Primeiro Ensaio sobre a Simbologia de Hel

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Por Sonne Heljarskinn
Publicado originalmente em 14 de abril de 2016, no facebook.

Hel é uma poderosa figura na mitologia nórdica, o que provavelmente reflete sua importância no imaginário popular. Em contrapartida ela possui muito poucas menções nos textos que chegaram até nós. Apesar disso, desenvolve um papel fundamental em toda a mitologia, especificamente em seu envolvimento nos trechos que relatam a morte de Balder.

Hel é uma das filhas de Loki com Angrboda. Enquanto Fenrir foi preso pelo que aparenta ser uma corrente imaginária, ou de magia poderosa, e Jormungand foi lançada ao fundo dos oceanos, Hel desenvolve um papel bem mais ativo e preservador. Primeiro que dos três, Hel é a única com características humanizadas. Segundo que ela se torna senhora do reino dos mortos. E em seu território, apesar de cedido pelos Aesir, seu poder é absoluto. Mesmo Frigga, como a principal deusa dos Aesir, não foi capaz de a coagir a devolver seu filho sem uma condição (que todas as criaturas lamentassem a morte de Balder), a qual não é satisfeita, e acaba desencadeando os eventos que levarão ao Ragnarök, onde a ordem do universo é renovada por uma guerra entre os deuses de Asgard e seus inimigos.

Há que se reparar, todavia que a imagem de Hel muito se deturpa com a influência, consciente ou inconsciente das religiões reveladas. Hel, em detrimento de não ser desumanizada, possui metade de seu corpo descrito como morto. Mas isso não significa que Hel é metade ‘má’. É interessante reparar que a morte não é algo ruim em essência para os povos germânicos. É preciso compreender a morte como parte da vida assim como Hel não pode tirar sua parte pútrida. Como diz o Hávámál, na estrofe 76:

“O gado morre,
os parentes morrem,
você mesmo morrerá;
mas a boa fama
não morre nunca
de todo aquele que a conseguiu”.

A inevitabilidade da morte é algo conhecido até mesmo pelos deuses. Talvez uma das grandes lições que se pode esperar do mito de Balder é: que mesmo Frigg, conhecedora de todas as ørlögs que as Nornir usam para tecer a wyrd (‘destino’) dos seres, mesmo ela como como poderosa deusa é incapaz de fazer com que os atos de todos os levassem para um destino que não fosse fruto disso. Em uma metáfora: você não chega no norte dirigindo para o sul. Você não colhe morangos semeando ervas daninhas. E a morte só pode ser evitada não se vivendo. A morte é parte de nós. E está a cada momento mais próxima. Viver implica a possibilidade crescente de morrer. Isso é assustador? De forma alguma! E é nesse sentido que o Hávámál deixa a sua lição: você precisa alcançar a imortalidade através dos atos, fazendo o bem pela sua comunidade. Não pensando em uma fama egoísta, mas algo que perdure para seu clã ou tribo. Algo que o faça sempre parte dos que viveram contigo e daqueles que ainda virão.

É nesse sentido que é preciso rechaçar o medo da morte. É preciso saber que estamos morrendo a cada momento, ou que algumas pessoas morrem para nós e precisamos tirar o bom do que passou, e continuar. Usar a morte para motivar nossa vida: outra lição de Frigg. Apesar da inevitabilidade do destino, ela não se resignou. Lutou com todas as suas forças para modificar, fazer com novos atos um futuro diferente. É apenas pela ação que destinos se modificam, e não unicamente pela vontade. Que o destino não é senão fruto de nossos atos não nos deve levar a inanição, mesmo nas tormentas. Deve nos motivar a construir, com novos atos um ponto de chegada diferente do que temos agora. Em outra metáfora: se você está indo para o sul e quer chegar ao norte, vire sua embarcação nesta direção em vez de reclamar que está indo para o sul e só percebeu agora. Você terá que percorrer um caminho mais longo para chegar ao seu destino, mas ainda assim poderá chegar lá.

Todavia a maior lição quem nos dá é Hel. Frigg sabia do destino. Óðinn também. Mas deixaram para reverter a morte de Balder após ele ser ferido e ter sua essência levada para os domínios de Hel. Lá, Hel propõe quase um trocadilho: mesmo que todos os seres chorem por Balder, ainda assim ele não pode sair daqui; vocês deveriam ter impedido a morte dele e não tentado a reparar. Ou seja, devemos estar atentos ao destino de nossos atos. Não construiremos uma família, ou clã ou whatever melhores deixando para corrigir as coisas apenas quando chegam em momentos cruciais, de ruptura. Como diz o ditado popular: antes prevenir do que remediar. Essa lição deveria ser melhor aplicada pelas pessoas em nossa sociedade, desde os mais baixos atos até os mais altos na política, por exemplo.

Longe de explorar toda a simbologia e importância de Hel, lhes deixo essas reflexões. A morte não está aí para ser desejada ou evitada. Ela está aí para nos fazer viver com intensidade e deixar a nossa marca. E nós, como heathens, precisamos entender que da morte não se foge, mas se encara. E é esse ato de coragem, honra e bravura que nos faz importantes ao nosso meio, e deixa nosso espírito vivendo entre aqueles que estão em Midgard: e não apenas sai de nossa carne para algum destino fora daqui.


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