Primeiros passos na Ásatrú: Introdução ou Iniciação ao Paganismo Germânico e Nórdico

Sonne Heljarskinn

Por onde começar? O que devo fazer? Como funciona a religião Ásatrú? Como ser um pagão nórdico? Com esse texto me proponho a apresentar, do meu ponto de vista, respostas e um norte para aqueles que estão tendo seus primeiros contatos com o paganismo nórdico.

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Então você está querendo conhecer o paganismo nórdico, e está cheio de medos, incertezas  e questionamentos, tais como: O que é a Ásatrú? Por que eu deveria me aproximar de uma religião “morta”? O que o paganismo tem a oferecer? São tantas e tantas perguntas no início, mas, ao final dessa nossa breve e superficial exposição pretendo responder, de maneira provisória, pelo menos essas três questões. Não sei como você chegou aqui, só espero que seja bem-vindo (pelo menos por enquanto). Você está lidando com uma religião reconstrucionista, o que significa que não existe uma instituição oficial reguladora e dogmatizada, mas bebemos nas fontes de estudos arqueológicos, literários, linguísticos etc, para construir um corpo de ideias que possamos seguir, em vista de restaurar, tanto quanto nossas lacunosas fontes permitam, um sistema de crenças, rituais, valores e visão de mundo o mais aproximado possível dos antigos povos germânicos, no nosso caso, em especial dos nórdicos islandeses.

Os povos germânicos são um grupo etno-linguístico (e não biológico ou genético) que pertence aos indo-europeus, que possuem descendentes desde a Ásia até a Europa, em seus vários idiomas e culturas, não sendo a biologia o principal fator de sua diferenciação (tanto dentro dos povos indo-europeus entre si, como os latinos, germanos, gregos, etc., quanto em oposição aos não indo-europeus, como os povos africanos, indígenas, asiáticos, etc.), uma vez que geneticamente os grupos não possuem grandes variações entre si. Os germanos surgem por volta de 1.800 anos antes da nossa era atual na planície norte alemã, chegando à Escandinávia durante a Era de Bronze Nórdica (entre 1.700 e 500 antes da era atual), e mais ao leste europeu em 200 antes da era comum.

Por onde passaram os germanos aprofundaram e desenvolveram, de forma particular, o conjunto cultural que trouxeram dos protoindo-europeus, assim como, por exemplo, romanos, celtas e gregos. Dessa forma, surgiu o que nos interessa nesses povos: seus valores, ideias, mitos e religiosidade, além, claro está, de princípios de organização social, em que isso ainda seja válido para o nosso mundo atual. Não queremos fazer a roda da história voltar para trás. Entendemos que houve uma ruptura (por volta do século X, na Escandinávia) com o cristianismo, e tentamos recuperar tudo aquilo que for possível: seja a poesia, sejam resquícios arqueológicos, seja como povos letrados descreviam os germanos… enfim, tudo aquilo que nos forneça pistas e hipóteses seguras sobre as quais basear a nossa compreensão e reconstrução dessa cultura em nossa sociedade atual.

Diferentemente das religiões reveladas não buscamos uma conversão compulsiva ou extensiva das pessoas para a nossa religião. Não precisamos usar nossa religião como método de amedrontar com um pós-morte horrível àqueles que não se encaixarem em nosso padrão moral. Por outro lado, manifestações artísticas contemporâneas baseadas na cultura nórdica, como o folk metal, como muitos filmes e seriados também não devem ser tomados de maneira literal. Não que não possamos gostar disso: simplesmente não devemos confiar mais na arte, na criação artística que na compreensão científica acerca daquilo que tais povos foram. E, ainda, concordante com a definição que demos dos protoindo-europeus como grupo etno-cultural e não genético, rechaçamos pontos de vista racistas sobre a religião.

Assim, a Ásatrú (pronuncia-se “áussatrú”) é o reavivamento do paganismo germânico, buscando recriar com a maior fidelidade possível as comemorações e dia-a-dia desses povos, transportando-os para a nossa prática. Apesar de “Ásatrú” significar algo como “Fé nos Æsir” ela, apesar de politeísta, é muito mais que o culto de um grupo x ou y de divindades, em oposição ao monoteísmo ou outros politeísmos. Envolve uma prática ritual, uma visão de mundo, uma lógica e um conjunto de valores que perpassam e recriam toda a vida de seus praticantes. A palavra “Ásatrú” surge a partir do movimento reconstrucionista liderado pelo fazendeiro, skald (poeta) e estudioso islandês Sveinbjörn Beinteinsson, sendo fundada a Ásatrúarfélag (Associação Ásatrú) em 1972, após longo período de atividades basilares, tendo seu reconhecimento pelo governo islandês em 1973.

Entremos agora na religião em si, buscando uma definição que, apesar de não ser aprofundada, pelo caráter introdutório desse texto, tenta levantar as principais perguntas que quem se aproxima pode se fazer para ajudar a compreender melhor as coisas em nosso meio.

ALGUMAS PALAVRAS CENTRAIS

Antes de mais nada vamos clarificar alguns termos que você verá com frequência. Paganismo, que pode ser definido como “religião em que se cultuam muitos deuses; etnicismo, gentilidade, gentilismo, politeísmo” tem sua origem no latim paganus que era a forma como o povo das urbes (cidades) referiam-se aos povos que permaneciam na antiga religião mesmo após o início da expansão do cristianismo em Roma. Siginificava algo bem próximo do “caipira”, alguém supersticioso, com um sistema de crenças arcaico. Muitos, todavia, preferem o termo inglês heathen, cognato do nórdico antigo heiðinn, do alemão Heide, e designa o mesmo tipo de pessoas, mas dentro do modo de ver germânico. As palavras heathenry  e heathenism, referem-se, assim, ao paganismo sob o modo de ver particular dos germanos, em oposição ao paganism, uma forma mais genérica, que englobava as crenças pagãs de todos os povos.

Cabe citar ainda que existem várias correntes de paganismo germânico. Embora os reconstrucionistas mais experientes prefiram o termo heathen, alguns ainda dirão-se ser ásatrúares (singular ásatrúar). Não será raro encontrar os nomes “odinismo”, “irminismo” ou “theodismo”. O odinismo (ou wotanismo) está fortemente ligado no seu surgimento ao romantismo, militarismo e nacionalismo alemão dos fins de século XIX e início do XX, tendo um forte caráter político e antissemita em sua origem. O termo irminismo também tem sua origem semelhante, estando relacionado à Ariosofia, teoria baseada em interpretações racistas e políticas sobre a genética. Enquanto isso, Ásatrúarfélag islandesa na década de 80 rompe ligações com todos os grupos pagãos fora da Islândia para evitar ter seu nome envolvido, direta ou indiretamente, com a extrema-direita e o racismo. Já o theodismo pode ser usado mais especificamente para referir-se ao paganismo do grupo germânico dos anglo-saxões. Vale ressaltar que apesar das origens dos movimentos supracitados a Ásatrú e o paganismo nórdico em geral não são ligadas direta ou indiretamente ao racismo, nazismo e extremismos afins. Existem sim, todavia, grupos que são ligados a tais ideias – assim como em qualquer outra coisa. Que eles usem a religião para embasar suas ideias, não difere, por exemplo, do fato de extremistas cristãos terem fundado, a KKK. Isso torna o cristianismo, por si, todo igual à KKK?

Com o passar do tempo, percebemos que mesmo entre os povos germânicos não podemos falar de um paganismo de maneira estática. Isso porque para os diversos povos germânicos durante a história a religião se modificou, adaptando-se ao ambiente no qual se inseria. A religião dos anglo-saxões não é a mesma dos noruegueses, que não é a mesma dos suecos, que não é a mesma dos islandeses, que não é a mesma dos anglo-saxões, que não é a mesma dos alemães continentais; mas mais que isso, mesmo dentro de cada um desses povos, cada tribo tinha sua própria maneira de executar os ritos; além de tal fato, a religião do século X não é a mesma de períodos anteriores. Ter todas essas variações em mente nos ajudam, por exemplo, a ter uma visão mais ampla e menos confusa quando nos pomos a estudar o paganismo germânico, uma vez que existem claras diferenças entre muitos conceitos estudados, variando o tempo e o local analisados, tentando compreender o que ele significava, na verdade para um determinado grupo de pessoas em um determinado local em um determinado período de tempo e nunca de maneira a-histórica e, portanto, generalista. Dessa forma, nos interessa principalmente a religião conforme retratada principalmente nas Eddas (poética e em prosa), sendo também de grande valia em muitos casos as Sagas, todas produto cultural dos islandeses, por volta do século XII (embora algumas obras sejam anteriores e outras posteriores a esse período).

Você verá algumas palavrinhas estranhas, pois o nórdico antigo possui algumas letras a mais do que as que usamos em português, e as apresentarei aqui, na medida que as usamos no texto (e não todas). “Þ” equivale ao “th” inglês como em “thing”, “ð”, ao “th” inglês como em “this”, “æ” equivale a um “é”, “j” a um “i” curto, como em “iate” e nunca como em “jornalista”, “á” equivale a “au”, “ó” equivale a “ou”, “ǫ” a um “ó”, “ø” equivale ao “eu” em “bleu” (esse som se faz arredondando os lábios como se fosse dizer “ó”, mas fazendo o som de “e” na garganta, o que fará sair algo entre as duas vogais, mas que não será nem uma, nem outra, portanto um som diferente do português).

Como é um trabalho para iniciantes, julgo que você não saiba o que seja um kindred. Ele é um grupo/família/tribo de praticantes do paganismo germânico. Sua estrutura pode variar, e pelo propósito elementar deste texto, não entrarei nesse assunto aqui.

Como uma pequena anotação deveria eu aqui apresentar porque prefiro usar a palavra “Ásatrú” no feminino, em oposição ao costume comum de se dizer “o Ásatrú”. Primeiro, porque nos referimos a uma religião. Embora existam religiões (e religião é uma palavra feminina) no masculino com o final “-ismo”, como “o catolicismo”, “o islamismo”, que é a única forma admissível gramaticalmente no português, existem outras que persistem no masculino, mesmo sem tal relação, como “o candomblé”. A palavra apesar de terminar com um u longo (ū), o que, à primeira vista sugere o gênero masculino, Ásatrú significa “Fé nos Æsir”, e “Fé”, essa sim é a palavra à qual o artigo se refere: “a Fé nos Æsir”, ou, em islandês, “a Ásatrú”. No próprio islandês, o idioma de origem, a terminação “-trú”, referente à “fé”, é feminina. Sendo assim, não consigo encontrar uma razão que justifique a preferência de “o Ásatrú” no lugar da forma feminina, intuitivamente mais apropriada, “a Ásatrú”.

QUEM ERAM OS GERMANOS?

Essa pergunta, que à primeira vista pode parecer inocente ou inútil, deve ser feita, na verdade, para se compreender a religião e cultura desses povos. Eles geralmente organizavam-se em tribos, que eram formadas pelo agrupamento dos clãs, que eram a junção de várias famílias. Tais famílias eram monogâmicas, tendo o pai o poder absoluto nesta instância. Aos chefes familiares e tribais cabia o papel de líderes religiosos também, uma vez que a religião não se separava da vida cotidiana. Não haviam cidades ou sistema de escrita durante o período antes da entrada do cristianismo nos povos germanos.

Haviam basicamente três classes sociais principais entre os germanos, mais especificamente, os escandinavos: 1) Jarls, os grandes proprietários de terras; 2) Karls, os homens livres, pequenos fazendeiros, artesãos em geral, etc; e os 3) Thralls, os  escravos. Os dois primeiros poderiam participar na þing (thing) assembleia dos homens livres, as quais poderiam mesmo submeter o poder de reis na maior parte dos períodos, embora estes tornassem-se quase senhores absolutistas durante as guerras. Na þing todos aqueles do sexo masculino poderiam oferecer suas opiniões, onde também eram criadas e revistas leis (os germanos não possuíam um direito escrito, sendo, em vez disso, escolhidos memorizadores das leis, que eram passadas de geração para geração), e decididos sobre casos de crimes.

Esses povos viviam basicamente da agricultura e pecuária, e enfrentavam invernos rigorosos, o que pode os ter ajudado a desenvolver uma maneira de viver tão centrada nas famílias e forte, para resistir às intempéries da natureza. Davam grande importância a valores como friðr (paz), honra e sorte. Do mesmo modo eram povos fortemente militarizados e guerreiros, lutando contra a natureza e outros povos sempre que isso se fizesse necessário, sendo todos os homens maiores de 16 anos recrutados para a guerra, quando ela acontecia.

Por fim, germanos ou nórdicos? Bem, como tentamos evidenciar até aqui, os nórdicos não são senão um subgrupo dos germanos, e dessa forma quando falamos em germanos englobamos os nórdicos, embora o contrário não seja igualmente válido, já que os germanos não se restringem aos nórdicos, mas também, entre outros, aos alemães e anglo-saxões.

O MUNDO PARA OS GERMANOS

Segundo a antiga mitologia, haviam três elementos essenciais antes do surgimento de nosso mundo: 1) o reino de fogo de Musspelheimr, 2) o reino de gelo de Niflheimr, e 3) entre eles o abismo, o vazio de Ginnungagap. É relatado que assim as coisas permaneceram por eras até que calor e frio começaram a se encontrar no abismo, e desse choque de forças surgiu, por fim, a primeira criatura, o gigante de gelo chamado de Ymir, do qual nasceu a raça dos gigantes, além dos elfos e anões, todos brotando do corpo desse gigante primordial. Do gelo também surgiu a vaca Auðumbla, que alimentou Ymir, com o leite de suas tetas, a qual, enquanto lambia o gelo, fez nascer Búri, o mais antigo ancestral dos deuses.

Bórr, filho de Búri, junto com a giganta Bestla tornaram-se então pais de Óðinn (Odin), Vili e Ve. Estes três acabam entrando em conflito com Ymir, matando-o, e seu sangue inundou o espaço e matou quase todos os gigantes, sendo que os que sobreviveram foram morar em Jotunheim, onde permaneceram protegidos, exceto por episódios mais particulares, desde então. Embora muitas fontes apresentem uma dualidade, sendo deuses o lado ordenador/bom em oposição aos caóticos/maus gigantes (tanto os de gelo quanto os de fogo), tal dicotomia é falsa; em vários casos os deuses buscam mulheres/amantes entre os gigantes, são citadas negociatas entre deuses e gigantes, sendo o gigante de fogo Loki, inclusive, irmão de sangue de Óðinn através de um pacto,  o que deve fazer-nos, de fato, não opor de maneira tão binária e maniqueísta deuses e gigantes/jǫtnar/þursar.

Em alguns pontos, os buracos que temos nas narrativas são enormes. Por exemplo, sabemos que os nórdicos compreendiam que nove mundos sustentar-se-iam em torno da árvore do mundo, chamada Yggdrasil, um freixo que é então o centro do universo, e que seria queimada, de cima a baixo, no Ragnarǫk, a batalha final dos deuses. Haveria o esquilo Ratatóskr que ficaria levando recados de intriga entre a águia Hræsvelgr, na copa de Yggdrasil, e o dragão Niðhǫggr, que mastigaria as raízes de Yggdrasil, sendo necessário que uma das Nornir (Nornas) zelasse por essas raízes, atrasando assim, o colapso do mundo (Não se assuste com o que não conhecer aqui, explicaremos tudo isso mais à frente). Fora isso, apenas podemos sugerir que Óðinn descobriu as runas após passar nove dias e nove noites preso à Yggrasil. Não muito mais é-nos dito dessa importante árvore, mas os nove mundos seriam: 1) Ásgarðr, a terra dos deuses Æsir e das deusas Ásynjur; 2) Vanaheimr, a terra dos deuses Vanir; 3) Álfheimr, a terra dos ljósálfar, os elfos luminosos; 4) Miðgarðr, a terra do meio, na qual vivem os humanos; 5) Svartálfheimr (alguns a chamam de Nidavellir), a terra dos svartálfar, os elfos escuros, e anões (ou dvergar); 6) Niflheim, a terra do gelo primordial; 7) Helheim a terra dos mortos; 8) Muspellheimr, a terra do fogo primordial e, por último; 9) Jotunheimr, a terra dos gigantes de gelo, rísir, jǫtnar ou þursar. Tais mundos não seriam incomunicáveis, havendo várias viagens dos seres de um para os outros. O nosso mundo, Miðgarðr, teria sido formado com os restos do corpo do gigante abismal Ymir: de seus ossos foram feitos os montes, de seu cérebro as nuvens, e com seu sangue rios e mares. Uma grande serpente filha de Loki e chamada de Jormungandr circundaria Miðgarðr, mordendo a própria cauda, contendo assim os mares com o seu corpo. Das sobrancelhas de Ymir foi feito um muro que isolava os jǫtnar do restante dos mundos.

O NASCIMENTO DO SER HUMANO

Enquanto muitas criaturas nascem através de um processo de emanação semelhante à meiose, a partir de Ymir, ou dão a entender que poderiam estar num sono, preservados no gelo, como Ymir e Búri, os humanos teriam uma origem bem diferente.

Os três filhos de Bestla e Bórr, o filho de Búri, estariam andando por Miðgarðr certo dia, por uma praia, quando então encontraram dois troncos, um de freixo, o outro de olmo, com um formato belo, agradável, decidiram animá-los. Óðinn soprou sobre ambas as árvores e as fez respirar, dando-lhes vida, ou alma. Vili (ou Hoenir) lhes concedeu raciocínio, enquanto Vé (ou Lodur) lhes concedeu o calor e os sentidos humanos. Ao freixo nomeou-se Áskr e foi o primeiro homem da raça humana. E ao olmo nomeou-se Embla e foi ela a primeira mulher. E assim, a partir desse primeiro casal, a raça humana se espalhou por Miðgarðr.

Há ainda que se considerar aqui a versão proposta pela Rígsþula, embora ela não fale essencialmente da gênese do humano enquanto espécie, mas relacionado à sua organização social. Neste poema éddico, relata-se como Rígr (Heimdallr) chegou na habitação do casal Ái e Edda e ali, após dormir com eles, foram nascendo os ancestrais das três classes principais: primeiro os thralls, os escravos, segundo os karls, os fazendeiros e trabalhadores livres, e em terceiro lugar os jarls, os proprietários e governantes.

SERES MENORES

Segundo os germanos, apesar de seres como gigantes, elfos e anões terem seus mundos particulares, interviam em Miðgarðr e seus habitantes, assim com os deuses.

Os elfos (álfar) estavam ligados aos ancestrais e seus locais de repouso, os montes fúnebres (burial mounds), e podiam ser considerados tanto como os seres que nasceram de Ymir, quanto como espíritos de antepassados honrados. Não é claro, todavia, se os mortos tornavam-se sempre elfos.  Nesse ponto ofereço uma sugestão de interpretação pessoal, e, por favor, não a levem ao pé da letra, mas como uma pista, talvez valiosa: se do corpo do gigante Ymir é de onde brotam os elfos, e do mesmo corpo foi feita a nossa terra, conseguimos não ver tanta distância assim entre a concepção de mortos tornando-se elfos, ou nascendo do gigante primordial, uma vez que seu corpo em si seria terra; embora as práticas funerais muitas vezes envolvessem cremação isso não era regra; e a crença dos ancestrais habitarem os túmulos (mortos enterrados na terra, perdoem o pleonasmo), não me parece tão estranha e contraditória assim: no fim das contas, teríamos, em ambos os casos, elfos nascendo/habitando a terra. Além disso, tais criaturas estavam ligadas à deusa Sól (Sunna), a deusa solar, e a Freyr, o que os liga duplamente a aspectos agrários/de fertilidade da terra. Havia ainda uma grande comemoração em honra aos elfos (álfablót), e, ainda hoje, na Islândia, mesmo após séculos de cristianização, permanece uma forte crença nos elfos, que é respeitada inclusive pelo governo do país, evitando-se construir em local que prejudicaria/irritaria os elfos.

Os anões (dvergar), por outro lado, são criaturas extremamente ligadas ao conceito de desenvolvimento tecnológico, isto é, das técnicas de produção de ferramentas, etc. São eles que produzem as armas dos deuses, como o martelo de þórr (Thor/Donnar), o Mjǫllnir, a lança de Óðinn, Gungnir, a espada e o navio de Freyr, e os cabelos de fios de ouro para Síf, esposa de þórr. Também são eles os responsáveis pela morte Kvasir, um deus sábio e poético, e por transformar seu sangue em hidromel, a bebida alcoólica da inspiração. Aparecem ainda mais duas vezes, de maneira estratégica: ao criarem o Brisingamen, o colar da deusa Freyja, pela qual ela dá a eles três noites de prazer, e, nos folclore continental, estando ligados ao acúmulo de ouro. Assim, ligados ao manejo de metais, em especial os de guerra e os ornamentais valiosos, e à riqueza, os anões desenvolvem um importante papel no que se refere à origem e aprimoramento de todo o tipo de utensílios metálicos importantes, também, para o ser humano.

Os gigantes (jǫtnar, þursar ou thursar, risir) dividem-se em dois grupos principais: os gigantes de fogo, seres antiquíssimos, habitantes de Musspelheimr, do qual nenhum registro de sua origem permaneceu, mas dos quais é possível supor que sejam anteriores à todas as criaturas surgidas após o encontro do reino de chamas com Niflheim em Ginnungagap, e os gigantes de gelo, os que vivem em Jotunheim. De um lado, os gigantes de fogo aparecem como criaturas furiosas, bestiais e amplamente desconhecidas. Do outro, os gigantes de gelo aparecem não só como seres poderosos e furiosos, mas também detentores de uma sabedoria surpreendente, atrás da qual mesmo Óðinn obriga-se bater em busca, como quando desafia o gigante Vafþrúðnir, em busca da fonte da sabedoria do gigante Mímir, onde deixa um olho para poder beber de tal água. Existe uma relação dialética altamente perceptível aqui: enquanto os gigantes parecem (in)diretamente influenciar as estações quentes e frias, o maior paladino da humanidade é justamente o popular deus þórr, não só ligado aos trovões e chuvas, bem como, assim à própria fertilidade. Ou seja, ao passo que detêm forte relevância nas modificações de temperatura, contra o que þórr reage, protegendo a humanidade, também são aquelas criaturas capazes de fornecer o conhecimento, sabedoria e astúcia, não sendo, como querem alguns, criaturas meramente “más”, mas sim necessárias ao próprio desenvolvimento do destino no cosmos que rodeia Yggdrasil.

Os trolls são de maneira geral considerados seres habitantes de montanhas, cavernas e locais distantes dos humanos; embora possam haver casos em que foram considerados sem muitas diferenças dos humanos, em geral eles eram tidos como criaturas bestializadas, ferozes e totalmente avessas ao cristianismo. Em geral eram mais temidos, respeitados e evitados do que propriamente cultuados e foram muito mencionados através da literatura e folclore germânico e escandinavo.

Todas essas criaturas (elfos, anões, trolls e gigantes), assim como os deuses, podem ser incluídas em uma categoria que podemos chamar de vættir (em inglês wights). Além desses, temos os landvættir, espíritos diretamente ligados a um determinado local ou região. Possuem as mais diversas formas, funções, desejos e atitudes (tanto benéficas quanto prejudiciais aos humanos). Dentro do paganismo nórdico é de grande importância encontrar formas de se envolver e lidar com esses seres, como através de ofertas de alimentos e bebidas.

Esta crença nos vættir está em perfeita conexão com outra do paganismo germânico: o animismo. Segundo ela, a matéria é uma extensão do espírito, o que significa que todas as coisas que existem materialmente, só o são por possuírem uma alma, um espírito correspondente. E isso não vale apenas para os seres que reconhecemos como vivos biologicamente: mas também para aqueles objetos inanimados da natureza, além, é claro, da própria terra e universo. Segundo esse pensamento, temos duas conclusões (1) tudo que possui uma parte material possui uma parte espiritual correspondente, mas nem tudo que possui uma parte espiritual possui uma parte material – como espíritos de falecidos e vættir; (2) alguns dos deuses são justamente a manifestação espiritual de elementos materiais – como þórr é o espírito do trovão, Jǫrð é o espírito da Terra, etc.

 

DEUSES: ÆSIR, VANIR E OUTRAS DIVINDADES E SERES SUPERIORES

 De todas as ættir (“famílias”, “clãs”, “raças”) de vættir, os deuses Æsir e Vanir são considerados como seres especiais; embora em muitos momentos os álfar (elfos) sejam colocados bem próximos deles, é indiscutível que esses dois clãs de deuses desempenham um papel proeminente e protagonista no culto e imaginário dos antigos nórdicos. Todavia, que se faça aqui valer várias ressalvas: (1) a Ásatrú, apesar de respeitar os antigos deuses compreende a importância de todos os vættir, e a influência que eles exercem na vida dos humanos; (2) a Ásatrú não centra sua prática no culto aos deuses, não basta substituir-se um ou vários deuses por aqueles dos nórdicos, Ásatrú não é apenas sobre culto, e não é de forma alguma sobre adoração aos deuses nórdicos; (3) os antigos nórdicos não consideravam que apenas os seus deuses eram verdadeiros – essa é uma noção judaicocristã, e em última instância, das religiões reveladas – e isso significa que eles consideravam que todos os deuses existiam, mas tinham culto específicos para o deu seu povo; (4) muitas vezes o  culto a um deus ou deusa era feito de maneira regional, como o culto de Freyr, que acontecia principalmente na Suécia e o de Nerthus entre germanos continentais, ou ainda de um determinado grupo social, como o culto de Óðinn/Woden que acontecia principalmente entre os nobres e guerreiros, então não havia exatamente um panteão nórdico, como é o caso dos gregos; (5) os deuses não são vistos como “humanos elevados à máxima potência”, mas são, por um lado, ancestrais dos humanos, e, por outro, seres com seus próprios defeitos, dilemas e problemas, não meros observadores e juízes da humanidade, o que faz que haja uma relação de “do ut des” (“dou-te para que também me dês”, em tradução livre), ou seja troca e negociação, não mera adoração dos deuses.

Existem algumas teorias sobre o que seriam os deuses segundo a visão heathen. A primeira apresenta os deuses como personificação das forças naturais. Segundo essa teoria, tratar-se-ia apenas de personagens literários criados para representar forças as quais se sabiam que não eram humanizadas. A segunda forma de tratar os deuses os considera como frutos da imaginação ativa humana, na sua necessidade de ordenar e compreender o cosmos, que criaria tais seres, em conformidade com as forças que eles manifestavam. Em terceiro lugar, pode se considerar a natureza com mera manifestação de deuses reais e físicos, personalidades materiais, como quando dizemos “o deus do trovão”, ou “o deus da poesia”. Eu prefiro, particularmente, a ideia que alguns acadêmicos antigos nórdicos professavam: os deuses são o espírito das coisas, assim como nós somos o espírito de uma determinada porção de matéria. Tal visão entraria em conformidade com o animismo (teoria de que todas as coisas, mesmo inanimadas, possuem um espírito), e consideraria, por exemplo, þórr como o Deus-Trovão, ou seja, o trovão não seria uma característica ou algo que pertence a þórr como uma ferramenta, antes, o trovão seria a maneira como þórr se manifestaria e existiria, a maneira que ele teria para se fazer real, assim como nós o fazemos através de nosso corpo material.

No Anexo I (link), você poderá encontrar uma lista descritiva das características mais importantes de várias divindades germânicas – não apenas das tradicionalmente reconhecidas pela Ásatrú islandesa, nem muito menos de uma lista simplista, porém empobrecedora das principais deidades dos antigos germanos.

CONCEPÇÃO DE TEMPO E DE AÇÃO

Esses dois conceitos são completamente interdependentes entre si segundo os nórdicos. Em primeiro lugar, como na maioria das religiões pagãs o tempo é visto correndo de maneira circular e não retilínea. O que isso significa? Para o cristianismo, por exemplo, o mundo não existia antes da vontade de Yaweh criá-lo. Assim tempo e espaço não poderiam existir independentemente da vontade desse deus. Somente quando acontece a criação é que espaço e tempo tornam-se possíveis, e assim, tudo o que disso deriva, inclusive a história. Assim, com o momento inicial da criação se inicia a contagem do tempo que terminaria um dia, culminando no juízo final.

Para o paganismo nórdico, ou heathenismo, o tempo é feito a partir da observação da natureza. E, na natureza, as estações vêm e vão, o sol se nasce e se põe, os eventos se repetem, as coisas reacontecem. Enquanto as religiões reveladas valorizam o extramundano, o milagroso, o incomum, o único, o paganismo celebra o que está próximo, o comum, o que acontece sempre, o plural, repetitivo: o ciclo. Esse é o primeiro aspecto que diferencia a noção de tempo pagã e a “revelada”.

Em seguida temos de considerar duas concepções centrais para a Ásatrú: Wyrd e Ørlǫg. Essas são concepções um tanto difíceis de exprimir senão comparativamente, uma vez que são realmente muito ligadas à forma como os germanos compreendem e explicam a realidade através das palavras. Nos idiomas reconstruídos protoindo-europeu, *uert– (“mudança”), e proto-germânico, *weorþan (“o que acontece agora”) encontramos a origem da palavra wyrd, ainda assemelhada, por exemplo, ao termo Werden (“desenvolvimento”, “evolução”, “transformação”) do alemão moderno. Ørlǫg refere-se às formas obrigatórias que regem o acontecimento das coisas. “Ør” significa “princípio” e “lǫg”, lei. Também está ligado ao nórdico antigo forlag, que significa “destino”, “meios de subsistência”. O ørlǫg é composto pelos nossos próprios atos e os de nossos ancestrais, e, acredita-se que é transmitido linearmente através do sangue. Ou seja, é como uma relação de causa e efeito da qual jamais poderemos nos esquivar, sem antes modificarmos nossos atos. Não acredita-se em ruptura e escape da fatalidade das coisas que fizemos anteriormente. Aquilo que é, que existe, que acontece, só é dessa forma porque as condições preliminares para isso foram satisfeitas. Nada acontece por milagre. Nada acontece por acaso. Nada acontece por simples intervenção divina. Os próprios deuses estão submetidos às leis de seus ørlǫgs.

Passado e presente eram dois conceitos unívocos para os antigos nórdicos/germanos, e o tempo não é visto numa divisão tripartite estática, embora, à primeira vista, isso possa parecer o contrário. “Aquilo que é”, “que existe”, engloba tanto o que aconteceu como o que está acontecendo exatamente agora. O que é agora não o é sem o passado, e o futuro não poderá ser senão decorrência disso que é. Parece complicado? Vamos explicar como os nórdicos viam isso: existem três Nornir, as três irmãs que são responsáveis por fiar o destino das pessoas como uma teia, usando os fios dos ørlǫgs, os quais são fiados pela deusa Frigg, uma Ásynjur, a esposa de Óðinn. O nome de cada uma delas é: Urðr (wyrd, “o que ocorreu”), Verðandi (*weorþan, “o que ocorre agora”) e Skulð (“o que deve se suceder”, “o que é necessário que aconteça”). As Nornir habitam nas raízes do freixo de Yggdrasil, e usam argila e a água do Poço de Urðr para curar e reparar os estragos feitos, entre outras coisas, pela serpente/dragão Niðhǫggr, uma das grandes responsáveis pela corrupção da estrutura “cósmica” nórdica.

Dessa forma, Verðandi não pode tecer senão após Urðr, e nunca Skulð tecerá antes das duas anteriores, o que faz o tempo, assim, ser entrelaçado e não dependente de eventos fortuitos. O que aconteceu, aconteceu pois não poderia ser de outra forma; o acontece agora também, e o mesmo vale para o que acontecerá. O destino, assim, fica completamente dependente das ações que cada um e todos executam, e o tempo não acontece senão como consequência necessária das condições dadas. Numa metáfora: imagine que você está em Brasília e quer, por exemplo, ir para Alagoas. Sabemos que Brasília encontra-se no centro do país, e Alagoas no nordeste, então precisamos escolher estradas que nos levem nessa direção. Mas, e se por desatenção, ou inconsciência, ou qualquer outro motivo formos parar, por exemplo, em Campo Grande? Isso significa que não pegamos as estradas corretas, e acabamos indo mais ao sul/oeste do que para o norte/leste. Se queremos ir para o nordeste, de Campo Grande precisamos então fazer o processo que não fizemos anteriormente, prestar atenção para onde nossas estradas estão nos levando, escolher aquelas que levem para cima e não para baixo no mapa, nos deslocando ao fim que desejamos e não aleatoriamente, pegando desvios que nos afastam cada vez mais do local de destino que intentamos.

Todavia, cabe aqui ainda mais uma observação a partir de uma das histórias da mitologia. Frigg, por conhecer o destino cruel de seu filho Balðr faz de tudo para evitá-lo. Primeiro, faz quase todos os seres viventes jurarem que não farão mal a Balðr, deixando apenas o inofensivo visco de lado. Loki, o trickster, todavia aproveita-se da situação e confecciona uma flecha com esse vegetal. Acontece que Balðr brincava de se exibir com todos atirando objetos cortantes contra si, sem nenhum efeito nocivo ou letal. Loki então vai até Hǫðr, irmão de Balðr, o deus cego, e faz ele apontar a flecha, e a disparar contra o irmão. Balðr então é morto. Frigg, todavia, não desiste, descendo até Hel, e implorando para devolver-lhe o filho. A deusa do submundo diz que o devolverá caso todas as criaturas lamentem a morte de Balðr. Loki, então, mais uma vez, trapaceia. Ele transforma-se numa giganta e quando Frigg surge para colher suas lamentações, ela não chora, impedindo assim Balðr de retornar, ficando preso em Helheimr. Loki, todavia, é amarrado a uma pedra e tem uma serpente derramando veneno sobre sua pele, causando dores e feridas horríveis, do que só é impedido quando Sygn, sua esposa, permanece com uma tigela, colhendo o veneno da serpente. Hǫðr, por sua vez, é caçado pelo irmão Vali, e finalmente morto, concretizando uma vingança inevitável, por mais dolorosa que fosse.

A história resumida acima nos demonstra que, apesar de Frigg lutar contra o que estava dado, isto é, tentar modificar o wyrd de seu filho, o seu ørlǫg não permitiu. Ou seja, de certa maneira, por mais que possuamos liberdade para agir, jamais escaparemos de consequências de ações passadas.

 

A ALMA PARA OS GERMANOS

Esse é um dos assuntos mais polêmicos, complicados, e equívocos (ou seja, que tem muitas interpretações) no paganismo nórdico. Discutiremos isso brevemente aqui, apenas para inteirar os iniciantes sobre o assunto, sendo que de forma alguma pretendemos por uma pedra final sobre o tema.

O que de mais seguro podemos afirmar aqui é: os germanos conheciam pelo menos duas partes da alma: uma era a fylgja e a outra a hamingja. O termo fylgja significava “orientação”, “espírito guardião feminino”, “espírito assistente em forma animal”. A palavra hamingja (do nórdico antigo, “espírito guardião” ou “sorte”, “bom destino”) ligava-se a termos como ham-far “viajar na forma de um animal”, hamast “assumir a forma de um animal”, hamr, “forma”, “pele”. Enquanto a fylgja poderia representar o que de mais instintivo e bestial havia na natureza humana, por um lado, e, por outro, o animal protetor (mas não no mesmo sentido dos animais xamânicos!), se materializando e “vasculhando” o caminho que seu dono intenta percorrer, e é invisível para o seu dono, exceto em casos de morte próxima, sendo então um mau agouro ver a própria fylgja. Já a hamingja pode ser vista como um escudo protetor em torno de seu dono, ou ainda como uma “reserva de energia”, usada em atos mágicos.

Alguns ainda fazem uma divisão mais complexa da alma. Seriam, assim, suas partes principais: 1) Athem (corpo etéreo, manifestação no mundo espiritual); 2) Ferth (mente); 3) Fylgja (acompanhante); 4) Lá (sangue); 5) Likh (corpo material); 6) Mágn (força, poder); 7) Módr (bravura, coragem); e 8) Ǫnd (respiração e inspiração divina). Nesse sistema, haveria ainda várias subdivisões, das quais mencionaremos apenas algumas: 1) Hügr, como parte de Ferth, sendo então este o pensamento, a razão; 2) Münr, também como parte de Ferth, sendo este a memória; 3) Hamingja, como parte da Fylgja, como forma acompanhante; 4) Dísir, também como parte da Fylgja, considerando então essas ancestrais femininas como parte indissolúvel do ser vivente; 5) Aettarfylgja, como parte da Fylgja e espírito familiar tutelar, que acompanha as sucessões de gerações de uma família, as protegendo; como divisões de Lá temos: tanto o 6) wyrd; como o 7) orthanc que é a herança familiar, de qual a subdivisão destaca principalmente a) o ørlǫg, e b) afl okkat, a força pessoal, a vontade que ajuda o fortalecimento do clã. Vimos apenas superficialmente esse sistema, uma vez que ele é bem complexo e possui densas subdivisões que mais complicariam que auxiliariam um entendimento preliminar e apenas inicial da noção de espírito para os germanos segundo tal concepção.

Todavia, vale destacar que esse sistema destaca tanto a importância da herança ancestral, que é, como veremos adiante, parte importante da concepção heathen; além disso a ação e história humana individual, o que casa, sem dúvida, com os conceitos de wyrd e ørlǫg, que modificariam a própria essência espiritual e as determinariam em cada ser humano.

A QUESTÃO DA ANCESTRALIDADE

Esse é um dos assuntos mais complexos da Ásatrú. Como veremos, por um lado, ele gera em torno de si um grande debate sobre quem pode praticar o paganismo germânico. Deixaremos esse assunto de lado, por agora, e trataremos dos aspectos generalistas da ancestralidade. Da outra parte, a ancestralidade gera tanto os debates acima apresentados sobre o destino e alma dos vivos, quanto sobre o pós-vida (ou pós-morte?), que lidaremos mais à frente.

Do que vimos até agora, todavia, é importante destacar que, como para muitos povos, mesmo os indígenas brasileiros, ou ainda os chineses, para se tomar dois exemplos de organização social humanas completamente diferentes, a crença de que a morte não rompe todos os laços entre os que se vão e os que ficam, está presente. Esse é um dos elementos que elas possuem em comum com os germanos.

Podemos ver os ancestrais influindo de algumas formas básicas. A primeira seria através das Dísir. Este é o nome dado ao grupo de espíritos em cada família para as mulheres que morreram, e hoje ajudam a influenciar o destino e proteger os seus descendentes, aparecendo através de visões ou mesmo sonhos, sem contar os rituais de magia seiðr. A segunda referia-se à sorte do clã, embora sem divergir tanto das Dísir, mas englobando familiares mortos de ambos os sexos. Além de influenciar a família ou clã através dos seus atos em vida, após deixar este mundo, os espíritos poderiam continuar intervindo e tornando o destino de seus descendentes mais dinâmico. Há estudiosos que associam, dessa forma, as Dísir aos ancestrais femininos em oposição aos Álfar como ancestrais masculinos. Fato interessante que corrobora com essa ideia é o fato de que Freyja seria a regente das Dísir, enquanto seu irmão Freyr é o senhor dos elfos (álfar). Desta forma o clã era na verdade não só composto dos que estão vivos, mas de todos os que os antecederam, sendo que muitas vezes os mortos poderiam ser grandemente responsáveis pela boa ou má sorte nas colheitas e na economia rural da época.

Isso pede uma explicação e levanta uma questão. É necessário dizer, aqui, que para os germanos a morte não era de maneira alguma uma coisa assustadora, como virá a tornar-se com o cristianismo, diante da dualidade entre paraíso versus inferno. A morte é uma continuação necessária da vida, para as partes individuais de nosso espírito, ao mesmo tempo que jamais deixaremos este mundo enquanto nossa linhagem permanecer, uma vez que vivemos através de nossos descendentes, e nossos antepassados se mantiveram vivos através de nós. A morte, exceto por uma questão de exceção, não estava embebida numa noção de punição. O mundo dos mortos e vivos são mais que dois momentos, duas fases da vida da alma, na verdade são duas partes indissolúveis, interdependentes que se influenciam, e do qual a visão de mundo germânica não tem senão uma noção bem rasa de separação e distinção. O contato com os mortos não era raro; seja através das visões em visitas a túmulos, o fato de dormir/sentar-se em túmulos como forma de buscar contato com os que já estão do outro lado, etc. A morte era mais fascinante do que assustadora, e essa concepção, não há dúvidas, era uma das mais importantes para os antigos povos pagãos: ela era o sustentáculo das virtudes, da honra, da coragem e ousadia destes povos.

A questão que é necessária levantar, por outro lado, é a seguinte: se não há uma barreira claramente definida entre a vida antes e depois da morte, e os mundos dos mortos e dos vivos se influenciam mutuamente, estão lançadas as bases para estabelecer uma relação, da mesma forma que com os landvættir, elfos e deuses: e esta será chamada de Culto aos Ancestrais.

Dentro do Heathenry moderno, o culto aos ancestrais ocupa um lugar de importância inquestionável. Daremos, todavia, apenas alguns esboços de como ele pode ser realizado, pois existem diversas maneiras, e cada um pode aprimorar a prática conforme as próprias necessidades, não havendo (como em nada dentro do paganismo reconstrucionista) nenhum padrão extremamente rígido sobre o assunto.

Você pode criar um altar para os seus ancestrais. Colocar fotos, imagens, tanto deles como de coisas que eles gostavam. Você, se possível, pode por ali também coisas que a eles pertenciam e das quais eles gostavam. Um relógio, fios de cabelo, um par de brincos… não importa. Toda e qualquer coisa que possa atrair a atenção do ancestral em questão, mas também ajudar você a se lembrar dele. Para alguns talvez isso possa ser difícil, mas lembre-se: para os ancestrais honrados, não há medo nem dor na morte, apenas para os que ficam. Por isso devemos nos lembrar e nos aproximar desses ancestrais, com orgulho e sem dor: nós só perdemos aquilo que nunca tivemos ou nunca foi parte de nós. Nesse altar então você pode cultuar tanto ancestrais em geral quanto as suas Dísir.

Busque tantas informações quanto possível sobre os seus ancestrais. Reconstrua a sua árvore genealógica, mas não apenas com dados frios e objetivos. Tente descobrir do que os ancestrais gostavam, se houver vivos que tiveram contato com eles, o que preferiam comer, o que lhes agradava fazer, músicas que gostavam, etc. Humanize essas pessoas, as reconstrua na sua mente. Esse trabalho, aliás, é muito importante para a história da sua família e ajudar todos (mesmo que não sejam pagãos) a recuperar os laços e história pessoais.

Busque aproximar-se dos locais em que seus parentes foram enterrados com alguma frequência. Isso ajudará você a aproximar seus laços com eles de maneira efetiva, mesmo que eles não fossem (e provavelmente não são) pagãos.

Apresentarei aqui ainda os três conceitos básicos de culto aos ancestrais: (1) a Abordagem Idealizada dos Ancestrais refere-se ao culto geral, feito em relação aos principais heróis e pessoas importantes dos povos dos quais se descende. Por exemplo estudar, compreender e ter imagens de pessoas que foram importantes para o seu povo e você, como, para os que possuem ascendência europeia, Ragnar Lothbrok, ou Zumbi dos Palmares e Malcolm X, para os negros, e todos esses, para os que possuem origem miscigenada. (2) A Abordagem de Identidade Cultural visa reviver e preservar os costumes e tradições dos povos dos quais sua família e você se originam. Busque elementos provindos dos povos mais específicos dos quais você vem, como imagens, armas, roupas, comidas, tradições, danças, festividades, etc, incorporando na sua vida pessoal, ambiente de habitação, hábitos cotidianos e comemorações elementos que o ajudem a recuperar, manter e não perder sua identidade cultural. Você descende de alemães? Procure, por exemplo, boas cervejas, roupas típicas, elementos decorativos como canecos, um delicioso strudel, e busque relacionar-se com o idioma nativo da região da qual seus ancestrais vieram. (3) A Abordagem dos Ancestrais Pessoais refere-se, em grande parte, ao que mencionamos anteriormente sobre o altar dos ancestrais e a construção da árvore genealógica. Recupere, mantenha e preserve a memória daqueles que estão próximos a você, e dos quais você descende.

E QUANDO A MORTE CHEGAR

Não me lembro exatamente o porquê ou quando comecei investigar sobre as concepções de vida após a morte para os antigos povos germânicos. Todavia, se tem uma coisa que me incomoda profundamente é a divisão binária das noções de vida após a morte para os germanos que alguns indivíduos que se intitulam ásatrúar apresentam, sonhando e só falando que vão para o Valhǫll (*GRITO!), e opondo a ele a morada de Hel como um local ruim (*facepalm*), como se se tratasse de salvar a alma indo para o Valhǫll e cair no inferno indo para o Helheimr. Já escrevi longos artigos sobre isso, e, desta vez, me deterei apenas a apresentar as principais ideias sobre os destinos das almas depois da morte, para os germanos.

Isso não pode ser feito sem uma breve ressalva. Aqui é um dos pontos onde a regionalidade dos cultos aparece em sua faceta mais importante. Cada povo possuía um conjunto de ideias e valores sobre o destino das almas após a vida, mas parece ter sido comum, como apresentamos pela concepção de culto aos ancestrais, a crença de que os mortos não estavam no todo afastados dos vivos, em um local próprio e exclusivo para os mortos. Ou, então, que o espírito era mesmo dividido em partes que se separavam após a morte. Mas não há consenso sobre para onde as almas iriam, o que significa que pessoas com uma conduta similar, dependendo do povo, poderiam ser consideradas coo tendo suas almas levadas para locais diferentes, porque era assim que seu povo acreditava.

O único ponto que parece passível de generalização é a ideia de que o morto de certa forma permanecia, se não habitando o seu túmulo, mas com um “portal” para o mundo dos vivos, através dele. A terra, o subterrâneo, o submundo era por excelência, a casa dos mortos, o que explica, em partes, sua influência sobre a noção de fertilidade. Alguns dos exemplos mais comuns de túmulos eram, por um lado, os montes fúnebres, onde os familiares eram enterrados em camadas que se sobrepunham, ou túmulos individuais onde permaneciam com alguns itens valiosos e armas; por outro lado, temos os túmulos em forma de barcos, ou mesmo os barcos reais usados como túmulos, em geral estes últimos recheados de riquezas. O primeiro tipo de túmulos representa a ideia de habitação permanente, o segundo, de uma viagem após a morte, através do próprio túmulo.

Segundo a tradição dinamarquesa, a deusa Gefjon (a qual pode ser uma faceta de Freyja), seria responsável pelas almas das moças virgens.

O palácio de þórr, o Bílskirnir era o local daqueles que trabalhavam arduamente como thralls e karls pobres.

Aqueles honrados e que traziam benefícios e progresso para seu clã e tribo, em determinada região, acreditava-se irem habitar os montes de Helgafjel.

Helheimr em geral era considerada a casa daqueles que morriam de doenças ou velhice. Todavia o Hel não é um equivalente de “Hell”. Essa palavra inglesa possui origem no nome da deusa nórdica, porém o seu conceito expressa o inferno cristão, como local de punição. A única punição que há em Helheimr é provavelmente uma noção tardia: em Nástrǫnd, local a parte, habitaria a serpente Niðhǫggr, a qual mastigaria todos aqueles que eram considerados párias sociais: aqueles que quebravam o juramento, suas promessas, sua palavra, perpetuavam atos de traição, enfim, atos egoístas e antissociais, perigosos e desestabilizadores dos clãs e tribos e que geravam penas de morte/banimento do kin, sendo que a própria expulsão era, muitas vezes, considerada um castigo maior que a morte.

Rán, deusa marítima, por outro lado, seria a caçadora de homens, revolvendo os mares, jogando sua rede, e puxando os navegadores para o seu palácio submarino, onde reinava com seu esposo Vanir, o deus Ægir. Era, inclusive, comum navegar com ouro para agradar esses deuses Vanir ao morrer no mar, e conseguir alguns privilégios com eles.

Vale lembrar a crença nas Matronæ (continente europeu) e Dísir (Escandinávia), que seriam a forma que muitas ancestrais femininas assumiam após a morte, ambas cultuadas, sendo inclusive encontrados altares dedicados às Matronæ, bem como da ligação entre indivíduos ilustres que são relatados transformarem-se em álfar (elfos) após a morte, sobre o que não há como afirmar seguramente quais os requisitos para isso, e se figuras não reais tinham tal possibilidade.

Como povos guerreiros, que davam uma importância social para a guerra muito forte, os nórdicos concebiam que ali, naquela carnificina e ambiente desolador, as valkyrjor, espíritos femininos, distribuiriam a morte e teciam uma teia usando cadáveres humanos. As valkyrjor muito provavelmente não pegariam todos os mortos, mas escolheriam os mais bravos na batalha. Elas eram vistas como seres horrendos e bestiais, e não romantizadas como Wagner apresenta, sendo ele o artista que muito influencia as noções que temos das valkyrjor no neopaganismo atual. As próprias valkyrjor são consideradas por alguns como Dísir, subordinadas à Vanadís Freyja, que tinha direito de escolher para si metade dos mortos os levando para o seu salão, Fólkvangr. A metade restante pertenceria a Óðinn, e tinha como destino o salão de Valhǫll, onde, provavelmente você já sabe, treinariam arduamente, sem descanso, sem prazer, durante o dia, e os mortos sendo revividos durante a noite, onde poderiam jantar e beber.

As únicas ressalvas que eu gostaria de fazer para finalizar esse assunto são: a profissão de guerreiro não seria garantia de se ir ao Valhǫll (guerreiros poderiam morrer de doenças e acidentes, e as valkyrjor só os pegavam em campos de batalha); e não aproxime-se do heathenismo se você quer ir ao Valhǫll. A Ásatrú é sobre como aceitar a realidade, o mundo, viver uma vida de virtude, coragem, honra e valor e não sobre promessas após a morte (procure, para isso, a religião revelada mais próxima!).

NEM SÓ DE GUERREIROS VIVERAM OS PAGÃOS ANTIGOS

Apesar de toda a importância que os meios de comunicação em geral e boa parte da comunidade heathen dão para os guerreiros eles não foram o único elemento valioso nessa cultura.

Embora bem pouco tenha nos restado das práticas mágicas desses povos, é possível distinguir quatro tipos de mágica que são distintas, mas interligadas entre si: o spá (pronuncia-se spau), que era a magia divinatória, de predileção do futuro; o galdr, onde a voz era usada para proferir sentenças mágicas (muito ligado à poesia); o seiðr, a prática de viagem através do mundo dos mortos; e a magia rúnica, que se usava da escrita para dar poder a objetos e pessoas através da confecção de símbolos simples ou complexos.

Entre os nórdicos a magia era vista como uma atividade comum, como qualquer outra, e seus praticantes eram conceituados, requeridos e remunerados pelo que faziam.

As spákonur (mulheres que praticavam spá) faziam viagens, atendendo seus clientes de maneira itinerante, dormindo e conversando com os membros de um clã, meditando e realizando predições sobre o futuro das pessoas do lugar.

Muitos acabam confundindo o seiðr com xamanismo, mas são duas coisas distintas. O seiðr envolve basicamente o contato com os mortos – que, como vimos anteriormente, não tinham uma clara fronteira delimitada em relação aos vivos – e viajar por seu mundo. O seiðr difere drasticamente também das noções de mediunidade espíritas ou afro-brasileiras, uma vez que o conceito de incorporação de espíritos lhe é estranho, até onde as fontes são capazes de provar. Mesmo entre os sami (povos não germanos, não cristianizados mas que influenciaram e foram influenciados pela religiosidade nórdica) o conceito de incorporação é estranho. Ao passo que possui peculiaridades, também há semelhanças: o seiðr também poderia ser praticado usando-se cantos e/ou tambores para se alcançar o êxtase, usava de cajado, e um local específico para se sentar e entrar em contato com os espíritos; e, como o galdr, poderia ser usado como forma de atacar terceiros.

A magia era usada na guerra, e nunca foi deixada de lado em oposição ao uso frio das armas na batalha. Além dos trabalhos mágicos, era comum se desenhar runas em armaduras e armas, para se potencializar a força e defesa. Tanto o galdr como o seiðr poderiam ser usadas como armas de ataque mágico.

 

TENHA UMA VIDA ATIVA

É bom deixar o sedentarismo de lado (neste momento o autor está também falando consigo próprio). Com a nossa era digital, para a maioria das pessoas que moram nas cidades, torna-se um pouco incomum o contato com a terra (se sujar mesmo), com a natureza, com os animais. Não me entendam mal, eu não quero defender nenhum romantismo pela natureza ao estilo new age. Mas percebo que muitas pessoas estão se tornando cada vez mais inaptas a viverem em condições não urbanas, não dependendo de fast food, internet, em contato com animais, exercendo força, etc.

Fazer exercícios físicos, estar em uma forma saudável (não estou falando de estética magra, antes que me compreendam mal), ter resistência física ajuda muito a manter a saúde intelectual. Muitos gostam de simulação de lutas com espadas e escudos, ou outras mais comuns como boxe, muai thay, etc. Beber cerveja e hidromel é legal, mas em quantidades moderadas e que não propiciem a inércia e lassidão. Viagens, caminhadas no campo, desafios, natação, tudo isso te ajuda a sentir-se mais vivo, e é impagável. À primeira vista parece não ter tanta relação com um modo de vida heathen, mas, afastados como estamos da natureza, precisamos buscar artifícios para continuar evoluindo e nos tornando resistentes e fortes fisicamente, e não meramente dependentes do modo de vida, muitas vezes doentio, das cidades.

É muito interessante também tentar escrever, fazer um blog, ou versos, crônicas, qualquer coisa desse tipo, mesmo que apenas em um caderno e sem mostrar para ninguém. Além de treinar o corpo para batalhas, os nórdicos adoravam contar histórias, cantar os seus feitos e os de homens ilustres, e não eram de forma alguma encaixados naquele estereótipo ridículo de “bárbaros barbados de elmos de chifres grosseiros, primitivos e incultos”. A cultura germânica era fortemente oralizada, cantada, e um aspecto muito importante da vida desses povos. O homem do norte não era apenas uma parte: em todos os seus atos podemos ver a completude, a sua diferença em relação à Europa cristã, que se julgava superior por sua religião e sistema de escrita.

AFINAL DE CONTAS, O QUE É SER UM HEATHEN?

Coragem, Verdade, Honra, Fidelidade, Disciplina, Hospitalidade, Laboriosidade, Independência e Perseverança: alguns lhe darão essa fórmula com nove nomes e lhe dirão que isso basta. Não que estas não sejam virtudes louváveis: elas simplesmente não pertencem exclusivamente ao heathens, vikings, como alguns preferem. Vamos acabar com mais um mito aqui: viking era uma atividade, uma profissão e não um povo. Existiam sim escandinavos que não eram vikings. Os vikings eram meramente os navegadores, saqueadores e pilhadores, os piratas nórdicos. Já imaginou os ingleses sendo chamados de corsários? Pois é! Aproveitando o clima de abolição de preconceitos, voltemos ao assunto: além de não ser vikings, as Nove Nobre Virtudes não são um conceito antigo.

Vamos com calma. Eu não quero dizer que elas não foram conceitos retirados de leitura e estudo da literatura nórdica. Só que elas são, como qualquer tipo de mandamentos, insuficientes para guiar a conduta humana, e, pior, para definir as condutas de todo um povo antigo. Como criação recente (século XX) e buscando obviamente uma importância esotérica (o nove é o número tradicionalmente importante dentro da tradição nórdica, além de, é claro, ser diretamente relacionado com Óðinn), acabamos escolhendo apenas nove nobre virtudes. Vejamos, por exemplo, o conceito de “bom-senso”. O poema éddico Hávámál o cita claramente, e onde ele se encontra nessa lista?

Existem diversos valores que devem fazer parte de nós, como humanos. Numa época em que a sociedade flerta com o absurdo, como a nossa, um conjunto de valores como as Nove Nobre Virtudes é sim muito útil. Ele só não é suficiente, para um heathen. Ele é só uma coleção de palavras que podem ser entendidas de todo e qualquer jeito.

Apesar de não podermos analisar com a profundidade que eu desejaria esse tema, vou tentar te fornecer material suficiente para, pelo menos, não ficar perdido e ajudar a buscar um entendimento melhor sobre isso. Falaremos então sobre honra, sorte e friðr. Apenas três conceitos, mas os analisaremos qualitativamente e não quantitativamente, tendo em vista que estão longe de definir, apenas por si, o que é ser heathen, embora compreendam sem dúvida parte do centro disto.

A primeira dificuldade que nós sofremos hoje em dia se refere a como colocar essas virtudes em prática. A ética dos povos pagãos estava estritamente ligada ao seu direito, e isso influenciava diretamente a maneira através da qual eles agiam. O nosso direito atual surge a partir de um outro tipo de lógica de compensação de prejuízos entre os seus membros, e uma outra forma de organização política, representada pelo sistema judicial romano e da sociedade que dele descendeu. Assim, a aplicação do conceito de honra não pode, a meu humilde ponto de vista, ser aplicado de maneira literal – a menos que você esteja disposto a pagar judicialmente o preço por isso. Como não queremos aqui incentivar atos ilícitos, iremos adaptar tais noções de tal maneira que possam ser utilizadas em nossa sociedade – e o mesmo valerá também para o conceito de friðr.

A honra era o espírito do clã. Era a sua razão de existência. O conceito de honra envolvia a mútua proteção de todos os que estavam ligados pela família. Se um filho fosse morto, seu pai o vingaria. Se este estivesse velho, seria o irmão. O conceito de honra leva mesmo a casos trágicos – citaremos aqui apenas novamente a morte de Balðr. A tragédia da vingança de Vali contra Hǫðr não poderia ter sido de outra maneira. O nórdico se via como impelido quase que automaticamente a proteger o seu kin, e aquele que o prejudicou não teria outro destino senão aquele que compensasse pelo seu prejuízo. Mesmo que o assassino fosse um familiar, a vítima outro familiar, não restaria senão a vingança, ou melhor, a compensação. Um pai que perdesse seu único filho e estivesse velho demais para enfrentar o agressor preferia a morte a uma vida sem honra. Mas a palavra também tinha muita força. A palavra era aquilo que criava acordos e juramentos, a palavra era o que se pronunciava em cantos para fazer-se galdr. A palavra não era um mero amontoado de sons. E quando palavras hostis eram proferidas contra si, o acusador deveria pagar o preço por isso também. Dessa forma, a honra tinha duas faces: ao mesmo tempo que a honra agia como um princípio de proteção ou ordenador, tal a friðr e a sorte, ela poderia gerar contendas entre gerações de famílias sem que nenhuma se sentisse compensada por alguma rixa da qual sequer poderiam afirmar com segurança a razão.

Há muito a se dizer sobre a honra e isso nem de longe supre a necessidade sobre o conceito. A honra era ao mesmo tempo pessoal e coletiva, e era a maior herança a se proteger ou conquistar. Hoje em dia, dentro da sociedade que estamos, podemos começar a praticar a honra evitando prejudicar pessoas que não nos fizeram nada de errado. Isso não significa ser passivo ou cordeiro; mesmo um lobo não sai atacando aleatoriamente por aí, apenas pela necessidade ou quando se sente ameaçado. Ser honrado é também não ferir a honra alheia, pois isso dá aos outros a necessidade de compensação. Significa então agir com respeito, mas nunca permitir que lhe tirem esse mesmo respeito, e pagar qualquer a injúria o preço que lhe foi cobrado.

Entrelaçando-se ao conceito de friðr, a paz e a felicidade da tribo, a honra exige que lutemos pelo nosso clã – trabalhando por nossos familiares, dando-nos uns pelos outros. Não importa que não são pagãos, não importa que tenham seus defeitos. A falha dos outros não justifica os nossos próprios erros. A friðr pode, de certa maneira, nos ajudar mesmo na pobreza: quando não podemos nos alimentar da melhor forma que poderíamos, por coisas que independem de nós, ainda assim nos alimentamos da melhor forma que podemos, conforme aquilo que de nós depende. O conceito de friðr não pode alcançar sua máxima expressão justamente pela maneira como nos organizamos socialmente, hoje: as famílias são quase sempre separadas e mal conhecemos nossos vizinhos, muitas vezes. O conceito de friðr pode ser comparado a um relógio: quando todas as engrenagens estão suficientemente lubrificadas, alinhadas, e em movimento, o sentido do relógio existir é alcançado; basta apenas uma peça estar fora de perfeito funcionamento para todo o conjunto ser comprometido. Fica a utopia: se nós pudéssemos nos aproximar daqueles que estão ao nosso redor, se uma grande família pudesse ser feita, mesmo sem que o sangue seja o fator principal, chegaríamos perto da friðr novamente. Fora desse empenho coletivo a friðr é inalcançável – ela não é uma virtude pessoal, mas de um grupo de pessoas. Todavia, um kindred bem estruturado, que saiba como encarar os desafios através da união entre seus membros pode, com muita certeza, alcançar a friðr entre seus membros.

Mas para que a friðr seja alcançada, ainda existe um terceiro ponto a ser levado em consideração: a sorte. A sorte era a destreza e a maestria na arte de viver. Significava conseguir o máximo do que a vida poderia dar a um indivíduo – e a honra e a friðr exigiam que tal sorte fosse compartilhada com o seu kin – e mais que isso, significava ir além do comum. Ganhar na loteria pode ser uma sorte muito grande, mas empenhar-se corretamente, ser justo e honrado, servir aos deuses, ancestrais e seu clã de maneira respeitosa comumente pode ser visto como uma forma de se alcançar a boa sorte – embora ela pudesse ser considerada, em grande parte, também como algo inato.

Assim, para não me prolongar mais deixo esses três conceitos – honra, sorte e friðr – para você que se aproxima do heathenismo estudar, entre os nórdicos, com profundidade. Na minha sincera opinião se você puder compreender e aplicar, tanto quanto possível, esses três conceitos essenciais, enquanto procura por outros, entre os nórdicos antigos, poderá ter um efeito bem maior na sua vida do que simplesmente abraçar as Nove Virtudes sem conseguir entender o que elas poderiam significar na realidade para os antigos. Às vezes a qualidade vale mais que a quantidade. Todavia, se se sentir realmente atraído pelas Nove Virtudes, siga em frente. Apenas lembre-se que elas não são os “mandamentos” dos nórdicos – da mesma forma que os conceitos que apresentei – mas uma interpretação tardia e seleção mais ou menos insuficiente de tudo aquilo que representava virtude para os nórdicos.

RITUAIS, SACRIFÍCIOS (BLÓTAR) E OFERTAS

Essa é uma das partes mais legais! O que falaremos aqui, mais uma vez, é apenas introdutório e insuficiente, a título de informação inicial.

Entre os antigos pagãos os sacrifícios envolviam ofertar as vidas (e o sangue) de animais e de seres humanos, em alguns casos. Existe um debate muito grande em torno da legitimidade do sacrifício animal. Não quero entrar nessa polêmica, apenas sustentar a ideia e o porque tais sacrifícios eram feitos, e como podemos fazê-los, hoje em dia.

As antigas tribos produziam praticamente tudo o que precisavam. A religião era parte do seu sistema social. Os deuses não eram vistos de maneira separada e transcendente em relação à sociedade. Eram (e são) forças poderosas que influenciavam na sorte das colheitas. Os blótar (sacrifícios) funcionavam como um pagamento aos deuses por aquilo que eles haviam ajudado a produzir.

A antiga religião do norte europeu funcionava sobre o princípio chamado “do ut des”, “dou a ti para que me dês também”, numa tradução livre. O blót era assim um pacto entre a tribo, da qual o goði (chefe religioso tribal, em geral também o chefe político ou patriarca) era o representante ali, e os deuses e/ou (land)vættir ou mesmo os ancestrais. Dessa forma o sacrifício dos animais, a queima de parte da colheita funcionava como uma entrega a essas forças daquilo que às pertencia daquilo que foi produzido. Os rituais de sacrifício eram atos de diplomacia entre tribo e as entidades que os rodeavam, funcionando como uma atitude de troca e agradecimento.

Todavia os tempos são outros. A maioria de nós saiu do campo, e não produz mais familiarmente desde as roupas até os alimentos e armas. Em geral temos um trabalho especializado, e a maioria deles nem é um trabalho produtivo (isto é, que gera algum produto), mas prestação de serviços. Além disso, a maior parte de nós trabalha para terceiros e não familiarmente, sendo que o que resulta de nosso trabalho não nos pertence, o que é drasticamente diferente daquilo que viviam os antigos pagãos em uma produção rural e familiar. Nesse sentido alguns consideram o sacrifício animal destituído de sentido. Eu acho que se compramos um animal, ou qualquer outra coisa, oferecemos o seu sangue e preparamos o corpo para uma refeição que envolva os membros do nosso kindred, o princípio e validade do blót permanece, mas isso é opinião pessoal.

Agora vem a segunda parte do problema, como funciona isso? Vou separar essa resposta em duas partes: ofertas aos landvættir e os blótar mais complexos. Lembrando que as respostas aqui oferecidas fazem parte de minha visão pessoal sobre o assunto, e muitos podem ter outras ou mais ideias.

Não que você não possa ofertar aos landvættir dentro de um blót. Mas eu particularmente prefiro manter essa relação sempre viva, fazendo ofertas regularmente aos landvættir. Gosto de juntar um pouco de alimento, e, como moro em área rural, deixo ao ar livre, ao pé de uma árvore (uma cajazeira por mim mesmo plantada), após um canto e um discurso/conversa com esses espíritos. Em geral me sinto bem mais contente depois que faço isso, e posso sentir a força da natureza, e o vento reagindo a isso. A coisa aqui é bem pessoal, e eu gosto de fazer dessa forma para que os landvættir não se sintam esquecidos, e possam ajudar na fertilidade do solo e proteção espiritual do lugar.

Para aqueles que não possuem um espaço aberto (como quem mora em residência urbana sem quintal ou apartamento), onde animais (quaisquer que sejam, de quem quer que sejam) possam vir e comer as ofertas (tal ato era visto de maneira positiva entre os antigos, era como se os espíritos aceitassem a oferta através dos animais), existem duas alternativas básicas: a primeira seria deixar  o alimento ali por uns dias, e então procurar um local na natureza para descartá-lo (jamais jogue no lixo!); a segunda seria ter um vaso de planta de médio/grande porte (como algum tipo de pinheiro, ou algo assim) onde você pudesse enterrar o alimento entre uma oferta/blót e outro. Nesse caso você obviamente deveria esperar um pouco mais, uma vez que a decomposição dos alimentos aconteceria de maneira lenta proporcionalmente para o vaso de terra.

Já um blót coletivo ou individual mais tradicional envolve uma sequência de atos mais complexa. Pode-se começar com um canto ou toque de algum instrumento como um berrante ou algo nesse sentido, objetivando chamar todos aqueles que participarão, sejam vivos ou espíritos. Em seguida, é interessante fazer um discurso ou diálogo, no qual honra-se aos deuses, ancestrais, comenta-se sobre atos importantes ou dificuldades individuais (para quem está só) ou do clã/kindred. Pode-se invocar os deuses para abençoar algum líquido/bebida ritual e usar um ramo para aspergir sobre os participantes e imagens de divindades. Faz-se então o sacrifício, invocando e oferecendo aos deuses, deixando em uma tigela ou diretamente sobre o solo, ou talvez ainda, queimando em uma fogueira. Você pode também incorporar um symbel ao seu blót, bebendo, pensando em coisas boas, e conversando com os participantes, lembrando de deixar cair ao chão também um pouco da bebida para os deuses, e ofertando a eles. É interessante que se deve passar o chifre ou copo de bebida coletivamente, mas também é bom ter um certo controle e lembrar-se que se está bebendo ritualmente – e não recreativamente. Quando o  chifre está em sua mão, você pode pronunciar um juramento sobre ele. O symbel em si pode ser um ritual específico, e separado do blót. É interessante fazer algum canto coletivo, recitação de poesias escritas ou escolhidas pelos membros presentes, contar-se histórias, enfim reviver a tradição antiga. Pode-se encerrar com um breve discurso aos deuses, ancestrais e (land)vættir.

O ritual em si deve ser guiado pelo goði. Já ao thyle zela para que as regras do clã/kindred sejam mantidas, bem como a paz (friðr) dos presentes. Quando um juramento sem sentido ou absurdo for pronunciado, o thyle pode negar-se, em nome do kindred, a aceitá-lo. Junto ao juramento durante o symbel pode ser incluído um shyld, ou encargo. Este encargo deve ser pago caso o juramento não seja cumprido, permitindo àquele que falhou restituir parte de sua honra. O thyle pode registrar os juramentos em um livro – embora seja sempre preferível que eles sejam tão objetivos que possam ser lembrados mentalmente, como os antigos.

Procure escolher um local fixo para os blótar, e que você possa usar sempre que houver uma comemoração. Geralmente é interessante um local aberto, em contato com a natureza. Tudo o que foi dito aqui não são regras absolutas, mas ideias gerais para aqueles que nunca fizeram antes, e com o tempo podem e devem aperfeiçoar os rituais.

 

DATAS E COMEMORAÇÕES

Bem, esse é um daqueles pontos mais problemáticos na Ásatrú. Quais são as datas corretas para se realizarem blótar (sacrifícios)? O primeiro grande impasse é decidir sobre qual hemisfério você vai comemorar. Isso porque as estações e fenômenos climáticos acontecem em épocas diferentes na metade de cima do mundo – hemisfério norte – e na metade inferior – o hemisfério sul. Por exemplo, o Jól, Miðvinterblót, são comemorados – se usarmos os fenômenos climáticos do hemisfério sul – na metade do ano no hemisfério sul, mas no final do ano, no hemisfério norte.

Alguns, mesmo estando no hemisfério sul, preferem usar as datas da parte norte do mundo, por acreditarem estar realizando nas mesmas épocas que os ancestrais. É um dilema sobre o qual cada um tem de escolher, na verdade. Aqui eu oferecerei as datas que eu utilizo em particular – você verá que o calendário é uma coisa muito pessoal – que são baseadas no hemisfério sul, concordando assim, com as nossas variações climáticas, o que era o objetivo das religiões pagãs – religiões do campo, que comemoravam datas agrárias. Para eu, que moro em área rural, isso torna-se como uma necessidade uma vez que a utilização das datas do hemisfério norte não concordam com as datas de plantio e cultivo da terra no hemisfério sul.

A essa sugestão de calendário você pode anexar datas de nascimento e morte de pessoas importantes para você, sua família ou seu kindred. Não o tome de maneira absoluta e rígida, a ideia é apenas fornecer uma ideia e não te deixar perdido sobre o assunto.

Fevereiro

– 02 de Fevereiro – Freyrfaxi (Festa à Frey) ou Loafmass (Festa do Pão), em agradecimento às colheitas ceifadas. Ou Loaf-Feast (Festa do Pão).

Março

– 20 de Março – Harvest: Princípio de Outono e Chegada de Inverno. Ou Haustablót.

– 28 de Março – Dia de Ragnar Lodbrok, que conquistou Paris, França.

Abril

– 23 de Abril de 1958 Nasce Hilmar Örn Hilmarsson, atual Allsherjargoði  da Ásatrúarfélag.

– 30 dependendo da tradição de Abril – Wétturnaettr: Noites de Inverno – fim das colheitas e bendição pelas entidades como elfos, Dísir e Freyr, para a sobrevivência. Início da Caçada Selvagem.

Maio

– 22 de Maio – Celebração dos Vikings: comemora-se o início das ocupações vikings pela Europa.

– 30 de Maio – Celebração dos Aesir: festa em honra aos deuses dos homens.

Junho

– 01 de Junho – Dia de Ullr, Rei do Inverno: marca o fim das estações de calor e começo dos meses de inverno.

– 21 de Junho – Míðwinterblót: Solstício de Inverno. Inicio do inverno e renascimento da Sól.

– 23 de Junho – Yule/Jól: festa em comemoração ao ano novo nórdico e todos seus atributos. Celebração das Mães, das Dísir pedindo bênçãos para o novo ano. Ano novo nórdico. Nove dias de duração.

– 24 de Junho – Festa de Vali, Festa da Família ou Festa de Vingança de Sangue.

Julho

4 de julho de 1924 – Nascimento de Sveinbjörn Beinteinsson, criador e primeiro Allsheriagoði da Ásatrúarfélag islandesa.

– 19 de Julho – Dia da morte de Olaf o Gordo e fim da opressão cristã.

– 24 de Julho – Thórrablót – Sacrifício a Thor: Proteção para o inverno.

– 31 de Julho – Disablót ou Álfablót: Sacrifício das Mães ou Sacrifício dos Elfos. Pedindo bênçãos como: proteção, saúde e cura a estes seres femininos do Clã. São louvadas as Dísir, Idesir, Valkyrjor e Norns no Disablót, ou os Elfos no Álbablót.

Setembro

– 22 de Setembro – Eostr: Equinócio de Primavera. Início dos degelos, quando o mundo chora para o retorno da Sól e sorri quando ganha poder cada vez mais. Ou Idunnablót.

Outubro

– 13 de Outubro – Sumarsdag ou Sigrblót (Dia de Verão ou Sacrifício de Vitória) – Sacrifícios a Ódinn para assegurar a chegada do verão e as vitórias nas batalhas.

– 31 de Outubro – Sumarmál: princípio de verão. Também chamado de Noite de Walburga.

Novembro

– 01 de Novembro – Einherjarsdáegr: Dia dos Heróis Mortos, em honra aos Einherjar do Clã e suas virtudes.

– 30 de Novembro – Festa dos Vanir: celebração aos deuses da terra e da natureza.

Dezembro

– 21 de Dezembro – Míðsummarblót (Sacrifício de Meio de Verão): solstício de verão. Festa de Balðr.

– 24 de dezembro de 1993: morte de Sveinbjörn Beinteinsson, criador e primeiro Allsheriargoði da Ásatrúarfélag.

ÁSATRÚ E CIÊNCIA

Farei apenas uma breve passagem sobre esse assunto, pois muito ainda há de ser discutido sobre isso. Muitos aproximam-se da Ásatrú, não porque acreditem nos deuses ou algo assim, mas pela postura ética que a religião reconstruída dos germanos pode oferecer. Principalmente porque a lore da religião evidencia contradições (obviamente) com o discurso científico sobre assuntos como criação do mundo, evolução das espécies, etc.

Eu poderia fornecer uma teoria pessoal como “o big bang foi a morte de Ymir, sendo assim o nosso cosmos material todo ‘Miðgarðr’ e os outros nove mundos são dimensões paralelas”, o que entraria em conformidade tanto com o discurso de surgimento do cosmos segundo a ciência, quanto evidenciar que, de forma absoluta, os deuses podem não ter criado o humano tal qual é, mas um antepassado que foi evoluindo progressivamente ao que somos hoje, ou coisas assim. Não o farei por dois motivos. O discurso científico é feito a partir de uma forma de linguagem e pensamento estruturada de cerca de 200 anos pra cá, enquanto o discurso mítico envolve uma forma milenar de pensamento e transmissão de conhecimento. Qualquer fusão de ambas as formas de interpretação e conhecimento é então pessoal, e alguns vão levar os mitos ao pé da letra – o que nem mesmo Hilmar Örn Hilmarsson, o sumo-sacerdote (Allsherjargoði) da Ásatrúarfélag islandesa faz –, enquanto para outros, que preferem uma compreensão não literal se deparam com o problema de que as possibilidades de interpretação figurativa são, no mínimo, infinitas enquanto houver humanos pensando sobre elas.

Nesse sentido, eu, em particular, prefiro uma interpretação dos mitos nórdicos a partir das verdades empíricas da ciência. Casando ambas as interpretações de maneira inteligível para mim, mas sem jamais impor ou discriminar os que pensam diferente de mim na religião ou fora dela. Sim, eu odeio o fundamentalismo, e ele pode se apossar da Ásatrú também (da mesma forma que não está presente em todos os cristãos ou membros de qualquer outra religião revelada).

E, quando a mitologia (por favor, parem de usar essa palavra como insulto, ela significa um “corpus de explicação baseada em discurso mítico” e não “mentira usando nome de deuses”) não é suficiente ou contraditória, eu não hesito em responder: o discurso da religião deve e precisa ser respeitado, mas não podemos nos abster daquilo que a ciência empírica oferece. A ciência é feita a partir da análise da realidade, e não de um conjunto de dogmas, preconceitos e ideias que objetivam nos cegar (como acontece com muitas doutrinas religiosas e políticas extremas). Desta forma, penso ser impossível nos abster da ciência, por mais “religiosos” que sejamos – se religião significa “religar”, como podemos tentar escapar do objeto que ela está tentando nos apresentar, e, assim, facilitar esse trabalho de religação do humano com o todo que o cerca?

 

ESCOLHA A SUA FACÇÃO!

 Começamos o assunto em tom de brincadeira, mas a coisa é séria. Eu poderia muito bem ter fingido que tudo são rosas dentro do paganismo nórdico, e deixado você trombar com algum site nazista usando imagens de Óðinn, vendo swástikas e Valknuts juntos; ou de outro lado ver propaganda abertamente antinazista e inclusiva, mostrando a Ásatrú como a religião da natureza e do amor. Essa cisão é aberta, perceptível para aqueles que acabam acompanhando o meio pagão através da internet, pois é ela o local que oferece em geral os principais materiais para aqueles que estão iniciando no paganismo nórdico.

Existem basicamente três noções principais de heathenismo, no que se refere à pergunta: “Quem pode praticar o paganismo germânico/nórdico?”, cada uma das três rechaçando as outras. De um lado, existem aqueles que dizem que a religião é determinada biologicamente. Dessa forma apenas aqueles que tenham descendência dos antigos europeus (do norte?) poderiam praticar a religião, pois ela seria como um chamado dos deuses através do sangue. De outro existem os que dizem que a religião não tem nenhuma influência da biologia, e, sendo assim, todo e qualquer um pode praticar o paganismo nórdico, sem mais problemas. No terceiro ponto de vista estão aqueles que acreditam que, apesar de religião e biologia não se influenciarem mutuamente, não é todo e qualquer um que pode praticá-la, e deve haver um padrão a se analisar.

O primeiro grupo, chama-se habitualmente folkish. Entre eles você encontrará desde racistas não assumidos, pregando apenas o separatismo religioso baseado na origem étnica (que, em última instância, é baseado em quanta melanina se tem na pele), até racistas violentos, como White Powers e nazistas. Em geral baseiam suas ideias naquele romantismo racista de fins de século XIX e começo de século XX. O darwinismo social, ariosofia e arianismo são algumas das influências dos grupos radicais, geralmente associando a Ásatrú ao misticismo nazista.Os mais moderados baseiam-se em conceitos como o de metagenética, como justificativa de que a religião seria um fator biológico, e, embora não afirmem-se categoricamente a favor de teorias de superioridade racial, são racistas quando dizem que a biologia, a etnia são fatores determinantes na prática da religião.

O segundo grupo é designado como universalista. Como extremo oposto dos folkish, embora bem intencionados, não possuem muito rigor religioso. Basta se chamar de ásatrúar, e, com isso, você torna-se para eles um ásatrúar. Muito se critica na prática dos universalistas o fato de não se ter um rigor histórico ou científico muito grande, com a anexação de vários conceitos modernos e estranhos ao heathenismo, bem como subjetivização extremada da religião, o que em muitas vezes acaba caindo no esoterismo. Para os universalistas não se deve desconsiderar ninguém de se chamar heathen, mesmo que essa pessoa faça um sincretismo de islamismo, cristianismo, Ásatrú, e astrologia, tudo junto, e chame isso, pura e simplesmente de Ásatrú.

O terceiro grupo é conhecido como tribalista. Ele não vai olhar para a origem biológica do indivíduo, mas para o que ele efetivamente conhece e pratica da Fé nos Æsir e Vanir. Se ele entende honra, coragem, se aquilo realmente faz parte da pessoa. Não é fácil como os dois extremos – um vendo se os praticantes são brancos, o outro admitindo todo aquele que queira adicionar qualquer tempero estranho à Ásatrú. Para os tribalistas o importante é o saber, viver e praticar, e essa não é uma coisa que se percebe com uma divisão binária, mas com uma real imersão do indivíduo na cultura germânica, buscando a compreender e reproduzir em sua vida.  O tribalismo parte do princípio verificado historicamente de que sim, era possível que pessoas não nascidas dentro da tribo fossem por ela aceitas, desde que tivessem se acostumado com seus hábitos e maneira de ver o mundo.

E, o que eu penso sobre o assunto? Não que eu pense que você seja obrigado a se posicionar politicamente a favor de uma ou outra, mas isso termina acontecendo: quem não combate o que considera errado, acaba servindo de apoio a isso. Você poderá nunca se dizer universalista ou tribalista, mas, mesmo inconscientemente acabará escolhendo preferencialmente materiais de um ou outro, se estiver fugindo de fontes (absurdamente falhas em seu conteúdo, ao meu ver) racistas ou racialistas. Com exceção de alguns kindreds folkish moderados dos EUA, em geral eles produzem material de qualidade bem duvidosa. A própria ciência refuta todos os argumentos em que genética e religião teriam algo em comum, de que ela pudesse ficar armazenada em nossos genes, como aquilo que determina a cor de nossos olhos, pele e cabelos.

Embora eu acredite sinceramente que os universalistas são bem intencionados quanto ao seu objetivo, são pouco rigorosos com os meios que utilizam, isto é, o que eles próprios definem por heathenismo. Já os folkish não se preocupam muito mais que com um conjunto de hipocrisias que chamam de “religião dos ancestrais” – para eles basta você ser branco, falar qualquer jargão fanático pela “raça ariana” e apresentar os vikings, os piratas dos povos escandinavos como uma espécie de paladinos da SS (tropa de assalto nazista), e está tudo bem (sem contar o quase monoteísmo e distorção fanática da figura de Óðinn – muito influenciada pelo Wotan alemão, que é, sem dúvida, uma divindade mais sanguinária que aquela dos nórdicos). Em ambos os casos procura-se ver o que não existia de fato nos povos germânicos e nórdicos, e, enquanto uns veem magia e uma paixão meio hippie pela natureza, os outros só conseguem enxergar machados, elmos de chifres e guerras, se achando o povo superior. A estes eu digo: pra quem quer fazer parte de um povo escolhido por um deus, o judaísmo e o cristianismo estão aí pra isso. Os tribalistas, todavia, buscam aquilo que realmente interessa a qualquer um que se defina heathen: a ação. É a sua experiência e seu conhecimento, é a sua dedicação para compreender e aplicar ao paganismo nórdico na sua vida pessoal. Para os tribalistas o que é efetivamente relevante é a sua atitude e essência. E, sem elas, não adiantam boas intenções ou olhos claros e pouca melanina – você não estará fazendo o heathenismo como ele exige ser feito.

CONCLUSÃO

Eu havia pensado esse artigo com os argumentos mais elementares para o paganismo nórdico, de forma que reunisse, em no máximo oito ou dez páginas todos os assuntos básicos para você compreender o paganismo germânico-escandinavo na atualidade.

Tal missão se revelou impossível para mim, mesmo tendo eu evitado me aprofundar e esclarecer mais diversos temas. Mas, prezando pela qualidade do material, e não pela sua amplitude, decidi não reduzir nenhuma vírgula que julguei necessária neste texto. Me perdoem se ele ainda ficou muito longo – mas eu realmente gostaria de oferecer aos iniciantes algo que me ajudasse, algo que eu mesmo não encontrei: um pequeno “mapa” das ideias do que é o paganismo, sob diversos pontos diferentes, dos quais é impossível fugir ao se falar de uma prática séria – e não uma brincadeira de RPG – do paganismo germânico.

Tentei aqui fundir o conhecimento objetivo que temos sobre o assunto, mas sem, o que é característica de uma religião viva, me escapar de preencher lacunas com meu conhecimento experimental pessoal. Todavia, tive o cuidado de sempre que o fiz, sinalizar que se tratava de opinião minha, do que qualquer pagão pode diferir sem nenhum problema para mim, para ele, ou o paganismo. Essa é a nossa religião, e, como diz o Allsherjargoði da Ásatrúarfélag islandesa: o monoteísmo é uma verdade para as massas, mas o paganismo é muitas verdades para o indivíduo.

No início deste artigo me propus a responder três perguntas, que seriam: “O que é a Ásatrú?”, “Por que eu deveria me aproximar de uma religião “morta”?”, “O que o paganismo tem a oferecer?”. Chegou a hora então, agora que estamos mais familiarizados com o assunto, de respondê-las: A Ásatrú é um conjunto de ideias, valores e rituais. Ela nos ensina a encarar o mundo, vê-lo de uma nova forma, com coragem, determinação e sabedoria. A Ásatrú é a religião dos germanos, em especial da Islândia, e não, pura e simplesmente, dos víkingr, ou seja, os piratas e assaltantes do Norte. Aliás, a produção literária da obra literária que nos chegou dependeu, na verdade, de grupos sociais e pessoas que pouco ou nada tiveram com esses desbravadores guerreiros que assustaram a Europa continental. A Ásatrú não é assim produto, pura e simplesmente, de uma cultura de guerreiros, mas, antes de tudo, de um povo sábio, e até harmônico para os padrões da época. Não queremos, consideramos possível ou norteamos nossa prática no sentido de trazer o passado integralmente para o presente. Mas, antes, de termos acesso a um passado do qual somos negados, muitas vezes, o conhecimento, desconhecendo assim a importância dele e de ideias que possam ser úteis, adormecidas nele, para a nossa sociedade e vida pessoal.

Nesse sentido a Ásatrú não é uma religião morta. Ela faz-se nascer num corpo novo, mas com um espírito antigo, com o espírito dos nossos ancestrais, o qual nos sentimos imenso prazer em honrar. Muitos valores importantes podem ser trazidos da Ásatrú para o nosso presente, e é por isso que nos interessa colaborar no renascimento da Ásatrú na atualidade.

Nesse sentido, a Ásatrú tem a nos oferecer uma forma interessante de encarar essa aventura que é a vida. Responder essa terceira pergunta exigiria que eu moldasse a Ásatrú a alguma coisa que ela não é. Eu convido você, que lê esse texto, a se dedicar ao estudo e vivência do paganismo nórdico. No Anexo II (link) apresento uma lista de boas fontes para você aprender mais, nesse início. E, assim, que você mesmo encontre a resposta a essa pergunta, dada pelos seus atos, pela sua conexão com o mundo, com os deuses, vættir, e, por quê não, os seus ancestrais. Deixe que a Ásatrú te mostre tudo o que pode ser conquistado quando você ergue a lança de Óðinn com coragem e atravessa os mares tempestuosos, desafiando o mar e os seus perigos, em busca da terra que há do outro lado.


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One thought on “Primeiros passos na Ásatrú: Introdução ou Iniciação ao Paganismo Germânico e Nórdico

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