Então você quer ser um heathen

Escrito por Räv Skogsberg em 2 de Fevereiro, 2017 (trad. por Wander Steyner)

Recentemente, em um grupo do Facebook do qual faço parte, um amigo me fez uma pergunta: “Digamos que alguém se interesse em se tornar Pagão Nórdico; que conselhos e sugestões você daria?” Este é um tema que considero muito importante, e como respondemos a essa questão diz muito do que o Paganismo representa para nós. Sendo Pagão Sueco, há coisas para as quais minha resposta não funcionará em outros países – diferenças societárias e culturais podem interferir, ou a forma como o Paganismo funciona nesses lugares pode ser muito diferente. Ainda assim, vou arriscar.

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(Claro, essa não é a única forma de se tornar um heathen, se é que preciso dizer isso…)

Sempre defendo que devemos iniciar praticando, em vez de nos atolarmos de pormenores religiosos. A Europa e as áreas sob o controle europeu foram fortemente influenciados pelo Cristianismo nas questões religiosas; talvez possamos até afirmar que nosso entendimento coletivo do que seja religião tenha sido amplamente moldado pelo Cristianismo, e em particular, seu foco na fé. Principalmente no nordeste da Europa, onde o Protestantismo domina há séculos, enfatizando o “somente pela fé”, existe uma tradição em desconsiderar coisas como os sacramentos e as práticas mais “mágicas” em favor do simples diálogo. E conversar sobre o que as pessoas deveriam acreditar. Em quê é certo ter fé? Isso leva muitas pessoas interessadas no Paganismo a fazerem perguntas sobre determinadas coisas em que acreditamos, esperando que eu os convença, por ser representante de uma organização Pagã, de que tenho todas as respostas. Ou que eu recomende um livro que as tenha.

Quem quiser entender o Paganismo, precisa começar com ações, fazendo coisas tipicamente pagãs. A meu ver, ninguém pode superestimar a importância da prática. Eu defenderia que a prática é a parte mais importante de se tornar um Pagão. Nossa religião requer o fazer. Isso não significa, como alguns críticos do Paganismo alegariam, que não acreditamos, mas que a fé é uma questão bastante pessoal. A religião pagã tem um vão de milhares de anos, e as crenças variaram muito com o tempo e entre lugares. (Assim como, não vamos esquecer, da prática, que quase exclui a abordagem do Jeito Único de Fazer as Coisas na religião, da mesma forma). Mas, o Paganismo nunca foi uma religião de poltrona. Apropriar-se de uma abordagem puramente teórica e filosófica para o Paganismo não é ruim, mas se isso é o que busca, essa publicação não será de muito interesse para você, receio dizer.

 

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maypole (mastro cerimonial) e a högr de nosso rito de Midsummer

Mas, como começar a fazer coisas Pagãs, então? Mesmo sendo totalmente verdadeiro dizer que “você pode fazer do jeito que quiser”, também é verdade que essa não é uma ajuda muito útil. Dizer isso significa validar e empoderar aquele que pergunta a se permitir assumir responsabilidades por suas próprias conexões com os deuses, mas por muitas vezes é apenas confuso e paralisante. Quem nunca viu um blót ou qualquer coisa parecida pode se perder completamente quanto ao que podem fazer. Por isso, normalmente aconselho que tentem encontrar um grupo existente – blotlag – em sua área e peça permissão para participar de um blót com eles. Aprender na prática a tradição viva de um grupo que, de fato, atua, foi o único jeito por milhares de anos. Um grupo com alguns poucos anos de existência, no mínimo, terá encontrado formas que funcionam para eles e terá desenvolvido relações com os espíritos locais e certos deuses, o que facilitará as coisas para um iniciante nos caminhos Pagãos. Mesmo não querendo continuar em um grupo, a experiência e o conhecimento prático obtidos são inestimáveis quando praticamos sozinhos.

Claro que nem todos os grupos são abertos para estranhos, e mesmo que sejam, pode não ser o grupo certo para você. Há muitas coisas que podem dar errado em um grupo, e se seu instinto sinalizar que há algo errado, você provavelmente deveria seguir essa sensação. Mas, as complexidades de se juntar a um grupo são uma discussão muito mais longa, para a qual não temos espaço nessa postagem.

Talvez não haja um grupo nas redondezas de onde mora, ou os grupos à sua volta não estejam admitindo novos membros, ou simplesmente não gosta das pessoas envolvidas. Em vários países, existem organizações que realizam grandes blóts, abertos para qualquer um participar, sejam membros ou não. Estes blóts tendem a ser menos frequentes do que aqueles realizados por organizações locais, e devido ao número de participates, podem ser bem diferentes de blóts feitos sozinho em sua casa. Contudo, numeros maiores também significam não ter que se adequar a um círculo existente de amigos, e caso não goste das pessoas ou do ambiente, você pode simplesmente sair de fininho sem ter que se preocupar em estar ofedendo alguém. Ao mesmo tempo, você pode ter uma demonstração de como um blót é feito, e organizações estabelecidas tendem a ter pessoas mais esclarecidas, abertas a responder suas perguntas, ou mesmo um corpo clerical treinado, cujo trabalho é fazer exatamente isso. Mesmo que você tenha que viajar para longe a fim de conseguir algo assim, cruzar o país na estrada não deveria detê-lo. Participar e passar pela experiência de um blót, nos níveis tanto espritual quanto prático, lhe dirão muito mais do que qualquer leitura poderá dizer.

hc3b6stblot20162Pode haver milhões de razões para você não fazer nenhuma das coisas sugeridas acima. Isso significa que não poderá realizer blóts para os deuses nórdicos? Claro que não. Acredito, de verdade, que perderia a oportunidade de ver o que boa parte do Paganismo moderno representa, a experiência compartilhada e o conhecimento acumulado de tradições vivas, mas existem muitos Pagãos que vivem à margem, fazendo suas coisas do seu jeito e sendo felizes com isso. Se acabar fazendo isso, seja por escolha ou por necessidade, meu conselho é que teste formas diferentes de abordar os deuses, formas diferentes de realizer um blót. Descubra o que funciona para você.

Comece com coisas simples, muito simples, e construa a partir disso. Encontre um local onde não será perturbado, um lugar que te faça se sentir bem, e traga uma pequena oferenda. Encontre uma árvore, uma pedra que te passe uma sensação boa, e pense nela como um local de encontros. Um local onde possa se encontrar e ser encontrado. Converse com o lugar, com os deuses, e faça isso em voz alta, se puder. Fale de coração aberto ou escreva algo antes, mas que seja de cunho pessoal. È a sua apresentação para os deuses, afinal de contas. Você pode se sentir bobo, para começo de conversa, mas isso vai passar depois de um tempo. Diga os nomes dos deuses que quer conhecer, cumrpimente-os, diga-lhes quem você é, e que lhes traz uma oferenda. Pendure-a em um galho, jogue-a num lago, ou deixe-a sobre a pedra. Enterre-a, ou queime-a em uma fogueira. Tenho certeza de que você descobrirá o que fazer, mas lembre-se de não oferecer algo que possa ser prejudicial à natureza, você está lá para adorar a deuses que são inerentes à natureza.

Você pode não sentir nada na primeira vez (ou vezes), ou pode se surpreender com a intensidade da experiência. De qualquer forma, haverá momentos em que nada parecerá acontecer, mas persistência na prática é o que nos leva onde se quer, no fim das contas. Tente fazer as coisas de maneira diferente e veja o que funciona melhor para você. Daí então, será o momento de pesquisar. Não conheço nenhum bom livro de iniciação para Pagãos – mas há muitas sugestões pela internet. Teste-os. Continue fazendo o que funcionar, e descarte o resto. Você é o dono do seu nariz, e você está fazendo as coisas da maneira certa.

A Nossa Religião É Uma Religião Agrária

Publicado originalmente em Wyrd Designs (Https://wyrddesigns.wordpress.com/2016/02/16/ours-is-an-agricultural-religion/)

Traduçao de Heitor Gomes

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A nossa religião não é apenas uma religião de guerreiros, mas infelizmente isso é o mais alardeado. Nossa religião é uma religião AGRICULTURAL. Se você verdadeiramente examinar todos os nossos ritos e datas sagradas, eles se enfocam em vitalidade e sobrevivência, e portanto, especialmente nas principais épocas sagradas, conectam com momentos chave de uma cultura agrária, da colheita até a organização dos animais. Sim, nós honrávamos os ancestrais e usávamos nosso tempo honrando aqueles que morreram em bom serviço à comunidade. Mulheres que morriam no parto eram TÃO altamente honradas quanto homens que morriam em batalha em algumas comunidades. Um poeta ou skáld poderia ter honras tão altas quanto qualquer guerreiro, etc… Continue reading “A Nossa Religião É Uma Religião Agrária”

Por que eu sou um Heathen ateu

Publicado originalmente em Boxing Pythagoras.
Tradução para o português por Sonne Heljarskinn.

Tendo já relatado aos meus leitores Why I am not a Christian (Por que eu não sou um cristão), pensei que poderia levar algum tempo para falar sobre o que eu sou: Eu sou um pagão ateu. Continue reading “Por que eu sou um Heathen ateu”

Týr e a coragem

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Texto de Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente em facebook.

Týr é reconhecido como uma divindade antiquíssima e provavelmente deus principal anterior a Óðinn, e que em algum momento da história (talvez na mesma época da guerra entre Aesir e Vanir) perdeu o poder, sendo assim substituído pelo deus Caolho. Continue reading “Týr e a coragem”

An Introduction to Heathenry

By Lēoht Steren, Thyle of Hvergelmir International
Heathenry is a modern religion inspired and informed by the cultural religious practices of the pre-Christian Germanic peoples of northern, western and central Europe. Within this modern (and still emerging) religion, we can find numerous denominations that take various approaches based on varying levels of historical study and modern innovation.
The core of the Heathen worldview is community – the social group within which the Heathen exists. When we look back at the historic Germanic tribes that Heathens draw many of their spiritual and philosophical inspirations from, we see a very strong importance placed on friends and family. The Eddas and Sagas are littered with tales of the close bonds of both kith and kin, and warnings of the consequences of transgressions against these bonds.
Everything else about the general Heathen worldview hinged off the concept of community. Our actions, for example, are moderated not by guilt, but by shame. Whereas guilt is internally generated, shame comes from your community. To act in a manner unbefitting of your community is shameful and can have undesirable results up to and including expulsion from your social group. In the historical context, being ostracised from your community could well be fatal as living in the wilder parts of the world was a very dangerous and arduous undertaking. In modern times, the dangers are not quite so real, but social ostracism can still have significant consequence. Conversely, there is worth, which is also given by the community. When someone performs a worthy deed, they are (and should be) well recognised for it. Prestige is gained and respect is garnered.
The act of performing certain rites and celebrating certain festivals is also community based. These are social occasions used, at least in part, as a way for the community to affirm, confirm, and reaffirm social bonds and obligations. Within this, we further find the concept of reciprocity. People give so that they may receive. In this way, each gift reinforces the social bonds and also serves to strengthen the community.
In the ritual sense, community is not just those members of the human community of which the Heathen is a part but includes a wide range of non-human intelligences commonly known as “wights”, as well as greater beings known as gods. The word “wight” comes from the Old English “wiht” and simply means “being”. They are the unseen (but not always!) beings that exist in the world and can be called upon to act as guardians, aides and tutelary spirits. A well known example of a wight would be the British brownie – a helpful spirit that would live in the home and help with household chores, in exchange for small gifts of food (once again showing the reciprocal nature of relationships in the Heathen worldview).
The Heathen gods are the gods of the historic Germanic peoples and are well-known today through the distorted lens of popular media, including Marvel Comic’s “Thor”, and have given the English language many of its weekday names. They are beings of great (but not unlimited) power and it is often the differing perceptions of them that defines the various denominations of Heathenry that we see in the modern day. The gods are divided into two categories or “tribes” – the Aesir and the Vanir. We read, in the Icelandic Eddas, that these two tribes were once at war but made a truce with an exchanging of captives. Most of the stories of the gods concerns the Aesir and their Vanir hostages. Notably, their dealings with the often antagonistic jotnar (commonly called “giants”).
Whilst we do find myths talking about possible post mortem destinations for the soul, Heathenry is more a world accepting religion. That is to say that the Heathen does not fixate upon living in the hope of a reward in the afterlife, as we see in world rejecting religions such as Christianity. Rather, the Heathen lives very much with their focus in this world.
Within Heathenry, there is the concept of Wyrd. This word is often translated as “fate” but it is not quite fate as people know it. “Fate” carries implications of inevitability, of a certain lack of free will almost. Wyrd, on the other hand, is more about the influence of the past on the present and, thus, the future. As you progress in your life you make choices, actions and inactions. Each one of these influences your future choices and limits your potential actions. Your ultimate fate remains fixed (for all are doomed to die), but you have the power to approach it on your own terms. Wyrd therefore gives the Heathen all the motivation they need to live a good, worthy life without the threat of an unappealing afterlife.
In around the year 1000, Iceland officially converted to Christianity and the Heathen Era of the Germanic cultures came to an end. For almost a thousand years Christianity exerted ever more influence on Europe and much of the old customs, beliefs, and practices were either forgotten or syncretised into Christian traditions. The “old ways” first saw a revival in the second half of the 18th century in the romantic nationalism movement that lasted until the early 20th century. With this came a lot of ahistorical notions (such as the myth of the noble savage) and a certain amount of racist mentality. With the rise of a certain German workers’ party, the romanticism of Germanic culture experienced a rather rapid wane in interest and, so, we did not really experience any serious interest in the old customs of the pre-Christian Germanic cultures until the early 1970s. In 1972, the Icelandic Asatru Fellowship was formed with the express purpose of promoting a revitalised form of Heathenry, with American and British organisations forming in the following years. With these new organisations, we saw different approaches arise and the effective creation of the various denominations of Heathenry that we see today.
Some of these denominations are described as “folkish”, which is to say that they hold the romanticist belief that there is an ethnic component to Heathenry. Put simply, they advocate that Heathenry is about a return to the beliefs of their distant ancestors. If your ancestors are not of “Germanic stock”, expect many folkish Heathens to encourage you to look to your own ancestry for guidance on a spiritual path. Other denominations are more “universalist”. They hold that there is not racial aspect to Heathenry and that anyone can be called to the religion. The fundamental difference between the folkish and the universalist Heathens has caused controversy over the years.
Once we get past the folkish/universalist distraction, we can see that modern Heathenry is largely divided by cultural approach. Many heathens focus their religious reconstruction on specific temporal periods and geographical regions. There are those who look to Anglo-Saxon sources for the bulk of their inspiration, whilst others look to Icelandic or other sources of information. The most numerous demographic are those who look at the whole body of information available (especially the mythological tales collected in the Icelandic bodies of works known as the Poetic and Prose Eddas) and take the bits that have the most appeal.
Whilst numbers are still very low, compared to some other modern religions, Heathens are organising more and more events where they can come together and hold community rites. Oftentimes, a group will have adherents of several denominations who will set aside their differences in order to focus on the larger matters at hand. With the rise of the internet we have also seen the rise of online communities that are allowing Heathens to “network” in order to come together with those of like mind. Some groups and individuals may also maintain links with Pagans and/or Pagan groups.
One subject so far untouched is that of magical belief and practice. Historically, there is evidence that the Germanic peoples did employ magic and magic users for certain purposes, but that it was not likely something to be undertaken by the everyday person. In modern times we find similar feelings about the efficacy of magic, as well as the notion that it is not for everyone to use. Instead, people are more likely to be inclined to give offerings to either the gods, the wights, or even their ancestors in the hope of attracting their favour in situations where a more than mundane approach may be desirable. Those who practice Heathen magics do so in relative secrecy.
As Heathenry continues to grow, groups become more established and draw greater numbers, allowing more and more projects to unfold. One example of this is the purchasing or construction of buildings for use as temples or community spaces. The (folkish) Odinist Fellowship has already acquired a building in Newark for use as a temple and the (universalist) Icelandic Asatru Fellowship have started constructing a dedicated Hof or temple. Doubtless we will see more of this kind of endeavour, as Heathenry grows. Who knows what else the future will bring? Wyrd wends ever as she will!

Quem foi Ragnar Lothbrok?

Por Eirin T. Shira, fundadora do Hvergelmir Internacional; trad. Andreia Marques

Sobre Ragnar Lothbrok, esta é uma leitura curta e interessante, útil para quem assiste a (ou é atormentado pela) série televisiva Vikings. Para aqueles que gostariam de alguns relatos históricos, ao invés de pensar que um programa de TV é historicamente correto…

Uma das coisas que torna a questão difícil de discutir é que a pergunta “Ragnar Lothbrok foi um personagem histórico?” é em si de alguma forma ambígua. Assim, antes de discutirmos a pergunta, a questão deve ser definida mais claramente.

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