Do caminho para si mesmo na Ásatrú

Sonne Heljarskinn

O paganismo germânico no Brasil, e não só aqui, tem sido tratado muitas vezes de forma equivocada. E uma delas diz respeito ao que as pessoas esperam dele.

Apesar do título, este não é exatamente um texto místico. Quero dizer, não que o antigo caminho (Forn Siðr) não desenvolva o conhecimento de si mesmo e o aprimoramento “alquímico” (repare bem nas aspas antes de ler o que está dentro delas). Não que, por semelhança com métodos mágicos, ele não exija uma mudança de hábitos. Mas, bem, não se trata apenas de se ver como pagão, de consumir produtos que hoje em dia são direcionados a consumidores que se autodenominam pagãos. Não se trata apenas de cultuar deuses pagãos, no lugar do deus da maioria das pessoas. A coisa é mais profunda. Bem mais.

Quanto mais eu me aprofundo na Ásatrú (“Fé nos Æsir”), mais essa palavra me parece inapropriada para descrever aquilo que eu já vivencio ou o que eu ainda busco. Quero dizer, as palavras “fé” e “religião” tem um significado tão diferente quando quero me referir ao paganismo germânico que eu simplesmente acho que é como se eu tentasse transmitir uma imagem em 1280 pixels através de um televisor preto e branco de tubo dos anos 70: muito do que se busca mostrar – inclusive as cores – se perdem. Mas eu desconfio que seja mais correto dizer que televisores em preto e branco dos anos 70 sequer conseguem pegar sinal digital em alta definição.

Mas essas discussões linguísticas tornam-se mais claras quando se pode ver a sua aplicação prática. Quando dizemos “a Ásatrú é a religião reconstruída baseada nos rituais dos povos antigos”, faz com que nossos cérebros, treinados pelo cristianismo, procurem maneiras de nos livrar daquilo que reconhecemos claramente como suas influências. A primeira delas muitas vezes é o “Deus” – com “D” maiúsculo – que, uma vez que se assume pagão, deve-se substituir pelo “panteão” nórdico ou germânico em geral.

O primeiro problema é: não temos um “panteão” nórdico ou germânico. Temos muitas divindades que foram cultuadas por povos diferentes em épocas diferentes. Um panteão era algo mais específico dos povos mediterrâneos. Não existe exatamente essa divisão arquetípica de maneira clara, os deuses germânicos carregam de similar com os mesopotâmicos o fato de serem divindades de uma determinada região e povo, e não somente de um determinado atributo. Os atributos que o deus regia dependiam muito mais do grupo social e regional que o cultuava do que o contrário. Não à toa Óðinn era tanto um deus da escrita, nobreza e guerra: isso estava em sintonia com quem o cultuava. Por outro lado, divindades como Ingvi Freyr possuem importância similar em alguns pontos, sendo também uma divindade real, embora também popularizado justamente por sua ligação com a fertilidade e trabalho da Terra.

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Altar para vættir

O segundo problema é: uma vez que deixamos de lado o culto de um único deus, e reconhecemos a multiplicidade de entidades responsáveis por reger a Natureza, precisamos perceber que não se trata apenas de cultuar mais deuses. Existem outros tipos de entidades quase materiais, tão presentes quanto deuses, como os espíritos da terra ou landvættir por exemplo, ainda os húsvættir, espíritos da casa, que povoam o mundo tanto quanto nós mesmos. Existem mesmo os nossos ancestrais tão dignos de culto quanto as próprias divindades, uma vez que estão em nosso sangue – e aqui a gente volta rapidinho ao ponto de conexão com o “conhecimento de si mesmo”, uma vez que o culto ancestral é o culto a uma parte de nós que é comum a mais pessoas com as quais dividimos o sangue. Assim, estabelecer um culto multifocal é necessário.

Mas, da mesma forma que precisamos deixar o culto de um único deus pelo culto de mais deuses, e deixar o simples culto de mais deuses por uma forma mais elaborada de culto, na qual nos conectamos às diversas entidades da terra, precisamos entender que não se trata apenas de culto.

O que eu quero dizer com isso é que o paganismo não é só uma maneira diferente de cultuar. O Heathenry pode trazer respostas individuais, mas porque ele em si é uma resposta comum. O antigo caminho não é algo que pode ser vivenciado de maneira isolada, mas, ao contrário, necessita de todos que estão à sua volta. O desafio dos pagãos “solitários” é conseguir todas as informações que são necessárias para desenvolver seus ritos de maneira correta: desde informações sobre divindades, sobre história, sobre cultura, até a parte pessoal, das genealogias familiares e informações dos seus ancestrais (sim, o seu avô, sua avó, os que vieram antes dele, você sabe quem foram e o que faziam?). Além de um altar, velas, meditação, você trabalha a terra? Planta? Conhece ervas, animais?

Mas, mais que isso, o paganismo rechaça o individualismo (pós-)moderno. Nossas relações atuais são todas baseadas em cima do individual, e por isso a traição é um problema contínuo, uma vez que é “cada um por si e Deus por todos”. Para o pagão, é cada um pela tribo, e a tribo por todos. E pra isso eles invocam a proteção dos deuses: porque possuem uma unidade para com aquilo que são. O pagão precisa auxiliar, sorrateiramente, a recriação desses laços, buscando dissolver o seu ego no seu clã (ou ætt); sua essência pessoal precisa ter menos valor que a identidade do grupo – e isso protegerá você, e não o inverso. Se o seu círculo de pessoas não é capaz de te proporcionar isso, talvez seja hora de você arejar o seu frændgarðr, ou círculo/rede de relações, trazendo-lhe novas pessoas e mostrando como e porque as coisas com você são assim e não de outra forma.

Ser pagão não é ser ovelha, mas tampouco é ser lobo: e sim uma matilha. A matilha caça para todos, protege os mais fracos, e se fortalece pela sua união. O lobo não é forte pelas suas garras – mas pelo número de lobos que com ele atacam suas presas ou ofensores.

A ovelha acha que após a morte terá um céu – por isso pode ser ofendida, e dar a outra face. O lobo irá lutar com fúria, isoladamente, para proteger a si mesmo, e se isso não for possível, o Valhǫll serve como prêmio. Para a matilha não interessa o além da vida. Interessa que os seus estejam vivos, e com friðr (paz e felicidade). Interessa a força da unidade comum entre todos: interessa submeter a ameaça para o grupo.

O caminho antigo é uma questão de atitude. E não estou falando de aparência física. Nem tampouco de um simples “curtindo a vida a doidado”, ou de “juventude transviada”. O pagão se faz no dia a dia, e não apenas em cultos e sacrifícios, datas especiais. O paganismo é também uma maneira de se viver, de reagir à realidade. O pagão é aquele que trabalha a terra e a modifica. O pagão é aquele que muda o mundo a sua volta. O pagão não é nunca apenas um entre a multidão. Ele é heathen, ele é alguém sem o qual as coisas não seriam como são. Ele abraça a própria ørlǫg como o único caminho possível, e entende que é parte de todo o engendrar das coisas, utilizando a própria wyrd da melhor maneira possível. O pagão é aquele que age, é aquele que aplica sua força no mundo e faz com que ele não seja de forma alguma uma pessoa desnecessária na história total das coisas, apenas algo levado pela maré. Não importa apenas lutar até a morte bravamente – importa também proteger o seu ætt e o seu frændgarðr com sua bravura.norse_god_of_war_by_flashmcgee

Deus Týr, reconhecido por sua bravura e coragem, dando a mão para proteger seu clã.

É aí onde chegamos ao ponto de começo de nosso texto. O encontro consigo mesmo para o pagão não acontece com a ascensão a um Deus transcendental. Nem muito menos com a liberdade individual desenfreada. Acontece, antes disso, com a identidade entre sujeito e mundo à sua volta, incluindo as outras pessoas – para os habituados com filosofia, os gregos com a palavra “φύσις” (phýsis) referiam-se à soma de si mesmos com o mundo e os outros humanos e seres. O encontro consigo mesmo surge do saber quem faz parte de sua teia de relações e quem não. Mas também lutando e vivendo por uns e com uns e não contra todos.

O paganismo promove o aperfeiçoamento pessoal? Sim, é claro. Mas como consequência. Entender o mundo de ideias que rodeia o pagão, os significados profundos que cada árvore, cada animal, cada local sagrado, cada foto de ancestral, cada memória do seu povo e familiares tem, e o significado daqueles que estão vivos, e ao seu lado, é o verdadeiro objetivo do pagão. É assim que ele se melhora – e, por consequência, tudo à sua volta.

Quando o pagão se diz “reconstrucionista” ele fala de reconstruir uma ritualística, uma realidade, uma maneira de viver, e tudo o que for possível e viável se trazer daquela época. O desafio do paganismo é reconstruir tudo aquilo que ele exige para ser vivenciado de maneira autêntica: sociabilidade, organização coletiva, e tanto quanto possamos adaptar às nossas realidades no século XXI.

One thought on “Do caminho para si mesmo na Ásatrú

  1. Concordo com sua visão, todavia os textos possuem um certo reducionismo com as práticas do próprio autor – quase um egocentrismo. Então, para complementar: Não é necessário mudar o que está a sua volta da maneira descrita por ser um Heathen. Ou seja, por mais que seja essencial haver uma aproximação com a terra e com os ancestrais, suas práticas não precisam se voltar predominantemente a isso. Usando o que está no próprio texto: os deuses eram cultuados com características que dependiam do caráter da sociedade e do indivíduo. Isso abre um leque de diversas formas de seguir o caminho para si mesmo, impossibilitando qualquer tipo de reducionismo.

    Sonne Heljarskin — Bom, parece que sempre é mais fácil permanecer no paradigma cristão do que aceitar um modo de viver pagão, de fato né?

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