Heathens contra o ódio: Entrevista exclusiva com o Sumo Sacerdote da Associação Pagã Islandesa

O ALLSHERJARGOÐI Hilmar Örn Hilmarsson (no centro), o sumo sacerdote da Associação Pagã Islandesa argumenta que aqueles que vêem a Ásatrú como uma religião de militarismo, derramamento de sangue e adoração de heróis estão vendo isso através do prisma do nacionalismo alemão do século XIX, e não da Edda Poética. Foto/Stefán Karlsson.

O ALLSHERJARGOÐI Hilmar Örn Hilmarsson (no centro), o sumo sacerdote da Associação Pagã Islandesa argumenta que aqueles que vêem a Ásatrú como uma religião de militarismo, derramamento de sangue e adoração de heróis estão vendo isso através do prisma do nacionalismo alemão do século XIX, e não da Edda Poética. Foto/Stefán Karlsson.

Por MAGNÚS SVEINN HELGASON. Tradução de Sonne Heljarskinn. Link  of the original english post.

This is a non commercial translation.

A Associação Pagã Islandesa, Ásatrúarfélagið, é a congregação religiosa com maior crescimento na Islândia. Com cerca de 3.000 membros, é o sexto maior grupo religioso na Islândia, e de longe o maior grupo não-cristão. Desde 2000, ela cresceu 657%. Este ano, a congregação começou a construção do seu templo em Reykjavík, o qual pretende consagrar no final do próximo ano. Ele será o primeiro templo pagão central construído nos países nórdicos em mais de mil anos.

HILMAR Orn Hilmarsson

HILMAR Orn Hilmarsson “É uma religião que ensina como viver em harmonia com seu entorno e consigo mesmo.” Foto/Stefán Karlsson

Uma religião de respeito e harmonia

Não importando qual possa ser a razão para o crescimento da Ásatrúarfélag, ela não é um proselitismo heathen agressivo. Hilmar Örn Hilmarsson, o sumo sacerdote ou Allsherjargoði da Ásatrúarfélag, nos atesta que nem ele, nem qualquer outro membro da congregação, se envolveu com trabalho missionário.

“Nós não saímos por aí tentando recrutar novos membros. As pessoas vêm até nós porque eles vêem algo que eles gostam, eles testemunham nossas cerimônias, seja um casamento ou um funeral, e eles vêem que essas são belas cerimônias, e sentem que Ásatrú pode ter algo a oferecer-lhes.”

Hilmar Örn salienta que a Ásatrú é uma religião de paz e respeito. “É uma religião que ensina como viver em harmonia com seu exterior e consigo mesmo, e como lidar com as diferentes fases da sua vida. Como se tornar maior de idade e, em seguida, como envelhecer”. Fiel a isso, a Ásatrú, tal como é praticada na Islândia, é uma religião de respeito e tolerância. “Nós refletimos sociedade islandesa e valores islandeses”, diz-nos Hilmar.

No entanto, embora a ênfase no respeito e na tolerância tenha contribuído para o crescimento da congregação na Islândia, isso não vale para alguns praticantes estrangeiros da fé. Hilmar nos diz que a Ásatrúarfélagið recebeu mensagens “perturbantes” e correspondências de ódio de pagãos conservadores de outros países.

Entre outras coisas, a ênfase que a Ásatrúarfélagið coloca sobre a igualdade e o respeito pelos direitos humanos, especialmente os direitos de LGBT, irritou alguns pagãos reacionários no exterior.

Ásatrú versus nacionalismo militarista germânico do século XIX

“Ásatrú não é uma religião que celebra o machismo, o militarismo, ou derramamento de sangue, ao contrário do que muitos parecem crer. Pelo contrário. Há um monte dessas coisas na Dróttkvæði [a antiga poesia heróica preservada nas Sagas], onde os poetas estavam fiando versos de feitos heróicos que talvez jamais foram feitos. Mas há muito pouco desse tipo de orgulho e heroísmo bombástico na Edda poética, que são os principais textos reverenciados na Ásatrú Islandesa.”

Hilmar argumenta que a base dessa visão equivocada da Ásatrú, como uma religião obcecada com glorificação de heroísmo, batalhas e sangue é encontrada no século XIX.

“Esta leitura errada da Ásatrú vem do fato de que muitos parecem vê-la através da lente do nacionalismo alemão do século XIX. No século XIX, nacionalistas alemães, artistas, poetas e compositores olharam para a Edda Poética por uma inspiração artística e viram nela um tipo de militarismo, culto de heróis, e deificação de guerreiros que dominou o zeitgeist alemão naquele momento.”

Hilmar também ficou sob o ataque do que ele chama de pagãos “fundamentalistas” por ter proclamado que ele não toma as histórias dos deuses em sentido literal.

“Eu já disse que eu não acredito em um homem de um olho só, montando um cavalo de oito patas, e alguns consideram isso blasfêmia. Há sempre pessoas que querem coisas para serem gravadas em pedras. Mas a Edda Poética é fundamentalmente sobre como a vida muda, e como você deve estar preparado para responder às mudanças que ela traz.”

Homofobia e deuses com inversão sexual

Odin, é claro, era caolho, tendo sacrificado seu olho para Mimir, junto ao poço de Urdur na raiz da árvore do mundo, Yggdrasill. Seu cavalo, Sleipnir, é o filho do deus Loki (sob a forma de uma égua) e Svaðilfari, um gigante da raça de Hrimthurs, que construiu os muros do reino dos deuses, Asgard. Esta é uma história que deve lembrar-nos de que os deuses podem envolver-se em inversões de gênero bastante dramáticas.

Outra história importante da Edda envolve Thor (Þór), o deus do trovão e a personificação da virilidade, representando a deusa Freyja. O rei Jötun Þrymr havia roubado o martelo Mjölnir de Thor, e exigiu a mão de Freyja em troca do martelo. Por transvestir-se e se casar com o rei, Thor foi capaz de recuperar o martelo.

Na verdade, Hilmar argumenta que os habitantes da Era Viking dos países nórdicos e da Islândia estavam livres do tipo de homofobia que se tornou padrão entre os conservadores culturais hoje.

“Eles baseiam a sua interpretação da Ásatrú em cima da Germânia de Tácito, um tratado romano escrito no ano 70 dC. Germânia foi escrita para influenciar os debates internos em Roma. Tácito retratou as tribos germânicas como nobres selvagens que poderiam ensinar os romanos como voltar a um caminho que ele sentiu que haviam deixado. Ele não deve ser lido como uma descrição precisa de como os povos germânicos praticavam sua religião, e certamente não descreve como os colonos de Islândia praticavam sua religião, cerca de 800 anos mais tarde.”

Corte de todos os laços com grupos pagãos estrangeiros

A Ásatrúarfélag corta todos os laços formais com congregações pagãos estrangeiras na década de 1980, depois de Hilmar Örn e seu predecessor como o sumo sacerdote, Sveinbjörn Beinteinsson, terem sido alarmados da política de alguns dos grupos estrangeiros que visitaram a Ásatrúarfélag.

“Essas pessoas pareciam ver a Islândia como uma espécie de Roma do Norte, e procuraram Sveinbjörn para uma espécie de bênção papal. A maioria era muito legal em pessoa, mas quando começamos a prestar atenção ao que eles estavam dizendo em seus lugares de origem encontramos coisas que achamos extremamente preocupantes, por isso, no final, decidimos cortar todos os laços com grupos estrangeiros. Nós não queremos participar de políticas extremistas.”

Infelizmente, os nacionalistas e os elementos racistas têm encontrado o seu caminho em muitas congregações pagãs e heathens, diz-nos Hilmar. “Nunca houve tais elementos dentro da Ásatrúarfélag. Apenas um ex-membro que eu posso lembrar manifestou essas opiniões. Caso contrário, teríamos tido a sorte de ser completamente livre de tais elementos.”

Correspondências de ódio estrangeiras

Após a notícia da construção prevista do templo pagão ter caído na mídia internacional no início de 2015, a Ásatrúarfélagið tornou-se novamente centro de atenção internacional.

“A construção do templo havia sido discutida aqui na Islândia desde 2006, mas foi só em 2015 que a mídia estrangeira interessou-se. E após isso, nós começamos a receber mais críticas de pessoas que sentiam que estávamos a praticar a nossa fé de forma errada, que estávamos de alguma forma profanando a Ásatrú por sermos muito tolerantes. No começo eu não levei isso muito a sério, mas, em seguida, fomos informados de que o templo e a Ásatrúarfélag estavam sendo discutidos em grupos fechados, onde as pessoas estavam planejando visitar o templo para o ‘re-consagrar’ com algumas cerimônias de sangue, para “corrigir” o que essas pessoas acham que é a nossa perversão da Ásatrú. Algumas das coisas que lemos foram extremamente perturbadoras.”

Como consequência, o templo de Ásatrúarfélagið não será tão aberto ao público, como originalmente planejado. “Não temos cofres cheios e todo o nosso trabalho é feito por voluntários, por isso não vamos ser capazes de manter guardas. Como resultado, nós não seremos capazes de ter o tipo de política de porta aberta que tínhamos planejado.”

“Ásatrúarfélagið – we are at your side!”

Mas nem toda a atenção externa tem sido negativa. Após a Iceland Magazine ter publicado uma história em seu site sobre as correspondências odiosas que a Ásatrúarfélag recebeu, a congregação e Hilmar foram regados com o apoio de pagãos estrangeiros. Um evento no Facebook foi criado por um grupo de pagãos europeus para assegurar a Hilmar e a Ásatrúarfélag que “heathens islandeses não estão sozinhos nesta matéria e que os signatários desta declaração plena e verdadeiramente apoiam sua causa. … Nós não vamos deixar algumas pessoas com pontos de vista reacionários e intolerantes determinar a essência de nossa abordagem religiosa!”.

Hilmar foi profundamente comovido com esse apoio. “Fiquei agradavelmente surpreendido. Os faladores e os tagarelas sempre abafam as vozes da sanidade e da razão, assim você acaba percebendo-os mais. [E assim] Eles começam a dominar.”

Não importa o que esses reacionários pagãos — os “trolls e malucos da internet” — possam dizer, Hilmar afirma, a Ásatrúarfélag não vai mudar a forma como ela pratica a antiga religião.

“A Edda Poética e estas tradições foram preservadas aqui na Islândia, e não vamos tolerar alguns reacionários estrangeiros vindo aqui para nos dizer como praticar a nossa fé.”

Hilmar nos lembra que o Ásatrúarfélag é uma congregação islandesa, que representa os seus membros islandeses, e que é responsável apenas por eles.

“Mas se os estrangeiros querem olhar para nós como um modelo, eles são bem-vindos a fazê-lo. Vamos continuar a ser nós mesmos, e não vamos mudar a forma como fazemos as coisas para satisfazer as opiniões e crenças de racistas ou nacionalistas.”

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