Do Antigo Caminho. Parte I

asatru-odinismo

Texto de Bölverkrsohn HS.

Experienciar a fé nos deuses do Norte não é fácil, em especial no Brasil. Neste texto e nos que se seguirão tentaremos fazer uma breve análise, talvez ainda superficial, da conjuntura do paganismo nórdico no país.

Primeiro problema: o nome

Longe de ser uma mera formalidade, o próprio nome do culto/crença/cultura/visão-de-mundo que pretendemos definir é em si um problema. Podemos estar nos referindo a uma coisa usando nomes de outras completamente diferentes.

Com a cultura pop, histórias em quadrinhos, filmes, seriados, jogos de computador, video-game ou RPG’s muitas pessoas se sentem atraídas a estudar a mitologia nórdica. Essas são inegavelmente as maiores portas de entrada em nosso país para uma cultura (injustamente) marginalizada. Mas as runas (para os que se interessam por esoterismo), os povos vikings (para os que se interessam por história), os Berserkers e guerreiros (para os que se interessam por guerras/artes marciais, as simulações de lutas medievais (para quem está próximo disso) são outros dos tantos meios pelos quais se pode chegar a conhecer o caminho do norte.

Do apreço aos mitos até a aproximação religiosa existe um pequeno caminho mas com uma forte barreira. A qual cada dia mais tem sido transgredida pelas mais diversas pessoas. Que se tornam…. bem pagãs nórdicas? Ou seriam pagãs germânicas? (Sim, os nórdicos são povos germânicos). Odinistas? Ásatrú? Vanatrú? Ásatrú-Vanatrú? Heathens?

Sobre isso não existe consenso. Por vários motivos. O primeiro deles é que inicialmente a Ásatrú e o Odinismo são correntes religiosas que surgem de uma mitologia comum (nórdica/germânica), mas com preceitos e públicos diferentes.

A Ásatrú mantêm hoje um pensamento mais avançado, conseguindo adaptar a Antiga Senda às exigências dos humanos do presente. Por outro lado, o Odinismo, principalmente, mas não de forma geral, se prende ao conceito de folk.

Tudo o que falamos é, em certa medida, relativo. O Antigo Caminho (ou Troth) está sendo reconstruído por muitas pessoas a partir de muitos lugares. Alguns se denominam odinistas e são racistas, outros não, e por aí vai, com as várias denominações de grupos/indivíduos que aderem aos deuses nórdico-germânicos.

Preferirei usar aqui as expressões Troth, Antigo Caminho, ou Antiga Senda, por serem mais universais e talvez abarcarem até mesmo grupos contraditórios que partem de uma vertente comum.

Um breve apanhado dos nomes para o Antigo Caminho

Tentarei aqui listar rapidamente e definir de forma sucinta as ramificações até quanto às conheça. Lembrando que esse artigo não é definitivo e pode ser substituído por uma versão mais completa futuramente.

Ásatrú: Sveinbjörn Beinteinsson foi o criador da Ásatrúarfélagið, ou Associação da Fé nos Aesir, de acordo com uma tradução literal. Surge após muitos estudos em 1972, na Islândia. Na grande maioria das vezes os ásatrúars englobam também a Vanatrú (fé nos Vanir).

Odinismo: Else Christensen, dinamarquesa, na década de 30 inaugura o nome mantêm-se intrinsecamente ligada à ideia de folk, isto é, de que apenas um determinado grupo étnico pode praticar tal culto. Influencia grupos bem populares tais como Asatru Folk Assembly, the Asatru Alliance, the Odinic Rite, Comunità Odinista, Comunidad Odinista de España-Asatru, que, cada uma à sua maneira, leva doses do pensamento folkish.

Wotanismo: David Eden Lane, partindo do já problemático odinismo, mas agora misturando conceitos claramente neonazistas, pró-separação/superioridade “racial” e afastando-se visivelmente da religiosidade, apegando-se a um ceticismo aberto em relação às divindades (julgando honrar não sei que tradição, por exemplo, não prefere o nome mais antigo Óðinn, mas WOTAN, fazendo dele um anagrama para “Will Of The Aryan Nation“, “Vontade da Raça Ariana”).

The Troth: foi fundada por Edred Thorsson e James Chisholm em 1987, como The Ring of Troth. É um grupo formado por dissidentes da Ásatrú Free Assembly estadunidense opostos ao pensamento folkish.

Heathenism, Heathenry: (Heathenismo) expressões inglesas para paganismo, ligando, obviamente, às visões anglo-saxônica, germânica e nórdica.

Paganismo: refere-se no geral à todas as religiões nas quais o homem comunga com a Terra, a Natureza e a coletividade. Quase sempre assume o politeísmo. Mas, quando falamos de paganismo nórdico, paganismo germânicopaganismo anglo-saxão, se refere a um conjunto de mitos e valores bem próximos. Geralmente são termos (como Heathenism e Heathenry) mais preferidos por pessoas com uma maior influência mística. Vale lembrar que existem algumas diferenças sutis entre os paganismos do norte e dos germanos continentais, como dos anglo-saxões, embora sejam em muitos aspectos semelhantes e possuam uma origem comum.

Folkish: acreditam que uma determinada religião se circunscreve em uma determinada etnia ou raça, no caso o paganismo de raíz nórdica-germânica.

Primeiras conclusões

Bem, o que podemos inferir diretamente disso é que existem várias correntes que nascem de uma fonte comum com objetivos diferentes, variando de espiritualidade individual, religiosidade coletiva (em kindreds, por ex.), religiosidade folkish, política folkish tolerante e política folkish separatista/neonazista.

Temos então, inicialmente, o seguinte: a partir de estudiosos de arquelogia/antropologia/história antiga a recuperação de informações sobre essas mitologias dos povos nórdicos, germânicos e anglo-saxões.

Disso, alguns buscam reconstruir uma religião. Entre eles estão grupos e indivíduos isolados, que têm acesso pelos mais diversos meios às culturas desses povos.

Alguns desses creem que só em grupo (clã, “proto-tribo”) é válido; outros que individualmente (quando não há como se formar um Kindred regionalmente, por exemplo) também é possível.

Alguns ainda creem que só clãs com afinidade “racial”. Indivíduos isolados apoiam isso, mas no geral não buscam um entrosamento.

Alguns aproximam-se em caminhada solitária e esotérica mesmo. Não é raro que mesclem o Antigo Caminho com hermetismo, paganismo celta, egípcio, budismo, etc. As Runas também são muito atrativas à essas pessoas. Magos e bruxas modernos também se circunscrevem próximos desses.

E existem os grupos e indivíduos ao estilo wotanista, com os olhos na mitologia antiga, o pé esquerdo na utopia racial e o direito na política fascista, pensando em uma Nação Ariana.

Existem grupos, por fim, meramente políticos, racistas, e nostálgicos de Hitler, e eles também se aproximam, mas unicamente por suas ambições políticas, transformando o paganismo nórdico em uma extensão de suas ideias racistas e separatistas, não raro pregando a superioridade da própria “raça” e que indivíduos que tenham um nível maior de melanina na pele não podem participar deste caminho (como o White Power).

Bem, é isso. São muitas informações, e acho que esse já é um bom começo de conversa. Até a próxima parte.

PS: Não esqueça de deixar sua opinião aí nos comentários, somos pagãos pois não gostamos de ditadores de fé, então, vamos debater 🙂

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One thought on “Do Antigo Caminho. Parte I

  1. A parte mais complicada em ser um seguidor da fé nórdica antiga, está na dificuldade de encontrar referências para a prática esotérica. Estudo a religião nórdica e, principalmente, a leitura e interpretação das Runas há alguns anos. Porém, é complicado quando esbarramos na falta de livros que sejam específicos para esta religião e que não estejam fortemente ligados à mitologia poética nórdica.
    Conheci seu blog à pouco tempo, e estou achando muito interessante. Parabéns pela iniciativa e espero que siga apresentando suas idéias e visões desta, que é, uma religião muito antiga de um povo extremamente místico.

    Gostar

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