Sobre Guerreiros, Morte e Valhalla: Vícios e Dogmas

 

Sonne Heljarskinn

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Introdução

Eu já havia abordado esse tema num texto chamado “Ah..o Mas e o Valhalla: Equívocos Sobre o Pós-Vida Heathen e o Quase Monoteísmo Odinista”. Senti, ainda assim, a necessidade de escrever um complemento àquele texto, pois os conceitos ali são expostos de maneira clara, mas ainda assim ele é um texto mais generalista.

Quero, nessa oportunidade, discutir alguns aspectos de maneira separada, e apresentar os motivos através dos quais eu, em especial, tenho uma certa suspeição com tudo o que se refere a Valhalla e guerreiros nos dias atuais. Fornecerei um pouco de minha opinião e conhecimento pessoais, e os motivos pelos quais reconheço certas posturas como equivocadas em comparação com nossas fontes, embora, cada um seja guia de sua própria prática e crenças pessoais, é importante, todavia, perceber o que tem e o que não tem a ver com o que foi admitido pelos antigos escandinavos sempre que possível, para que não tomemos noções parciais e generalistas como verdades absolutas.

Talvez  esse cuidado se deva ao fato de eu ter me aproximado de maneira bem progressiva e cuidadosa do paganismo nórdico, e não necessariamente pela cultura pop, mainstream. Durante muito pouco tempo fui um entusiasta da faceta “religião de guerreiros” da Ásatrú, tão próxima daquilo que Wagner, o cinema e a literatura, além do folk metal adoram, me aproximando mais do seu lado mágico, xamânico e místico. Por isso é bom esclarecer que nem tudo é como a maioria diz. Só por ser admitido por uma maioria não significa que, historicamente, é uma verdade.

Blót da Ásatrúarfelagið

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Sobre a vida dos antigos nórdicos

Esse é um ponto delicado pois envolve uma completa inversão da noção tradicional, que está à nossa volta.

Na verdade, para um heathen, para onde vamos após nossa morte não é muito importante. Ao contrário das religiões reveladas, não possuímos nenhuma noção de castigo pós-vida firmemente descrita. Temos raramente aparecendo menções ao Nastronð, ou seja, o local onde a serpente Niðhoggr mastiga, principalmente, aqueles que quebram palavra, cometem traição e atos similares. Quem age assim está, de forma absoluta, movido pelo seu egoísmo, isso é, por colocar sua consciência individual acima do grupo no qual está inserido. É claro perceber se, para a sociedade pós-Maquiavel, o que interessa é o poder, para os nórdicos ele não está estritamente ligado com a noção de honra.

Coloquemos isso em um exemplo prático. Se o seu povo estiver perdendo uma guerra, e você agir como informante do povo inimigo, e levantar armas contra os seus concidadãos, submetendo-os e ganhando uma posição de destaque ou comando no seu povo, dada pelo invasor, isso pode ser considerado, segundo um ponto de vista estritamente meritocrático, como uma glória, um valor, pois você venceu e se tornou líder; mas, do ponto de vista heathen, isso seria um ato deplorável por envolver a traição do seu coletivo em prol do seu bem enquanto ser social particular, ou seja, de você mesmo enquanto indivíduo em oposição ao coletivo. Ou seja, você prejudicou todas as pessoas à sua volta para conseguir se ascender socialmente. E isso para o heathen não leva a glória, pois envolveu traição, quebra de palavra, etc.

Percebemos, assim, que para os nórdicos o indivíduo nunca é colocado antes do coletivo, e, aliás, tal postura é fortemente recriminada, embora em nossa sociedade a palavra tenha pouco valor e a traição tenha caído em senso comum, para nós, que buscamos nos livrar da hipocrisia que enxergamos nas religiões que deixamos, tais atitudes são péssimas do ponto de vista pessoal mesmo, de nós com nossa própria consciência. Aliás, ser excluído do clã/tribo era uma punição tão grande quanto a morte, enquanto nossa sociedade valoriza uma noção de “independência” descolada da realidade.

Assim, nos damos conta da luta que enquanto heathens precisamos fazer contra esse ego contemporâneo, essa noção de suposta independência total do coletivo ao qual pertencemos (pensamos isso em geral porque trabalhamos, mas o nosso trabalho é usado como moeda de troca por mercadorias e serviços produzidos por outros, sem contar, é óbvio, que na parte inicial de nossas vidas somos completamente dependentes dos humanos que nos geraram ou que nos acolheram). O segundo ponto é, então, abrir os olhos para a realidade à sua volta.

É muito fácil resumir as coisas a “pessoas boas vão para o céu e as más vão para o Valhalla”, mais ou menos como diz um meme muito amado pelo pessoal na internet. Reduzir tudo ao local onde vamos depois de morrer facilita muito as coisas, mas desfigura a religião enquanto tal. Eu, morando no sítio, e tendo uma proximidade maior da natureza, sinto, em muitos momentos, que a maior contribuição que a Ásatrú me trouxe foi poder voltar a enxergar a vida na terra, no solo, nas árvores, nas plantas, nas pedras, na água, nas estrelas, na Sól e em Mani, no ar. O animismo da Ásatrú é importante nesse aspecto, saber respeitar todos os seres à nossa volta e nos colocar numa postura mais humilde perante o mundo, nos tirando do centro do sistema solar de nossa imaginação.

Outro ponto importante nessa visão de mundo (Weltanschauung) heathen relaciona-se às ofertas e sacrifícios. É necessário estipular uma rotina pessoal de contato com os deuses, seja pela meditação, seja pela “conversa” (particularmente, prefiro esta palavra ao termo “oração”) com eles, de preferência em voz alta. Bom também é, sempre que possível, fazer uma oferta, doar algo que é importante para nós, seja alimentos, bebidas, ou mesmo algo de valor, para estreitar laços com essas energias que nos rodeiam e com as quais dividimos nossa existência nesse universo. Isso, por si, é uma forma de sacrifício. Mas dar a vida de animais, desde que feito com muita consciência, de maneira a não causar sofrimento ao animal sacrificado, etc., também é algo que pode ser levado em consideração.

Recentemente li um texto da Aliança Ásatrú de Londrina no qual é dito que o sacrifício animal em nossa sociedade perde o sentido quando não produzimos o animal que está sendo sacrificado. Em particular eu não veria isso de maneira tão radical, nossa sociedade possui um nível de desenvolvimento maior da técnica no trabalho: enquanto uma família de escandinavos antigos produzia desde as suas vestimentas, passando pelos seus alimentos vegetais e animais, até ir para a guerra, tendo os seus membros envolvidos nessas várias atividades, embora algumas fossem mais estritamente masculinas (a guerra) e outras mais especificamente femininas (a tecelagem), outras eram mais abertas e envolviam os dois sexos; hoje nossa sociedade faz com que trabalhemos mais em uma única atividade como fonte de renda, nos tornemos especialistas em algo, e compremos os produtos, fruto de trabalho alheio, de todos os outros que também se especializaram em determinada função. Ora, mas se eu produzi o equivalente para a compra de um animal vivo, e decido o sacrificar em um blót e ofertar sua vida e seu sangue aos deuses, além de preparar uma refeição para minha família ou kindred, isso, não me parece, do ponto de vista lógico, divergir muito da prática dos antigos germânicos, uma vez que estaremos oferecendo aos deuses o fruto de nosso trabalho, e, com isso, invocando prosperidade.

Outro aspecto de importância cabal de se perceber é a retitude de nossos atos. Buscar compreender através de estudos o que significa “honra”, “virtude”, “coragem”, “respeito”, “lealdade”, entre outros valores, seja através da leitura das Eddas e Sagas, seja através de estudos acadêmicos, buscando deixar os textos fornecerem para nós informações, e não buscando imputar nossas noções sobre as fontes, é muito importante para se ter uma postura heathen, um modo de portar-se e reagir de acordo com uma lógica heathen. Isso também influenciará nossa visão de mundo (Weltanschauung) de forma significante, e nos fará agir pensando não somente em nossa glória e virtudes pessoais, mas no significado disso para nosso clã/tribo/família e na repercussão desse ato em uma sociedade não-heathen. Isso nos diferenciará, dará a nossa marca, seja quando começarmos a pensar “em x situação eu deveria agir de qual forma?”, seja quando tomamos uma decisão que muitas vezes parece inesperada para a maioria daqueles que não levam em conta os mesmos fatores que consideramos.

Por fim, mas, de forma alguma menos importante, e o que buscamos salientar apresentando todos os pontos anteriores, é o fato de que a sua vida é muito mais importante que a sua morte. Ou seja, a maneira como você age com sua vida pessoal, com o coletivo ao seu redor, com os seres da Natureza… é isso que importa. É essa sensação de conexão com o mundo, é sentir-se um pouco parte de tudo e sentir tudo um pouco parte de nós. O local para onde você vai depois da sua morte é totalmente dependente da forma como você vive a sua vida, é, aliás, uma continuação disso, como mostrarei adiante. Então pense o seguinte, se você gosta da sua vida, vai gostar de sua morte, pois não haverá nenhuma ruptura, mas uma continuação.

É importante amar o mundo da forma como é, mesmo quando a realidade não parece nos atrair. Se gostamos de culturas antigas, de lutas de espadas, que não seja por uma rejeição da realidade tal qual é, mas por gostar das coisas tal qual foram sem descartar como são hoje, por saber que nossos antepassados usavam isso, para fortalecer os laços entre nós e eles através da continuidade de seus atos, ou reavivamento de alguns. Ou seja, não devemos usar o passado como ferramenta de negação do presente; passado e presente estão sempre influenciando um ao outro (uma vez que a compreensão do passado se faz a partir da consciência que temos no presente, e os nossos atos decorrem da consciência que temos do passado e da forma como aceitamos nossas memórias). Por tudo isso, nos preocuparmos com um futuro hipotético em um local distante daqui, em vez de promover o bem-estar pessoal, do clã, em busca da friðr (paz) é para mim uma noção tão absurda.

Então, de forma resumida, o respeito aos humanos e aos seres dos reinos animal, vegetal, mineral, etc., isto é, a Jorð, a Terra em si, e com tudo o que está dentro dela e sendo parte integrante desta, a nossa conexão com os deuses, e nossos valores, além da aceitação de nossa vida (mesmo quando ela pareça absurda) é uma postura ainda mais importante do que o desejo de ir para um lugar específico ao morrer. Em uma palavra: a sua vida aqui é muito mais importante que qualquer ideia de lugar que você possa ir depois da morte.

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Desmistificando o Valhalla e o Helheimr

Fiz questão de dissertar de maneira longa sobre as concepções de vida dos germânicos pagãos de maneira geral para que possamos perceber a importância de se aceitar estar aqui, exatamente onde estamos.

Diferentemente de religiões de massa, que precisam de um corpus de práticas, crenças, uma teleologia e noções bem claras e admitidas por todos os seus crentes (e, fazendo o possível para que o número dos que não creiam sempre se reduza através de uma prática conversão epidêmica), os germanos não tiveram uma noção muito clara de para onde se iria depois da vida.

Tomemos por exemplo um animal mais próximo da racionalidade, com um macaco. Ele possui qualquer noção de divindade? De deus único ou deuses múltiplos? De ir para algum lugar depois dessa vida? Mas com certeza ele terá a mesma repulsa para a dor, e a mesma capacidade de fugir do sofrimento que um humano.

De forma similar eram os povos pagãos. Sua religião era um culto da Terra, da Natureza, da vida. Era a sua forma de compreender e explicar a realidade, e não necessariamente o que não é real (pelo menos para os vivos), como um pós-morte.

Tendo isso em vista é necessário observar outro ponto. Nunca houve uma centralização das crenças da religião dos nórdicos e germanos quando ela era viva. Isso faz com que as noções de pós-vida, por exemplo, sejam muito mais baseadas na experiência imediata de cada povo ou classe em particular dentro de cada povo do que com uma noção aceita de forma genérica e homogênea por todos. Se temos muitos “locais” para ir depois da morte, isso é porque cada grupo praticante da religião via isso de uma forma diferente. Quando fazemos uma coleção ou lista dos locais de destino pós-vida estamos sempre misturando conceitos de povos separados geográfica e/ou temporalmente. Cabe a cada um ver o que mais se encaixa em sua própria forma de viver e ao povo germânico (quanto tal relação ainda é possível de encontrar) que se identifica mais.

É muito importante trabalhar no sentido de desmistificar o Valhalla. Existem dois motivos principais para encher o assunto de sectarismo quando falamos disso: (1) a influência que a cultura mainstream exerce sobre a quase totalidade das pessoas que acabam se interessando por paganismo nórdico; (2) a simplificação dos destinos de pós-vida entre “Valhalla versus Hel” em muito dependente justamente da cultura mainstream e em certa dose também das noções correntes na nossa sociedade monoteísta no que se refere ao assunto de vida após a morte.

O que eu quero dizer é: o Vikings do History Channel é uma série baseada em povos do norte, mas também não possui nenhuma intenção de ser fiel aos povos escandinavos, e usa os signos (ideias) e conceitos dos povos do norte que possuímos em nossa cultura, trabalhando muito mais no campo de aprofundar mistificações do que pura e simplesmente apresentar uma versão fiel da realidade dos escandinavos pré-cristãos. Não que tudo lá seja mentira; mas o romance e a realidade se entrelaçam de tal forma que aquele que não possui olhar acuradíssimo não saberá separar o romance histórico da recriação histórica. Digo isso de maneira geral sobre esse seriado pois ele é, ainda assim, o exemplo mais popular e menos distante da realidade que já conhecemos, através da ciência, sobre os escandinavos, e se nele ainda podemos encontrar vários conceitos que servem apenas para atrair a atenção de um determinado público se utilizando de noções admitidas por eles de maneira geral (mesmo sem comprovação científica, e em alguns casos indo contra ela), imagine-se em outras fontes, romanceadas ou não, sobre o assunto.

Então, baseando nossa análise nessas fontes que abarcam quase a totalidade dos textos, filmes, séries etc., que primeiro forma a opinião dos que se aproximam da recriação pagã nórdica, podemos ver nitidamente que elas se usam dos conceitos de Valhalla e Hel de forma a explicar o além da vida através dessa (falsa) dicotomia. Muitos podem dizer que isso se deve ao fato de tais produções precisarem de sintetizar as noções, justamente pela forma a qual usam para apresentar, e servem como porta de entrada para a cultura mais ampla. Okay. Mas, o que eu não posso concordar é que alguém, uma vez se aproximando do paganismo nórdico, mesmo depois de dois, três, quatro, cinco anos, não consiga perder a noção de Amon Amarth, Ensiferium, History Channel, e se aprofundar mais no estudo das fontes, aceitando repetir de bom grado noções que são frutos de uma cultura que é um produto comercial e não uma prática e estudo religioso, enquanto se denominam pagãos e querem submeter aqueles que se dedicam a conhecer mais os nórdicos pelo que eles foram, e não pelo que queremos ver neles.

Essa simplificação do Valhalla como o principal destino e uma espécie paraíso superior nórdico é falsa por alguns motivos. Ao passo que a grande e maior parte da sociedade masculina se envolvia em algum momento com a guerra, essa não era um fim em si mesma. Não se guerreava simplesmente para se morrer em guerra e ir para o salão de Óðinn, carregado pelas Valkyrjor. Se se guerreava era porque se precisava de ouro, prata, escravos, para se manter as tribos e clãs, para se sustentar a população e não pura e simplesmente por uma glória pessoal descolada de um valor social. Logo, a guerra não era fruto de uma decisão egoísta de cada um que queria morrer em batalha, mas a consequência de uma necessidade social pela qual alguns perdiam a vida, e por isso era tão honrado se ir para Valhalla: pois sua abnegação, e não a sua vontade e desejo individualista, te levam para lá, não simplesmente para beber e se divertir, mas para trabalhar, duramente, na missão de resistir a uma batalha a qual, todos sabemos, será perdida, mas deve ser perdida com a mesma glória, por exemplo, da batalha de Canudos, onde os sertanejos lutaram até o último segundo, até o último humano perder sua vida contra o governo. Longe de discutir os aspectos políticos da questão e legitimidade de nenhum dos dois lados, da guerra de Canudos, quero apenas mostrar que é justamente esse sentimento de luta (luta em sentido literal) que não declina perante o absurdo que é necessário se manter para ir ao Valhalla. Nossos sertanejos foram para lá? Minha opinião pessoal é que não, pois possuíam outro deus. Ainda assim, não perdem o valor e a honradez por darem as suas vidas de forma tão heróica.

Outro ponto que jamais podemos esquecer é que, dos mortos em batalha, metade vai para o Fólkvangr de Freyja e não temos nenhuma ideia de como esses são escolhidos, se há alguma aleatoriedade, ou qualquer coisa do tipo. Simplesmente não temos nenhuma garantia de que o morto em batalha servirá para Óðinn até o dia do Ragnarök. Temos de ressaltar também que, mesmo que você fosse um guerreiro e morresse fora de batalha (por doença, por afogamento, etc.) muito provavelmente não iria para o Valhalla. Valhalla não é pura e simplesmente o paraíso dos que vivem guerreando, mas dos que morrem em batalha. Ser guerreiro, pelo simples fato de ser guerreiro, não lhe é garantia de ir ao Valhalla ou Fólkvangr.

Outro ponto que reforça a ideia errada de Valhalla como destino mais honrado e desejável de todos está por um lado impregnada com a noção do guerreiro como o principal componente da sociedade germânica e por outro da sua oposição ao Helheimr, sendo este último considerado um local de desonra para se estar. Vou citar um exemplo bem claro e prático de como essa noção se forma. Por exemplo, no seriado Vikings, quando a personagem Siggy morre, Harbarð diz que ela foi para o Valhalla e estaria junto de sua filha e esposo. Ora, mas Earl Haraldsson foi o único que morreu em batalha (contra Ragnar), ao passo que Thyri morreu de doença e a própria Siggy por afogamento/hipotermia.  Ali a figura de Harbarð, enquanto Óðinn vagante, está ligeiramente deslocada de função ao envolver alguém numa morte por afogamento (função de Aegir/Rán) e proteção materna dos filhos de Ragnar (papel de Frigg). Todos esses desentendimentos formam, de maneira inconsciente, o pré-conceito, o conceito pré-estabelecido, de que ou o Valhalla é o melhor destino a se ir, ou que é o único honrado. Numa leitura mais fiel dos eventos, Siggy teria se envolvido com uma divindade como Skaði ou Ullr, talvez ainda Njorðr, Aegir ou Rán, e ficaria expressamente claro que o local de Thyri seria possivelmente Helheimr, pela morte por doença, ou ainda como serva de Gefjon, por ter morrido virgem.

Aliás, falando do Helheimr em si, muitas pessoas têm a dificuldade de aceitá-lo como um local natural, mesmo quando já vêm com uma ideia de relacioná-lo ao Hades grego (ou seja, como um local para os mortos, mas sem punição) justamente por identificar o Valhalla como o local para o qual por honra se deve ir. Se, em algum momento a morte na guerra fosse mais importante que viver para comemorar e usufruir da vitória, os germânicos nunca teriam sido tão vitoriosos quanto foram, porque, segundo essa dicotomia ilógica entre dois destinos pós-vida, vale mais a pena deixar-se morrer em batalha do que viver e morrer de doença; embora alguém possa usar o Hávámál para negar essas palavras, se você observar a forma como os nórdicos lutavam vai perceber justamente que esses versos são para encorajar, não evitar a batalha, não se deixar submeter simplesmente para manter a paz; não para fazer-se uma batalha contra quaisquer coisas e buscar uma morte numa batalha tola pra chegar em Valhalla. A morte por velhice não era incomum; do contrário os povos nortenhos teriam se extinguido por uma filosofia de vida que valoriza mais morrer em guerra do que viver com glória.  Ainda pesa o fato de que falamos de uma mitologia em uma época pré-científica, onde não tínhamos antibióticos, vacinas, nada muito elaborado no campo da medicina, e quando pragas e doenças vinham, elas assolavam e limpavam povos inteiros ou quase inteiros. Logo, o Helheimr, além de não ser um destino ruim, pode ser até mais comum do que imaginemos e queiramos aceitar.

Mas essa resistência ao Helheimr se deve, também, ao fato de que Hel é uma filha de Loki com Angrboða, ambos os gigantes mais marginalizados na mitologia nórdica; um por desempenhar papéis dúbios fazendo o “mal” pelo “bem” do clã e trazendo complicações que na maioria das vezes terminam sendo úteis aos Aesir (embora em um caso em específico, esteja envolvido com a morte de Balder, filho de Óðinn, o que lhe rende expulsão de Ásgarðr e punição interminável até o Ragnarök; a outra por ser mãe de criaturas bestiais como Jormunganðr e o lobo Fenrir, estes, aliás, assassinos de Thor e Óðinn, respectivamente, na batalha final. Nesse julgamento não pesa o fato de que (1) Jormunganðr era responsável pelo equilíbrio dos mares, ao morder sua cauda e contê-los com seu corpo; (2) Fenrir  ser poupado da morte, pois a morte, apesar de não ser algo desejável, não era negado, como discutirei adiante; (3) a Hel é dado um reinado absoluto e soberano em Helheimr, o qual até mesmo Frigg reconhece quando precisa se conformar com as condições e acordos de Hel para liberar Balder, ao ponto de não coagi-la a devolvê-lo a Ásgarðr quando tais condições não são satisfeitas. Hel é, então, uma divindade com respeito, autonomia e decisões próprias. Apenas por enxergarmos o paganismo nórdico querendo encontrar “bem” e “mal” é que relevamos o papel de Hel. Quando deixamos de ver uns como heróis e outros como vilões e percebemos que todos os deuses e seres na mitologia nórdica fazem, cada um a seu modo, um papel, têm uma função e todos são interdependentes, ou seja, cada um é o que é porque cada um dos outros são exatamente como são, logo, nenhum deles pode ser suprimido porque outros são mais heróicos ou corretos, uma vez que o trickster, os Jötun e todas as outras personagens mitológicas são essenciais e colaboram, direta ou indiretamente, para a criação de tais figuras ideias e honradas.

Morte de Balder

Morte de Balder

Os outros destinos pós-vida

Como falamos no item anterior eram muito variados, de acordo com povo, região e momento histórico, os destinos que os germanos poderiam acreditar para onde iriam. Além dos já mencionados Valhalla e Fólkvangr para os mortos em batalha, para os apanhados por pestes e pela idade, o Hel, o Nastronð, espaço em Helheimr, para aqueles que agiam por egoísmo em prejuízo coletivo (isso não faz de Hel um lugar ruim; perceba a relação na cosmografia nórdica entre Helheimr e a serpente Niðhoggr, que mastigava as raízes de Yggdrasil, sob as quais o reino de Hel se encontrava). Além disso, Hilda Ellis Davidson ainda aponta que muito provavelmente haviam humanos que tornavam-se elfos (lembre que os elfos, para além de habitantes de Álfheim são, também, vaettir, espíritos da terra ligados a Freyr – deus da fertilidade – e ao cultivo e trabalho no campo). Havia, paralelamente ao Hel, a noção da ida de ancestrais para o Helgafjel, montanhas nas quais os mais importantes e honrados, que haviam trazido benefícios políticos e sociais aos clãs iriam. As moças que morreram virgens iriam para junto de Gefjon (sendo que esta poderia ser bem uma faceta de Freyja). Os que morriam no mar, eram pegos por Rán em sua rede, e levados para o seu palácio, no qual reinava junto de Aegir, seu esposo. Todavia, como em qualquer sociedade, o número de trabalhadores é muito maior que o de políticos, guerreiros, etc, e, para esses (na época pagã nórdica reconhecidos entre os camponeses pobres – karls pobres –  e os escravos – thralls), o destino não era nada desonrado: servir ao deus da chuva, trovão e, por tudo isso, também um deus da fertilidade: Thor, em seu palácio em Ásgarðr, o Bílskirnir.

Esses foram os destinos os quais nós não perdemos o conhecimento. Muitos deles possuem apenas ligeiras menções nas fontes, e não podemos inferir muito sobre qual a maneira que vamos para lá. Na verdade, como eu tentei frisar a todo o momento, isso é de importância tão pequena perante a forma como decidimos viver, que eu vejo como sintoma do profundo niilismo pós-moderno essa vontade de passar para a outra vida e saber o que há ali, que deve ser essencialmente melhor do que aqui.

Mas Bílskirnir merece uma atenção especial de nós. Sabemos que nossas fontes foram baseadas em registros escritos. Tais registros dependem da técnica da escrita, que, como sabemos, era privilégio de poucos na época (cerca de 1.000 e 1.200 da era comum). Houve um hiato entre a produção cultural oral dos povos do norte, portanto, a religião viva, e o que nos foi dado, isto é, uma visão final “acabada”, feita por indivíduos de maior influência social, já cristianizados e um bom tempo após o início do processo de cristianização da região. De tudo isso que ponderei, é possível perceber que, por trás do historiador Snorri Sturluson há o nobre islandês Snorri Sturluson, autor da Edda em prosa; e entre os próprios cantos que foram preservados nas Eddas poéticas, o são justamente os que mais interessam à história da nobreza. Praticamente tudo o que se refere à magia, aos trabalhadores do campo foi perdido, ou só permaneceu enquanto frutos de sincretismo com o cristianismo.

Logo, uma maior frequência dos mitos e temas relacionados à nobreza não depende deles serem mais importantes que os mitos dos Vanires e divindades ligadas ao trabalho do campo e da fertilidade; apenas que as fontes possuem um recorte que visa preservar aquilo que interessa diretamente aos seus autores.

Podemos fazer um contraponto com isso e perceber o sincretismo das religiões dos descendentes de escravos, as quais são, muitas vezes, próximas do cristianismo mas, jamais, exatamente como esta. Mesmo quando uma variedade religiosa é praticada de maneira não oficial (como as curandeiras que são, oficialmente, católicas), ela possui sua própria identidade, e divergência quanto ao culto das pessoas de outras classes sociais. É nesse sentido que o cristianismo (católico) das classes mais abastadas financeiramente e com pele mais clara no Brasil é diferente daquele de muitos dos descendentes de escravos que não negam suas origens, nem o cristianismo, por si só.

Com tudo isso queremos mostrar que talvez a função de vários elementos que perdemos ou chegaram parcialmente para nós pode ser mais relevante do que consideramos, justamente por falta de acesso a tais informações, que não passaram no crivo da história escrita. Entre eles está o papel de Bílskirnir o qual é, justamente por se identificar com o grosso da população nórdica (trabalhadores escravizados ou não), muito maior do que podemos mensurar através das fontes. Sendo que a nossa sociedade (e mesmo as tribos nórdicas) é baseada no trabalho, e não na guerra (os nórdicos deixaram de invadir outros povos e, ainda assim, não faliram nem morreram de fome, justamente pois nunca deixaram de trabalhar), então, é de se supor que ou os thralls teriam direito ao Valhalla por enfrentarem uma vida difícil, dura, sob o pesar do trabalho, lutando pela própria sobrevivência numa terra alheia, ou que os trabalhadores de hoje não têm porque se preocupar com o Valhalla. Se hoje, uns e outros querem ir por Valhalla por considerar a vida uma luta, peço para comparar sua vida com a de um thrall ou um karl sem grandes faixas de terra ou mesmo, desprovidos de terras. É a mesma condição, em outra sociedade. Mas, isso não é um problema quando não temos um fetiche pelo Valhalla, e temos orgulho daquilo que somos, assim como eu, que não me considero um guerreiro senão poeticamente, por “romancear” um pouco a vida, mas tenho plena certeza de que não irei para o Valhalla se continuar levando a vida que levo, isto é, trabalhando, estudando, etc e nem tenho pretensão de mudar meu modo de vida só pra chegar no Valhalla, como se isso fosse melhor que qualquer outro destino que eu possa ter, em decorrência de uma vida de trabalho, honra e justiça.

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O Papel da Morte

Já que debatemos o papel da vida, precisamos dar umas palavrinhas sobre a morte. Pense da seguinte maneira. Vocês está em São Paulo, em sua casa, e gostaria de ir para a casa de um parente no nordeste, o qual você nunca visitou. Imagine que, todo o caminho, desde você se arrumar, dentro de casa, até comprar passagens e embarcar no ônibus ou avião, e enfim chegar até a porta do seu parente é como o processo que vai da sua geração dentro do útero de sua mãe até o momento exato antes da sua morte. A morte é apenas como a porta da frente da casa desse parente. Assim que você a passa, ali você estará num ambiente desconhecido, dependendo da ajuda desse parente e dos que ali moram. E esse é o além da morte. Logo, a morte é apenas uma passagem, uma porteira numa estrada, a qual em algum momento iremos passar, pegar um barco, e continuar nosso caminho. É apenas uma nova forma de nossa existência se locomover através do tempo/espaço.

A morte era completamente aceita em sua presença na vida, não necessariamente temida, mas não desejada. Imagine da seguinte forma: todos sabemos que vamos nos machucar, cair, possivelmente quebrar um osso. Mas não é por isso que saímos de casa com a ideia de nos ferir. Da mesma forma como aceitamos que podemos nos machucar a qualquer momento, devemos aceitar que a morte é uma parte da vida. Isso, todavia, não deve ser motivo de nos fazer desejar, mas nem, tampouco, evitar vergonhosamente a morte, fugir de maneira covarde, ou preferir a submissão à morte.

É preciso entender uma coisa. Os povos germânicos eram pessoas bem simples em suas explicações da realidade, e tendiam a não criar toda a metafísica das coisas como fazemos, e tal postura era como um “abrir os olhos” e enxergar, como os olhos, e não somente com a razão, a natureza. Thor, por exemplo, antes de ser uma entidade que governa e produz trovões, a qual chamaríamos de deus do trovão, é um deus-trovão, isso é, é a vida, a consciência que se manifesta através do trovão, assim, como eu seria o “deus” de mim mesmo, por ser a minha consciência. Fiz essa comparação só pra entendermos esse ponto do animismo nórdico: nossos deuses não são meros regentes transcendentes de atributos e seres em específicos, eles são a consciência que se manifesta através desses seres e eventos. Jorð não é simplesmente deusa da terra, ela é a Terra, enquanto solo, enquanto planeta, enquanto matéria, e se manifesta através de uma consciência. Disso tudo queremos tirar o fato de que compreender ir para o Valhalla apenas por considerar que a vida é uma guerra, pode ser uma ideia um tanto absurda, e o quanto isso se prende, como já dissemos, à recusa de se aceitar sua condição social, à propaganda que é feita em torno do Valhalla, e, como isso, querermos achar uma saída, para irmos ao Valhalla, usando metáforas que envolvam a batalha.

Mas, com isso, precisamos perceber que a vida além daqui é, assim como nossa vida aqui, consequência de nossos atos. Qual a serventia de um “guerreiro” de Call Center, que atura esporros de pessoas frustradas com serviços prestados via telefone, numa batalha física contra gigantes de gelo? Não quero menosprezar o trabalho em oposição à atividade guerreira, apenas demonstrar que elas são esferas diferentes. Iria para o Valhalla o morto em batalha pois essa era a continuação natural de sua vida, assim como o Bílskirnir é a dos thralls e karls pobres. Não há uma ruptura com a morte, onde você será ascendido a um posto de guerreiro. Ou se morre guerreando ou não se morre. Mesmo os guerreiros não morrem na guerra de forma geral, se forem apanhados por infortúnios. É preciso perceber que as Valkyrjor selecionam os mortos nos campos de batalha, e, quais outras coisas pesam (virtude, glória, etc), isso são coisas secundárias. Os thralls e karls que não morrerem em batalha são sim candidatos sinceros a qualquer outro local como Bílskirnir, por exemplo, pois, de sua vida de trabalho, ganham um além vida que é continuação disso. Logo, todo esse desejo para ir ao Valhalla se prova, mais uma vez, infundado em uma sociedade (como a nossa) que separa o guerreiro do cidadão comum, e, a grande maioria dos últimos, nunca será guerreiro exceto em períodos específicos.

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Eu sou um Guerreiro?

Esse é o aspecto mais importante aqui. Nossa sociedade romantiza muito a função do guerreiro. Como eu já salientei em outro artigo:

“A imagem dos Berserkers e Ulfhednars, como mercenários de elite extremamente poderosos e violentos, guerreiros de Odin em busca de vitória, sangue e glória impressiona a muitos (senão a maioria) dos que se envolvem com o heathenism” (Em “Ah… mas e o Valhalla”: Equívocos Sobre o Pós-vida Heathen e o “Quase Monoteísmo” Odinista).

Precisamos entender aqui dois pontos: (1) porque se era guerreiro e (2) quem eram os guerreiros nas antigas tribos do norte da Europa.

A guerra nunca foi uma diversão. A violência era um meio para um fim, como já salientamos. Os guerreiros surgiam da necessidade de se (1) defender a tribo/região contra invasões e (2) atacar as tribos/povos alheios. A guerra era parte da dinâmica social, assim como o trabalho no campo, e assim como o comércio com os povos estrangeiros. Do ponto de vista econômico, os três possuem igual valor, pois a guerra não aconteceria sem uma firmeza econômica que sustentasse os agricultores tornarem-se guerreiros em determinadas épocas em virtude da acumulação dos bens de seu próprio trabalho e/capacidade de se explorar a terra de maneira a sustentar o povo que não iria para a guerra durante a saída de parte da população, da mesma forma que o comércio escoava todos os excedentes, seja de produção, seja de saque, e ajudava a conseguir aquilo que faltava aos povos do norte. Então, o guerreiro era, em parte, agricultor, e, como o trabalho não era tão especializado, o contingente daqueles que se dedicavam exclusivamente à guerra era bem menor que hoje proporcionalmente, uma vez que, mesmo no período áureo das navegações e incursões ao exterior, os que se dedicavam ao saque durante um determinado período também e principalmente se dedicavam à sua família e ao seu povo.

Assim, entendemos que o guerreiro era, muitas vezes, o homem comum lançando-se em prol do seu grupo, e que, provavelmente, sonhava com o retorno à sua família, e, quando isso não era possível, tinha ainda a glória de ir para o Valhalla.

Resta, ainda, analisar do ponto de vista mitológico, a imagem das figuras relacionadas à morte. Como ressaltam Einar Maack e Johnni Langer, o imaginário ligado tanto a Óðinn quanto às Valkyrjor não era nada paternal e amistoso, como se reproduziu após a produção wagneriana. As Valkyrjor eram espíritos tenebrosos, assassinos, e não belas donzelas, apaixonadas, sensuais, etc. A objetificação da mulher através da arte de Wagner nos faz perder o elo com a função da morte, ao passo que originalmente o que era temível se torna, até, desejável. Podemos interpretar isso mesmo como a evolução do papel da morte na vida do humano: se antes era pelo menos temida e evitada, se torna objeto de desejo.

Toda essa transfiguração da valkyrja em uma donzela valorosa, é fruto de um período que Nietzsche considera como décadence, época eivada pelo pessimismo schopenhaueriano, que iludiu Nietzsche inicialmente, mas depois, contra o qual se tornou ferrenho inimigo, inclusive do sentimentalismo e niilismo de sua época. Citar tudo isso é importante para percebermos que nossa visão de mundo em relação ao imaginário da morte dos povos nórdicos é, inevitavelmente, muito transformado pelo filtro da arte wagneriana, e em que pontos precisamos nos rebelar contra ela, e contra o que ela significa.

Aliás, a própria Ásatrúarfélagið islandesa gosta de salientar que a imagem que muitos têm do paganismo germânico é aquela do militarismo alemão do século XIX, o qual se relaciona muito com Wagner, por um lado, e com teorias de racismo, por outro. Não queremos analisar como o racismo se usa do militarismo e do paganismo para alcançar seus fins, apenas pontuar que tal ligação existe, e que tanto quanto nos afastemos dessa relação, melhor.

Em nossa sociedade, como muitos salientam, as relações são diferentes. Ainda assim, a guerra cumpre a mesma função. Todavia, os guerreiros, em geral, ou melhor, soldados, em sua maioria pertencem a um contingente separado da sociedade; e mesmo os que prestam serviço militar o fazem por um período especifico. Particularmente eu penso que se uma pessoa prestou serviço militar no passado, e morre de forma pacífica, ou mesmo quando é soldado e morre de doença, que não vá para o Valhalla justamente por não estar no espaço onde as Valkyrjor fazem sua colheita.

Cabe, por fim, analisar bem se esse louvor gigante que alguns heathens fazem da guerra, da morte e da batalha, não se deve, em parte ou em sua totalidade, à vontade inconsciente que uma fuga da realidade através da morte nos causa. Como diz Grönbech em Culture of the Teutons, a violência não é uma mera extravagância de poder. Como eu mesmo já disse no texto supracitado,

“Vejo de maneira muito comum as pessoas fazendo uma apologia irracional da violência como se isso fosse ser heathen stricto sensu: mas a manutenção da friðr (paz, felicidade harmônica) é considerado valoroso (Sögumál); “Nunca quebre a paz que homens bons e verdadeiros fazem entre você e os outros” (Njal’s Saga, c.55); “Melhor é para o homem buscar a paz por palavras, quando isso é possível” (Heitharvega Saga, c.35); “Uma pessoa deve expor a paz (friðr) onde quer que vá. Embora muitos desejem o bem, o mal é frequentemente mais poderoso” (Atlamol en Gronlenzku 34)”. Logo, se a guerra é um meio, e não um fim, devemos sempre objetivar que desejamos, a paz, a friðr de nosso clã, kindred ou povo e não somente uma “morte gloriosa” com uma passagem pra esse ou aquele local”.

Óðinn Draugadróttinn

Óðinn e a nobreza

Temos, ainda, outro ponto a observar, antes de encerrar nossa discussão. Óðinn não é, como já citado, uma figura nada paterna, amistosa, e pacífica como Wagner tenta mostrar. Óðinn é o criador de linhagens reais, o deus de morte violenta, o furor, e um psychopomp (ser ou divindade que guia os mortos no além vida). Óðinn é em especial o que “brinca” com as mortes de nobres, selecionando uns e outros para a vitória, de acordo com a própria vontade.

Óðinn é um deus muito especificamente ligado à nobreza, às castas reais, as que primeiro se letraram, e esse é um dos motivos pelos quais temos tantos registros dele.

Dito isso, precisamos compreender o seguinte. O politeísmo germânico possuía uma estrutura de culto diversa da nossa, o que significa que, por mais que no campo mitológico os deuses interagissem entre si, determinada região praticamente só cultuava um ou outro deus, enquanto mesmo em uma única região diferentes grupos sociais cultuassem deuses diferentes, um culto não se relacionando diretamente ao outro. Não queremos admitir aqui secamente a estrutura de Dumézil (a qual faz a divisão da religião de acordo com as classes sociais de maior relevância nas sociedades antigas: Sacerdotes, Guerreiros e Trabalhadores), mas tampouco rejeitá-la por completo. É quase como se o paganismo germânico fosse feito de vários “monoteísmos”, ou como se cada deus fosse cultuado pelo seu grupo específico, enquanto não prestava tanto culto ao outro (Aproveitando a brecha, no alemão a palavra para culto é Gottesdienst, o que significa, literalmente, “serviço” ou “favor para deus”, apresentando uma relação não dogmatizada e de maior proximidade com a divindade, fruto de um culto menos hierarquizado).

Óðinn, pelo que se percebe, então, era um deus muito específico, de um grupo social, e muitos hoje se vêem como “filhos” dele, mas não possuem um papel equivalente em nossa sociedade ao dos nobres nas tribos germânicas.

Não é o fato de você ser europeu étnico que o fará um descendente de Óðinn, um nobre. Aliás, analisando historicamente, e percebendo que os europeus que vieram ao Brasil buscar abrigo foram em sua maioria pobres ou empobrecidos por guerras na Europa, a probabilidade de você ser um nobre, tendo essa origem, é nula.

Bom, isso tudo, por fim, não quer dizer essencialmente que quem não for nobre não pode cultuar Óðinn. Só acho que nós, que não somos exatamente descendentes dele, precisamos de um respeito e uma identificação com suas qualidades como o furor, a poesia, a magia, as andâncias, antes de nos proclamarmos “nobres” só por sermos europeus étnicos num país miscigenado. Ser mais claro num país de pessoas mais morenas e mesmo negras não te faz um nobre. Nível de melanina na pele e cor dos olhos não tira e nem dá nobreza a ninguém. Não te garante Valhalla. Óðinn cria guerras, e busca os que quer no campo de batalha.

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Mas, para que então eu vou ser heathen?

Suponho que se você leu as 6710 palavras até aqui é porque o texto te interessou mesmo, e você ou aprendeu, ou concordou com alguns dos pontos de vista que explicitei após minha rotina de estudo e prática dentro da Ásatrú.

Não fiz esse texto por ego ou para me provar melhor que nenhum praticante isolado ou grupo. Meu único objetivo era compartilhar uma opinião, e, talvez, ajudar a corrigir alguns erros que se instituem pela forma como a grossa maioria das pessoas se aproximam da Ásatrú e do paganismo nórdico em geral.

Não quero desanimar ninguém, pelo contrário. As religiões de massa são em sua maioria, religiões de rejeição do mundo. Por isso, para elas, toda a escatologia e teleologia, isto é, as teorias de como as coisas são no fim (da vida pessoal ou do mundo) são muito importantes. O mundo é considerado para elas um reflexo imperfeito de uma realidade superior.

Para nós, o que está fora do imediato não tem muito importância. Para onde nossa alma vai é algo que é nenhum pouco importante, perante o fato de que temos uma vida a viver com honra, coragem, lealdade, justiça, dignidade e força até o último instante. Assim, o que antes era uma meta, torna-se uma consequência.

Eu não sei e não me importo para onde vou após a minha morte. Mas eu sou heathen porque eu amo a forma corajosa, destemida e honrada de viver, aprendendo e meditando nas palavras de nossos antepassados, os cultuando e honrando, fazendo o que deve ser feito, muitas vezes, deixando a minha marca por onde passo; não faço isso simplesmente para ser alguém diferente, ajo dessa forma para ser eu mesmo.

E, se eu não merecer o Valhalla por isso, espero que Bragi, e Óðinn, deuses da arte da escrita/poesia, pelo menos possam aceitar-me em um local para os poetas e escritores, e também aceitem essas palavras como oferta de alguém que busca imitar suas virtudes em todos os sentidos, e, o quanto possível, ajudar minha comunidade a pensar e reconhecer tais valores, como todos nós deveríamos fazer, e, assim isso não me faz ninguém especial perante os demais, mais cultos ou menos cultos sobre o assunto.

Que os deuses te ajudem a encontrar o seu caminho, assim como sempre me fortalecem, quando preciso, no meu. Que guiem o seu entendimento e ação, e que possamos fazer a diferença em uma sociedade eivada por conflitos tão prejudiciais a humanidade; e que possamos, acima de tudo, usar nossa religião para nos melhorar a nós mesmos, e nossa forma de agir perante o mundo, em vez de meramente julgar os demais, ou buscar uma “fuga”, com ideias metafísicas de além vida.

Em honra dos Aesir, Vanir e todos os deuses, vaettir,

e criaturas dos nove mundos, além dos meus ancestrais e poderosas Dísir,

Sonne Heljarskinn,

19 de maio de 2016.

4 thoughts on “Sobre Guerreiros, Morte e Valhalla: Vícios e Dogmas

  1. Tenho uma pergunta no caso de um guerreiro que morre sem poder lutar capturado por exemplo tem alguma chance de ir pra valhalla?? Ou só mente entra em Valhala os mortos em guerras

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    • Oi Lenon.
      Como dissemos enfaticamente no texto, mais importante que o seu destino além da vida é a sua vida real, aqui e agora.
      Além disso, para ir para o Valhalla você precisa:
      1. morrer em batalha
      2. ser escolhido por uma das valkyrjor no campo de batalha
      3. não ser escolhido por Freyja para ir ao Sessrúmnir.

      Não existe NENHUMA garantia ou maneira segura de se chegar no Valhalla. Mas, como pagãos, nos preocupamos com nossa vida real, não com um pós-vida hipotético. Abraços.

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  2. Olá, gostaria de fazer uma pergunta a respeito do pos morte e pra onde se vai. Dentro da religião cristã e elementos bíblicos se tem o dito inferno pra aqueles que pecam e tidosos mais e ao buscar conhecer a Asatru eu me pergunto qual o destinos daqueles que não tem honra, mentem, quebram virtudes, etc. Esses tem puniçao, pra onde deveriam ir ?

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