ateu, entendo perfeitamente este tipo de foco na religião. Isso porque o paganismo não é ortodoxo, isto é, não é baseado em “que tipo de crença você tem”, mas na sua prática, isto é, “que tipo de coisas você faz”.

E que tipo de coisas alguém que busca reviver, reconstruir uma religião antiga faz? Após debruçar-se sobre todas as fontes que possam lhe oferecer o mínimo de base para sobre como os povos antigos agiam, resta a ele a mimese, a repetição desses atos. E é dessa forma, buscando recriar uma cultura, visão de mundo (o que alguns chamariam de “idelogia” heathen/pagã), a qual eu mesmo já em alguma medida tenho, mas aprofundarei cada vez que puder, utilizando e a aplicando no meu dia-a-dia, na minha vida, nas minhas relações sociais com minha família e as pessoas de meu entorno de família e amizades, o meu innangarðr/frændgarðr (bem como as de fora de meu convívio, de meu utangarðr) , as quais passarei para meus filhos e todos aqueles que quiserem compartilhar dessa forma de vida comigo.

Como pude observar, o hearth cult, era essencial para qualquer pagão em grupo, mas especialmente para aqueles que estão isolados. Todo o dia aprendendo a me relacionar melhor através de ofertas, com minha comunidade “invisível” de espíritos, bem como com minha comunidade material, humana, que não precisa ser pagã para que ajamos assim com ela. Quanto mais eu conhecia o hearth e a “ortopraxia”, o “faça, não creia”, eu me sentia mais profundamente imerso na realidade dos antigos povos germânicos. Cultura é hábito, é visão de mundo, e não sangue. Esse é o grande erro de nossos racistas.

A prática do culto do lar é aquela que se tornou imediatamente útil para mim em minha vida como heathen, ou pagão. Ela é o centro da religiosidade pré-cristã.

Apesar disso, é praticamente desconhecida no Brasil, o que leva muitos grupos online a não entenderem o porque “cada um cada um”, “faça como quiser, apenas faça” não colam aqui. Não quero dizer que o culto do lar seja igual para todos, vejam: eu mesmo me encontro em precárias condições financeiras e de aceitação religiosa que me fazem ter que praticar um cripto-culto do lar, um culto escondido, disfarçado, não aparente, embora boa parte da minha família saiba, eu tendo manter os locais sacralizados discretos, apenas por respeito à maioria cristã que me rodeia. Esse não será o caso para muitos. Por outro lado as pessoas poderão desenvolver o culto de seus ancestrais de diversas formas, sentirão que diversas oferendas diferentes serão feitas para cada deus/vættr/ancestral, que práticas precisarão ser adaptadas… Mas precisamos de um “core”, um “centro”, algo que nos dê identidade: por mais que os hábitos dos germanos mudassem de lar para lar e de tribo para tribo existia *algo* que os definia como germânicos. E não era meramente as divindades para as quais prestavam culto. O problema é que no Brasil a busca por essa identidade esbarra no individualismo extremado, fruto de ambas a modernidade a ideia de salvação pessoal vindas do cristianismo que está mais enraizado em muitos pagãos do que eles querem admitir.

Dessa forma, eu crio o Sunnōnizfulką Herþaz (proto-germânico para “Lar do Povo da Sol”). Tenho plena ciência de que ele não será jamais como um Vaticano no heathenismo ou algo assim, provavelmente será apenas (e assim espero, pois me sentiria imensamente grato de ver o heathenismo se expandindo autonomamente) o primeiro hearth do qual a internet brasileira tem conhecimento. Com ele eu busco eu mesmo vivenciar aquilo que acredito e transmitir para aqueles que quiserem tomar iniciativas independentemente semelhantes. O que eu quero, com o Sunnōnizfulką Herþaz é, além de vivenciar minha religião/cultura de maneira mais intensa, é mostrar que existe um outro caminho, embora seja lento, para o paganismo se ele quiser se fixar como religião. Que existe uma abordagem que pode ser efetiva materialmente, e completar espiritualmente. Que cria raízes e pode ser transmitida, como no passado, para meus filhos. Uma tradição viva, e não apenas uma cultura comercial ou fetiche.

Para mim foram essenciais o Larhus Fyrnsida, Þunresfolc Heorþ,Weiß Alb Hearth, Of Axe and Plough (Eofores Holt Heorþ), White Dog Hearth, Hvergelmir International, além do livro de Crisholm, True Hearth. Alguns artigos excepcionalmente relevantes como sobre o assunto podem ser encontrados no site de Ásatrú & Liberdade, os quais eu traduzi ou foram de extrema utilidade para mim, após traduzidos por amigos. O lar, a minha relação com a Terra, os espíritos, os ancestrais, minha família e comigo mesmo mudou muito. Nem sempre de forma positiva, (inclusive esquecendo o infantilismo de me achar “apadrinhado” por divindade x ou y, me percebendo mais empurrado pela lei da wyrd como todos nós) mas os frutos que disso foram muito mais positivos que negativos: e eu tenho muito que agradecer a todos esses que, cientes disso ou não, me ajudaram enfim a descobrir o caminho da profunda cultura e religiosidade germânica pré cristãs.

Um agradecimento especial a Andreia Marques, sem a qual nada disso seria possível. Também à Delaine :}

Em honra de meus ancestrais, dos espíritos que me rodeiam e de meu povo e família,

Daniel “Sonne Heljarskinn”, 02 de março de 2017, um dia após a fundação oficial do Sunnōnizfulką Herþaz.

A nobreza de um hearth se define na força da tradição que preserva e reconstrói, não em sua aparência material.

Mais textos do meu hearth.

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Amigo limoeiro ao pé do qual encontra-se uma pedra para os vaettir. Abaixo da palha eu coloco minhas ofertas.

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Nótt e Máni na fundação oficial do Hearth.

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O estranho ser humano por trás disso.

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O altar interno, onde além de imagens de deuses gravadas com tinta em ossos, o álcool (espírito), vela para fogo (a qual infelizmente seria correto, mas eu não posso deixar acesa durante todo o tempo), registros de ancestrais, faca ritual e “horn” improvisado para a bebida ritual.

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Osso canino onde gravei/selei o espírito do meu Hearth, que fica no meu altar (embora, idealmente, devesse ser objeto de sacrifício e enterrado sob o firmamento da casa, o que, para mim, não é possível).

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Após acender o fogo, aspergir álcool sobre as imagens, e deixar a primeira oferenda oficialmente para os espíritos e deuses. As imagens ficam (quando não em rituais) dentro desta caixa para evitarem chamar a atenção/chateação da família.

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