Quem foi Ragnar Lothbrok?

Por Eirin T. Shira, fundadora do Hvergelmir Internacional; trad. Andreia Marques

Sobre Ragnar Lothbrok, esta é uma leitura curta e interessante, útil para quem assiste a (ou é atormentado pela) série televisiva Vikings. Para aqueles que gostariam de alguns relatos históricos, ao invés de pensar que um programa de TV é historicamente correto…

Uma das coisas que torna a questão difícil de discutir é que a pergunta “Ragnar Lothbrok foi um personagem histórico?” é em si de alguma forma ambígua. Assim, antes de discutirmos a pergunta, a questão deve ser definida mais claramente.

Para mencionar dois extremos opostos, um cético poderia perguntar se tudo que é dito sobre o personagem de Ragnar Lothbrok é historicamente correto, perceber que a resposta é certamente “não”, e então proclamar vitória. No outro extremo, um proponente de um Ragnar histórico poderia perguntar se um viking com o nome Ragnar existiu, apontar que um viking com o nome correto (Reginheri) aparece nos anais francos, e declarar que Ragnar Lothbrok foi então um personagem histórico.

Nenhum dos dois extramos é aceitável em um discurso sério sobre o assunto, portanto eu irei discutir o assunto da perspective seguinte. O critério que usarei é que, de forma a considerar Ragnar Lothbrok um personagem histórico, deve existir uma pessoa historicamente reconhecida com este nome que realmente executou um número significante de atos atribuídos ao Ragnar Lothbrok lendário. Acredito este ser um critério aceitável, já que ele põe o ônus da prova onde ele deve estar, ou seja, nos ombros daqueles que defendem que Ragnar Lothbrok é um personagem histórico. O resto desta discussão é embasado nestes princípios.

Agora, para responder à questão: não, Ragnar Lothbrok não parece ser uma figura histórica, baseado nos critérios acima. Eu farei alguns comentários sobre porque eu tenho esta opinião, e então mencionar alguns materiais de leitura para aqueles que desejam mais.

travis-fimmel-as-ragnar-lothbrok-2

Ragnar

Os registros históricos contemporâneos ao século IX (quando Ragnar Lothbrok supostamente viveu) mostram apenas um viking com o nome correto, um viking chamado “Reginheri” (uma forma latina equivalente a Ragnar) na França, que morreu no ano 845, de acordo com os anais francos contemporâneos (Annales Bertiniani, ou os Anais de St. Bertin). As palavras enfatizadas na sentença anterior são convenientemente ignoradas por aqueles que desejam usar Reginheri como um protótipo histórico para Ragnar Lothbrok. Já que Reginheri morreu na França no ano 845, ele não pode ter participado nos eventos posteriores que formam a parte principal das aventuras do Ragnar Lothbrok lendário.

Além, não há evidência que Reginheri foi pai de qualquer dos indivíduos que mais tarde foram declarados filhos de Ragnar Lothbrok. Assim, Reginheri não satisfaz o critério mencionado acima. Não há registro contemporâneo que mencione um nórdico chamado Ragnar.

Lothbrok

Nenhum registro contemporâneo traz este nome, e é significativo que quando este nome finalmente aparece nos registros, 200 anos depois, ele aparece sozinho. (Ari, escrevendo no séc. XII, foi o primeiro escritor reconhecido que menciona Ragnar e Lothbrok como a mesma pessoa.) O nome aparece pela primeira vez (como “Lothbroc”) na Gesta Normannorum Ducum, por William de Jumièges, escrevendo em 1070, em que Lothbroc é chamado o pai de Bjorn Ironside. (Um viking chamado Bjorn é reconhecido nas crônicas contemporâneas, mas sem o apelido.)

Adam de Bremen, escrevendo logo depois, chamou Ivar o filho de “Lodparchus”. Além deste Lothbrok não ser atestado por quaisquer das fontes contemporâneas, há ainda outro problema em potencial: o nome (“Lothbroka”) pode ser um nome de mulher. Veja o artigo sobre a Ragnars sage, por Rory McTurk em Medieval Scandinavia: an encyclopedia (Nova York e Londres, 1993). Se este argumento baseado em filologia é correto, este Lothbrok(a), se histórico, seria uma mulher e claramente não o lendário Ragnar Lothbrok. (Eu não tenho o estudo em linguística necessário para comentar mais a fundo sobre este argumento.)

Ragnall

Os Anais Fragmentários da Irlanda (editado e traduzido para o inglês por Joan N. Radner, Dublin, 1978, previamente conhecido como “Três Fragmentos”) tem um item de interesse que é frequentemente apontado como relacionado com a lenda de Ragnar Lothbrok. Nela, um certo Ragnall (Rognvald), filho de Alpdan (Halfdan), rei da Noruega, é mencionado, assim como seus feitos antes da queda de York para os dinamarqueses, em um contexto tal em que é pelo menos possível que Ragnall e Ragnar Lothbrok fossem a mesma pessoa.

Há dois problemas com esta interpretação. Primeiro, Ragnar e Ragnall não são o mesmo nome, embora semelhantes. Segundo, e mais importante, os Anais Fragmentários não são, eles mesmos, uma fonte contemporânea, e há boas razões para suspeitar deles.

Entretanto, mesmo se concedermos que os eventos dados são históricos (uma concessão que muitos historiadores não estariam dispostos a fazer), e então concedermos além disso que estes eventos formam a base da lenda de Ragnar, então nós ainda teríamos o problema que a pessoa sobre a qual as lendas se embasam não tem o nome correto.

Poderiam Ragnall e Lothbrok ser a mesma pessoa?

Nós já vimos que o único Ragnar historicamente atestado (Reginheri) não pode ser razoavelmente considerado como um protótipo histórico para Ragnar Lothbrok. Assim, parece que a melhor alternativa para argumentar um Ragnar Lothbrok histórico é propor (como já foi em várias ocasiões) que Ragnall e Lothbrok foram a mesma pessoa, e então assumir que os nomes similares (mas diferentes) Ragnall e Ragnar foram confundidos acidentalmente.

Em seu artigo Ragnarr Lothbrok in the Irish Annals? (em Seventh Viking Congress, 1976, pp. 93-123), R. W. McTurk encarou o problema da seguinte perspectiva: olhando as declarações feitas nas fontes, e vendo que suposições poderiam ser feitas sobre estas declarações de forma a aceitar um Ragnar Lothbrok histórico que foi membro da família real dinamarquesa.

Na minha opinião, seu requerimento que Ragnar deveria ser membro da família real dinamarquesa não é realmente necessário de forma a argumentar a existência histórica de Ragnar Lothbrok, e este requisito leva a uma longa discussão sobre a relação genealógica dos primeiros reis dinamarqueses (nem sempre convincente) que não é de relevância imediata para a questão da historicidade de Ragnar Lothbrok.

Assim, eu vou aproximar este problema da mesma forma que R. W. McTurk o fez, mas sem a necessidade de argumentos sobre a origem genealógica de Ragnar. Suponha que Ragnar e Lothbrok são a mesma pessoa, do que se pode assumir que “Ragnall Lothbrok” existiu (depois nomeado erroneamente Ragnar Lothbrok por um erro nas fontes islandesas). Se, em um exercício mental, nós declararmos que este é o caso, então teremos seis suposições que são necessárias e uma sétima que é desejável:

  1. Nós devemos assumir que Adam de Bremen (fim do séc. XI) estava correto em dar “Lodparchus” (Lothbrok) como o nome do pai de Ivar (fim do séc. IX).
  2. Nós assumimos que o “Goghad Gaedhel re Gallabh” (A Guerra de Gaedhil com Gaill, ed. por Todd, Londres, 1867), uma fonte irlandesa do séc. XII, está correta em declarar que Halfdan de Dublin (morto na Irlanda em 877, de acordo com os Anais de Ulster) é filho de um certo Ragnall, e que este Ragnall é o mesmo que aparece nos Anais Fragmentários da Irlanda.
  3. Nós assumimos que a Crônica Anglo-Saxã está correta declarar que um irmão (desconhecido, mas chamado de Ubbe em fontes posteriores) de Halfdan e Ivar foi morto na Inglaterra em 878, apesar de evidências testimoniais contraditórias de Aethelweard que dão uma leitura bem diferente do mesmo evento (veja o 4).
  4. Nós assumimos que a crônica de Aethelweard está errada em declarar que Halfdan irmão de Ivar foi morto na Inglaterra em 878, pois de forma contrária isso provaria que o Halfdan de Dublin (m. 877 na Irlanda) foi uma pessoa diferente do Halfdan irmão de Ivar.
  5. Além de assumir que o Halfdan de Dublin foi a mesma pessoa que Halfdan irmão de Ivar, nós devemos assumir que este Ivar é a mesma pessoa que o Ivar de Adam de Bremen, mantendo em mente que a crônica de Aethelweard, se incorreta, implicaria apenas na existência de dois Ivar nos registros bretões deste período.
  6. Nós assumimos que o argumento filológico identificando Lothbrok(a) como um nome feminino está incorreta.
  7. Se Ari, o autor mais antigo a mencionar Ragnar Lothbrok, deve ser considerado uma fonte confiável neste assunto, então nós devemos assumir também que o Halfdan de Dublin foi a mesma pessoa que o Halfdan irmão de Sigifrid que aparece nos Anais de Fulda, do ano 873, apesar de severos problemas cronológicos que isso causaria na genealogia de Ari.

Nas suposições acima, os números (1) a (6) são cruciais se alguém deseja argumentar que Ragnall e Lothbrok são a mesma pessoa, e (7) é necessária também se assumirmos que a informação dada por Ari é correta. Dada a não-contemporaneidade dos dois primeiros itens, assim como as contradições presentes em alguns dos outros, existe pouca probabilidade que todos os seis pontos cruciais serem corretos.

[Nota: que alguns, se não a maioria, destas suposições são verdadeiras é possível, mas isso não é suficiente.]

Entretanto, se algum dos seis itens acima for falso, então o caso sobre Ragnall ser o mesmo que Lothbrok entra em colapso, e nós devemos concluir que a tentativa de criar um “Ragnall Lothbrok” histórico é insatisfatória. Apesar desta lista ser consideravelmente mais leve que a lista dada por McTurk em seu artigo, o resultado é similar.

travis-fimmel-stars-as-ragnar-lothbrok-in-season-4-of-history-channels-vikings-900x440

Conclusões

Já que todas as tentativas anteriores de encontrar um Ragnar Lothbrok histórico não satisfazem os critérios mencionados, Lothbrok e Ragnall vêm de fontes não-contemporâneas que são por si só abertas a suspeita, e que os registros históricos não mostram ninguém (até onde eu sei) que poderia ser identificado com Ragnar de forma plausível, deve-se concluir que o Ragnar Lothbrok não é uma figura histórica de acordo com os termos descritos acima.

De fato, se há alguma base histórica para a lenda de Ragnar Lothbrok, é bastante provável que ela seja o resultado de uma combinação de dois ou mais indivíduos distintos em uma só figura com as características de todos, da mesma forma que pai lendário de Ragnar, Sigurd Ring é de fato uma composição de dois homens diferentes que lutaram um contra o outro pelo trono dinamarquês no ano de 814, Sigifridus (“Sigurd”) e Anulo (em que “Ring” é uma tradução do Latin Annulus). Porém, tais personagens compostos não podem ser considerados históricos, e não há evidências próximas da contemporaneidade que mostrem que Lothbrok ou Ragnall realmente existiram.

Leia mais

A tentativa mais ambiciosa de retratar Ragnar Lothbrok como uma figura histórica é Scandinavian Kings in the British Isles 850-880 por Alfred P. Smyth (Oxford University Press, 1977). Para um exame bastante crítico da perspectiva de Smyth, veja High-kings and other kings, por Donnchadh O’Corrain, em Irish Historical Reviews, vol 21 (1979), pp. 283-323 (muito recomendado). Ambas as fontes citam numerosas outras fontes para aqueles interessados em mais detalhes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s