Esta é a hora!

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Muitos grupos reivindicam a “autenticidade” do heathenismo, autoproclamando-se, portanto, originais, verdadeiros, únicos capazes de praticar com dignidade, ou mesmo veracidade, o paganismo germânico. Segundo tal lógica, todos os outros grupos e indivíduos são falsos, incapazes racial e espiritualmente de praticar os ritos aos deuses, ancestrais e vaettir, desde os mais simples até os mais complexos.

Mas será isso verdade?

Entendemos que qualquer forma de paganismo contemporâneo é invariavelmente uma interpretação das culturas que originalmente tinham esse modelo de crenças que procuram ser reconstruídas. Em virtude de nosso reconstrucionismo se basear em farrapos de uma antiga cultura, essas interpretações são necessariamente carregadas de modificações interpretativas (tanto no bom quanto no mau sentido), devido a diversas peculiaridades como a) o número reduzido de fontes; b) procedência de tais fontes (em geral escritas tardiamente por cristãos); c) o idioma original em que foram escritas não ser mais uma língua viva, e mesmo que fosse, demandaria (e demanda) dificuldades para transposição a outros idiomas, e por último, mas não menos importante; d) as motivações das pessoas que debruçam-se sobre tais fontes.

A interpretação é algo enraizado na essência do homem como animal político: não há como não interpretar. Mas nem é necessário entrar nesse âmbito filosófico da interpretação como sendo algo intrínseco do sujeito a quem se apresenta qualquer coisa. Todavia, é interessante ressaltar isso para enfatizar que o humano forçosamente interpreta as coisas através de suas experiências passadas para criar representações mentais, valores e dar sentido às coisas.

Como não se tem nenhum texto que descreva perfeitamente como era a cultura dos povos do norte europeu, como não existe nenhuma fonte absolutamente confiável, várias vertentes do heathenismo acabaram por criar suas bases em pesquisas acadêmicas em geral, seja por via da arqueologia, como também filologia, antropologia ou história. Outros grupos ainda se baseiam em fontes esotéricas, que prezam por um rigor científico menos apurado. Mas, nos delimitando por hora ao primeiro caso, e considerando essa condição do heathenismo contemporâneo, que se limita a se construir com poucas coisas que de fato sobraram das culturas originárias, sua base é por essência erguida através da interpretação. Por esse motivo existem tantas vertentes com tantos nomes dentro do que poderia ser englobado como paganismo nórdico.

Tendo isto em vista, temos que considerar que o fascismo e as noções de supremacia racial que são encontradas em algumas vertentes do paganismo nórdico são por natureza interpretações de uma mesma cultura originária. Não se pode tomar, no entanto, essas vertentes como as únicas, ou mesmo as majoritárias, dentro do paganismo nórdico. Elas tendem a se difundir através de alguns grupos heathens, é claro, mas não em todos os casos.

Fundamentalismo, fanatismo e fascismo andam de mãos dadas. Com o crescente interesse no heathenismo, propiciado, em parte, por produções como o seriado Vikings, antigas discussões se reacendem, antigos ódios se exaltam, antigas falácias se espalham mais uma vez como verdade.

Para nós, é preciso coragem, força e honra para se provar heathen. E, por isso mesmo, não podemos nos silenciar perante aquilo que nos indigna e consideramos como prejudicial. Isso significa que assumimos a postura daqueles que nos propomos a criticar e nos autoproclamamos os “únicos” corretos? Não. A história do paganismo em geral quase é a história da pluralidade, a liberdade de pensamento e crença, quando comparamos com as “guerras santas” das religiões reveladas, ou, ainda, quando estas foram usadas como armas ideológicas por estados totalitários modernos. Não a toa o pagão foi tomado como selvagem, sendo visto pejorativamente pelos convertidos.

De acordo com seus momentos históricos, as várias faces dos paganismos foram bem menos reguladoras que os credos monoteístas. Estes, assim como os fascistas, não permitem o plural: e somos absolutamente contrários a esse centralismo ditatorial religioso. É nos claro que o paganismo não é lá a terra de leite e mel; houveram guerras entre povos pagãos, combates, e tudo o mais que a humanidade apresenta desde o início de sua história registrada. A guerra é um conceito que na mitologia e na cultura da humanidade em geral está muito enraizado. Ela tem por isso, suas diferentes faces e seus diferentes motivos e não precisa necessariamente ser violência generalizada no mau sentido, ela pode servir como manutenção da paz e ser honrosa se não for em nome de ódio gratuito e ambições desumanizadoras: lutar para não ter que lutar mais.

“Melhor é para o homem buscar a paz por palavras, quando isso é possível.”

(Heitharvega Saga, c.35)

Sendo assim, reconhecemos o direito e a liberdade de cada grupo ou indivíduo cultuar o que quiser e da maneira que quiser. E, aliás, de agir sob as leis de suas próprias crenças pessoais. Mais que isso: afirmamos que ninguém deve ser coagido a praticar aquilo que não deseje realmente. Procuramos, assim, nos afastar do fundamentalismo e doutrinação presente nas religiões de massa, colonialistas, intolerantes e aversas aos princípios de liberdade individual e bem social esboçados no norte da Europa, de maneira realmente vanguardista para sua época, se comparado com o restante do continente cristianizado. Mais que isso: procuramos combater traços desse fundamentalismo em nossa prática contemporânea.

Mas precisamos fazer aqui uma crítica pesada e estraçalhadora como o machado de um berserker: antes de mais nada, precisamos por os radicais de cabeça para baixo para que entendam que não devemos interpretar os textos antigos usando os nossos conceitos modernos, sempre que isso for possível; mas ao contrário, buscar entender os textos por si mesmos, e, quando essa tarefa traz frutos, transportar seus conceitos para a nossa realidade. Em uma palavra: é preciso reler o presente através do passado, entendendo que ambos são mutáveis* e não apenas adorar o passado com um olhar idealizado proporcionado pelo presente.

Por que esse cuidado? Tomemos a  Rígsþula como exemplo:

7. Uma criança gerou Edda,

na água o mergulharam, […]

de pele escura,

e o chamaram de Þræll.  

Neste trecho é narrado o nascimento daquele que seria o antepassado dos escravos, e ora, ele possui pele negra! Isso parece-lhes evidente como o brilho da Sól, por exemplo, como justificativa da superioridade e a escravidão racial. Pois bem, os escandinavos possuíam escravos, a Rígsþula cita-os como mais escuros, logo eles eram negros e devem ser submetidos: os filhos superiores de Ríg têm esse direito. A lógica parece impecável: exceto por alguns fatos históricos: a escravidão escandinava não era racial; europeus (ingleses, latinos e eslavos, por exemplo) foram escravizados; até hoje os negros no Norte Europeu são minoria, não havendo o indício (como no Brasil ou EUA) de forte fluxo de mão-de-obra escravizada africana. Levando em conta, aliás, que essa forma de escravidão baseada em cor da pele surge com as expansões marítimas a partir do século XVI, é improvável que tenha havido similaridade na Escandinávia. Fica evidente que nossa realidade atual nos faz julgar de forma errônea o trecho se não ponderarmos todos esses pontos.

Outro ponto importante se refere às distorções produzidas no imaginário popular pela historiografia (cristã) e produções encenadas, como filmes e seriados, quando se referem aos escandinavos antigos. Nesse ponto praticamente todos precisamos ir desconstruindo conceitos sempre que vamos nos aproximando mais e mais da cultura e história dos antigos germanos. Mas muitos dos que se definem como “seguidores” dos deuses do norte mantém ainda aquela imagem estereotipada em maior ou menor grau, adicionando ou subtraindo alguns detalhes: elmos com chifres, gestos rudes, falta de limpeza, falar grosso e tudo o mais que os padroniza como “bárbaros”. É aí que vemos o quanto o ressentimento dos historiadores letrados do Ocidente cristão deixou sua marca indelével, subtraindo a humanidade de todo um povo, apresentando-o como um poço de sentimentos desprezíveis em contraposição aos “civilizados”. E com isso comumente esquecemos de detalhes sutis desses povos como a þing, a assembleia dos homens livres, instrumento de um tribalismo vastamente democrático para a sua época, ou ainda achados arqueológicos que evidenciam um cuidado minucioso para com os cabelos, como pentes rústicos.

Mas, se é tudo fruto de interpretações precisamos, todavia, tentar compreender quais mais se aproximam daquilo que eram os povos antigos. Ressaltamos ainda mais uma vez a necessidade de buscar não tatuar signos de ódio ou separação racial nos nórdicos porque esse conceito era simplesmente inexistente entre eles. Houve miscigenação dos nórdicos com todos os povos com os quais se relacionaram, seja pelo comércio, seja pela guerra. Da Ásia à América do Norte. “Qualquer um que requeira das pessoas passar um quantum [mínimo] de sangue, ou ter um padrão de pureza étnica, ou defenda isso, é um racista, e está apoiando instituições racistas” (Sarenth Odinsson, The Northern Gods Are Not White**). Transformar os nórdicos em gladiadores raciais, como se fossem a patrulha de elite de Hitler, a SS, mas com lanças e drakkares seria tão absurdo como dizer que eles são anarquistas avant la lettre por que possuíam um sistema legal e político bem amplo e popular, quando comparado mesmo com governos dos séculos XX e XXI.

“Os Deuses da Heathenry e Tradição Pagã Nórdica não são brancos. Eles são deuses que foram historicamente adorados pelos europeus, continentais ou não-continentais, do norte. Branco, como uma definição para descrever pessoas de uma certa cor da pele, e de um modo geral certas origens étnicas, é relativamente recente na descrição moderna. É completamente socialmente construído, e seu uso tem sido, ao longo da história, para marginalizar outras pessoas e situar a “brancura” como superior” (S. Odinsson, op. cit.).

Nesse ponto temos que ressaltar que os grupos que se definem como “folkish”, acabam dançando perigosamente com o totalitarismo  racial. E sim, eles são racistas. Eles não são alvo das atitudes dos racistas raidicais até que se posicionem contra eles. Eles não sofreriam prejuízos por polítcas racistas. Eles não são afetados por esse tipo de postura, todavia colaboram com sua construção quando dizem que determinadas pessoas por não possuírem ancestralidade (exclusivamente) europeia não podem praticar a Ásatrú. Todas essas ideias de exclusividade racial na prática de uma religião ancestral provém de movimentos mais políticos que religiosos que rasgaram a pele do reconstrucionismo nórdico desde seu início.

Assim, as interpretações fascistas e racistas acabam modificando interpretativamente conceitos-chave da cultura nórdica em prol de sua ideologia, de forma consciente ou não. Conceitos como força, coragem, paz, honra e guerra atravessam a mitologia por inteiro, e não eram entendidos e praticados como o são hoje. Existem centenas de anos de história e devir cultural movendo o pensamento humano. Não estamos mais naquele contexto histórico e social, logo, reconstruir essa visão de mundo contemporaneamente torna tais conceitos necessariamente adaptações.

Todos nós acabamos por nos servir amplamente dessas adaptações. O que acaba nos diferenciando é: como e para que esses conceitos são adaptados. Numa visão fascista de paganismo, por exemplo, esses conceitos não são entendidos tais quais eram, sendo negligenciada tal compreensão, simplesmente os substituindo por ideias modernas e militaristas,  objetivando justificar atos de violência indiscriminadamente contra todo o tipo de pessoas que não se encaixem em seus padrões (heterossexuais, de pele clara, muito preferencialmente de classes mais abastadas financeiramente), tudo isso enquanto se autoglorificam. Conceitos essencialmente voltados para a comunidade são substituídos por conceitos egoístas de manifestação de ódio desenfreado.

Além disso, uma interpretação reacionária não reconhece a si mesma como apenas mais uma entre tantas interpretações, se autoproclamando como verdadeira, e, como tal, única. Em vez do benefício da comunidade e manutenção da paz, essas ideologias tomam como base a guerra como meio para homogeinização de opinião, para o extermínio, justamente quando deveria haver a tolerância, o reconhecimento das várias maneiras de enxergar o mundo. Tais pessoas e grupos injetam na cultura originária ideologias totalitárias contemporâneas e do passado recente. Colocam seus próprios interesses na boca dos ancestrais alegando ter a “Verdade”, em vez de deixar a cultura, os mitos e o pouco material que nos restou falarem por si mesmos,  deturpando e calando aquilo que de honroso poderiamos construir, em nome da paz, do bom senso (citado várias vezes no Hávámál) e daquilo que seria uma fuga, justamente dos non-senses contemporâneos de querer transformar todas as palavras num único discurso, sem probabilidade de discussão e discordância. O nazi-fascismo no paganismo nórdico é apenas mais uma face daquilo que a história já nos marcou profundamente através desse longo século de guerras que tivemos.

“Na sua essência,” Joshua Rood destaca “Ásatrú é uma celebração dos deuses, histórias e costumes que foram passados adiante do Norte da Europa para o mundo moderno”***. Simples assim. Rood se refere nestes termos aos que pregam o separatismo racial: “É preciso entender que esses movimentos não evoluíram de Ásatrú. Eles evoluíram a partir de movimentos racistas (White Power) que se prenderam à Ásatrú, pois a religião que veio do Norte da Europa é mais útil ao nacionalista branco do que aquela que aquela que se originou em outro lugar. […] Deve-se saber que Ásatrú não tem nada a ver com ser algum tipo de “guerreiro” separatista. Não é a religião dos Vikings mais do que o cristianismo é a religião dos cruzados. Não é a religião de nacionalistas brancos mais do que o cristianismo é a religião da KKK (Klu Klux Klan)”.

Logo, não podemos silenciar perante tais usurpações e deturpações da fé nos deuses do norte e nossos ancestrais, sejam eles europeus ou não. Uma reconstrução prática que se baseia na cultura germanica pré-cristã, para no mínimo se considerar séria, e digna de respeito, precisa analisar o máximo de informação que puder daquela cultura para deixar a cultura exprimir-se em sua magnitude por si mesma. O objetivo é modificar quem somos através do conhecimento dessa cultura e não enxertar nossos dogmas contemporâneos em uma cultura muito anterior a nós, principalmente, se for para rebaixar o mundo aos nossos próprios pés, como os grupos racistas procuram fazer, intencionalmente ou não. Como diz um skald da organização heathen Hvergelmir: “essas politicagens não são relevantes para a reconstrução Heathen prática e são francamente prejudiciais, pois elas lançam o intragável e sinceramente nauseante perfume da Supremacia Branca sobre o Heathenismo” (Einar V. Bj. Maack, Honest cheesemongering or the perils of shopping for knowledge)****.

É preciso superar-se enquanto indivíduo, para ser melhor e viver melhor em nome, não só de si próprio, mas também da comunidade, da nossa nova tribo ou clã. Os fascistas, nazistas e racistas, em seu complexo de superioridade, não querem ser ‘apenas’ humanos, dão-se o grau de deuses, e esperam ser reconhecidos como tais, ditando a ordem de funcionamento do mundo. Quanto “puros” eles sejam biologicamente não interessa, quando suas ideias estão totalmente contaminadas e viciadas por ideologias cancerígenas política e socialmente. Dessa forma queremos sublinhar a diferenciação entre as origens da prática do paganismo germânico e do racismo que assim se transveste. Reforçamos que para ser heathen é preciso agir, e é a ação que nos faz importantes para nosso grupo, ancestrais e deuses. Reiteramos que todas as ideias de supremacia racial que desde muito se confundem com a reconstrução pagã não equivalem ao todo ou sequer à maioria do paganismo germânico. E, por fim, destacamos que por mais que alguns grupos queiram monopolizar a opinião sobre a prática do paganismo, nós sempre existiremos para contestar. O mesmo tipo de pessoas que não se converteu ao cristianismo e foi condenado às fogueiras no passado é obrigado a se defender hoje de todos aqueles fundamentalistas (sejam eles de religiões reveladas ou não), protegendo o direito a uma religiosidade plural e livre, não atrelada a totalitarismos de nenhuma espécie. É a hora de percebermos que a nossa raça é a humana.

Sonne Heljarskinn e Andarilho, em homenagem aos nossos ancestrais, amigos, familiares e deuses.


* Quando dizemos que o passado é mutável é por entendermos que ele é o “não-agora”, o acontecido e registrado. Ora, mas o olhar humano não consegue apreender a realidade em si senão apenas enquanto realidade para si. E mesmo as limitações da comunicação impedem que esta realidade seja exposta da mesma forma que apreendida. E, quando relida por terceiros, tais registros históricos passam novamente pelo interpretação de forma invariável. Logo, o passado não é algo imutável, mas, na verdade, uma representação mental que varia de acordo com a interpretação.

**https://sarenth.wordpress.com/2014/12/13/the-northern-gods-are-not-white/

***https://asatrueliberdade.wordpress.com/2015/07/03/a-batalha-do-heathenism-contra-os-brancos-supremacistas/

****https://www.facebook.com/notes/hvergelmir/honest-cheesemongering-or-the-perils-of-shopping-for-knowledge/1037846569600001

One thought on “Esta é a hora!

  1. As três castas revelam apenas e tão somente uma verdade pura, a de que 3 povos extremamente diferentes entraram em choque no mesmo lugar, e um deles prevaleceu sobre os outros dois, sendo o que menos possuía capacidade adaptativa e menos potencial para se anexar aos demais grupos, gerou a casta dos escravos. Este grupo era inferior em capacidade bélica, e foi superado em combate, e esse grupo não possuía beleza física que o levasse a fusão com os demais grupos, dado o fato de que o RIGSTHULA estipula que Thrael era feito e deformado, não pertencia nem ao grupo próximo ao Celtico, o dos Ruivos, e nem ao grupo aparentado com com dos Adoradores de Aesires. Qualquer apontamento ligado ao relativismo é devastado por este fato, e as pessoas que estão sendo intoxicadas pelo discurso que está matando todos os países de cunho europeu, tendo invadido primeiro as faculdades e depois a vida das pessoas, é torpe pelo simples fato de não levar em consideração que a natureza não é relativa, não possuir lógica em se contexto, não ser objetivo e não se provar logisticamente falando.

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