Da Bárbarie à Civilização?

Por MARIA KVILHAUG em inglês. Tradução de Seaxdēor.

Notas com comentários de investigação de fonte secundária por Maria Kvilhaug.

Há muito que se presume que a conversão, que aconteceu durante a Era Viking, ou seja, entre 800-1030 da era comum, marcou uma mudança da barbárie Heathen à civilização cristã nos países do norte. Gro Steinsland [1] faz a pergunta, afinal; É essa visão realmente precisa? Isso é verdade?

Lei e Ordem no Mundo Heathen
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 A sociedade da Era Viking foi regulamentada por lei e ordem, mas era uma ordem muito diferente daquela que veio com o cristianismo. O sistema parlamentar era jovem e firmemente estabelecido na Noruega. Cada pessoa livre estava sujeito à lei, e isso era verdade também para reis e chefes e earls. Uma vez que cada pessoa livre tinha que ser capaz de lutar por seus direitos legais no parlamento, podemos supor que o homem e a mulher comum estavam bem arraigados em conhecimento jurídico.

A sociedade pré-cristã foi profundamente compenetrada pela religião, mas também é de importância que a língua nórdica antiga não tem uma palavra especial para a religião na forma como fazemos – a religião foi referido como siðr, isto é, “hábitos rituais”. O parlamento e a lei foram parcialmente baseados em crenças religiosas (vemos como os mitos revelam que mesmo os deuses eram governados pelo parlamento democrático no olhar das Nornir). Abria-se as negociações legais parlamentares com a fórmula de juramento: Hjálpi mér svá Freyr ok Njörðr ok inn almáttki Áss – “Então me ajudem Njörðr e Freyr e o Deus todo-poderoso.”

As próprias leis também foram revisadas e discutidas nos parlamentos. Todas as pessoas livres podiam falar no parlamento, e todos os proprietários de terras (por vezes estes eram também mulheres que, sendo viúvas, poderia falam por si) tiveram voto. Em tempos pré-cristãos, as leis não foram escritas, e a sociedade era, portanto, dependente das instruídas pessoas com boa memória. Dizia-se que o pronunciador das leis (law-sayer-man) islandês devia recitar toda a lista de leis para as pessoas no Parlamento Geral ao longo de três anos.

(Conclusão 1 à pergunta de Steinsland: É seguro dizer que o sistema jurídico Heathen foi baseado em um consenso democrático tradicional, que em nada parece menos civilizado do que o sistema que foi introduzido mais tarde – com menos poder para os parlamentos democráticos tradicionais em favor de um novo, o poder real centralizado e sua religião cristã medieval).

Honra e Vingança – Ética Viking

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O codex moral na sociedade Heathen, a ética, foram, pelo contrário, não tão diretamente ligados a crenças religiosas como é o caso do cristianismo. A ordem social foi baseada em um sistema não-escrito de honra (Algumas palavras nórdicas para honra são: heiður, æra, sómi e sæmd). Certo e errado, papéis de gênero e moral sexual, vida diária e dias santos – em todos os aspectos as ações das pessoas livres reguladas e julgadas baseadas os conceitos de honra [2].

A pessoa honrada era lícita, justa, modesta, hospitaleira e generosa, um apoio para seus amigos e um inimigo para os não-amigos. O homem honrado foi cortês para o “brando”, não usava a violência contra as mulheres, e vingou desprezos e insultos contra si próprio. A mulher honrada era leal a seu próprio clã de nascimento e se certificou de que seus kindsmen (parentes) defendiam a honra do clã.

O oposto de honra era vergonha (skömm, ergi). Além de cometer atos vergonhosos, também poderia ser envergonhado pelas ações dos outros, em forma de insultos e humilhações ou crimes contra alguém. Uma única vergonha individual poderia lançar uma vergonha para todo o clã. Uma pessoa livre não poderia viver com vergonha, e a vergonha tinha de ser vingada. Vingança era, portanto, um resultado necessário de um sistema social baseado na necessidade de manter a honra.

(Conclusão 2 à pergunta de Steinland: O sistema ético cristão versus o sistema ético Heathen apresentaram diferenças significativas quando se trata de certos tipos de valores, principalmente quanto à sexualidade (os pagãos tinham uma visão mais liberal e amigável com mulher sobre estas questões do que os cristãos) Além disso, eles funcionaram praticamente muito semelhantes: Como diretrizes para a conduta adequada e comportamento respeitoso para com outras pessoas Ambos também funcionavam como um alerta, como o que poderia acontecer se você não se importar com suas maneiras, ou comprometidos, na caso dos cristãos; atos pecaminosos, ou, no caso de Heathens; atos desonrosos e vergonhosos.

Um lado não parece particularmente mais (ou menos) “civilizado” do que o outro. No entanto, foi o cristianismo, que, aos poucos, resolveu o grande problema social da vendetas hereditárias; A Igreja e o rei assumiram o papel de perseguidores únicos em relação a questões legais e já não era lícito para os homens serem seus próprios vigilantes vingadores. Desde então, o conceito de vigilante foi geralmente considerado como uma tomada um pouco bárbara sobre questões jurídicas. Por outro lado, burocracia centralizada, a perseguição às vezes impessoal possibilitou problemas de corrupção bem como de injustiça.

O maior problema com a forma bárbara de se resolver as coisas seria a de que não importa o que era justo, em primeiro lugar, os clãs vingariam a si próprios, e assim as rixas de sangue poderiam continuar por gerações. Por outro lado, nas sagas, nós vemos muitas (falhas) tentativas de resolver disputas no parlamento, percebendo que mesmo os pagãos estavam tentando evitar tais disputas, usando meios legais e “civilizados”. O fato de que tantas tentativas para resolver tais questões legais falhou nas sagas pode não dizer muito sobre o quão bem sucedido ou não esses parlamentos democráticos foram- podemos ouvir de tentativas fracassadas, simplesmente porque apenas as tentativas frustradas poderiam realmente produzir resultados tão dramáticos que as lendas que acabariam por se tornar, bem, sagas).

O Culto Heathen versus o Culto Cristão  – Felicidade (Bliss) versus Salvação

O mundo Heathen era um dos inúmeros poderes diferentes que influenciam toda a vida humana, em um nível ou outro. A maioria desses poderes foram tratados durante as grandes festas religiosas. Os maiores feriados foram os três sacrifícios anuais; As celebrações do outono, pleno inverno (midwinter) e na primavera. O sacrifício era central – o animal era abatido aos deuses, que receberam o sangue, e então os humanos compartilhavam a carne como uma refeição sagrada em confraternizações de grandes família/clã . O objetivo mais importante para o sacrifício era alcançar fríðr.

A palavra traduz-se como “paz”, mas significa muito mais do que a palavra moderna para a paz. Fríðr era a condição que existe quando tudo funcionou depois de leis dadas por Deus, quando havia ordem no cosmos, quando houve equilíbrio na ordem social, e quando homens e mulheres se reuniram com amor. A palavra fríðr também pode se referir ao amor e prazer sexual pleno de felicidade (blissful). [3] (eu provavelmente usaria a palavra “felicidade” (“bliss”), como uma melhor interpretação da palavra).

Esta é uma importante diferença entre a vida ritual Cristã e a Heathen; a religião pré-cristã foi mais uma religião de fertilidade do que uma religião de salvação. Eles não tinham noção de pecado hereditário, culpa individual ou “a queda do homem”. Eles não consideram esta vida como pouco mais que um caminho para uma vida após a morte transcendental, nem eles sabiam da condenação eterna. Quando os pagãos se uniram para comemorar a fertilidade e rezar para a felicidade (bliss), eles foram santificar a própria existência, neste mundo, a nossa vida na terra, e para o bem das gerações futuras, para que possam prosperar e ser feliz e viver suas vidas de acordo com a lei divina.

Mesmo que os pagãos não parecessem particularmente preocupados com a salvação, eles certamente tinham conceitos de vida após a morte. O clã envolvia tanto os vivos como os mortos – os mortos eram enterrados perto da fazenda onde eles poderiam estar perto de seus descendentes. Para manter o monte sepulcral como um monumento que significava que o clã tinha possuído a terra por muito tempo. Uma grande montanha indicabva que a terra tinha sido habitada por um clã por muitas gerações e foi, assim, um importante símbolo de status. Os parentes mortos iriam cuidar bem de seus descendentes.

O culto da fertilidade seria reconhecível em rituais e símbolos que estavam em caráter profundamente sexual, e desta forma também houve uma grande diferença entre paganismo e cristianismo. Isto deve ser entendido em relação aos conceitos de sexo e gênero das sociedades pré-cristãs : Não houve conceitos de vergonha ou impureza em relação ao corpo, ou à sexualidade como tal (com tanto que você tivesse a autorização do seu parceiro ). Como vimos, tanto linguagem e culto, o prazer sexual foi igualada à lei e à ordem, a paz e a justiça, amor e abundância.

A conclusão de Gro Steinsland é que não havia nada de bárbaro sobre a visão nórdica antiga de mundo, a vida de culto ou ordem social em comparação com a nova religião e sistema político.

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A fonte para além de meus próprios comentários são tomadas a partir  de Steinsland em:  Fra hammer til kors – 1000 år med kristendom – Brytningstid i Viken; Jan Ingar Hansen (ed.) and Knut G. Bjerva (ed.) Authors: Gro Steinsland, Anne Pedersen, Bjørn Myhre, Jan Schumacher, Gro B. Jerpåsen, Christian Keller, Jan Brendalsmo, Jan E.G. Eriksson, Anne Erikse, Jan Ingar Hansen, Erla Bergendahl Hohler, Elin Graabæk, Asbjørn Bakken, Botolv Helleland.  Schibsted 1994

[1] Steinsland in Hansen and Bjerva 1994, p.17-27(«Fra hedendom til kristendom»).

[2] Steinsland in Hansen and Bjerva 1994, p. 20

[3] Steinsland in Hansen and Bjerva 1994, p. 23

Link para o artigo original em inglês.

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