Homossexualidade, Naturalidade e Paganismo Nórdico

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OS PORQUÊS DESTE TEXTO:

Recorrentemente vocês veem a gente falando da homossexualidade. Isso tem vários motivos, entre eles: a) geralmente doutrinas políticas/esotéricas de ódio (Nazismo – que hoje se autointitula falaciosamente “terceira via” -, Arianismo, White Power) possuem uma posição completamente abjeta em relação às relações entre pessoas do mesmo sexo; b) na mesma linha, mesmo entre muitos pagãos não alinhados com a extrema-direita, consideram-se os atos homossexuais como “antinaturais”.

DO PENSAMENTO E OBJETIVOS DO AUTOR

Como não é a primeira, nem a segunda vez, que tocamos no tema, decidimos, desta vez, sintetizar da forma o mais completamente possível as informações sobre o tema. Eu não sou homossexual: simplesmente acho ridículo que alguns heterossexuais queiram impor o seu way of life a todos em pleno século XXI. E é ridículo o quanto o discurso de um pagão homofóbico se assemelha ao de um cristão homofóbico, bastando apenas substituir o termo Deus pela mesma palavra com letra minúscula e no plural para que ambos se igualem.
Bem, vamos lá

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NO REINO ANIMAL

Ao contrário do que os mais conservadores e preocupados com a vida alheia dizem sob suas supostas preocupações com a natureza, nos seres vivos não-humanos não existem evidências que comprovem que a homossexualidade seja algo essencialmente prejudicial à espécie.

O primeiro motivo para isso é que a tendência à homossexualidade se manifesta em um número restrito de indivíduos de uma espécie.

O segundo motivo é que em diversas espécies a homossexualidade funciona como um regulador natural da natalidade.

O terceiro motivo é que em diversas espécies os casais homossexuais são fecundados heterossexualmente, mas criam os descendentes entre seres do mesmo sexo.

O quarto motivo é que em espécies com um déficit de indivíduos de determinado gênero, os casais homossexuais tem mais possibilidades de manterem sua prole do que os indivíduos isolados (no caso, fêmeas ou machos sozinhos).

Então, mesmo que casais homossexuais não possam fecundar entre si, eles possuem em diversas ocasiões muito mais vantagens que indivíduos heterossexuais sem companhia das mesmas espécies.

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NOS HUMANOS

Ao contrário do que os mais conservadores e preocupados com a vida alheia dizem sob suas supostas preocupações com a manutenção da espécie, a homossexualidade não fornece perigos ao desaparecimento da raça humana.

Nós já saímos faz tempo da casa dos seis bilhões de pessoas no mundo, e eu posso garantir que o pior perigo para a raça humana não é a falta, mas o excesso de reprodução dos seus indivíduos.

Por outro lado, pesquisas entre países da Europa e América (mais liberais em relação ao assunto) revelam um número entre 1,2 % e 3,5 % dos indivíduos assumindo-se homossexuais. Ou seja, um número inexpressivo e incapaz de limitar a capacidade reprodutiva da espécie.

“Ah, mas se é um número tão pequeno, nós temos mais com que nos preocupar…” isso porque você tem seu direito ao casamento garantido por leis e pelo status quo social.

E, por fim, em pesquisa realizada em 1996 nos EUA, 64 homens foram submetidos a ver 3 filmes pornôs de 4 minutos de duração, com um equipamento que media a intensidade de sua ereção (pletismógrafo). No primeiro, relações homem com mulher, no segundo, mulher com mulher e no terceiro, homem com homem. Os que se assumiram não tolerantes com relações homossexuais registraram um aumento peniano de três a quatro vezes maiores que os que não se importavam com tais relações.              “Aí os cientistas perguntavam a cada um se eles tinham tido ereção. Os homofóbicos que o pletismógrafo flagrou olhavam para os pesquisadores e respondiam, convictos: “não”” (Super Interessante).

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NOS ESCANDINAVOS E GERMANOS

Ao contrário do que os mais conservadores e preocupados com a vida alheia dizem sob suas supostas preocupações com a tradição de seu povo/raça, os germanos, e principalmente os escandinavos não pareciam manifestar a homofobia ou puritanismo sexual – nem no passado, nem no presente –, da forma como os ultrarreacionários gostariam.

O primeiro problema no entendimento da sexualidade entre essas tribos é justamente que elas não possuíam fontes escritas e quase tudo foi então compilado por cristãos, que com certeza purgaram ou simplesmente não manifestaram atenção sob determinados pontos. E assuntos como homossexualidade sempre foram tabus para o cristianismo católico ou evangélico.

O segundo problema é justamente a visão romanizada sobre os esses povos que perdura até hoje: a) os vikings eram uma classe apenas dos povos do norte/oeste europeu: os viajantes/saqueadores marítimos. Mas existiam fazendeiros, comerciantes, nobres, artesãos, etc. Logo, os vikings não representam o conjunto da população nórdico-germânica; b) os elmos de chifres atribuídos aos vikings são justamente parte do ideário cristão de demonizá-los; c) é improvável que mercadores sujos, ignorantes e mau-vestidos tivessem qualquer sucesso ontem ou hoje (e sabemos que os escandinavos foram exímios comerciantes), em detrimento, é claro, de alguns vikings que poderiam ser mais rústicos (como em qualquer povo).

A arquelogia vem esclarecer sobre esse suposto puritanismo de grupos brasileiros e do exterior que embora alguns ironicamente pensem que “The Teutonic tribes of ‪‎Europe originally lived by their ‪‎indigenous law, racial spirit and morality of such elegance, intelligence and purity since time immemorial”, foi encontrado um pênis entalhado em um chifre datado de cerca de 8.000 anos, na atual Suécia; o uso do termo “níð” na formação das palavras linguisticamente atesta que sim, havia homossexualidade sob diversas circunstâncias na sociedade escandinava, uma vez que essa palavra era usada para referir-se tanto aos indivíduos que tinham relações homossexuais entre si, como de forma pejorativa, como “covarde”. Isso porque embora os escandinavos fossem relativamente liberais em relação ao assunto, um homem que vivia sob outro homem era entendido como alguém que entrega seu poder de decisão a outro.

Abundam representações de envolvimento sexual “profano”. Num primeiro caso, figurando homossexualismo, elas poderiam se referir a atos xamanísticos, relacionados ao seidr, como, em qualquer princípio místico, a incorporação da completude, representada pelo andrógino, pela soma do aspecto masculino com o feminino significa a transcendência da espiritualidade, a abertura para novas percepções, acima do puramente material. Num segundo caso, figurando zoofilia, elas poderiam representar rituais de fertilidade, no qual os animais são submetidos ao pênis (instrumento do deus Freyr) para abençoar a sua prole. Historiadores romanos se referem à existência entre várias tribos (veja bem, não são todas as tribos que toleravam, mas existia entre várias sim) que praticavam a homossexualidade, e os romanos pré-conversão são fonte segura sobre esse assunto, pois antes do cristianismo isso era razoavelmente comum. Por outro lado, antes da conversão as leis nórdicas-germânicas não possuíam nenhuma condenação a esse tipo de envolvimento sexual.

A homossexualidade tanto poderia ser uma etapa da vida masculina (antes de determinada idade ou ato iniciático); um ato punitivo (ato sexual anal como forma de submissão); quanto relacionamento afetivo (homoafetividade); poderia ser um ato “efeminado” ou ultramasculino (como guerreiros que valorizavam tanto a força que desprezavam o feminino); abundam registros arqueológicos retratando casais do mesmo sexo… Ufa, é muita informação pra resumir.

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NA MITOLOGIA

Na mitologia a homossexualidade está realmente ligada a vários aspectos importantes. Quando os deuses acordaram mais ou menos contra a sua vontade para que um forasteiro construísse um muro em volta de sua morada (Asgard) no topo de Yggdrasil, foi acordado que o pedreiro usaria um cavalo e teria que construir o muro até determinado período, ou não receberia sua paga (a posse de algumas deusas capitais à força dos Aesires). Assim, com medo de perder a aposta, eles obrigam o deus Loki a resolver o problema. Loki transforma-se numa belíssima égua que seduz o cavalo Svadilfari, fazendo-o abandonar a construção do muro, o que impede o construtor de terminar a obra no período determinado. Mas não apenas isso: o cavalo de Odin é justamente fruto desse episódio: e é o deus-jotun Loki a sua “mãe”.

Em outra passagem o deus Thor é aconselhado do Heimdall a vestir-se de mulher para recuperar o seu martelo Mjollnir que havia sido roubado.

Dessa forma podemos ver que os povos antigos tinham, também em sua mitologia, ciência da homossexualidade, e que em determinados momentos a inversão sexual era responsável por ajudar a solucionar problemas graves nos quais os deuses haviam se metido.

Na Lokasenna os deuses trocam acusações entre si, e Loki é quase sempre indicado como “efeminado”; crítica que ele devolve ao próprio Odin, que era instruído no Seidr (magia centralmente feminina, na qual a Vanir Freyja instruiu os Aesires). Ou seja, o próprio deus guerreiro-mago sabia que era necessário incorporar a totalidade dos sabers (nas tribos germânicas o seidr era uma magia tida como efeminada).

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ÁSATRÚARFÉLAGIÐ E O NEOPAGANISMO NÓRDICO

Antes de mais nada vale ressaltar que Johanna Sigurdardottir foi eleita, em 2009, primeira-ministra da Islândia. Além de mulher ela é lésbica. O preconceito não afeta os povos nórdicos da forma que o moralismo nazista/arianista deseja MESMO. Mas, voltando…

O paganismo nórdico foi reconhecido oficialmente em 1973 através da Ásatrúarfélagið, associação criada e liderada por Sveinbjorn Beinteinsson.

Entre outros méritos dessa “Associação da Fé nos Aesir”, está a criação do primeiro templo direcionado à fé nos deuses nórdicos na Islândia em 1.000 (MIL!) anos.

Ou seja, realmente nós sequer seriamos Ásatrúares sem a Ásatrúarfélagið.

Mas, para o desgosto dos que apoiam a Bandeira Confederada dos caipiras racistas do Sul dos EUA, para o desgosto da KKK, dos White Powers, dos neonazistas – todos esses que enchem a boca pra falar dos atos (idealizados) de seus antepassados, e que ignoram tudo o que já citamos – a Ásatrúarfélagið realize a união sexual de pessoas do mesmo sexo desde 2003.

CONCLUSÃO

Eu sei que o texto ficou longo, mas era muita coisa a se debater sobre esse assunto. Eu sei que os que são contra a homossexualidade não irão aceitar esse texto. Mas ele foi feito pra provar que as suas crenças (cegas) não passam de falácias. Os registros históricos abundam, bem como os atos dos povos nórdicos, em evidências do quanto a mentalidade homofóbica é baseada tão somente em achismos, e não apenas quando se refere à homossexualidade de humanos, bem com na natureza como um todo.

Sim, as pessoas têm direito de se relacionar como querem: e isso não oferece nenhum perigo à nossa espécie/cultura: já passou da hora de respeitar a tradição de purgar sua mente da homofobia.

REFERÊNCIAS

Homossexualidade na Escandinávia

http://super.abril.com.br/blogs/mundo-novo/2013/04/29/homofobia-e-coisa-de-veado/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Homossexualidade_no_reino_animal

http://www.caiofabio.net/conteudo.asp?codigo=04981

https://homofobianaoexiste.wordpress.com/topicos-interessantes/quantos-lgbts-ha-no-mundo/

 http://www.vikinganswerlady.com/gayvik.shtml

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI25287-15227,00-LESBICA+ASSUME+POSTO+DE+PRIMEIRAMINISTRA+NA+ISLANDIA.html

http://www.gayiceland.is/2015/viking-weddings-trending/

http://www.bbc.com/news/world-europe-31437973

http://super.abril.com.br/ciencia/atracao-entre-iguais

2 thoughts on “Homossexualidade, Naturalidade e Paganismo Nórdico

  1. Amei o texto. Vale ressaltar que não apenas uma época ou povo apresentam comportamentos de relação homoafetiva, por diversas vezes na história houve situações em que as atividades sexuais entre pessoas do mesmo sexo era praticado embora tentassem “acobertar”. Há um livro brasileiro chamado “O bom crioulo” que aborda uma relação entre dois homens os quais trabalham na marinha, e por passarem muito tempo isolados mantinham um relacionamento as escondidas. Já passou da hora de aceitar as peculiaridades do outro, quem se dedica a ser fiscal de foda alheia na certa tem problemas pessoais muito mal resolvidos.

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    • É exatamente o que pensamos. Falamos dos casos na sociedade nórdica/germânica mais especificamente pois é o que se relaciona de forma direta com nosso conjunto de mitos e crenças, os quais muitas vezes são usados por grupos e indivíduos racistas e homofóbicos para justificar toda a espécie de fascismo e repressão do outro.

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