Erros comuns na Ásatrú: Parte 1

Primeiro post do ano. Feliz 2017 pessoal ^^

nohorns

Sonne Heljarskinn

(Aproveito o espaço e agradeço à Andreia Marques e o Ravn que me indicaram mais pontos para apresentar, que eu mesmo quase esqueci).

Esses dias, andando pelo Platinorum vi uma tradução de uma lista de “7 erros comuns para iniciantes na magia”. Percebi que o tema poderia ser bem interessante de ser analisado também a partir da Ásatrú, ou do paganismo germânico em geral. Surgiu, assim, essa listinha dos erros mais comuns que os iniciantes (ou nem tão iniciantes assim) cometem quando passam a fazer parte do Antigo Caminho. Eu mesmo cometi quase todos, senão todos.

  1. Chamar a religião de “o” Ásatrú

Essa aqui virou um costume que dificilmente você vê alguém acertando. A palavra islandesa “Ásatrú” (com dois acentos, a qual se pronuncia “aussatrú”) é formada pela junção de “Áss” (divindades Æsir) e “trú” (fé), significando “fé nos Æsir”. Isso você já deve provavelmente saber. Mas você sabe que a palavra que determina o gênero, e, logo o artigo que você usa, é a última, nesses termos compostos germânicos? Desta maneira, “trú”, que é uma palavra feminina, determina que o artigo usado seja “a”, portanto, “a fé nos Æsir”, “a Ásatrú”.

  1. Monoteísmo de Óðinn

Esse é de longe o erro mais grave, mas que supõe outros erros, como veremos adiante. A grande e esmagadora maioria dos que se envolvem com o recriacionismo pagão dos germanos e escandinavos vem do cristianismo, o credo monoteísta. Além disso, o Ocidente greco-romano está habituado à ideia de um “deus superior”, como Zeus entre os helênicos e Júpiter entre os latinos. Logo, deve haver um deus superior entre os germanos, certo? Errado!  Óðinn era um deus das classes nobres – mas vale lembrar que a nobreza germânica tinha um significado bem diferente da nobreza romana ou grega. Haviam vários cultos dependendo do povo, classe social e região, direcionados a um ou mais deuses diferentes. Mas o “monoteísmo pagão” também vêm por influência do “Odinismo”, nome um tanto infeliz para um credo pagão politeísta.

  1. Tratar as “Nove Nobre Virtudes” como mandamentos

Este é um dos integrantes dos erros básicos no paganismo nórdico. As Nove Nobres Virtudes, NNV ou 9NV são dois conjuntos de diretrizes morais e situacionais éticas dentro de certos grupos de Odinismo e Ásatrú. Um conjunto foi codificado pelo ex-membro da União Britânica de Fascistas e Nacional-Socialistas de Sir Oswald Mosley, John Yeowell (também chamado “Stubba”) e John Gibbs-Bailey (também chamado “Hoskuld”) da Odinic Rite em 1974, e o outro conjunto codificado por Stephen A. McNallen da Asatru Folk Assembly em 1983. Assim podemos perceber que desde o começo essas NNV foram desenvolvidas por grupos com orientações duvidosas, racializadas e fascistas, além do fato delas serem um conjunto de dogmas vazios de significado, uma vez que para os pagãos e para os cristãos, a “honra” por exemplo, possui significados profundamente diferentes. As NNV são claramente um código ao estilo “dez mandamentos” do cristianismo, e por isso consegue tanta aceitação irrefletida pelas pessoas que não conhecem a fundo a religião – e por essa semelhança com o credo monoteísta que muitos pagãos com mais tempo de caminhada as rejeitam ou simplesmente não se importam nenhum pouco com elas. Até porque elas não definem “como ser um pagão”, apenas “como ser um humano honrado”. Lembrando que a “hospitalidade” é sempre esquecida.

  1. Pregar individualismo em uma religião comunitária

O paganismo é tribal, doa a quem doer. A tendência do paganismo é se expandir pois ele não é apenas um caminho místico, ou auto-ajuda. O paganismo nórdico possui conceitos como friðr, “paz”, “felicidade”, mas em sentido coletivo, a friðr não pode ser alcançada se não for coletivamente. Além disso, não importa se sua família não é pagã, você deve honrá-la, lutar por ela, respeitá-la e orgulhar-se dela.  Você não precisa “converter” as pessoas ao seu redor; mas ser pagão não te fará melhor que elas e o paganismo não é sobre sua coragem, honra, força, sucesso, sorte pessoais, de maneira egoísta. Estar rico sobre a desgraça dos seus parentes (ætt), dos seus amigos (frændgarðr), não é nenhuma honra para um pagão.

  1. Adoração dos deuses

Esse aqui é o erro mais cometido. Leva a outros, como a necessidade de sincretizar deuses de outros povos, formar panteões, etc. Como já dissemos acima, não havia um panteão fixo – pelo menos de maneira reconhecida e clara como nos povos mediterrâneos com os quais estamos acostumados – entre os povos nórdicos e germânicos, até porque nunca foi uma questão só de culto aos deuses o paganismo antigo. Cada deus é visto como um vættr, um espírito, embora os deuses sejam vættir superiores. A relação entre os humanos e todo e qualquer vættr não é de louvor, adoração, mas sim de troca, princípio que é sintetizado na frase latina “do ut des”, traduzida livremente como “dou-te para que também me dês”. Ou seja, deus nenhum quer você de joelhos, não o quer adorando de nenhuma maneira, mas oferecendo obras, oferecendo presentes, sacrifícios, alimento, bebidas, e assim por diante.

  1. Desconhecer os vættir menores

Bom, o culto aos vættir menores acontece de forma similar aos deuses (os vættir maiores, os Æsir e Vanir), embora de maneira mais cotidiana. É interessante sempre deixar uma tigela com alimento ou bebida em alguma árvore no local que você mora, ou no quintal, ou mesmo, no caso de apartamentos, ter um vaso de planta de tamanho médio dedicado a esse fim. Assim você pode estabelecer uma relação de troca com os vættir que dividem o espaço com você e se tornar bem mais afinado. A “mitologia inferior” (que compreendia seres como os landvættir, “espíritos da terra”, húsvættir, “espíritos da casa”, álfar, “elfos” e dvergar, “anões”) tinha tanta importância quanto a “mitologia superior” (deuses Æsir e Vanir). Desprezar essa forma de culto evidencia total desconhecimento da práxis da antiga ritualística dos germanos.

  1. Não cultuar os ancestrais

O culto dos ancestrais é outro assunto polêmico pois quase nunca é abordado, e quando é, quase sempre é de forma dogmatizada e tendenciosa ao racismo. Qualquer um pode fazer o culto aos ancestrais, porque você pode cultuar as suas dísir familiares, que são as mulheres mortas da sua família, como avó, bisavó, ou mesmo os homens, não como dísir, obviamente, mas como ancestrais, preparando um espaço separado com fotos deles, objetos que eles gostavam, comunicando-se, deixando ofertas de alimentos e bebidas que eles gostavam, além de, claro, também coletar dados de sua genealogia, incorporar elementos dos povos dos quais você provém ocasionalmente na decoração de sua casa, sua alimentação, e mesmo estudar idiomas/culturas antigos. Estabelecer o laço tanto com seus ancestrais diretos (família) como indiretos (heróis e pessoas importantes) é de extrema importância e em nada inferior ao cultos dos vættir superiores (deuses) ou inferiores.

  1. Valhalla como “paraíso”

Esse aqui é outro supercampeão. Primeiro de tudo: pós-vida para os germanos é continuação, não remuneração. Hel não é inferno e Valhalla não é céu. Estamos cansados de dizer, mas vamos continuar dizendo. Segundo: o lugar em que, por padrão, acredita-se que os mortos habitavam é a terra. Sim, a terra. O subsolo. O túmulo. Os mortos (ancestrais) serviam como auxiliares na fertilidade da terra e os túmulos eram como que portais que nos davam acesso a eles, quando precisavamos de sabedoria. As Valkyrjor pegam mortos nos campos de batalha, no sentido literal, não na sua “luta contra a depressão” (e perdoe a dureza). “Os tempos mudaram”: não, você que tá obcecado por uma noção de “paraíso de guerreiros”, ligada ao “monoteísmo de Óðinn”. Desculpe. Nos vemos, provavelmente, no Hel.

  1. Encher a cara de maneira descontrolada

O álcool é uma bebida ritual. O Hávamál alerta da vergonha que é beber de maneira descontrolada, de perder o senso de realidade. Existe uma fina linha entre o álcool como uma bebida que inibe barreiras psicológicas e espirituais, um elixir de inspiração e uma droga que causa desconforto tanto pessoal quanto social. Beber ritualmente, oferecendo aos deuses, é diferente de beber recreativamente, pelo puro prazer de encher a cara. E não é chamando o recreio de ritual que ele deixa de ser mero divertimento. Existe hora pra tudo. Menos pra dizer que você tem o direito de beber até cair só porque é pagão. Qualquer cristão também faz isso facinho.

  1. Utilizar um calendário do hemisfério errado

Esse aqui é meio complicado, de começo. Os calendários pagãos são baseados nas estações do ano, ou seja, plantio, colheita, época de descanso, época em que não se planta, etc. Mas temos um problema: Europa e Estados Unidos – os locais onde a maior parte dos materiais sobre paganismo é produzida – está no Hemisfério Norte. O Brasil, no Hemisfério Sul. Isso significa que quando for verão na Europa e EUA será inverno aqui, e vice-versa. Se você está em uma religião que cultua as fases do ano, você precisa então adaptar o calendário às suas fases do ano. Mas acontece que tem muita gente que prefere celebrar o Yule no fim do ano “porque europeus e norte-americanos fazem nessa época”, se esquecendo que lá eles estão no inverno, enquanto nós estamos torrando sob o sol escaldante do verão. Então, utilizar o calendário de comemorações de outro hemisfério é realmente bem esquisito…

Em breve a parte 2…

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