Woden versus Odin: Diferenças?

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Odin, retratado como um andarilho com suas aves, os corvos

Post original em inglês (link) no blog “of axe and plough” por thelettuceman. Tradução de Sonne Heljarskinn.

Diferentes expressões culturais de Heathenry geram diferentes interpretações culturais de (em grande parte) o mesmo grupo principal de divindades. Derivando de uma fonte Proto-Germânica comum, essas divindades são a base das características religiosas dos diferentes povos germânicos que constituem o foco da Heathenry Reconstructionista e Contemporânea. No entanto, como as diferentes culturas germânicas floresceram, propagaram-se, e migraram, a compreensão que eles tinham de sua religião afastou-se, tanto quanto suas línguas e identidades tribais. Isso criou um abismo dentro da compreensão das miríades de interpretações das divindades germânicas que podem causar confusão para ambos os recém-chegados e praticantes veteranos de Heathenry.

É fácil esquecer que a interpretação nórdica dos Deuses, a perspectiva islandesa-escandinava encontrada dentro das Eddas em Prosa e Poética, é uma expressão cultural relativamente tardia da religiosidade. É compreensível, especialmente dado à base demográfica de muitos pagãos, eles virem da Ásatrú ou outra forma focada de Heathenry nórdica — como é a mais acessível para novos praticantes. Também é fácil supor que, através da sua prevalência de sobrevivência nos dias de hoje, estes textos são representativos ainda de 1) um estágio de desenvolvimento final da mitologia germânica ou 2) que constitui a soma total visão correta de toda a experiência germânica.

Ambas as suposições são incorretas.

Interpretações divinas como Woden e Odin (Wotan e, Óðinn, Wotanaz, etc.) são as mesmas, e ainda assim elas não são. É uma complicação obscura e contraditória, que, inevitavelmente, sempre leva à confusão. São os dois deuses o mesmo? Sim, sem dúvida. Muito no mesmo sentido que eu sou a mesma pessoa, mas eu sou diferente no trabalho, escola, casa, e outras obrigações sociais. Mas as distinções culturais entre uma interpretação anglo-saxã de Woden e uma interpretação nórdica de Odin são importantes e informativas, porque apresentam diferentes faces, aspectos e influências. Esta situação crítica dentro de metafísicas teóricas e adimitidas tem problemas com a evidência, é claro.

Ao abordar as diferenças entre Woden e Odin, somos forçados a confiar em estudos comparativos entre Anglo-Saxões e culturas nórdicas, que, compreensivelmente, têm armadilhas e perigos todos por si mesmos. Muitos Heathens, mesmo sérios Anglo-Saxonistas, têm que tapar buracos em sua mitologia, utilizando material de origem cultural mais tardia. Mas isso é perigoso. Não se pode simplesmente ligar o mito-conhecimento de Odin com o personagem de Woden e esperar que ele funcione, afinal. Existem fatores culturais, sociais e ambientais significativos a serem considerados no desenvolvimento do mito anglo-saxão que não existem dentro da experiência nórdica.

A Mitologia Nórdica tem mais três séculos de desenvolvimento e influência depois que as mitologias anglo-saxãs foram interrompidas com o processo de cristianização. AL Meaney disse que “é intrinsecamente improvável, de fato, que os altos-deuses ingleses Woden, Tiw, e Thunor [sic] teriam mantido quaisquer de seus poderes depois de trezentos anos de cristianismo”, e nós temos que ter em mente que, mesmo os escritos anglo-saxões, após o final do século VIII são muito mais propensos a apresentar sombrias e atenuadas memórias parciais do paganismo combinadas com fortes superstições locais. E as obras de escritores posteriores, que datam do final do século X (Ælfric e Wulfstan) estão claramente referindo-se a deuses dinamarqueses, não anglo-saxões.

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Odin o caolho nas portas de bronze do Stockholm’s State Historical Museum

A Mitologia Anglo-Saxã é quase inexistente, portanto, o uso quase obrigatório de estudos comparativos. É uma razão pela qual Tolkien escreveu o Senhor dos Anéis, na forma que ele fez — para tentar criar uma mitologia comum dos povos ingleses, porque ela era extremamente deficiente. Porque não temos mitologia concreta comparável às Eddas, temos de nos concentrar em obras nativas em poemas, histórias, códigos de leis dos cristãos, e análise de topônimos.

Como Odin é popularmente retratado como cego de um olho, podemos ver uma alusão a uma cegueira semelhante nos escritos de Beda em Woden (Cf. North). Solomon e Saturn sugerem que os últimos anglo-saxões estavam familiarizados com a ideia de Woden ter criado as runas, bem como equiparar Woden com o Mercurius romano, com a ideia das runas talvez devido à influência do Danelaw e da nova paganização (re-heathening) do norte da Inglaterra. Mas, mesmo além disso, de forma nativa, o Encanto das Nove Ervas mostra claramente Woden ser um mago, usando gloriosos ramos (wuldortanas) para destruir uma serpente, dessa forma ele possui um intelecto que utiliza princípios e forças esotéricas. Mas Woden não tem palavras de sabedoria deixadas para os seguidores, nem histórias de beber de uma fonte de sabedoria cheia com hidromel que igualaria Woden com a mesma força cultivada e aculturada de conhecimento poético que Odin exibe.

Woden id est furor. Woden, isto é, fúria. Ambos Woden e Odin derivam de suas respectivas palavras linguísticas e culturais para fúria e inspiração (wod, em anglo-saxão, e orðr em Nórdico Antigo). Ambos Woden e Odin são fúria e loucura encarnadas, mas Odin é temperado com um maior sentido do que pode ser chamado de “mais-alta civilização”, dever e obrigação para com seu povo que é exibido nas histórias de Woden. Para aqueles que concordam ou com a teoria do Complexo do Múltiplo Espírito (Multiple Soul Complex) de Thorsson, ou uma versão menor disso, como pretendido por Wodening e outros escritores anglo-saxões (eu entre eles, por se dizer), veem claramente o Wod de um homem como a fonte de nossa inspiração. A loucura-de-Wod (Wod-madness) sendo a centelha criativa que consome e se expande dentro de nós, até que nós completemos ou sobrecarreguemos ou queimemos.

Woden está associado com os locais de culto, com diques e colinas e supostos lugares de sacrifício/ritual. Seu culto na Inglaterra é identificado com diversos nomes de lugares, embora Þunor seja mais comum: Wansdyke, Wednesbury, Wensley, Woodnesborough, etc., são todos atestados academicamente como lugares associados derivando seus nomes a partir do deus. Há também alguma suposição de que ele é comemorado em um número de lugares que começam com ‘Grim’, como o Dique de Grim em Hants. Não é tão claro uma ligação definitiva entre Woden e lugares com ‘Grim’ como há com Odin e da aplicação de ‘Grim’ como um kenning para equivalentes nórdicos. É oportuno, eu acho, porque Woden é mais um psychopomp do que Odin. Em alguns casos, nomes de lugares são mais úteis na busca de Woden na Inglaterra do que o registro arqueológico, porque fornece uma fonte de que a conexão com um local de culto, templo ou outro ponto de reverência foi tão forte que esses locais fixaram-se ao nome do deus até o período cristão, onde Woden se tornou um diabo perigoso antes de seu desvanecimento da memória popular.

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Odin retratado como um guerreiro, com trajes de guerra de vikings

Woden é um deus sacrificial, sanguinário e cruel. Enquanto a mitologia nórdica e a história identificaram aspectos do sacrifício humano para Odin (são atestados vários reis escandinavos que foram sacrificados por seu povo por falhar em seu mandato sagrado), a falta de aspectos civilizatórios de Woden através da mitologia o pinta como uma personalidade mais insensível, mais perigosa . É crível que a matança absoluta dos bretões em Pevensey Castle em 491 CE deveu-se ao fato de que eles foram dedicados a Woden pelos pagãos anglo-saxões. A utilização residual de marcação sacrificial é atestada em Bede pelo padre Coifi que, ao abraçar o cristianismo e virando as costas para os deuses de seus antepassados, jogou uma lança sobre um local de (culto à) Woden, usando a crença pagã de que isso marcaria um sacrifício.

Além disso, Ongenþeow muito possivelmente tem a intenção de um sacrifício semelhante em Beowulf, ameaçando os Geats com enforcamento e golpes de espada. No entanto, Ström traz um argumento para a ideia da utilização do enforcamento como vergonhosa e humilhante, o que mais tarde foi expandido por uma demonstração de que as vítimas de enforcamento sacrificial não vieram de uma sociedade legítima. Existem tentativas semelhantes que foram feitas para provar que as entradas na Hist. Ecc. 2.20 e 3.12 são atos de sacrifício — a exibição dos restos de Oswald por Penda como um tipo de ação de graças sacrificial.

Woden é identificado como um líder da Caçada Selvagem, talvez o líder supremo, embora essa identificação é reconhecidamente tardia dentro do desenvolvimento do próprio personagem. As ligações entre a Era de Vendel da Suécia e Inglaterra anglo-saxã tornam provável que a representação de Vendel do cavaleiro com sua ave necrófaga e ave de rapina teria sido uma imagem reconhecida de Woden. Historicamente falando, existe apenas uma região da Jutlândia que tradicionalmente marca Óðinn como o líder distinto da caça.

Porque anglo-saxões não têm mitos, não podemos ter certeza de quanta ênfase eles colocaram sobre a interação de Woden com os outros deuses. Não há palavras para identificar Woden como um rei dos deuses. Esta é uma suposição feita, talvez não de forma incorreta, através do mito nórdico. Em vez disso, Woden pode ser descrito com precisão como o criador de reis. Ele gera as linhagens da maioria dos reinos da Heptarquia, e seu nome é usado como um agente de solidificação do governo real sacro durante o período de consolidação do reino. Mesmo Richard Angevin, chamado Coração de Leão, referenciava-se a si mesmo como sendo a prole de “dois lados do Diabo”. Embora ele fosse o tataraneto de William, o Bastardo da Normandia, ele também era descendente de casas anglo-saxãs. Com Woden preenchendo o papel de o/um Diabo em alguns folclores cristianizados, há historiadores que acreditam que ele está fazendo referência a esta linhagem popular com seu uso do lema da família.

Embora seja provável que ele é um deus-rei, é também evidente que ele é o progenitor das casas reais anglo-saxãs. Isto pode ser visto de forma semelhante ao deus Mannus sendo visto como o progenitor do Ingaevones, Herminones, e os Istvaeones. Mesmo que ele não seja o progenitor literal (Edwin de Nortúmbria alterou sua lealdade e linhagem para Woden antes de sua cristianização), ele é visto como o início simbólico e metafórico das casas anglo-saxãs. Todas, é claro, salvo por Essex, que se dizem descendentes de Seaxneat.

Representação de Seaxneat

Representação moderna de Seaxneat

Sem mitologia existente, é difícil apontar uma clara diferença entre os deuses. Temos que manter em mente que há duas fases distintas da história anglo-saxã sobre paganismo: a cultura meadhall dos séculos quinto e sexto, e o período de nova paganização (re-heathening) sob o Danelaw, no século décimo. A aplicação da mitologia nórdica do século X (ou posterior) para uma prática cultural precoce anglo-saxã é, de fato, uma forma de miscigenação cultural e sincretismo, a qual é parcialmente desajeitada e mal ajustada sob esse olhar. Especialmente se considerarmos que os anglo-saxões também tinham uma aguda distinção em compreender “Woden” e “Othin”, com usos residuais dos diferentes nomes vindos da análise de topônimos.

Isso não quer dizer que esta prática sincrética está incorreta. Mas muito já foi escrito das armadilhas de uma aplicação ‘por atacado’ do período posterior do mito germânico com um anterior. Se houver qualquer período que poderia ser mais competentemente trançado com o período anglo-saxão, este seria a Era de Vendel da Suécia. Anglo-saxões devem, por necessidade, tomar outras práticas e recursos para tapar os buracos em sua prática, mas eles devem estar conscientes de que eles estão arrancando o material de origem de qualquer outro contexto cultural que pode ser ligado ou anexado àquelas fontes e, acima de tudo, que ele não está muito disposto a ser transplantado.

Não há respostas claras. Nenhuma interpretação da prática germânica é “certa” ou “errada”. A prática anglo-saxã é “certo” para os anglo-saxonistas, e a prática nórdica é “certa” para os (pagãos) nórdicos. Por outro lado, a prática dos nórdicos é “errada” para anglo-saxonistas, e vice-versa. A Mitologia Nórdica não é um ponto final no desenvolvimento. Na verdade, é mais do que o desejável fortemente influenciada pela cultura do prestígio cristã, e as Eddas resultantes que sobreviveram para ser compartilhadas nos dias modernos são produtos dessa influência, não importa o quanto muitas pessoas afirmem que elas são puras (ou não).

O que se segue é a minha opinião sobre o assunto das diferenças entre Woden e Odin, e eu tenho certeza que eu vou ter outros anglo-saxonistas argumentando contra mim:

Eu tenho uma visão distintamente “primalista” para Woden, em comparação com Odin. Woden é menos refinado, mais grosseiro, mais perigoso, mais louco, e mais faminto. Ele é a morte. Ele é a guerra. Ele é o corvo que banqueteia-se nas vítimas de enforcamento. Ele é perigo encarnado. Ele é a loucura mental, uma loucura em êxtase que ele abraça totalmente, comparável com o pior do nosso próprio potencial criativo, sem nenhum benefício da temperança do hidromel da poesia que conhecemos. Ele é identificado como construindo as grandes obras de terraplanagem da Inglaterra, então podemos assumir um aspecto andarilho para ele. Woden é um criador de reis, o pai ou pai adotivo de casas reais, mas como um rei está distante e difícil para todos, nesse sentido ele é quase literalmente um Pai de Todos (All-Father). Ele é um intelecto esotérico, utilizando marcações mágicas (runas, talvez, talvez não), e que é um feiticeiro e tecelão de magias, e que é uma fonte de tal conhecimento se se puder navegar a (sua) fúria. Porque ele foi identificado com Mercurius, ele é uma divindade trickster, calculista e inteligente em seu próprio direito.

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Odin cavalgando seu cavalo de oito patas, Sleipnir

Eu o identifico com o anfitrião de almas errantes que chamamos a Caçada Selvagem, um psychopomp de um calibre mais elevado, ainda mais importante, porque não temos um conceito nativo de Valhalla. De muitas maneiras, a descrição de Tácito do caráter de Woden em Germânia é tão provável como as descrições de Odin nas Eddas. Como nossas valquírias são mais próximas das linhas de “sedentas de sangue, bruxas ladras de cadáveres” do que lindas barbies amazônicas que nos trazem para um salão eterno de luta e de banquetes, Woden é mais primal. E, talvez mais importante, ele é um personagem frio que está aceitando de bom grado os sacrifícios humanos, por nenhuma outra razão do que um vitorioso ação de graças.

Woden é o mesmo que Odin, mas ele é diferente. Onde começa um e termina o outro é irrelevante, porque ambos são verdadeiros. As diferenças parecem ir além de variações culturais simples, pois eles sinceramente se deparam como manifestações distintas da mesma entidade básica. Por qualquer razão, para qualquer propósito.

Eu desconheço os jogos dos deuses.

Obrigado pela leitura, eu poderei voltar aqui em uma data posterior. Dê-me suas opiniões abaixo, se você se sentir disposto a isso.


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