Vardlokkur – A Canção da Völva

As Nornas, de Siegfried e o Crepúsculo dos Deuses. Arthur Rackham Fonte: Wikimedia Commons

As Nornas, de Siegfried e o Crepúsculo dos Deuses. Arthur Rackham. Fonte: Wikimedia Commons

Publicado originalmente em inglês por Pollyanna Jones. Tradução para o português de Sonne Heljarskinn.

As Videntes Nórdicas

A mitologia nórdica dá muitos exemplos de manipuladores de magia, e tecelões do destino. Alguns dos mais notáveis deles são as völvur. São mulheres que viajam por todos os lugares, geralmente com um assistente, que iria oferecer suas habilidades para uma família. Parece que sua vinda era um grande evento, e esforço era feito para garantir que elas fossem bem recebidas. Pois se essas mulheres realmente comungavam com os espíritos e tinham o poder de manipular o destino e a sorte de uma pessoa, seria imprudente desagradá-las.

A völva pode ser melhor descrita como uma espécie de vidente. Com algumas semelhanças na prática com os noaidi do norte da Escandinávia, existem alguns debates sobre se essas mulheres tiveram alguma influência dos métodos xamânicos dos povos do norte da Noruega e da Suécia.

Estas mulheres seriam capazes de fazer profecias, ler presságios, falar com os mortos, e interceder sobre os poderes ocultos do wyrd ou ‘carma’ para melhorar as chances de uma pessoa aumentar a sua riqueza e reputação. Elas trabalhariam com as Nornir, e seriam capazes de ler e até mesmo influenciar os fios tecidos (do destino). Como as fadas madrinhas do conto de fadas popular da Bela Adormecida, uma völva iria abençoar um recém-nascido com dotes de caráter. Elas também tinham o poder para manejar e batalhar com forças invisíveis para o mal ou bem.

Uma völva despertando os espíritos Fonte: Artista Desconhecido

Uma völva despertando os espíritos
Fonte: Artista Desconhecido

Naquela época havia uma grande fome na Groenlândia; aqueles que tinham saído em expedições de pesca tinham apanhado pouco, e alguns não tinha retornado.

Havia no povoado uma mulher cujo nome era Thorbjorg. Ela era uma profetisa (spae-queen), e foi chamada Litilvolva (“sibilinha“, pequena profetisa). Ela tinha nove irmãs, e todas elas eram spae-queens, e ela era a única que ainda vivia …

… E quando o (próximo) dia já estava bem avançado, foram realizados para ela os preparativos que ela solicitou para exercer seus encantamentos. Ela rogou-lhes para trazerem-na as mulheres que estavam familiarizadas com a sabedoria (lore) necessária para o exercício dos encantamentos, e que são conhecidas pelo nome de Canções Misteriosas (Vardlokkur), mas nenhuma dessas mulheres destacou-se. Com isso, foi pesquisada em toda a propriedade se alguma mulher teria então aprendido (as Vardlokkur).

Então respondeu Gudrid, “Eu não sou habilitada nos ensinamentos profundos, nem eu sou uma mulher-sábia, embora Halldis, minha mãe adotiva, me ensinou, na Islândia, a sabedoria (lore) que ela chamou de Canções Misteriosas”

“Então és detentora do saber em boa hora”, respondeu Thorbjorg; mas Gudrid respondeu: “Esse conhecimento e a cerimônia são de uma tal natureza que eu tenciono não tomar parte disso, pois eu sou uma mulher cristã.”

Então respondeu Thorbjorg, “tu poderias talvez pagar a tua ajuda para os homens dessa gente, e ainda não será uma mulher pior do que eras antes; mas para Thorkell ceder eu providencio aqui as coisas que são necessárias.”

Thorkell pediu logo após isso para Gudrid consentir, e ela cedeu aos seus desejos. As mulheres formaram um anel em torno deles, e Thorbjorg subiu ao cadafalso e o assento preparado para os encantamentos dela. Então Gudrid cantou a canção-misteriosa de uma maneira tão bela e excelente, que ali a ninguém pareceu que tinha antes ouvido a canção em voz tão bonita como agora.

A spae-queen agradeceu-lhe pela canção. “Muitos espíritos”, disse ela, “estiveram presentes sob seu encanto, e ficamos satisfeitos por ouvir a música, que antes iria se desviar de nós, e sem conceder-nos tal homenagem. E agora muitas coisas estão claras para mim que antes estavam escondidas tanto de mim quanto dos outros. E eu sou capaz de dizer isso, que a escassez não vai mais durar muito, a temporada há de melhorar com o avanço da primavera. A epidemia de febre que há muito oprime-nos vai desaparecer mais rápido do que se poderia esperar. E tu, Gudrid, vou recompensar logo, por esta ajuda tua que nos colocou em uma boa situação, porque o teu destino está agora claro para mim, e eu o previ. Deverás ter uma união aqui na Groenlândia, a mais honorável de todas, embora não haja uma longa vida aqui para ti, porquanto o teu caminho encontra-se fora da Islândia; e ali, há de surgir a partir de ti uma linha de descendentes tão numerosa e boa, e ao longo dos ramos da tua família deve brilhar um raio luminoso. E assim agora passarás bem e felizmente, minha filha.” [1]

Uma sessão espiritual das Völvur

Na categoria mágica mais ampla de Seiðr, que descreve a magia nórdica,está uma prática que é conhecida como Spá, que cobre profecia e mediunidade.

O Spá é mais comumente realizado por um völva, que entra em um estado alterado de consciência e fala com os espíritos. Ela pode lançar seu manto sobre si mesma para melhorar sua concentração. Ela poderia metaforicamente fazer o manto de Freya para viajar em uma jornada espiritual, a qual poderia incluir terras distantes, ou mesmo para outros reinos do universo nórdico.

A sessão espiritual (seance) da völva incluiria a mulher que toma uma posição sobre uma plataforma ou Alto Trono (High Seat), enquanto batia o cajado no solo de uma forma rítmica. Um tambor poderia ser usado. A völva ou seu assistente iria cantar uma vardlokkur, que é uma canção ritual usada para ajudar a sessão. Na saga de Erik, o Vermelho, a canção é descrita como soando amável e cativante. No entanto, na Saga de Hrolf [2], ela é descrita como sendo um som terrível.

As mensagens serão entregues durante ou após o ritual, para as pessoas da casa que tinham solicitado os serviços do völva. Estas poderiam ser geralmente em resposta a um problema particular, ou mensagens dos falecidos, ou mesmo poderes sobrenaturais ou deuses.

O Significado da Canção
Fonte: Volva. De Valentina-Mustarjarvi

Fonte: Volva. De Valentina-Mustarjarvi

A vardlokkur é usada para elevar as energias para ajudar a völva entrar em seu transe, canalizar energia durante a sessão espiritual, e para atrair e manter os espíritos ligados à área ritual até que a mensagem deles tenha sido dada.

É também usado para proteger a völva de maus espíritos ou energias prejudiciais, embora muitos que praticam esta arte dentro da senda espiritual nórdica reconstruída também podem realizar as precauções adicionais de proteção antes de descer, tais como falar com as suas Dísir, pedindo um guia Ancestral ou entidade nomeada para ajudá-los, ou a criação de um círculo de proteção.

A palavra vardlokkur pode ser dividida para entender seu significado.

Vard vem de vǫrðr (nórdico antigo), significando guardião ou observador. Ela também é a palavra da qual “ward” vem. Nós usamos guardas (wards) para nos proteger contra o mal, os espíritos maus, e energias negativas. A palavra moderna guardião (warden) é uma pessoa que guarda ou cuida de alguém ou algo, e essa responsabilidade foi a do assistente da völva enquanto ela estava em seu transe.

Lokkur neste contexto significa uma atração, ou algo que é usado para atrair, do verbo “ad lokka”. Ele não se traduz como “canção espiritual”, como algumas teorias estabeleceram.

Assim, “vardlokkur” é um meio de atrair e seduzir espíritos, e que também tem um propósito de proteção.

Como o Que Isso Soaria?

Nós não podemos dizer com certeza com o que a vardlokkur parecia. Aqueles que usam isso em seu próprio trabalho espiritual nos tempos modernos, tomaram influências dos Saami yoik, cantos guturais nórdicos, e outras tradições ritualísticas populares do norte da Europa. Alguns buscaram inspiração ainda mais longe.

Nós sabemos que havia algo chamado “batidas de vett”. Isto poderia ser um cajado golpeado ritmicamente no solo, um tambor tocado com um batedor. Chocalhos poderiam também ser usados.

Dependendo do tipo de energias que estão sendo forçadas, poderíamos especular os estilos de cantoria usados. Para fins mais agressivos, então o “som terrível” da saga de Hrolf seria esperado. Para rituais suaves, como a cura ou o acolhimento dos espíritos para ver a chegada de um novo bebê, então uma canção mais semelhante a uma cantiga de ninar poderia ser usada.

Infelizmente, enquanto nós temos registros dos mitos nórdicos, não temos exemplos claros de vardlokkur gravados. Nós só podemos imaginar, olhando para músicas e estilos de canções folclóricas das regiões onde as völur poderiam ter andado.

Exemplos de Estilos Musicais que Podem Ser Usados para uma Vardlokkur

Abaixo estão alguns vídeos de artistas que usam estilos tradicionais e espirituais em sua música. Muitos destes são de inspiração àqueles que estão na senda espiritual nórdica. Uma vardlokkur pode ter usado algumas dessas técnicas de canto, e outras pistas, como o uso de um cajado ou de tambor, e os vocais de um assistente.

Infelizmente eu não pude encontrar um álbum de Solveig Andersson, mas dei detalhes de outros artistas.





Fontes:
[1] The Saga of Erik the Red, J Sephton Translation (1890)
[2] The Saga of King Hrolf Kraki, J Byock Translation – ISBN 978-0140435931

© 2014 Pollyanna Jones

 Link aqui para o original em inglês.

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