Paganismo nórdico e o racismo brasileiro

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Sonne Heljarskinn

Busco manter, sempre que possível, uma distância da política quando falo abertamente e para leigos sobre a Ásatrú, isto é, a fé nos deuses do Norte Europeu. Tal cuidado é por respeito ao interlocutor e para evitar possuir um discurso sectário e viciante.

Mas eu, como filho de brancos, negros e índios não posso silenciar sobre alguns pontos. Porque eles encontram-se na Ásatrú, no Brasil, no mundo. Alguns fingem ser contrários a eles enquanto os reproduzem em seus discursos, e o que mais me incomoda, pessoalmente, é o racismo, embora eu não negue a existência dos demais.

Na verdade o preconceito não é um problema exclusivo dos seguidores do caminho do norte. Como um produto social de nosso meio, é reproduzido incessantemente até ser naturalizado e passar despercebido. De um machismo mesquinho, homofobia desmoralizadora, e mesmo desprezo pelos pobres e pessoas que possuem mais melanina na pele.

É cada vez mais comum encontrarmos na internet pessoas que assumem que são chamadas de racistas ou preconceituosas de qualquer espécie sem saber por que, segundo as mesmas. E isso porque o preconceito não se manifesta apenas de forma consciente, mas porque é um hábito, passado de geração pra geração, estando enraizado na cultura mundial.

Nos locais de maioria branca e/ou onde há um forte nível de miscigenação, como o Brasil, esse tipo de discurso torna-se mais visível por ser repetido com maior frequência. Não se é racista apenas por ostentar suásticas e frases e imagens de Hitler ou do nazismo; mas também aquele que faz piadinha com feijão preto, que tipifica um negro de boné e bermuda como “marginal”, “malandro”. Aquele que acha que nordestino sem faculdade só serve pra trabalhar em construção ou carregando peso.

A maioria das pessoas mais brancas não têm a menor ideia de quanto argumentos que partem de princípios lógicos similares a esses são comuns em suas falas.

Quando dizemos que “raça” é um construto social queremos dizer que é porque as pessoas numa sociedade real procuram divisões metafísicas para separarem-se. Por que ser “branco”, é, na verdade, a ideologia que é criada posteriormente ao nascimento, logo socialmente quando as pessoas manifestam uma consciência baseada em quanta melanina suas peles têm. Que o quanto de melanina uma pessoa têm, o quão seu cabelo é maleável ou não (aliás, as únicas diferenças reais entre as pessoas) NÃO definem biologicamente sua cultura. Não queremos dizer que as pessoas são brancas ou negras em suas peles por construção social e sem influência genética; mas que até mesmo a modificação genética depende das relações sociais, a partir dos indivíduos com os quais as pessoas se reproduzem. Um filho de brancos não terá pele negra, ou vice-versa, não é isso que queremos dizer. Mas um filho de alemães loiros de olhos azuis criado entre etiópios terá a cultura daqueles que estão à sua volta. Um filho de negros africanos criado por europeus absorverá a cultura européia. Simples assim. Da mesma forma que esse ódio canalizado na teoria de raça é apenas um produto do meio em que os humanos se inserem. Assim, religião, língua, valores e cultura não são determinadas biologicamente.

Isso é tão verdade que após a ruptura na cultura europeia, com a introdução do cristianismo, ninguém mais era pagão só por ser filho de pagãos. Com a conversão pessoal e a adoção da nova cultura, que gradativamente buscou apagar as anteriores, os deuses e espíritos pagãos foram perdendo sua influência no imaginário humano até quase se apagarem.

E eis que centenas, quiçá alguns milhares de anos depois estamos tentando reencontrar o que restou, usando esses resquícios pra reconstruir uma visão de mundo. As relações sociais mudaram muito de lá para cá. De um mundo escravagista passamos para uma realidade diferente; e se a Rigsthula fosse escrita hoje parece óbvio que possuiria um teor diferente: a religião do Norte Europeu não era um todo imutável histórica e geograficamente. Era diferente em dados momentos e ainda que no mesmo momento, não era igual em diferentes lugares. Era fruto dos humanos que interagiam com ela.

A história que influencia muitos brasileiros, e inclusive os que querem seguir a Ásatrú não se limita à história do paganismo (germânico) europeu. Muitos de nós, exatamente como eu, possuem uma ou mais origens no sangue; fruto histórico de tudo aquilo que alguns fanáticos louvam, como as incursões de uns povos sobre outros, dominação e exploração. Somos filhos dos ancestrais que orgulham a vocês e dos que vocês odeiam. Ao menos para alguns. Temos em nosso sangue a mesma origem que vocês, e, mesmo quando não temos isso, possuímos uma cultura que foi imposta aos nossos antepassados e torna negro e branco, em intelecto, tão similares: exceto pela intolerância de alguns.

Por isso, para pessoas como eu que tem sangue misturado seguir um caminho ancestral exclusivo sempre significa se fechar para outro lado de si mesmo; o que exige saber colocar as coisas em equilíbrio. A mim bastar estudar, conhecer melhor as matrizes religiosas negras: minha prática e cosmovisão está firmada seguramente no paganismo nórdico. Para outros que não possuem o sangue branco torna-se forte esse chamado ao norte por diversas razões; por que possui örlog diferente direi que não possui örlog? Que não pode vivenciar o paganismo germânico com autenticidade?

Todavia, se os vejo (brancos, índios e negros, principalmente) como iguais em essência nas capacidades intelectuais e físicas, é inegável que os mais brancos possuem maior facilidade para muitas coisas.

Esse talvez seja o ponto mais crítico: você não percebe o quanto é privilegiado com base na cor da sua pele, olhos e cabelos até ter esses direitos tirado de si. Por exemplo, em São Paulo, onde fui criado, sentia bem pouco impedimento racial, uma vez que a população lá é muito misturada, e eu não sou tão escuro quanto alguém que possua menos miscigenação. No nordeste, onde a Sól não tem piedade de meus conterrâneos, fazendo a melanina reagir mais fortemente (sem contar que algumas áreas dessa região, assim como em locais em estados do sudeste, receberam muitos cativos africanos como mão de obra na época da Colônia/Império), é possível sentir que sou ligeiramente diferente por provir de uma cultura urbana e clima mais ameno. Mas só percebi isso quando morei no sul, em áreas de imigração alemã, onde me sinto “negro” automaticamente. Minha pele dourada e cabelos e olhos castanhos contrastam fortemente com a maioria da população que não deixa de olhar estranho, muitas vezes julgando abertamente com olhares inquisidores quando passeava com minha namorada na época, descendente de alemães, e quando meu sotaque e pele são usados como pretexto pra me colocar em subempregos mesmo quando possuía um nível de formação similar a um descendente de europeus com sobrenome típico. Só senti que era “neutro” no sudeste, “privilegiado” no nordeste ao ser “inferiorizado” no sul.

Isso chegou ao ponto de só perceber que não era exatamente um branco quando me choquei com uma população em que os mestiços e negros eram minoria em muitos locais, sendo claramente afastados de certos lugares, não por regra legal, um apartheid institucional, como houve na África do Sul. E, sim, essa separação há no Brasil ainda hoje como em vários outros países e é clara quando um local é frequentado majoritariamente por brancos de classe média/alta e seguranças te olham com suspeita, te seguem com os olhos por uma pele menos clara e uma roupa um tanto mais desbotada, embora em perfeitas condições de uso. Quando as pessoas claramente te passam a mensagem “o que você está fazendo aqui?” com os olhos. Quando, no trabalho, entre conhecidos, piadinhas com sua pele surgem e todos riem e você não viu um pingo de graça. Quando você prefere comer uma comida mais pesada em vez de algo mais sutil e as pessoas acham isso estranho e beirando o ridículo. Quando você vê negros sendo revistados pela polícia por sua forma de se vestir mesmo quando são, “pretos tipo A”, como diz uma música, isto é, estão com roupas que, mesmo não sendo exatamente o que brancos consideram como padrão de moda, são perceptivelmente caras, limpas e bem arrumadas. Quando a sua forma de falar se torna motivo de estranheza e ridicularização.

 E quando as pessoas aderem à Ásatrú, sejam brancas ou negras ou o que for, esses traços não desaparecem por mágica. O preconceito velado permanece. Não é “vitimismo”. É reconhecer que muitas pessoas só falam de igualdade quando querem reclamar de cotas (essas mesma que estão formadas ou em graduações, em sua maioria). É lutar (e quão heathen é isso!) para se ter respeito e que sua honra seja reconhecida.

Vi muitas vezes pessoas de extrema-direita racista, como White Power, nazistas, neo-nazistas, ou simpatizantes de totalitarismo racial alegando que aproximam-se de tais teorias pois querem se sentir “diferentes”. Em inúmeros documentários esses relatos são colhidos, como de militantes da racista Blood and Honor, e, me desculpem: mas a maioria dessas crianças (mesmo as crescidas) que querem se sentir como “deuses” ou filhos deles, quase como que querendo usurpar o lugar de figuras como Thor, já possuem tantas vantagens em relação a um negro europeu, a um morador dos guetos estadunidenses, de uma favela do Brasil que eu não entendo o que mais eles ainda querem a não ser se provar crianças carentes. Caso exemplar são imigrantes de europeus do sul que não toleram os haitianos (!) porque são “de fora”, mas, na verdade, porque são negros. Quando falam de serem reconhecidos como diferentes, querem, na verdade, serem reconhecidos como melhores e apagarem os traços reais das diferenças entre as pessoas, suprimindo as que consideram inferiores. O problema é que o discurso desses falsos Übermenschen geralmente é tão limitado e se vale de argumentos ad hominem tão infantis que nem vale a pena os repetir, atacando somente a sexualidade, usando pseudociências, dogmatismo, e na verdade, tudo isso só pra disfarçar seu ego inflado e frágil.

O racismo não surge com o advento das redes sociais. Mas com brancos e negros se manifestando pela internet, os discursos de ódio aberto ou inconsciente se tornam claros e constantes. É a reprodução de uma cultura racista desde os primórdios, com o extermínio de indígenas e escravização de negros, de uma ferida aberta na humanidade e que está longe de ser fechada, pois aqueles que conseguiram privilégios historicamente e não os reconhecem, querem comparar a crítica aos seus privilégios com o dano real que as relações sociais causaram no país (e no mundo) a etnias inteiras. Surge quando alguns julgam que porque as pessoas com pele mais escura se reconhecem em uma comunidade informal que luta por seus direitos (que em nenhum caso são iguais aos dos mais brancos) é desculpa para lutar por (mais) direitos (ainda‼) por uma outra etnia, já vastamente privilegiada. É evidente o seu preconceito quando você acha que negros denunciando o racismo é (pejorativamente) um “vitimismo”! Quando você acha que tudo isso tem que ficar fora da Ásatrú como se ela fosse uma bolha separada da realidade, quando ela é sim uma parte da realidade, mesmo que aparentemente inexpressiva.

E porque os brancos falando sobre o assunto são vistos de forma tão negativa, na maioria das vezes? Pois lhes falta, enquanto humanos, o bom-senso de se reconhecerem enquanto privilegiados, mesmo quando têm que ralar duro por alguma coisa, pois acham que tudo se resume ao seu ego fazendo e desfazendo as coisas, quando, na verdade, tudo depende da aceitação, interação e cooperação social. Nem mesmo um rei possui importância alguma sem um povo que lhe sirva de apoio, e lute por ele. Porque muitos brancos não reconhecem quando negros apontam seu discurso como racista e dizem que estamos sendo “chatos, igualitários hipócritas”, isto é, quando queremos justamente mostrar que para os humanos serem iguais socialmente eles precisam ser socialmente reconhecidos como iguais. E isso independe de biologia, mas de cultura. São vistos de forma negativa porque “preto, nego, africano” quase sempre são cuspidos por eles em contextos ou tom de voz que não mascaram o desprezo que sentem pelas pessoas que assim qualificam. Por isso é tão diferente negros se chamando assim de brancos chamando outros da mesma forma. E, mais uma vez, isso não desaparece como o Mjollnir de Thor, e é levado para a distante Jotunheim, apenas por você se declarar Ásatrú e jurar pelos deuses que não é racista.

Por isso sim, queremos ter direito à nossa identidade. Somos humanos e queremos ser reconhecidos nessa igualdade. Mas queremos ser reconhecidos como humanos também em nossas peculiaridades. Nas chaga abertas nas histórias de (todos) os nossos ancestrais. Não existe uma borracha histórica, que apague as coisas e façam elas ser de uma forma diferente e não influenciar o presente. Por isso queremos ser reconhecidos como Ásatrúares, como mestiços, negros, e queremos respeito por isso. E vamos lutar e mostrar nossa coragem e que ela não se submeterá ao jugo de ninguém que quiser nos calar. Não queremos privilégios, não queremos nada “dado”. Mas o que é nosso, podem ter certeza, permaneceremos com nossas lanças, espadas e escudos prontos para lutar por isso. E que vença o mais forte.

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